Propomos abordar inicialmente o estudo do uso da musculatura que participa na emissão dos sons. Ela envolve mecanismos praticados principalmente durante a amamentação e a alimentação como um todo e são essenciais na emissão dos sons e no desenvolvimento da fala. Depois debateremos, de forma geral, as questões sobre o desenvolvimento da linguagem e da fala.
Qual a relação entre a alimentação do bebê e a fala?
Os órgãos que usamos para comer são os mesmos que usamos para falar. Assim, lábios, bochechas, língua, dentes, palato e musculatura envolvida na deglutição são essenciais para o falar. É através da alimentação que inicialmente exercitamos e estimulamos a musculatura da boca e da face, o que, mais tarde, será responsável pela produção dos sons da fala.
É importante a orientação sobre a alimentação desde o início?
Enfatizamos que a textura e a consistência do alimento bem como o material que será utilizado para alimentar as crianças podem ter papel significativo no desenvolvimento das estruturas que utilizamos para comer e falar. O aleitamento ao peito é a melhor forma de nutrir seu filho nos seis primeiros meses de sua vida e favorece o desenvolvimento correto das estruturas orais. Os músculos envolvidos na sucção da mama são intensamente estimulados. O desenvolvimento da capacidade de mamar no peito é a melhor forma de estimular precocemente todas as estruturas e mecanismos que serão usados para a aquisição da capacidade de falar. A alimentação com a mamadeira, nem de longe, se compara à estimulação da sucção ao peito. Se a opção for dar a mamadeira, é aconselhável a utilização de bicos ortodônticos.
A introdução de outros alimentos também é importante?
A introdução de novos alimentos requer paciência e persistência. São necessários cerca de doze a quinze dias para que um novo alimento seja aceito. A fruta e a sopa devem ser dadas de colher. Não é recomendável liquidificar o alimento. Basta amassar bem. À medida que o produto for sendo aceito, ofereça partículas maiores, sempre com a utilização da colher. Tenha atenção ao paladar da criançada. É importante a exposição aos diferentes sabores e por isso é valioso que a refeição tenha sabores definidos. Assim, é melhor ofertar uma sopa de verdura, com predominância de sabor de um legume e não com sabores de muitos, o que dificulta a identificação de qual é qual. A mesma ideia deve ser aplicada para uma papa de fruta, na qual o sabor determinante deve ser de uma fruta.
O que acham do uso da mamadeira?
A criança que mama no peito exclusivamente por seis meses não precisa de mamadeira. A partir dessa idade os líquidos devem ser oferecidos no copo. É importante que as crianças participem da refeição. Permitam que elas peguem os alimentos e tentem colocá-los na boca, usando a colher ou a mão. Assim, estarão ajudando no desenvolvimento da sua autonomia alimentar.
A chupeta favorece ou atrapalha o desenvolvimento da fala?
Existe um capítulo sobre o tema. E se o bebê nasce “programado” para chupar o dedo é possível “desprogramar” esse hábito desde o nascimento, usando constantemente a luvinha.
Como a criança começa a falar?
A aquisição de linguagem e de fala do seu bebê depende de muitos fatores que vão desde a condição orgânica e/ou saúde geral até aspectos relacionados ao ambiente físico e familiar. O bebê precisa ter o sistema nervoso e de todos as estruturas envolvidas na fala íntegros. Deve ter audição apropriada e órgãos fonoarticulatórios íntegros, como lábios, língua, palato, bochechas, entre outros. Crianças que não escutam não entram em contato com a língua materna, no nosso caso a portuguesa, e com isso apresentam dificuldades em adquirir a linguagem oral. Diferentemente, quando encontramos crianças com má formação nos órgãos fonoarticulatórios, como no caso das fissuras labiopalatinas, podemos ver alterações no padrão de fala, mas não necessariamente na aquisição da linguagem. Logicamente, a linguagem poderá estar alterada, mas não se pode afirmar que tal alteração esteja relacionada à má formação orgânica. Seria algo associado, mas sem uma relação direta.
