20.1Importância do tema
Dentre as principais causas de morte de crianças e de adolescentes, em todo o mundo, estão as chamadas causas externas: acidentes (eventos não intencionais) e violências (eventos intencionais). Os traumas acidentais são decorrentes do trânsito, afogamentos, queimaduras, quedas, asfixias e intoxicações, levando à morte de 3,16 milhões de pessoas todos os anos no mundo, sendo mais de 1.600 crianças e adolescentes com menos de 19 anos.
Nos últimos dez anos, a mortalidade geral vem diminuindo em todas as faixas etárias, principalmente no primeiro ano de vida, devido ao empenho do governo e da sociedade na promoção de algumas ações básicas de saúde (amamentação, hidratação oral, monitorização do crescimento, imunizações), enquanto os acidentes, cujo controle é relegado a um segundo plano, têm aumentado. Segundo dados do Ministério da Saúde, todos os anos 3,6 mil crianças morrem e outras 111 mil são internadas por motivos acidentais no país. Há maior risco de mortes por acidentes na zona rural que na urbana.
A frequência dos acidentes em relação à população é assustadora: para cada uma das mais de vinte mil crianças brasileiras que morrem todo ano por essa causa, ocorre um número dez vezes maior de acidentes não fatais, entre 20 e 50 hospitalizações e até 1000 atendimentos ambulatoriais, que deixam cerca de 200 mil jovens com deficiências físicas para o resto da vida.
20.2Fatores de risco
Dentre os fatores familiares de risco para o acidente, alguns têm a ver com a situação geral da comunidade: condição socioeconômica, pais muito jovens e/ou separados, baixo nível de educação, desemprego, habitações carentes, famílias numerosas e uso de álcool e drogas. Situações que acabam piorando o cenário, como “sair para trabalhar e deixar crianças pequenas sob os cuidados de irmãos pouco mais velhos”, sem condições de assumir essa responsabilidade, acontecem ainda com muita frequência. Nesse ambiente desfavorável, as crianças estão muito mais expostas. Além disso, a falta de um entorno protetor também pode facilitar a ocorrência de acidentes, principalmente quando não há envolvimento ativo de toda a comunidade e legislação voltada para a segurança.
A idade é um fator muito importante. Traumas de crânio podem causar danos neurológicos mais graves em menores de 2 anos. Observa-se também que lesões específicas ocorrem em idades definidas quando a criança, encontrando ameaças à sua integridade física que exigem certas ações defensivas, não está suficientemente madura e preparada para enfrentá-las. Necessitam, portanto, de proteção! Como, a partir do primeiro ano de vida, os meninos se expõem mais ao ambiente (como? por quê?), apresentam o dobro de chances de sofrer traumas físicos do que as meninas.
A supervisão deficiente é outro fator de risco para os acidentes e ações de educação dos pais, sensibilizando-os para assumir atitudes mais comprometidas com a segurança, como continuidade do cuidado e proximidade, ao lado de atenção aos perigos do ambiente pode fazer toda a diferença. Os pais devem ser capazes de avaliar, pelo menos num nível básico, a relação entre o desenvolvimento da criança e o risco de acidentes. Devem ser capazes de examinar o ambiente em que a criança vive, a fim de detectar e remover a maioria dos fatores de risco. Precisam saber que o objetivo fundamental é bloquear a transferência da energia que o acidente causa e não tentar modificar o comportamento da criança.
A ingestão de bebida alcoólica pode alterar a atenção e concentração, além de causar sonolência — ninguém vai conseguir ficar atento ao que o filho está fazendo — e está relacionada também a acidentes com adolescentes, principalmente no trânsito.
Características individuais, temperamento e personalidade contam, Crianças hiperativas, dispersivas, com dificuldades motoras, visuais ou auditivas têm maior propensão a traumas físicos. Mas, o que importa é manter sempre a supervisão e o ambiente livre de ameaças.
20.3Acidentes por faixa etária
20.3.1O primeiro ano de vida
A casa é o primeiro mundo da criança, local onde passa a maior parte do seu tempo. É nela que ocorre o maior número de acidentes. Nessa fase, a criança é totalmente dependente dos cuidados do adulto e está sujeita a riscos impostos por terceiros: pode cair (do colo, trocador, cama, sofá...), afogar-se (quando deixada sozinha na banheira, num balde, bacia, piscina), ser queimada por líquido derramado sobre ela, intoxicada por medicamentos mal administrados ou colocada em um automóvel sem um dispositivo de segurança adequado.
O adulto responsável deve estabelecer limites desde cedo, sem impedir a exploração do ambiente. Assim: nunca deixar o bebê sozinho em locais de onde possa cair — não se deve subestimar a capacidade de movimento do bebê (travesseiros em torno de um bebê na cama não o impedem de cair, não sendo seguro!); não medicar o bebê ou introduzir alimentos sem a orientação do pediatra; nunca deixar o bebê sozinho no banho ou com acesso a baldes, bacias, vaso sanitário, piscina outro reservatório de água; nunca ficar com o bebê no colo próximo ao fogão e substâncias quentes; não colocar enfeites como correntes, pulseiras ou deixá-lo perto de cordões, sacos plásticos, etc.; não oferecer objetos perigosos para brincar: latas de talco, embalagens com remédios, tubos de pomada ou objetos pequenos e/ou pontiagudos; nunca transportar o bebê no carro sem obedecer e respeitar à legislação e às normas de segurança (assentos infantis).
20.3.2De 1 a 2 anos
A casa ainda é onde a criança desta idade passa a maior parte do seu tempo. Traumas e lesões geralmente ocorrem porque pais e cuidadores subestimam a capacidade motora da criança e não sabem o que ela pode fazer. No segundo ano de vida, a criança precisa de limites concretos, mas também invisíveis, na relação com a realidade que a cerca. Nessa fase, a prevenção de acidentes é primordialmente ativa: junto das medidas preventivas físicas ou de barreira, é preciso mostrar para a criança os riscos de determinadas atitudes.
Os principais riscos físicos são de: quedas e traumas, fraturas e contusões, aspiração de corpos estranhos, intoxicações, afogamento (piscinas e baldes), queimaduras (fogão), choque elétrico, atropelamento, picadas e mordidas.
O adulto responsável deve: cuidar sempre de ter uma supervisão atenta; proteger janelas com grades ou telas e instalar portões em cima e em baixo nas escadas; restringir o acesso à cozinha no momento de preparo de refeições ou sem a supervisão ativa de um adulto; proteger as tomadas, gavetas e portas e colocar antiderrapantes em tapetes; usar os queimadores de trás, no fogão e deixar os cabos das panelas voltados para dentro; nunca deixar medicamentos, produtos de limpeza e bebidas alcoólicas ao alcance da criança; não mudar os produtos de suas embalagens originais; ter armários altos e trancados para guardar todos os produtos e objetos pontiagudos, cortantes e com partes destacáveis, longe do alcance de crianças; limitar o acesso aos banheiros, lavanderia e piscina; esvaziar baldes, bacias e piscinas portáteis após o uso; transportar a criança no carro somente com o dispositivo de retenção adequado (“cadeirinha”) respeitando a legislação e as normas de segurança.
20.3.3De 2 a 5 anos
Nessa fase, têm importância crescente: quedas e traumas (fraturas, contusões e lacerações), afogamentos, queimaduras, choque elétrico, aspiração de corpos estranhos, intoxicações, atropelamentos, quedas de lugares altos, ferimentos com brinquedos, picadas e mordidas.
O cuidador adulto deve: sempre supervisionar a criança, não pressupondo que sua capacidade de se proteger seja suficiente; orientar sempre de forma a respeitar o limite e capacidade de compreensão da criança; estabelecer limites seguros, com coerência; restringir as opções, ensinar disciplina; ensinar prevenção e servir de modelo para a criança; instalar dispositivos de proteção física; na rua, levar a criança pelo lado interno da calçada, segurando-a pelo punho e atravessar na faixa de segurança; transportar a criança no carro obedecendo e respeitando a legislação e as normas de segurança (assentos infantis, elevatórios — booster).
20.3.4De 6 a 10 anos
Por passarem a maior parte do tempo com pessoas da mesma faixa etária, e mais frequentemente com as do mesmo sexo, é comum aumentarem o grau de exposição a riscos. Os atropelamentos, quedas de bicicletas, quedas de lugares altos, afogamentos, queimaduras, choque elétrico, asfixia e sufocação, intoxicações, ferimentos com armas de fogo, lacerações e traumatismos diversos são riscos com importância crescente nesse período. Na escola, predominam as lesões e traumas nas atividades físicas e esportes, além de quedas, lacerações e traumatismos dentários por brincadeiras agressivas durante o recreio.
As medidas de proteção passiva seguem com grande importância. A segurança no trânsito deve ser motivo de alerta e educação preventiva. A utilização de passarelas, faixas de segurança e cuidados como pedestre devem ser intensificados pelos pais, especialmente na presença dos filhos.
O cuidador: nunca deve abdicar da responsabilidade de supervisionar e de ter papel ativo na prevenção de acidentes; não deve delegar responsabilidades à criança, ou deixá-la fazer sem supervisão; em casa, precisa atentar para o risco de quedas, queimaduras, choques elétricos, intoxicações; servir de modelo para os filhos, ao utilizar comportamentos seguros; nas áreas externas, supervisionar quando a criança tiver acesso à água (piscinas, lagoas, rios, orla marítima), animais domésticos e animais peçonhentos; no automóvel, não transportar a criança dessa faixa etária no banco da frente nem sem dispositivos de retenção (assento elevatórios — booster; cinto de segurança de três pontos — após estar com 1,45 m de altura); ensinar e supervisionar o comportamento como pedestres e utilizar faixas de segurança, passarelas, além de não usar celular quando estiver circulando pela rua.
20.3.5Maiores de 10 anos
Os riscos principais nessa idade são acidentes envolvendo automóveis e motocicletas, atropelamentos, quedas de bicicleta e afogamentos. Ademais, a intoxicação por abuso de drogas torna-se uma realidade cada vez mais frequente. Na escola, predominam lacerações e fraturas associadas a práticas esportivas.
E o adulto que cuida deve: servir de modelo para seu filho em atitudes preventivas concretas e abstratas; verificar se o que seu filho conhece é suficiente para prevenir riscos; não ser muito exigente ou permissivo; não negligenciar em suas necessidades e não exigir dele além de suas possibilidades; verificar se dispõe de equipamentos de proteção para suas práticas e se os usa adequadamente; conhecer o “mundo” do seu filho — saber para onde vai e com quem; nunca se eximir de suas próprias responsabilidades, expondo-o a riscos por sua participação ou omissão como pais; não facilitar o acesso a bebidas alcoólicas, tabaco ou qualquer outra droga; nunca responsabilizá-lo por ser alvo de bullying e cyberbullying.
20.4Acidentes domésticos
São extremamente comuns em consequência da falta de supervisão, pressa, mudança de rotina (nas férias, por exemplo) e distrações (uso do celular). A casa, nos primeiros anos de vida, é o local onde a criança passa a maior parte de seu tempo. Isso condiciona a maior ocorrência de acidentes nesse local. Os adolescentes também sofrem um grande número de acidentes em casa ou em seu entorno. A maior parte destes acidentes pode ser prevenida por meio do aumento das condições de segurança da casa e dos produtos ali existentes, além da conscientização.
As principais medidas preventivas incluem a supervisão atenta, a plena consciência dos riscos, a criação de ambiente seguro e utilização de equipamentos de segurança.
— A maioria dos acidentes domésticos ocorre no final da tarde e início da noite, no verão, durante os fins de semana, feriados e férias escolares. Fatores como estresse, doenças crônicas, morte na família, desemprego, famílias numerosas e mudanças de casa aumentam as chances das crianças sofrerem acidentes. — É importante analisar os cômodos da casa, pois cada ambiente oferece riscos diversos, para cada idade da criança. Ao analisar cômodo por cômodo, vocês terão condições de detectar os principais riscos a que seus filhos estão expostos e corrigi-los, prevenindo assim muitos acidentes. Em todos os ambientes podem acontecer acidentes, mas em alguns deles sua ocorrência acaba sendo mais frequente. Os locais preferenciais são, por ordem decrescente: cozinha, banheiro, escada, quarto e sala.
Quais os pontos mais perigosos na cozinha?
Deve-se analisar tudo que está na cozinha, mas merecem destaque: fogão — deve ser estável e estar preso firmemente, usar as bocas de trás, os cabos das panelas devem estar voltados para dentro ou para o meio do fogão, os queimadores têm que estar funcionando bem e apoiarem adequadamente as panelas, o forno deve possuir camada dupla de vidro e ficar travado quando ligado e o bujão de gás estar fora da cozinha (de preferência) e ter válvula de segurança, que deve ficar fechada quando não utilizada; forno micro-ondas — desligar automaticamente ao abrir sua porta; fósforos ou acendedores, objetos cortantes e pontiagudos — devem estar guardados em gavetas com travas; geladeira — ter porta automática, de preferência com trava para que a criança não acesse sozinha e estar em bom estado de uso; materiais de limpeza — guardados em armário alto e trancado e mantidos nas embalagens originais; fios dos equipamentos elétricos — sempre curtos (de dimensões suficientes para alcançar a tomada) e encapados; evitar usar o celular enquanto estiver carregando na tomada; toalhas de mesa — pequenas e sem bordas pendentes; piso — mantido limpo e seco e usar tapete, sempre antiderrapante.
Observações:
- Lugar de criança não é na cozinha, principalmente nos momentos de preparo das refeições!
- E não deve estar no colo enquanto cozinham ou durante as refeições!
E no banheiro?
Os principais acidentes e como prevenir acidentes (quedas, queimaduras, afogamentos, intoxicações) no banheiro estão listados abaixo: porta do banheiro não deve ter chave ou ter uma cópia fora (para abrir se a criança se trancar por dentro); piso deve ser mantido limpo e seco, ser antiderrapante; janela com trava que limite a abertura e propicie boa ventilação; no banho, não encher a banheira, verificar a temperatura da água; chuveiro com piso antiderrapante; tampa do vaso sanitário fechada e travada; secadores de cabelo, barbeador, cosméticos, medicamentos, fósforos, produtos químicos e de limpeza devem ser mantidos em armário alto e trancado; aquecedor, desligar e retirar da tomada após utilização.
Não deixar a criança no banho sem supervisão um segundo sequer!
Escadas podem apresentar riscos?
As escadas oferecem o risco de quedas se não tiverem proteção — portões de segurança em cima e em baixo, que devem ser mantidos fechados e trancados. Outros cuidados importantes são: corrimão dos dois lados da escada; iluminação deve ser adequada para evitar quedas e contusões; não deixar nada sobre os degraus; degraus devem ter material antiderrapante para prevenir quedas; todos os degraus devem ter a mesma altura e largura de pelo menos 15 cm (para dar apoio correto aos pés) e não ter espaço aberto entre eles.
O quarto dos pais e o das crianças oferecem riscos?
Sim e para evitar os acidentes devem ter janelas fechadas com grades ou telas de proteção. Também é fundamental proteção nas tomadas; cortinas não devem ter cordões ou puxadores; roupas de cama devem ficar presas sob o colchão para evitar asfixia; perfumes, cosméticos, fósforos e isqueiros devem ser guardados em armários trancados; móveis bem firmes estáveis e longe de janelas e armários; o berço deve ter colchão firme e não conter nada solto em seu interior; o espaço entre as grades do berço não deve ser maior que 6 cm e altura que impeça a criança de cair; trocador deve ter cinto de segurança, proteção lateral e ser elevado em cima e em baixo; brinquedos devem ser guardados em caixas ou baús, não devem possuir arestas cortantes ou partes pequenas que se destaquem; não ligar mais de um aparelho eletrônico numa mesma tomada.
Jamais fumar na cama! Armas de fogo — não ter em casa! Se for o caso, deverá estar trancada num cofre e descarregada.
E o que fazer para tornar a sala de estar mais segura?
Adotem as seguintes medidas: janelas e varandas devem ter grades ou telas; fios elétricos de dimensões apenas suficientes para alcançar as tomadas, que devem estar protegidas e de difícil acesso; mesas e aparadores baixos, com arestas e pontas — proteger as bordas, não deixar objetos pequenos ao alcance e não serem de vidro; estantes e móveis de TV devem ser bem fixados ao piso e parede; sofás, cadeiras e poltronas — pés nivelados e firmes e longe de janelas, varandas e terraços; verificar se os vasos de plantas estão bem presos e não contém plantas tóxicas; pisos devem ser mantidos secos e não serem escorregadios; aparelhos eletrônicos e controles remotos equilibrados sobre móveis estáveis, resistentes e fora do alcance; lustres e luminárias em locais onde as crianças não tropecem ou caiam.
Outros ambientes também preocupam?
A lavanderia pode ser local de acidentes graves: o tanque deve ser chumbado na parede e no chão (para evitar que caia sobre a criança); produtos de limpeza e inseticidas devem ser guardados em seus recipientes originais em armários altos e trancados a chave; baldes e bacias devem ser mantidas vazios e longe do alcance das crianças; janelas basculantes devem ter trava e limitação de abertura e o aquecedor a gás não pode ter vazamentos e deve estar em local ventilado.
Varanda, jardim e garagem podem representar vários perigos: janelas devem ter redes ou grades, portões devem ser altos e mantidos fechados e trancados; as plantas não devem ser tóxicas; portas de vidro devem possuir travas e marcas de sinalização; produtos de limpeza, ferramentas, instrumentos de jardinagem e praguicidas devem ser guardados separados em armários altos e trancados; piscinas com cerca nos quatro lados e portão com tranca alta; churrasqueira bem instalada e não usar produtos inflamáveis, como o álcool; brinquedos, triciclos, bicicletas, skate, patins e cortador de grama guardados em locais apropriados, fora das áreas de circulação; solo do jardim nivelado; verificar presença de animais peçonhentos; latas de lixo devem estar cobertas com tampa firme; portão da garagem deve ter mecanismo de bloqueio em caso de emergência e os carros devem estar sem as chaves no contato ou ao alcance e posicionados de ré (de saída).
O que é mais importante para prevenir os acidentes domésticos?
É fundamental que haja uma combinação de quatro fatores:
- Ambiente: para uma casa e seu entorno serem mais seguros deve-se começar pelo seu desenho, planejamento e construção.
- Educação: envolve aumento da conscientização dos riscos de acidentes numa variedade de cenários e provê informações com o objetivo de minimizá-los.
- Fortalecimento: consultoria local e envolvimento da comunidade pode gerar um senso mais forte de comprometimento. Iniciativas de prevenção de acidentes que foram influenciadas pela comunidade refletem necessidades locais e encorajam uma maior adesão.
- Execução: existem leis relacionadas à segurança das crianças, que asseguram que os produtos adquiridos e as residências novas possuam um nível aceitável de segurança.
20.5Acidentes por tipos
20.5.1Trânsito
Qual a importância dos acidentes envolvendo crianças e o trânsito no mundo e no Brasil?
Globalmente, as lesões causadas pelo trânsito são a principal causa de morte na faixa etária entre 10 e 19 anos. No Brasil morrem, decorrentes de acidentes de trânsito, mais de 3 mil menores de 19 anos por ano — dependendo do ano, é a principal causa de morte em crianças a partir de 1 ano, perdendo em alguns anos para os afogamentos, na faixa de 1 a 4 anos.