Então não basta que a criança esteja bem de saúde física?
São importantes a saúde física e a emocional. A criança precisa ter o desejo de falar. Mas ela precisa da necessidade também. Desde o nascimento, o bebê precisa de pessoas ao seu redor para satisfazer suas necessidades físicas e psicológicas. Nesses momentos, normalmente a mãe e quem mais ajuda a cuidar dos bebês conversam, brincam, falam com eles e, muitas vezes, falam por eles. É comum o que alguns autores chamam de “manhês”, ou seja, a fala da mãe falando por seu bebê, inclusive numa melodia bem diferente da sua própria fala. Um exemplo é “que banho gostoso, adoro ficar na água, sabe mamãe?”Através desses “laços”, a criança vai se familiarizando com os sons da fala, o ritmo e a melodia, bem como com os elementos linguísticos da língua que a cerca, incluindo-se aí, os gestos (dar tchau) e símbolos (sinal de positivo, por exemplo).
A mãe pode ajudar seu bebê a falar?
Há estudos que comprovam que, ainda no útero materno, as crianças já podem ouvir principalmente a voz da mãe. Alguns comportamentos favorecem a aquisição da linguagem e uma boa produção da fala: conversar muito; chamá-los sempre pelo nome, evitando o vício de chamá-los de “mainha” ou “painho”; fazer muito contato corporal e visual; falar sempre corretamente; responder aos sons que eles emitem; dar atenção quando os bebês produzem sons; variar o local e a tonalidade de suas emissões sonoras; oferecer brinquedos que lhes interessem; chamar atenção aos diferentes ruídos que aparecem ao redor das crianças tais como: liquidificador, carro, apito, avião, campainha, telefone e animais; incentivar os bebês a fazerem movimentos com as estruturas orais: estalar língua, vibrar os lábios, fazer o bico, soltar beijo, soprar pena, bolhas de sabão (a partir do sexto mês); não repreender as crianças quando falarem “errado”, não repetir o erro; falar corretamente e mostrar a elas como é a palavra; uma outra opção é estranhar o que foi dito, favorecendo a mudança da posição de erro para o posição de acerto; evitar adivinhar o pensamento dos bebês e não falar por eles; esperar que eles lhe digam o que desejam, ou então que façam algum tipo de movimento linguístico, emitam algum som dentro das suas possibilidades; nesse caso, é importante que as crianças saiam do silêncio, emitam algo da forma que lhes for possível naquele momento; ler e/ou contar histórias infantis, falando sobre as gravuras e interagindo com prazer no discurso; responder e explicar sempre que as crianças solicitarem algum esclarecimento e lembrar que é muito comum que elas solicitem repetições de uma mesma história.
Como elas mostram que estão adquirindo a linguagem oral?
A resposta é complexa, mas vamos destacar os pontos principais:
- As crianças começam a produzir sons que se assemelham à fala dos adultos. No início, elas ainda não sabem o que estão falando, estão ensaiando o ritmo e a melodia do discurso enquanto conhecem as estruturas orais para falar.
- É possível que a fala inicial das crianças tenha algum sentido antes mesmo de ter um significado como os adultos conhecem e usam. Com o tempo e com o uso é que elas vão entendendo o sentido do que dizem. De início, elas dizem “bom” diante de algum alimento que lhes é oferecido sem, no entanto, desejar informar que o alimento é gostoso. Elas podem usar essa palavra simplesmente pela associação que fazem ao receber o alimento de um adulto que costuma falar “bom”; mais na frente o “bom” vai estar associado ao prazeroso.
- Quando os adultos constatam uma produção oral da criança, normalmente respondem, interagem com ela. Pode-se dizer que dessa interação, quando a partir da fala das crianças os adultos respondem e vice-versa é que a linguagem se institui. Os adultos têm o papel de dar sentido às emissões da criançada, com isso fica explícito que a aquisição da linguagem se dá na relação com os outros.