A maioria ocorre em países de baixa e média renda e, mesmo dentro de um mesmo país, as crianças mais pobres estão em maior risco. Crianças de todas as idades correm um risco grande de se envolver em situações que causam lesões ou mortes no trânsito. Em todo o mundo meninos morrem cerca do dobro das meninas, provavelmente pela maior exposição e tendência de assumir riscos maiores, especialmente na adolescência.
Quais são os riscos de ser criança e enfrentar os perigos do trânsito?
Crianças são as mais vulneráveis, por ainda não terem completado seu desenvolvimento físico, cognitivo e social, devido à sua estatura, por serem impulsivas, não sabem lidar com mais de um desafio de uma só vez, por terem dificuldades em interpretar o que veem e ouvem (isto afeta seu julgamento sobre a distância, proximidade, velocidade e direção dos veículos em movimento), por não conseguirem ver e não são vistas pelos motoristas no trânsito a sua volta e, além disso, poderem sofrer lesões mais graves na cabeça. À medida que entram na adolescência, podem ser mais propensas a assumir riscos, comprometendo a sua segurança no trânsito.
Quais os principais fatores que estão relacionados ao risco aumentado?
- Falta de supervisão adequada e transitarem sozinhos pelas ruas.
- Crianças sem restrições têm maior probabilidade de morrer em colisões do que as que usam sistemas de retenção apropriados para sua idade, peso e altura.
- Crianças circulando soltas ou no banco da frente dos veículos a motor.
- Aumento do risco entre pedestres e ciclistas, ao andar e circular em tráfego misto, andar de bicicleta em calçadas ou trilhas e não usar roupas reflexivas.
- Falta de planejamento da malha viária e de calçadas e sinalização para todos.
- Falta de parques infantis, calçadas e ciclovias afastados do trânsito de veículos.
- Ciclistas, motociclistas ou passageiros de motocicleta sem usar capacete.
- Outros fatores de risco importantes: motoristas adolescentes e comportamentos (beber e dirigir, excesso de velocidade, distrações ao dirigir e fadiga), ambiente da rua ou estrada com grande volume de tráfego, projetos deficientes dos veículos, falta de transporte público seguro e eficiente e falta de redutores de velocidade.
Observação: adolescentes e adultos jovens são os que usam menos cinto de segurança.
A criança como pedestre
Como e por que ocorrem tantos atropelamentos?
Crianças contribuem com 30 a 40% dos atropelamentos em países de baixa e média renda (andam por vias compartilhadas por diversos modos de transporte, faltam estruturas como calçadas, faixas de travessias e barreiras de segurança) e representam 38% das mortes ou lesões graves. A faixa etária que vai de 5 a 14 anos é a de maior risco, a maioria dos traumas ocorre durante o dia, cerca de 30% enquanto estão atravessando na faixa de segurança, risco maior em vias com muito tráfego e velocidade dos veículos superior a 40 km/h. A falta de locais para as crianças brincarem perto de suas casas, aglomerados familiares e baixo nível socioeconômico são também fatores de risco.
Quais são as medidas comprovadamente eficazes de proteção dos pedestres?
- Menores de 10 anos devem enfrentar os perigos do trânsito sempre acompanhados de um adulto atento.
- Proibição do uso de celulares e outros dispositivos enquanto estão na rua.
- Ambiente planejado para a segurança do pedestre.
- Ruas sinalizadas com faixa de segurança e farol para pedestres.
- Calçadas limpas e próprias para uso em toda a sua extensão.
- Medidas de engenharia para separar pedestres de veículos.
- Playgrounds cercados e afastados de ruas movimentadas.
- Cercas impedindo o cruzamento de vias mais movimentadas.
- Tráfego de automóveis desviado da proximidade de escolas.
- Ruas com mão única e com estacionamento restrito.
- Limites de velocidade baixos e controlados por leis bem aplicadas.
- Redutores de velocidade e/ou quebra-molas.
- Controle efetivo do ato de beber e dirigir.
- Transporte público adequado e acessível.
- Pedestres com vestimentas mais visíveis.
- Design de veículos para a proteção do pedestre.
A criança como ocupante do veículo
Por que as crianças correm tantos perigos quando estão no interior dos veículos de forma errada?
Crianças deslocando-se de carro compõem 36% das mortes no mundo, sendo mais de 50% delas proveniente de países de alta renda e estão sujeitas a riscos, nos bancos dianteiros e traseiros dos veículos, quando não utilizam mecanismos de retenção (assentos infantil e elevatório e cinto de segurança).
Enquanto (percentuais) os sistemas de retenção podem diminuir a probabilidade de lesões fatais?
De maneira geral, reduzem em cerca de 70% entre bebês e de 54% a 80% entre as crianças menores, ao comparar o uso do cinto de segurança com o dos acentos elevatórios (booster) reduz em 59% o risco de danos graves em crianças de 4 a 7 anos.
E o uso isolado do cinto de 3 pontos do veículo?
Tem sido associado a um risco maior de lesões pelas faixas do cinto — fraturas da coluna lombar e lesões abdominais. Faixas dos ombros do cinto de segurança colocadas atrás da criança ou embaixo de seus braços não conferem proteção e podem aumentar o risco de lesões graves.
Quais são as medidas comprovadamente eficazes para proteger crianças desde seu nascimento como ocupantes dos veículos?
- Serem transportadas sempre no banco traseiro e de forma adequada.
- O local do veículo mais seguro para crianças é o meio do banco traseiro, desde que devidamente restritas em assento apropriado para suas idades e tamanhos.
Há leis que determinam como o transporte de crianças e adolescentes deve ser realizado?
Sim, existem e todos devem conhecê-las.
O que os pais, cuidadores e responsáveis têm que saber com relação à utilização correta dos dispositivos de retenção?
Devem saber a posição no banco traseiro, o afivelamento correto dos cintos de segurança do banco do veículo e do assento e assegurar-se que a criança está instalada corretamente.
A segurança da criança e do adolescente como passageiros pode ser feita em quantas etapas?
São quatro etapas de transição, sendo que cada uma delas resulta na diminuição da proteção para o ocupante do veículo. A passagem para a etapa seguinte deve ser postergada ao máximo, uma vez que se vê diminuição de proteção. São elas:
1ª etapa — assento infantil tipo bebê-conforto
Deve ser usado desde o nascimento até que a criança tenha dois anos de idade ou que tenha ultrapassado o limite máximo de peso ou altura permitido pelo fabricante do assento. Deve ser instalado sempre de costas para o painel do veículo, preferentemente no meio do banco de trás, preso pelo cinto de segurança de três pontos ou sistema isofix.
As faixas do cinto de segurança desse modelo de assento (de cinco pontos) devem passar pelos ombros e entre as pernas da criança e ficar presas na estrutura do assento. Estes modelos podem ter um acessório que firma o pescoço do bebê. O clip torácico ajuda a manter a criança na posição adequada.
2ª etapa — assento tipo infantil (cadeirinha)
A criança que tenha ultrapassado o limite máximo de peso ou altura permitido para o assento tipo bebê-conforto deve usar o assento infantil, dotado de cinto de segurança próprio, pelo maior tempo possível, até atingir o limite máximo de peso ou altura permitido pelo fabricante. Vários destes modelos acomodam crianças pesando até 30 a 36 kg, isto é, ao longo de toda a idade escolar. O menor limite máximo de peso destes assentos é de 18 kg, que as crianças podem atingir entre três e sete anos de idade. A legislação brasileira permite que crianças acima de 1 ano e com 10kg possam usar a cadeirinha voltada para frente, mas a tendência correta atual em todo o mundo é de mantê-la o máximo de tempo possível – até os 4 anos — voltada de costas para o painel (para trás).
3ª etapa — assento elevatório ou “booster”
Toda criança cujo peso ou estatura tenha ultrapassado o limite máximo permitido para o assento infantil deve usar um assento de elevação, até atingir a estatura de 1,45m. Este assento deve estar instalado no banco de trás, posicionado nas laterais, local este que promove segurança à parte superior do tronco e à cabeça. Recomenda-se utilizar primeiro o modelo de booster com assento, encosto e cinto de cinco pontos e mais para a frente o modelo que tem somente assento, onde a criança ficará sempre contida pelo cinto de três pontos do carro, a faixa transversal passando pelo meio do ombro e a subabdominal pelas saliências ósseas do quadril. Se o carro somente tiver cintos subabdominais no banco traseiro, não deve ser usado um assento de elevação.
4ª etapa — cinto de segurança de três pontos do veículo
Indicado para crianças ou adolescentes que tenham atingido a altura de 1,45m (entre 9 e 13 anos), quando o cinto de segurança se adapta com perfeição: a faixa subabdominal passa pela pelve, a faixa transversal pelo meio do ombro e do tórax e os pés encostados totalmente no assoalho do veículo.
A criança como ciclista e passageira de moto
As crianças correm riscos de acidentes quando estão na categoria de ciclistas?
Crianças como ciclistas são responsáveis por 2 a 8% de todas as mortes no trânsito no mundo, em alguns países da Ásia esses índices alcançam 33% e os veículos motorizados de duas rodas são a principal causa de morte entre adolescentes.
Qual a principal medida de prevenção de acidentes graves com ciclistas?
A medida mais correta é o uso do capacete, que absorve e dissipa uma parte da energia gerada pelo trauma. Para os ciclistas de todas as idades, o uso adequado do capacete diminui o risco de lesão na cabeça em 69%.
Quais as principais características que o capacete deve ter?
- Ser confeccionado de espuma rígida e deformável, forro de poliestireno firme e coberto por uma fina camada plástica.
- Ser colocados diretamente no topo da cabeça, cobrindo a parte superior da região frontal e posicionado em paralelo ao chão.
- Encaixar-se bem, não se mover ao redor da cabeça ou deslizar para trás, quando empurrado ou puxado.
- A criança deve experimentar vários modelos para escolher aquele com melhor ajuste.
E falando em lógica e segurança, qual o melhor método para separar os ciclistas dos carros?
São as ciclovias, sem sombra de dúvida!
A partir de qual idade a criança pode viaja na garupa da moto?
O Código Brasileiro de Trânsito (CTB) determinava que crianças a partir de 7 anos poderiam andar na garupa da moto mas, mesmo assim, só se tivessem tamanho suficiente para se equilibrar na traseira da moto. Entretanto, a partir de abril de 2021, entrou em vigor o artigo 244, inciso V, do CTB que alterou esse procedimento para maiores de 10 anos que mostrem seu RG e que alcancem os pés até os apoios da moto.
E quais equipamentos de proteção devem ser usados?
Capacete, luvas, capas de chuva e calçados apropriados. Um equipamento que não é tão conhecido, mas pode ser muito útil, é o cinto de segurança para moto — ele é colocado na criança cobrindo todas as suas costas, acoplado e fechado na barriga de quem estiver pilotando.
Medidas de segurança no trânsito
Que medidas são as mais conhecidas?
O Plano Global para a Década de Ação pela Segurança no Trânsito 2011–2020, aprovado pelas Nações Unidas, oferece uma lista de 10 estratégias para que se promovam as principais medidas de segurança no trânsito. As 10 estratégias, para manter as crianças seguras no trânsito, são as seguintes:
- Controle de velocidade.
- Direção proibida sob o efeito de bebida alcoólica.
- Garantia do uso obrigatório de capacetes para ciclistas e motociclistas.
- Uso de dispositivos de retenção (assentos) para crianças nos veículos.
- Desenvolvimento de habilidades nas crianças para verem e serem vistas.
- Melhoria da estrutura viária.
- Adaptação do design (desenho) dos veículos.
- Redução dos riscos para jovens condutores.
- Provimento de cuidados apropriados para crianças vítimas de acidentes.
- Supervisão das crianças quando estiverem próximas das ruas.
O que pode ser feito com relação a esse panorama tão impactante?
Não há uma única medida que responda e resolva a gama de riscos que as crianças estão sujeitas no trânsito, no entanto, existem passos que cada família, comunidade e país podem dar para melhorar a segurança das crianças.
O que deu certo?
Nos países que apresentaram as maiores quedas nas mortes e lesões causadas pelo trânsito, as leis rígidas, seguidas de aplicação rigorosa da legislação, bem como as melhorias na segurança das vias e dos veículos, fizeram toda a diferença.
20.5.2Afogamento
Afogamento é considerado um problema de saúde pública, que tira a vida de milhares de pessoas todos os anos no mundo, principalmente menores de 25 anos. No Brasil, é a primeira causa de morte de crianças de 1 a 4 anos e segunda causa na faixa etária de 5 a 9 anos. Além das mortes, milhares de crianças terão sequelas que carregarão por toda a vida.
Por que tantas crianças se afogam?
Crianças tem verdadeira atração por água. A falha ou a falta de supervisão de um adulto responsável é uma das maiores causas de afogamento em crianças. Pequenas quantidades de água são suficientes para que ocorra uma fatalidade, uma vez que até aproximadamente uns 4 anos de idade, a criança apresenta uma desproporção entre o segmento superior (mais pesado) e o inferior do corpo, associado à inexperiência em sair de situações de perigo. Dessa forma, um balde com pouca quantidade de água já é suficiente para que ocorra uma tragédia, caso a criança caia de cabeça.
Onde ocorrem os afogamentos?
Isso dependerá da idade da criança: menores de 10 anos, geralmente se afogam em casa ou nos arredores (banheiras, piscinas, baldes, espelhos d’água, etc.), enquanto os maiores de 10 anos se afogam mais em reservatórios de águas naturais (lagos, rios, represas, praias).
Mesmo usando boias elas se afogam?
Na verdade, dispositivos de flutuação que não sejam do tipo “colete salva-vidas” não são seguros e dão uma falsa noção de segurança. Mesmo utilizando o colete salva-vidas adequadamente, uma criança que não saiba nadar não deve ser deixada sem a supervisão próxima de um adulto (chamada “supervisão de toque”, a um braço de distância). Em relação a outros tipos de dispositivos, “boias de braço”, de cintura, podem escapar do corpo da criança ou colocá-la em uma posição na água que propicie o afogamento.
Então a solução é ensinar todo mundo a nadar?
Bem, saber nadar é um grande passo para não se afogar. Há trabalhos que mostram que a partir de 1 ano de idade, as crianças já são capazes de aprender algumas habilidades na água. Porém, para ser seguro, a pessoa deve apresentar o que chamamos de “competência na água”, que engloba conhecer e identificar os perigos e saber evitá-los. Isso requer uma maior maturidade, que se atinge geralmente a partir dos 4 anos. Essa maturidade associado à anatomia, quando a criança deixa de apresentar uma desproporção entre os segmentos superior e inferior do corpo, tornam as crianças maiores de 4 anos propícias a aprenderem a nadar.
Mas, mesmo pessoas que sabem nadar podem se afogar, quando assumem atitudes consideradas de risco, como nadar sozinhos, usar álcool ou drogas e entrar na água, não respeitar a sinalização em praias, nadando em áreas de risco, realizando brincadeiras perigosas, hiperventilando antes de mergulhar, etc. Outro perigo vem das bombas de sucção de piscinas, banheiras que se colocadas de forma inadequada ou sem proteção, podem prender cabelos ou parte do corpo do banhista, causando afogamento.
Não podemos esquecer que inundações, tsunamis também são responsáveis por várias mortes por afogamento. Acidentes com transportes aquáticos ou em esportes aquáticos também são causas de afogamento, porém os riscos são minimizados quando do uso do colete salva-vidas.
Tenho uma piscina em casa. Devo colocar uma cobertura em cima dela, aquelas que se pode pisar sem que afunde?
A melhor forma de isolar uma piscina é usando cerca nos quatro lados, de pelo menos 1,5 m de altura, com espaços entre as grades de menos de 12 cm (que impeça que se passe por esses espaços) e que não se possa escalar. Colocar um portão com tranca, impedindo o uso não autorizado da mesma. Essa cobertura que se coloca esticada logo acima da piscina, que aguenta até o peso de um adulto em pé, sem afundar, não foi validada como segura. Portanto, deve ser evitada ou não deve ser utilizada como única forma de se impedir a utilização não autorizada da piscina. Há alarmes de movimentação de água que podem ser utilizados como adjuvantes a outros métodos de segurança.
E sobre os acidentes com bombas de sucção?
Bombas de sucção não devem estar em funcionamento durante o uso da piscina. Isso minimiza os riscos de ter o corpo ou parte deste preso no ralo, levando ao afogamento. Utilizar sistemas antiaprisionamento, como tampas específicas para os ralos também é importante para evitar esses acidentes.
O que fazer em caso de afogamento?
A cadeia de sobrevivência do afogamento resume bem o que se deve fazer. É composta por cinco elos:
- Prevenção: é a intervenção com melhores resultados e a de menor custo, podendo evitar mais de 85% dos casos de afogamento.
- Reconhecimento do afogado: ao reconhecer que uma vítima está se afogando, peça para que alguém ligue para 193 (Corpo de Bombeiros) ou 192 (SAMU) e avise onde é o incidente, quantas pessoas estão envolvidas, o que está sendo feito. Só então o socorrista deverá partir para ajudar a realizar o resgate.
- Fornecer flutuação: interromper o processo de submersão fornecendo flutuação para a vítima. Utilize boias, cordas, galhos, isopor, etc.
- Remover da água: só se for seguro. Ajudar a vítima a sair da água, apontando direções e locais mais próximos e mais seguros para sair. Evite entrar na água; a decisão de realizar o suporte básico de vida ainda dentro da água baseia-se no nível de consciência do afogado e no nível de experiência do socorrista.
- Afogado consciente: resgatar a pessoa até a área seca sem demais cuidados médicos.
- Afogado inconsciente: a medida mais importante é a instituição imediata de ventilação ainda dentro da água, o que proporciona à vítima uma chance quatro vezes maior de sobrevivência sem sequelas. Deve ser executada por socorrista experiente.
Após retirar a vítima da água, se estiver respirando, deixe-a em posição de recuperação (de lado). Se não estiver respirando, trate como parada cardiopulmonar. Faça as manobras até que a vítima se recupere, ou que o resgate chegue (ou que você atinja a exaustão completa).
Como evitar o afogamento?
O afogamento geralmente não é devido a apenas um fator e sim, a uma sequência de erros. Portanto, para evitá-lo devemos estabelecer uma série de medidas preventivas.
Várias são as campanhas de conscientização a respeito do que se deve fazer para evitar o afogamento. A Sociedade de Pediatria de São Paulo lançou em 2023 a campanha Não se afogue, usando as letras iniciais de cada palavra que compõe a frase para indicar ações que devem ser tomadas para prevenir o afogamento:
Nunca nade sozinho
Alcool e drogas não devem ser usados/ingeridos antes de nadar
Obedeça as placas de advertência de praias e piscinas
Supervisão de toque (a um braço de distância) para menores de 5 anos ou para indivíduos que não saibam nadar
Ensine crianças de 4 anos ou mais nadar (educá-las também a evitar brincadeiras perigosas na água ou próximo dela)
Acesso restrito a piscinas com cerca de proteção nos quatro lados, com 1,5m de altura e o portão trancado
Falha de supervisão é uma das grandes responsáveis pelo afogamento
O uso de colete salva vidas deve ser incentivado em todos os transportes aquáticos e esportes que não mergulho
Guarda-vidas ou salva-vidas, procure nadar em locais que tenham esses profissionais
Um dispositivo de flutuação inadequado é uma falsa ideia de segurança
Ensinar Suporte Básico de Vida a todos, incluindo o que se deve e não se deve fazer num afogamento.