- Num outro momento, as crianças começam a entender como a linguagem das palavras funciona e vão tentando usá-la a partir desse entendimento. Elas fazem os seus caminhos e, é claro, erram muito, porque ainda estão entendendo como devem combinar as palavras, os verbos, os sons. A língua portuguesa é difícil, mas as crianças vão entendendo aos poucos, a partir do uso. É comum que elas digam “eu fazi” ao invés de “fiz”, já que dizem “eu comi, eu vi, eu caí”. Elas generalizam e esses “erros” são sinais de que estão avançando, crescendo, evoluindo.
- No início, dificilmente a criança atende às correções feitas pelos adultos, pois é como se ela estivesse fechada em si mesma, “estudando” a língua. Não precisa haver preocupação, porque mais adiante ela vai tentar falar como os adultos ao seu redor. O interessante é que esses momentos podem acontecer ao mesmo tempo, ou seja, as crianças podem não reparar a diferença da sua fala em relação à dos adultos em uma determinada palavra, e em outro sim, já apresentando uma produção correta. Então, elas erram aqui, acertam ali, e por aí vai, até falarem como é aceito na nossa sociedade.
As crianças têm que errar para depois acertar?
Como em tudo o que fazemos, nossa aprendizagem decorre de experiências e nelas erramos bastante até podermos chegar ao acerto. Um bom exemplo na infância é quando se começa a andar e se cai várias vezes. Quando se começa a comer e se lambuza. Quando se vai tentar andar de bicicleta, se cai várias vezes. Mas se insiste. Não se desiste até que se domina aquilo que de início eram desafios. E isso é obtido com os conhecimentos advindos das experiências. Com a fala é a mesma coisa, é preciso experimentar. “Errar” para depois acertar.
Quando acontece o atraso de linguagem?
Não se deve associar diretamente atraso de linguagem à idade. Logicamente, quando as condições ambientais são favoráveis e a criança não esboça o início da fala é preciso procurar o pediatra para investigar se existe realmente atraso da fala e, se existe, buscar as causas. Por exemplo, é preciso verificar as condições auditivas, neurológicas e psíquicas que possam estar relacionadas à não aquisição da linguagem. Havendo condições favoráveis, a criança já deverá emitir algumas palavras por volta de um ano e meio e o vocabulário aumentará gradativamente. Neurologistas, otorrinolaringologistas, fonoaudiólogos e outros especialistas são envolvidos na investigação do paciente que apresenta retardo da fala e vários exames (de imagem como tomografia e ressonância nuclear magnética, audiometria e outros exames otorrinolaringológicos e fonoaudiológicos, genéticos) para definir certos tipos de deficiências auditivas congênitas e outros podem ser necessários.
E aquelas crianças grandes que seguem falando errado?
As crianças adquirem a linguagem na interação com os adultos que doam sentido às suas emissões. Além disso, os adultos também as interpretam. Muitas vezes, eles chegam a compreender até os “erros” praticados pelas crianças. Essas, que são entendidas assim, pouco esforço faz para corrigir os defeitos. Se um de vocês estiver num país estrangeiro, falando uma língua que não domina, e usar uma palavra de forma incorreta e não for entendido, o que fará? Tentará dizer de uma outra forma para ser compreendido. Claro! Você precisa ser entendido e essa será a sua única saída. No entanto, se você estiver sendo entendido mesmo usando uma palavra de forma imprecisa não imaginará que está dizendo algo errado. Muito pelo contrário, vai usar sempre da forma “errada” uma vez que dessa forma é entendido, ou seja, o seu dizer faz sentido para o outro que escuta, e você é atendido em seus objetivos. As crianças que erram e são compreendidas mantêm a incorreção por muito tempo. Então, é importante ressaltar que apesar dos erros serem normais no processo de aquisição, os adultos têm papel fundamental na sua correção.