E por fim, não podemos esquecer que o projeto de piscinas e jacuzzis devem ser bem-feitos, com distribuição na força de sucção das bombas, que devem conter tampas antiaprisionamento. Devemos também ensinar as crianças e os adolescentes a não se aproximarem dessas áreas de drenagem ou de sucção da água.
20.5.3Queimaduras
Queimaduras são ferimentos causados por calor (contato com líquidos ou superfícies quentes, vapor, combustão por fogo), substâncias químicas, passagem de corrente elétrica ou radiação, podendo atingir até camadas mais profundas da pele, músculos e ossos. A maioria dos casos ocorre em ambiente domiciliar, principalmente na cozinha. O risco de morte por queimaduras na infância é alto, o tratamento é demorado e custoso.
Como as crianças sofrem queimaduras?
A principal causa de queimaduras em crianças é o escaldamento (contato com líquidos quentes) em especial nas menores de 5 anos. Acontece, geralmente, no momento em que os alimentos estão sendo preparados ou servidos.
A imersão em líquidos quentes ocorre geralmente em bebês e pessoas que não conseguem se locomover sozinhas, ocasionando lesões em circunferências tipo “bota e luva” ou queimaduras de períneo e de genitais.
Queimaduras de contato ocorrem quando a criança encosta uma parte do corpo, geralmente a palma das mãos, em um objeto ou superfície quente, como ferro de passar roupa, fogão, lâmpadas.
Queimadura de Sol, geralmente de primeiro grau, resulta da exposição excessiva da pele à luz do sol ou outra fonte de raios ultravioleta (UV).
Outras situações em que crianças se queimam é em incêndios, geralmente domiciliares, ocasionando lesões profundas que levam à internação hospitalar e tratamento cirúrgico, quando não são fatais; queimadura por exposição à eletricidade, por contato com fios e aparelhos elétricos principalmente crianças menores de 5 anos e por fios de alta tensão, geralmente em adolescentes empinando pipas.
Como reconhecer a gravidade de uma queimadura?
A gravidade pode estar relacionada à profundidade da lesão, à sua extensão ou localização. As queimaduras se classificam, quanto à profundidade, em:
- Primeiro grau: atinge a primeira camada da pele (a epiderme), causando vermelhidão e dor local. Geralmente ocorre cura espontânea em 3 a 4 dias.
- Segundo grau: atinge a segunda camada da pele (a derme e anexos), formando bolhas. O inchaço e a dor são mais importantes, dependendo da profundidade. Quando são menos profundas, a cura pode ocorrer em cerca de duas semanas sem deixar cicatrizes ou com cicatrizes discretas. As mais profundas demoram várias semanas, podendo demandar intervenções cirúrgicas para sua resolução. Deixam cicatrizes.
- Terceiro grau: atinge todas as camadas da pele, formando lesão esbranquiçada ou carbonizada, com nítida perda de sua elasticidade. São lesões graves que levam à internação hospitalar para tratamento mais complexo, com cirurgia plástica reparadora e enxerto de pele, deixando cicatrizes profundas e permanentes.
Quanto à extensão (superfície corporal queimada- SCQ), calcula-se a área queimada através de algumas regras, como a dos 9. Pode-se estimar também pelo tamanho da palma da mão do paciente (incluindo os dedos, equivale a 1% da SCQ). Em crianças, acometimento de 10% ou mais de área corpórea geram quadros mais graves.
Em relação às áreas acometidas, queimaduras em rosto, mãos, períneo, genitais, pés e articulações são mais graves e requerem atendimento médico.
O que fazer em caso de queimadura?
Tratamento imediato de emergência, até que se tenha acesso ao atendimento médico:
- Interrompa o processo de queimadura, lavando o local com água corrente por cerca de 20 a 30 minutos ou fazendo compressas com água fria a fim de resfriar a pele. A água alivia a dor, limpa a lesão, impede o aprofundamento das queimaduras e diminui o inchaço subsequente. Evite usar gelo pelo risco de hipotermia, principalmente se a queimadura for muito extensa. Seque o local delicadamente com um pano limpo. Se o ferimento apresentar bolhas, evite rompê-las. Após a pele ter sido resfriada, a criança deve ser mantida aquecida.
- Remova joias, relógios, anéis, piercings, próteses ou qualquer outro objeto que possa ficar preso pelo rápido inchaço que se formará. Aconselha-se a não retirar a roupa que a vítima estiver usando, ainda que houver sido atingida pelo fogo. O ideal é molhar a vestimenta e permanecer assim até a chegada ao pronto-socorro, para evitar que as bolhas estourem e que a pele seja arrancada.
- Cubra as lesões com tecido limpo.
- Dê um analgésico para alívio da dor.
- Crianças com menos de 10% de SCQ, em bom estado, podem receber hidratação oral com águas ou suco de frutas inicialmente.
- Se a vítima estiver com chamas no corpo, faça-a rolar no chão para extingui-las ou tente abafá-las com um cobertor, casaco, etc.
- Em casos de queimaduras elétricas, desligue a chave da luz se pertinente e afaste a vítima da corrente elétrica, utilizando material isolante.
Posso passar uma pomada no local da queimadura?
Não. Produtos caseiros tais como clara de ovo, pó de café, banha de galinha, pasta de dente, pimenta, dentre outros, não trazem quaisquer benefícios e podem favorecer as complicações infecciosas. Mesmo pomadas vendidas em farmácias podem irritar mais a pele que está sensível, piorando a dor e propiciando infecção local. E, não tente estourar as bolhas provocadas pela queimadura que deverão ser manuseadas apenas por um profissional especializado.
Como evitar as queimaduras?
- Na cozinha, coloque uma barreira física como grade de proteção na porta para impedir a entrada de crianças pequenas. As panelas devem ficar nas bocas de trás do fogão, sempre com o cabo voltado para o fundo. Cuidado com a tampa do forno, pois as crianças podem usá-la como degrau, virando o fogão e as panelas em cima delas. Líquidos e alimentos quentes não devem ser manuseados com a criança no colo e devem ser mantidos longe da borda dos balcões, pias e mesas. Evite usar tapetes na área do fogão. Se presentes, certifique-se de que tenha mecanismos antiderrapantes. Não cozinhe ou carregue alimentos quentes com a criança no colo.
- Fósforos, isqueiros e produtos inflamáveis precisam ser guardados em armários altos e trancados e nunca devem ser manipulados por crianças.
- Teste sempre a temperatura do alimento antes de oferecer à criança. Ofereça o leite preferencialmente à temperatura ambiente.
- A temperatura do banho deve estar em torno de 37 °C (use termômetro de água). Comece colocando água fria e, por fim, a quente, misturando uniformemente para atingir a temperatura desejada. A criança só deve entrar na banheira após isso.
- Coloque tampas de proteção nas tomadas e substitua os fios desencapados. Nunca faça “gambiarras e gatos” com a rede elétrica. Mantenha carregadores longe do alcance das crianças. Não fume em casa. Nunca acenda o cigarro próximo a líquidos inflamáveis ou latas de aerossol. Ao jogar a “bituca”, certifique-se de que esteja apagada.
- Não deixe velas acesas ao sair de casa e apague-as antes de dormir.
- Prefira álcool em gel ao acender a churrasqueira ou lareira e jamais jogue álcool líquido ou qualquer líquido inflamável sobre o fogo aceso.
- Algumas substâncias podem causar queimaduras, sendo a soda cáustica o produto químico mais comum. Pilhas pequenas, baterias de relógios e de aparelhos eletrônicos representam perigo por possuir conteúdo corrosivo. Mantenha-as longe de crianças.
- Para evitar queimaduras, não exponha a criança ao sol entre as 10h e 16h (tenha bom senso!). Aplique o protetor (fator 15 ou mais) na pele 20 minutos antes da exposição solar (não se esqueça de passar no rosto, orelhas, pés). Reaplique a cada duas horas, após entrar na água ou suar muito. Coloque chapéus com abas e blusas com mangas compridas se as crianças forem praticar atividades ao ar livre.
20.5.4Quedas
A queda é um evento habitual na criança que está aprendendo a andar, escalar, correr, pular e explorar o ambiente físico. Representa, entretanto, a principal causa de atendimentos em serviços de emergência e de internações em crianças de zero a 14 anos de idade, sendo a principal causa de traumatismo cranioencefálico, especialmente em crianças pequenas, com risco significativo de consequências graves e a curto e longo prazo.
Quando considerar uma queda perigosa?
As lesões decorrentes de uma queda estão relacionadas à desaceleração súbita do corpo ao se chocar com uma superfície, na qual a energia do impacto será dissipada. Portanto, quanto maior a altura e menor capacidade de absorção de impacto da superfície, maior a chance de lesões mais graves. Crianças pequenas são mais propícias a apresentarem lesões mais sérias, por terem menor capacidade de absorção de energia e um corpo imaturo, com pele e órgãos internos mais frágeis. O mecanismo que gerou a queda (se estava andando, correndo, de patins, etc.) e a posição que a criança caiu (de cabeça, de face) também pode aumentar a chance de lesões mais sérias.
Quais são as lesões mais comuns?
A maioria das quedas acaba ocasionando pequenos hematomas, “ralados”, cortes. Crianças pequenas (até ± 4 anos) têm o segmento superior do corpo mais pesado (“cabeça grande”), tendendo a bater a cabeça nas quedas. Crianças maiores apresentam fraturas de membros (pernas, braços, mãos) mais frequentemente.
De onde as crianças caem com mais frequência?
Crianças pequenas (menores de 5 anos) caem do colo, trocador, carrinho, andador, cadeirão, da cama, do sofá, escadas, janelas, equipamentos de playground, além das quedas da própria altura.
Crianças e adolescentes de idade entre 5 e 14 anos apresentam quedas mais relacionadas a atividades recreativas e esportivas.
O que fazer se meu filho cair?
Como vimos, a gravidade da queda é proporcional à altura, ao segmento do corpo que “bateu” na queda e ao tipo de solo onde se caiu.
Se seu filho não é capaz de explicar se tem dor ou onde, “examine-o da cabeça aos pés” após uma queda, principalmente nas maiores que a própria altura.
- Ralados/cortes: lave bem com água e sabão. Se estiver sangrando, comprima com pano limpo, gaze estéril. Se mantiver sangramento considerável após alguns minutos, ou o corte for mais profundo, procure serviço de emergência.
- Hematomas, marcas de batida: ponha gelo e comprima o local, retirando de 30 em 30 segundos (por apenas alguns segundos), para que não “queime a pele”.
- Em caso de fraturas, coloque o membro afetado na posição mais natural possível, sem causar dor ou desconforto à criança/ adolescente. Imobilize o local da fratura e as articulações logo acima e logo abaixo da área afetada (para impedir de mexer). Use papelão, jornais dobrados, cabos de vassoura e leve a criança/adolescente ao serviço de emergência.
- Se a criança bateu a cabeça — observe sinais de alarme: vômitos, sonolência, alteração na marcha, na fala ou dor importante. Se houve perda de consciência, mesmo que brevemente, leve-a ao serviço de emergência. Se a criança continuar desacordada, veja se está respirando bem. Se sim, não mexa nela e ligue para emergência (192 ou 193). Se não estiver respirando, gire-a com cuidado (tente movimentar o pescoço o mínimo possível, movendo a cabeça em bloco com o restante do corpo). Se, mesmo reposicionando, não estiver respirando, inicie as manobras de ressuscitação cardiopulmonar até que o resgate chegue.
Como evitar?
- Nunca deixe a criança sozinha em cima de qualquer móvel (trocador, sofá, cama, cadeira).
- Instale proteção nas escadas (em cima e em baixo), redes ou grades nas janelas, travas de limitação de abertura nas janelas. Mantenha os portões trancados e o acesso restrito para a cozinha e lavanderia.
- Prenda TVs e móveis na parede usando montagens, suportes, braçadeiras, âncoras ou tiras de parede para evitar tombamentos.
- Mantenha cadeiras, berços e outros móveis longe das janelas.
- Considere tapetes antiderrapantes para os pisos de sua casa, principalmente na cozinha e banheiros. Coloque faixas antiderrapante em banheiras e até no box do chuveiro, caso sejam escorregadios.
- Mantenha os corredores e escadas bem iluminados e livres de desordem.
- Crianças menores de 6 anos não devem dormir na parte de cima de beliche.
- Não coloque o bebê no andador. Dê preferência a centro de atividades estacionário.
- Todos os equipamentos devem ser utilizados com o arnês (“cinto de segurança”) corretamente afivelado (bebê-conforto, cadeirão, carrinho, assento para carro).
- Supervisione ativamente e fique perto de seu filho quando ele estiver subindo, balançando ou brincando em equipamentos que estão acima do solo.
- Certifique-se de que as crianças usam equipamentos de playground adequados para sua idade e tamanho, que os aparelhos estejam em boas condições e que o piso seja adequado (veja mais em segurança de playgrounds).
- Utilize os equipamentos de segurança adequados, como joelheiras, cotoveleiras, munhequeiras e capacetes, durante a prática esportiva.
20.5.5Intoxicações
O que é uma intoxicação?
A intoxicação pode ocorrer quando uma pessoa é exposta a alguma substância capaz de prejudicar a sua saúde ou, até mesmo, de colocar a sua vida em risco. Nesse caso, podemos chamar essa substância de veneno.
O que pode provocar uma intoxicação?
Nós vivemos num mundo rodeado por substâncias químicas e muitas são essenciais para a nossa sobrevivência. Entretanto, parte delas pode agir como veneno, seja pelo seu uso inadequado, ou em quantidades acima do recomendado. Assim, as intoxicações podem ser provocadas por medicamentos (não apenas aqueles vendidos com a retenção da receita médica, como é o caso dos antidepressivos e dos anticonvulsionantes, como também os de venda livre, como os analgésicos e antipiréticos como o paracetamol, a dipirona ou o ibuprofeno, que tanto costumamos utilizar), produtos domésticos (como os detergentes, desinfetantes, alvejantes, polidores de móveis e outros), itens cosméticos (esmaltes de unha, desodorantes, tinturas para cabelos, xampus, sabonetes e outros), certas substâncias químicas de uso doméstico (gás de cozinha, inseticidas, tintas, solventes, colas e produtos automotivos, dentre outros), bebidas alcoólicas e drogas ilícitas, além de plantas consideradas tóxicas.
Quais intoxicações são as mais frequentes?
Não apenas no Brasil, como em outras partes do mundo, os medicamentos são os principais causadores de intoxicações em crianças, seguidos pelos saneantes domésticos. Isso não quer dizer que devemos deixar de medicar as nossas crianças: os medicamentos são essenciais para o tratamento de diversos problemas de saúde, e os pediatras os prescrevem levando em consideração a idade e o peso das crianças, com doses consideradas muito seguras. O que você precisa saber é que mesmo os medicamentos aparentemente simples, como aqueles utilizados para o controle da febre e da dor, podem ser muito perigosos em doses elevadas. Por isso, nunca ultrapasse as doses recomendadas pelo pediatra. Por outro lado, medicamentos que adultos costumam utilizar, como os descongestionantes tópicos nasais (de pingar no nariz, para desobstruí-lo), são extremamente perigosos para as crianças, podendo levar a intoxicações com risco de vida. Lembre-se sempre: as crianças não são simplesmente adultos pequenos!
O envenenamento só ocorre com a ingesta do veneno?
Não. É importante saber que os venenos podem causar problemas não apenas quando engolidos, mas também quando injetados, absorvidos pela pele, inalados ou espirrados nos olhos. Todas essas vias de contato podem levar a intoxicações graves.
Quais os sintomas de envenenamento?
Os sintomas de envenenamento dependem do tipo da substância e da quantidade absorvida. Diversos sintomas gerais podem indicar envenenamento, como: diarreia, dor de estômago, sonolência, tontura ou fraqueza, sensação de calor, calafrios, perda do apetite, dor de cabeça, irritabilidade, dificuldade para engolir, dificuldade para respirar, salivação mais que o normal, erupções cutâneas, lábios e pele azulados, queimaduras ao redor do nariz ou da boca, alterações da visão, confusão mental, convulsões, perda da consciência e coma. É lógico que diversos outros problemas médicos podem causar esses sintomas, mas vale a pena salientar que os pais devem ficar atentos com o surgimento de doenças repentinas e inexplicadas, sobretudo em crianças pequenas, principalmente se estiverem sonolentas ou inconscientes, pois é possível que algum tipo de envenenamento possa ser a causa.
O que devo fazer na suspeita de envenenamento?
O envenenamento pode ser fatal, mas raramente o é quando tratado a tempo e de forma adequada! Caso a criança apresente algum sinal ou suspeita de envenenamento, nunca tente tratá-la sozinha — procure imediatamente por ajuda médica. Se ela estiver mostrando sinais de doença grave, não perca tempo: solicite o atendimento de urgência do SAMU ou leve-a ao serviço de emergência local, não se esquecendo de levar as embalagens ou os frascos dos produtos envolvidos. Se, por outro lado, a criança estiver aparentemente bem, entre em contato imediatamente com um Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox): esses serviços são gratuitos, funcionam 24 horas por dia e possuem profissionais especializados que vão orientá-la como proceder. Você encontra os telefones geralmente nas embalagens dos produtos ou nas bulas dos medicamentos. Você também pode encontrar a relação de todos os CIATox brasileiros no site da ABRACIT – Associação Brasileira de Centros de Informação e Assistência Toxicológica1.
O que fazer se a criança estiver consciente?
Se a criança foi envenenada ao engolir algum produto, tente fazê-la apenas cuspir o que está na boca. Não provoque vômitos nem dê nada para comer ou beber, pois, dependendo do agente intoxicante, o quadro clínico pode piorar.
Se o produto nocivo entrou em contato com a pele ou molhou as roupas, remova os itens contaminados e lave a área afetada apenas com água morna ou fria. Se o agente espirrou nos olhos, lave-os com água abundante, de preferência filtrada, à temperatura ambiente.
O que fazer se a criança estiver inconsciente?
Se você acha que a criança engoliu algum veneno e parece estar inconsciente, tente acordá-la e incentivá-la a cuspir qualquer coisa que tenha ficado na boca, mas nunca tente provocar vômitos.
Se a criança estiver inconsciente, mas estiver respirando e não apresentar outras condições que ameaçam a vida (traumatismos, por exemplo), ela deve ser colocada deitada de lado para manter suas vias aéreas desobstruídas e abertas, enquanto aguarda o socorro médico, caso não seja possível conduzi-la imediatamente.
Limpe qualquer vômito da boca e mantenha a cabeça voltada para o lado e para baixo, para permitir que o vômito escape sem que seja aspirado ou engolido.
Se a criança não estiver respirando ou se o coração parar, inicie as manobras de ressuscitação cardiopulmonar (RCP), caso você saiba como e possua treinamento para realizá-la.
Se o agente intoxicante for gás ou vapor?
Se a intoxicação for por um produto inalante, a criança deve ser retirada o quanto antes do local e levada para outro bem ventilado. Entretanto, dependendo da situação, não entre em áreas fechadas para removê-la você mesmo, pois vapores e gases tóxicos podem ser muito perigosos se inalados. Nesse caso, peça ajuda imediata ao Corpo de Bombeiros e ao SAMU.
Como ajudar a equipe médica que vai atender a criança?
A equipe médica precisará obter um histórico o mais detalhado possível para tratar efetivamente a criança intoxicada. Forneça o máximo de informações possível, incluindo:
- Qual (ou quais) produto(s) você acha que a criança possa ter engolido.