Não se deve entender a criança que fala “errado”?
Não é que vocês não possam ou não devam entendê-las. Vocês devem estar cientes de que se as crianças falam de forma incorreta e são entendidas, elas não têm razão para mudar. Logicamente, vocês não vão deixar de entendê-las em tudo, mas é importante que lhe digam: “eu não estou entendendo o que você está me dizendo”. Isto não criará nenhum trauma nas crianças e as ajudará a tentar corrigir os erros. Um exemplo muito comum é quando as crianças trocam alguns sons que são muito parecidos, por exemplo: /v/ de vaca e /f/ de faca; /z/ de zebra com /s/ de sapo; /g/ de garrafa e /c/ de casa; /b/ de bola e /p/ de papai; /d/ de dente e /t/ de torta; /x/ de xícara e /j/ de janela. O que os diferencia é a vibração das pregas vocais. Assim, tente fazer sssssss, como se estivesse pedindo silêncio e encoste sua mão na frente do seu pescoço. Com certeza, não sentiu nenhuma vibração na região da laringe. Agora você vai fazer o som zzzzzzz como se estivesse imitando uma abelha e vai perceber que há vibração na região, o que evidencia a vibração das pregas vocais. Então, esses dois sons são produzidos da mesma forma, diferenciando-se apenas pela vibração das pregas vocais, que dará a sonoridade dos fonemas sonoros. As crianças no início da aquisição apresentam estas trocas sem que isso seja considerado um erro. Isto faz parte do processo. No entanto, é preciso não a imitar para que ela veja no adulto o seu modelo. Muitos pais terminam falando como o filho por acharem bonitinho, só que essa conduta não ajudará a criança a se deslocar para o padrão de acerto. Seu filho fala: eu cóstu têssi tôci (eu gosto desse doce). Nessa produção, há “erros” que se referem apenas a um aspecto, ao aspecto de sonoridade dos sons /g/ e /d/. A falta de sonoridade termina levando a uma fala que parece infantilizada, além de parecer um erro muito maior do que é de fato. Isso acontece porque normalmente quando a criança ainda não sonoriza os sons, provavelmente apresenta “erro” em seis sons.
Quais são esses sons?
É importante lembrar que estamos falando de sons e não de letras. Para representar os sons, usamos duas barras. Para melhor ilustrar, entre parênteses são colocadas falas que não apresentam sonoridade: /b/ à bola (pola); /d/ à dia, doce (tia, tôci); /g/ àgaiola, goma, guloso (caióla, coma, culossu); /v/ à vacina, vela, avó (facina, felá, afó); /z/ à casa, azul, exame (cassa, assul, issami); /j/ à jipe, gelo, gilete (chipe, chêlu, chileti). Assim, é comum haver confusão no uso dos sons das letras p/b, t/d, k/g, x/j, f/v e s/z. Mas podem haver outras trocas e é importante lembrar que as crianças usam de alguma lógica para trocarem os sons. Então, uma troca que aparentemente não faz sentido para o adulto, a criança encontra razões para produzi-las. Como exemplos deste tipo de trocas, pode-se ter: /b/ à /g/ (bola à gola) e /v/ à /x/ (vovó à xoxó)
As trocas são sempre lógicas?
Na maioria das vezes, sim! A criança está usando uma lógica que algumas vezes pode não ser entendida pelo adulto, mas ela está ativa neste processo.
Quando posso levar meu filho ao especialista?
Não se pode falar em idade fixa para ir ao especialista. O sinalizador será a própria criança, ou seja, como ela está lidando com a fase do “erro”. Se isso for um fato que a estiver isolando do convívio com outras crianças, ou até mesmo com adultos, o sinal está dado. Aqui, no entanto, é importante salientar que pais e adultos que fazem parte do dia a dia da criança é que provavelmente irão reforçar o erro criando nela uma sensação desagradável no ato de fala. Todo cuidado e atenção para evitar colocá-la em situação de desconforto.
Como se pode ajudar uma criança que fala errado?
Pegando o exemplo eu costu tessi tôci, encontramos dois erros: a troca do som /g/ por /c/, e do som /d/ por /t/. Para ajudar a criança a sair da posição do erro, ou seja, deslocar-se, é preciso que ela perceba que o que ela disse soou estranho para você. Nessa situação, a atitude do interlocutor é fundamental. Como houve dois erros e você precisa escolher um para estranhar, você pode dizer: tôci (doce) como quem diz, o que é isso, não conheço! Diante do fato de não ter sido entendida, provavelmente a criança tentará dizer de uma outra forma. Pode também não perceber que você estranhou a forma de ela dizer, achando apenas que você não escutou e neste caso ela repete da mesma maneira. Depende muito de cada criança se vai haver a mudança ou não. Mas isto não deve ser fator de preocupação para os pais, que devem apenas continuar conversando bastante com os filhos, oferecendo a oportunidade de avançarem na fala, a partir da necessidade de se fazerem entender.
E a gagueira?
É importante ressaltar que a gagueira pode ser evitada sem dificuldades. É preciso entender que no processo de aquisição da linguagem oral, praticamente todas as crianças passam pelo que se chama de gagueira fisiológica — não patológica, não anormal, ou disfluência fisiológica. Isso acontece com quase todas. Com alguns cuidados é uma fase que passa. Pode ser superada em dois a seis meses de acordo com o ritmo individual. Mas há outras situações que podem ser rotuladas como gagueira patológica, anormal. As duas situações, a gagueira fisiológica e a patológica, são completamente distintas, tem evoluções e abordagens completamente diferentes.
O que é a gagueira fisiológica?
É a gagueira que ocorre na fase entre 2 e 5 anos aproximadamente e se caracteriza por repetições, hesitações e prolongamentos na fala. Importante lembrar que nesse momento a criança não tem noção de que está cometendo esses deslizes. Ela quer falar e fala feliz da maneira que pode. Falar não é um problema para ela, embora ouvir uma fala disfluente (gaga) possa ser um problema para o adulto. São características dessa gagueira: repetições – Eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu quero leite; Eu que que que que que que que que quero leite; aqui a criança apenas repete palavras ou sílabas o que chama muito a atenção dos adultos; hesitações: a criança hesita diante da fala, como se não soubesse o que dizer; prolongamentos: também incomoda o adulto, pois chama atenção facilmente: Eeeeeeeeeeeeeeeeeeeeu vou.
Após os 5 anos não há mais a gagueira fisiológica?
Essa faixa etária não deve ser usada de forma rígida. Podemos encontrar crianças maiores com gagueira fisiológica e crianças dentro desta faixa que já apresentam características de gagueira patológica. Então, é preciso procurar um especialista que, após avaliar, poderá dar um diagnóstico preciso.
O que pode ser feito na fase da gagueira fisiológica?
Alguns cuidados são importantes, como: escutar a criança com atenção, olhando para ela; não demonstrar ansiedade diante das repetições e/ou prolongamentos; manter-se calmo e esperar o tempo que for necessário; não falar por ela: esta atitude poderá levá-la a acreditar que não fala bem e que por isso alguém precisa falar por ela; não pedir que fale devagar; não pedir que respire para falar; lembrar-se de que ela está “falando muito bem”, ou seja, não percebe que está hesitando, repetindo ou prolongando sons, sílabas ou palavras. O adulto é que irá mostrar a ela que há algo errado, pelo incômodo que sente ao lidar com esta fase. Deve conversar com a escola sobre a fase em que a criança se encontra, se necessário, solicitar ajuda de um fonoaudiólogo e observar a atitude da meninada e de adultos em relação à fala da criança. Se for preciso, orientar no sentido de ignorar o comportamento “gago”.
O que acontece se as orientações não forem seguidas?