- Quando foi (ou foram) ingerido(s) (há quanto tempo?).
- Qual o motivo da ingestão (foi acidental ou deliberadamente?).
- Como foi intoxicada (ingerida ou inalada?).
- Quanto (quantidade) foi ingerido (se você souber).
Procure fornecer detalhes sobre os sintomas que a criança apresentou ou está apresentando, além de informar se ela já estava fazendo algum tipo de tratamento ou utilizando algum medicamento.
As plantas podem causar intoxicações nas crianças?
Sim. Estima-se que existam mais de 2 mil espécies de plantas tóxicas, porém aquelas mais frequentemente envolvidas nos acidentes são as que estão presentes no domicílio ou peridomicílio. Vasos e canteiros contendo folhagens e plantas com flores ou frutos atraem as crianças pequenas, que acabam por leva-las à boca, e as com mais idade, por curiosidade. A maioria dos acidentes com plantas tóxicas no Brasil ocorrem em crianças de 0 a 14 anos de idade.
Qual a gravidade das intoxicações por plantas?
Dependendo da espécie, a planta pode conter substâncias que provocam desde apenas irritações na pele, de menor ou maior intensidade, até distúrbios graves acometendo vários órgãos e sistemas: digestivo, respiratório, cardiovascular, aparelho urinário e sistema nervoso central. Entretanto, as que mais causam acidentes em crianças e adolescentes são as que contêm oxalato de cálcio (exemplos: “comigo-ninguém-pode”, antúrio, lírio-da-paz, copo-de-leite, orelha-de-elefante, zamioculca e jiboia), que provocam irritação importante na boca e no tubo digestivo, com dor na cavidade oral, inchaço nos lábios e na língua, salivação, dificuldade para engolir, dificuldade para respirar, vômitos, dores abdominais e diarreia; e as que produzem látex cáustico (exemplos: coros-de-cristo, flor-de-natal, bico-de-papagaio, avelós e candelabro), que podem causar irritação na pele, com dor, vermelhidão, inchaço e formação de bolhas, e danos oculares quando em contato com os olhos.
O que devo fazer em caso de acidente com planta?
Em caso de acidente, entrar em contato com um Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox2) e levar a criança para a unidade de saúde mais próxima. Não esquecer de levar partes da planta, se possível um ramo completo, para facilitar a sua identificação correta e a adoção das medidas terapêuticas mais apropriadas.
Como prevenir que as crianças se intoxiquem?
A seguir você encontrará as principais recomendações para prevenir que as crianças entrem em contato com os principais tipos de agentes intoxicantes. Você também poderá consultar essas orientações de forma rápida no site da ABRACIT3.
Medicamentos
- Só use medicamentos com orientação médica e nas doses indicadas.
- Não use medicamentos no escuro para evitar a troca de embalagens ou erro de dosagem.
- Nunca dê medicamentos a crianças dizendo que se trata de “um doce”, “um suco”, “um refresco” ou “uma bala”.
- Guarde medicamentos em locais altos, de preferência com chaves, fora do alcance de crianças.
- Descarte adequadamente sobras de medicamentos e medicamentos vencidos. Primeiramente, nunca reutilize os frascos! Também não jogue no lixo ou no esgoto: leve-os a alguma farmácia para que o descarte seja feito de forma adequada. Para maiores informações, consulte as orientações do Governo Federal4.
- Não use medicamentos na presença de crianças em idade pré-escolar, pois os pequenos gostam de imitar os gestos e o comportamento dos adultos.
- Guarde o medicamento utilizado em seu lugar imediatamente após o uso.
- Não dê a crianças medicamentos indicados por vizinhos ou parentes, nem medicamentos prescritos para outra criança.
- Evite a pressa ao medicar uma criança. Ela pode tossir ou se engasgar. Se houver vômitos ou derramamento, não dê doses extras sem antes consultar um médico.
- Ao comprar um medicamento, veja se confere exatamente com a receita do médico.
- Se você não entender a receita do médico, peça para ele reescrevê-la de forma legível.
- Mantenha longe do alcance de crianças, de preferência em local fechado, com altura mínima de 1,5m.
Produtos de higiene e limpeza
- Mantenha sempre os produtos na sua embalagem original.
- Nunca utilize embalagens de alimentos (como latas de leite em pó, garrafas de refrigerantes) para estocar produtos químicos. As crianças associam as embalagens com alimentos, refrigerantes ou doces.
- Guarde produtos químicos em separado e longe de alimentos e medicamentos.
- Leia com atenção as orientações do fabricante antes de utilizar qualquer produto químico em sua casa.
- Guarde o produto utilizado em seu lugar imediatamente após o uso.
- Nunca faça misturas caseiras de produtos de limpeza, algumas podem ser extremamente tóxicas.
- Mantenha longe do alcance de crianças, de preferência em local fechado, com altura mínima de 1,5m.
Inseticidas e raticidas
- Mantenha sempre o inseticida em sua embalagem original.
- Mantenha o inseticida longe dos alimentos, medicamentos e fora do alcance de crianças.
- Leia com atenção as instruções do fabricante antes de utilizar qualquer inseticida em sua casa.
- Não permita que a crianças apliquem inseticida ou brinquem com as embalagens dos produtos.
- Produtos de uso agrícola (agrotóxicos) nunca devem ser utilizados em casa, pois podem provocar intoxicações graves.
- Guarde o inseticida utilizado em seu lugar imediatamente após o uso.
- Mantenha longe do alcance de crianças, de preferência em local fechado, com altura mínima de 1,5m.
Plantas tóxicas
- Procure conhecer as plantas presentes na residência e no peridomicílio pelos nomes e características, obtendo informações em sites confiáveis e em serviços de CIATox. No caso da presença de plantas tóxicas em casa, mantenha-as fora do alcance das crianças e dos animais.
- Ensine as crianças a não colocarem partes das plantas na boca nem as utilizar em brincadeiras infantis.
- Quando planejar um jardim escolha espécies vegetais não tóxicas, principalmente.
- Nuca utilize folhas, frutos ou raízes desconhecidas como alimentos.
- Quando realizar serviços de jardinagem, use luvas, óculos, chapéu, camisa de manga longa, tesoura de poda e pazinha.
- Descarte de forma segura as partes podadas.
20.5.6Acidentes com animais peçonhentos
Animais venenosos e peçonhentos são a mesma coisa?
Chamamos de animais peçonhentos aqueles que possuem glândulas de veneno associadas a um aparelho inoculador, como dentes, ferrões ou cerdas (espécie de espinhos). São exemplos: serpentes, aranhas, escorpiões, taturanas, lacraias, abelhas, vespas, marimbondos e alguns animais aquáticos, como algumas espécies de peixes e arraias.
Já os animais venenosos são também capazes de produzir veneno, mas não possuem um aparelho inoculador para injetá-lo. São exemplos os animais que possuem glândulas de veneno sobre a pele, cujo conteúdo é liberado somente quando comprimidas. É o caso dos sapos, e aqueles que possuem veneno em seus tecidos e que podem causar intoxicações quando ingeridos, sendo um exemplo o peixe baiacu.
O que acontece quando alguém sofre um acidente com um animal peçonhento?
Em primeiro lugar, depende da espécie de animal que causou o acidente, pois cada uma possui um tipo particular de veneno, utilizado para se defender de seus predadores ou para imobilizar suas presas que lhe servem de alimento. Por outro lado, os venenos são sempre substâncias muito complexas e possuem diversos tipos de toxinas, as quais podem afetar significantemente a saúde das pessoas. Então, os sinais e sintomas do envenenamento e sua gravidade estão relacionados com o tipo de animal que causou o acidente e, também, com a quantidade de veneno que foi injetada.
As serpentes
Toda serpente é perigosa?
No mundo, existem cerca de 3.000 espécies de serpentes conhecidas e, dessas, cerca de 15 % são consideradas perigosas para os seres humanos. Aqui no Brasil, temos algo em torno de 460 espécies descritas, com aproximadamente 60 delas consideradas peçonhentas, distribuídas em quatro grupos: as popularmente conhecidas como jararacas (cientificamente pertencentes aos gêneros Bothrops e Bothrocophias), as cascavéis (gênero Crotalus), as surucucu-pico-de-jaca (gênero “Lachesis”) e as chamadas corais-verdadeiras (gêneros Micrurus e Leptomicrurus). Por essa razão é que classificamos os acidentes ofídicos (causados por serpentes) em acidentes botrópicos (jararacas), crotálicos (cascavéis), laquéticos (surucucus-pico-de-jaca) e elapídicos (corais-verdadeiras). Importante saber que mesmo as serpentes consideradas não peçonhentas podem causar acidentes e serem confundidas com as peçonhentas! Logo abaixo, abordamos cada tipo de acidente ofídico:
Acidentes botrópicos
São causados por serpentes popularmente conhecidas como jararaca, jararacuçu, urutu, caiçaca, e comboia, dentre outras denominações, conforme a região do país. É o grupo mais importante, com cerca de 30 espécies em todo o território brasileiro, encontradas em ambientes diversos, desde beiras de rios e igarapés, áreas litorâneas e úmidas, agrícolas e periurbanas, cerrados, e áreas abertas. Causam a grande maioria dos acidentes ofídicos no Brasil.
Quais os sintomas decorrentes da picada de jararaca?
A região da picada pode apresentar dor e inchaço, às vezes, com manchas arroxeadas (edemas e equimose) e sangramento pelos pontos da picada, em gengivas, pele e urina. Pode haver complicações, como grave hemorragia em regiões vitais, infecção e necrose na região da picada, além de insuficiência renal.
Acidentes crotálicos
São causados pelas serpentes cascavéis, que possuem como característica a presença de guizo ou chocalho na cauda. Estão amplamente distribuídas em campos e áreas abertas, cerrados, regiões áridas e semiáridas.
Quais os sintomas decorrentes da picada de cascavel?