Quando a criança começa a perceber que há algo errado com sua fala, ela começa a ter reações de medo diante de situações em que precisa se expor oralmente. Então, ela deixa de falar ou fala com muito medo, o que gera muita tensão. Aí pode estar sendo instalada a gagueira patológica.
Quais as características da gagueira patológica?
Vejam as mais importantes: muita tensão corporal e facial; ocorrência de “truques” para disparar a fluência, como: piscar olhos, bater as mãos, virar a cabeça, beliscar-se, entre outros, na crença de que ao usá-los consegue fazer a fala sair; ausência de contato de olhos com o interlocutor, pois teme a sua reação; além da hesitação, prolongamento e repetições, acontecem os bloqueios.
Existe tratamento para a gagueira?
Sim. Muitas vezes, mesmo diante da gagueira fisiológica, os pais necessitam de apoio do fonoaudiólogo para se sentirem seguros. Assim, a criança pode frequentar algumas sessões, os pais podem observar o atendimento ou ouvir as gravações para se tranquilizarem. No caso da gagueira patológica, o tratamento será fundamental e a família também será envolvida.
E a rouquidão? Por que as crianças ficam roucas?
Esse problema não é na fala nem na linguagem. É na voz! Para falar, é preciso que o ar que sai dos pulmões passe pelas pregas vocais produzindo a voz, que será articulada produzindo os sons. Então, apesar de ser uma questão de voz, envolve também a fala. Quando a voz é produzida de forma inadequada, por exemplo, com força ou em alta intensidade, como o grito, ela pode gerar a disfonia, que é a voz rouca.
O que gera a disfonia?
É preciso lembrar que as crianças têm necessidades diferentes e são mais ou menos extrovertidas, líderes, espontâneas. Apresentam comportamentos que as expõem ao abuso vocal. Algumas, pelas suas características, apresentam maior probabilidade de desenvolverem rouquidão, por estarem sempre muito ativas e precisando dominar situações. Outros aspectos podem facilitar a instalação da disfonia: falar em ambientes ruidosos; volume alto de televisão ou de outros aparelhos eletrônicos; brincadeiras competitivas em grupos e de imitar vozes de monstros ou outros personagens; prática de esportes que solicitem a produção da voz durante o esforço; hábito familiar de falar alto ou gritar; participar de corais infantis sem a orientação específica de um profissional.
Disfonia tem tratamento?
Estamos falando da disfonia funcional, muito comum nas crianças, pelos motivos já citados. Mas esSa disfonia poderá gerar algum problema orgânico, como os nódulos vocais, que são lesões nas pregas vocais causadas pelo mau uso ou abuso da voz. A voz fica abafada e muitas vezes as veias do pescoço saltam quando a criança fala. Ela precisa fazer mais esforço para ser ouvida. No caso da disfonia funcional, torna-se necessária a orientação aos pais e à criança acerca dos abusos vocais para evitar o aparecimento de nódulos. E, no caso da disfonia orgânico-funcional, ou seja, onde já existem os nódulos, deve-se, além de modificar o padrão vocal da criança e do ambiente, com as orientações de saúde vocal, realizar fonoterapia para que haja a reabsorção dos nódulos.
Como evitar, então, o aparecimento dos nódulos?
Observem alguns cuidados básicos: propiciar um ambiente sonoro favorável à criança, isso é, reduzir o volume dos aparelhos eletrônicos da casa e modificar o hábito de falar alto e/ou gritar; evitar que a criançada use gelados em excesso (picolés e sorvetes); oferecer água natural a criança várias vezes ao dia para a manutenção da hidratação das pregas vocais.
Evidentemente o que aqui foi debatido não substitui a consulta com o pediatra que poderá solicitar estudos especiais com o neurologista, o otorrinolaringologista e o fonoaudiólogo, e até requisitar certos exames para definir com precisão o que está ocorrendo quando os familiares suspeitam de anormalidades na aquisição e no desenvolvimento da fala nas crianças.