O local da picada muitas vezes não apresenta dor ou lesão evidente, apenas uma sensação de formigamento, mas pode ocorrer inchaço. Entretanto, nos casos mais graves, podem surgir sintomas neurotóxicos, como dificuldade de manter os olhos abertos, aparência de sonolência (chamada de fácies miastênica), visão turva ou dupla, mal-estar, náuseas e dor de cabeça, e sintomas miotóxicos (atuação do veneno na musculatura), com dores musculares generalizadas e urina escura.
Acidentes laquéticos
São causados pela serpente surucucu-pico-de-jaca, a maior das serpentes peçonhentas do Brasil. Ela vive na floresta Amazônica e nos remanescentes da Mata Atlântica.
Quais os sintomas decorrentes da picada de surucucu-pico-de-jaca?
O envenenamento é muito semelhante ao acidente por jararaca, conforme descrito acima. Entretanto, adicionalmente, o veneno pode ainda causar dor abdominal, vômitos, diarreia, bradicardia (diminuição dos batimentos cardíacos) e hipotensão.
Acidente elapídico (corais verdadeiras)
Causados pelas serpentes corais-verdadeiras, amplamente distribuídas no país, com várias espécies que apresentam, geralmente, padrão característico com anéis coloridos (vermelhos pretos e brancos). Entretanto, aqui temos dois problemas: nem todas as corais-verdadeiras possuem esse padrão de coloração, e existem outras serpentes não peçonhentas (conhecidas como falsas corais) que também possuem esses anéis coloridos. A identificação segura só pode ser realizada por profissionais experientes.
Quais os sintomas decorrentes da picada de serpente coral?
Nos acidentes por corais-verdadeiras, praticamente não se observa alterações importantes no local da picada, sendo a dor de grau variável, mas de leve intensidade na maioria das vezes, persistindo apenas uma sensação de formigamento no ferimento. As manifestações do envenenamento caracterizam-se por visão borrada ou dupla, pálpebras caídas e aspecto sonolento. O maior problema nesse tipo de envenenamento é a paralisia dos músculos respiratórios, muitas vezes decorrentes da demora na busca por socorro médico, que pode levar à parada respiratória.
Como é realizado o tratamento do envenenamento ofídico?
O único tratamento eficaz para o acidente ofídico é com a utilização do soro antiveneno, conhecido como soro antiofídico. Na verdade, não existe um único soro antiofídico capaz de neutralizar as toxinas presentes nos venenos de todos os tipos de serpentes, mas um tipo de soro para cada gênero de serpente. Assim, temos os soros antibotrópico, anticrotálico, antilaquético e antielapídico. Esses soros, quando indicados, devem ser administrados em ambiente hospitalar e com supervisão médica, junto a outras medidas clínicas de suporte, e a quantidade baseada em critérios clínicos de gravidade (leve moderado ou grave). Importante saber que o soro deve ser administrado o mais breve possível, pois quanto mais tempo demorar entre o acidente e o tratamento, maiores serão os efeitos das toxinas no organismo da pessoa.
Como os profissionais de saúde vão saber qual serpente causou o acidente?
É evidente que se a serpente causadora do acidente, ou uma foto dela, for levada à unidade de saúde, facilitará o diagnóstico. Mas não é recomendado tentar capturar a serpente (a não ser por alguém experiente), pois outras pessoas também poderão ser picadas, além de atrasar a busca de socorro médico. O diagnóstico é clínico-epidemiológico, realizado com segurança a partir do reconhecimento dos sinais clínicos do envenenamento por parte dos profissionais de saúde, mesmo na ausência do animal causador.
Como devo proceder se alguém for picado por uma serpente?
Em primeiro lugar, mantenha a calma. A criança deve ser conduzida o mais breve possível à unidade de saúde de emergência mais próxima. Não há muito que possa ser feito antes, a não ser lavar o local da picada com água e sabão, caso isto não atrase a busca pelo atendimento médico. Nunca tente retirar o veneno chupando o sangue ou fazendo incisões no local da picada, e jamais faça garrotes para evitar que o veneno se espalhe. Essas medidas são inócuas e acabam gerando mais complicações. Também não aplique nada no local, pois além de não ajudar, isso pode atrapalhar o diagnóstico e levar a contaminações do ferimento. Importante: a criança deve ser conduzida brevemente à unidade de saúde, mesmo que aparentemente esteja bem, pois, dependendo do tipo de envenenamento, os sintomas podem não aparecer imediatamente!
Como podemos prevenir o acidente ofídico?
O Ministério da Saúde1 tem recomendado algumas ações relacionadas à prevenção dos acidentes:
- Usar botas de cano alto ou perneira de couro, botinas e sapatos pode evitar cerca de 75% dos acidentes ofídicos.
- Usar luvas de aparas de couro para manipular folhas secas, montes de lixo, lenha, palhas etc. Não colocar as mãos em buracos. Cerca de 20% das picadas atingem mãos ou antebraços.
- Serpentes se abrigam em locais quentes, escuros e úmidos. Deve-se ter cuidado ao mexer em pilhas de lenha, palhadas de feijão, milho ou cana, e ao revirar cupinzeiros.
- Serpentes se alimentam de ratos e, por isso, deve-se controlar o aparecimento desses roedores nas residências. Limpar paióis e terreiros, não deixar lixo acumulado. Fechar buracos de muros e frestas de portas.
- Evitar acúmulo de lixo ou entulho, de pedras, tijolos, telhas e madeiras, bem como não deixar mato alto ao redor das casas. Isso atrai e serve de abrigo para pequenos animais, que servem de alimentos às serpentes.
Em relação às crianças, devemos evitar que elas fiquem desacompanhadas em locais onde seja possível a presença de serpentes.
As aranhas
Toda aranha é perigosa?
Não. No mundo existem mais de 50.000 espécies de aranhas conhecidas e esse número cresce cada vez mais, conforme novas espécies são descritas. Quase todas elas possuem veneno, mas poucas são capazes de causar envenenamentos graves em humanos. No Brasil, temos somente três tipos de aranhas que podem causar acidentes graves: as conhecidas como armadeiras, que pertencem ao gênero Phoneutria; as aranhas marrons, do gênero Loxosceles, e as aranhas viúvas-negras, do gênero Latrodectus. Muitas outras aranhas brasileiras também podem causar acidentes, porém sem gravidade.
Acidente por aranha armadeira
Popularmente chamadas de aranha armadeira, essas aranhas pertencem ao gênero Phoneutria, são bastante agressivas e recebem esse nome porque, quando ameaçadas, assumem a posição de defesa com os dois pares de patas dianteiras levantadas, expondo o par de ferrões (quelíceras), localizados próximos à boca. O tamanho do corpo por atingir 4 cm e a envergadura, distância entre duas patas abertas, até 20 centímetros. São capazes de saltar até 40 cm de distância. Essas aranhas possuem atividade noturna, abrigam-se embaixo de troncos, palmeiras, bromélias e entre folhas de bananeira. Nos domicílios, ou peridomicílios, costumam se esconder em lugares como sapatos, gavetas, atrás de móveis, cortinas, embaixo de vasos, entulhos, materiais de construção, etc.
Quais os sintomas decorrentes da picada da aranha armadeira?
O sintoma mais frequente nos acidentes por aranhas armadeiras é a dor no local da picada, geralmente de forte intensidade, podendo ser acompanhada de outros sintomas locais como inchaço, vermelhidão, suor e sensações de formigamento ou dormência. A dor também pode irradiar para outros locais próximos do local da picada. O sinal da picada nem sempre é visível, mas quando é, observam-se dois pequenos pontos próximos um do outro. Parte pequena dos pacientes picados, principalmente as crianças, podem apresentar outros sintomas como aumento dos batimentos cardíacos, hipertensão arterial, agitação psicomotora, sudorese generalizada, salivação intensa, vômitos, falta de ar devido a edema de pulmão, arritmias cardíacas e choque, com risco de vida.
Acidente por aranha-marrom
As aranhas conhecidas como aranha-marrom ou aranha-violino pertencem ao gênero Loxosceles. Essas aranhas não são agressivas e geralmente picam quando comprimidas contra o corpo. O tamanho do corpo é de cerca de um centímetro e a envergadura não passa de 4 cm. Seus hábitos são noturnos, constroem teias irregulares, semelhantes a “algodão esfiapado”. Nos domicílios, ou peridomicílios, costumam se esconder em telhas, tijolos, madeiras, atrás ou embaixo de móveis, quadros, rodapés, caixas ou objetos armazenados em depósitos, garagens, porões, e outros ambientes com pouca iluminação e movimentação. Deve ser ressaltado que a maioria das aranhas que vive em nossas casas, ou que possui a cor marrom, não são perigosas.
Quais os sintomas decorrentes da picada da aranha-marrom?
No início do quadro, a picada costuma ser imperceptível e indolor — o que retarda a procura pelo atendimento médico. Com o passar das horas e de um dia para o outro, o local da picada torna-se cada vez mais dolorido, avermelhado e com o aparecimento de manchas arroxeadas misturadas com áreas de palidez, o que confere à lesão a aparência de “placa marmórea”. Podem surgir bolhas no local e, após alguns dias, a lesão torna-se necrótica, deixando uma úlcera de difícil cicatrização. Também podem ocorrer sintomas gerais, como febre, mal estar e um exantema (vermelhidão espalhado pelo corpo). Em alguns casos, além da lesão na pele, o paciente pode evoluir com anemia, urina escurecidas e conjuntivas amareladas (icterícia), devido à destruição intravascular dos glóbulos vermelhos do sangue (hemólise), insuficiência renal e, mais raramente, coagulação intravascular disseminada.
Acidente por aranha viúva-negra
As aranhas viúvas-negras pertencem ao gênero Latrodectus. Essas aranhas não são agressivas. O tamanho varia com o sexo: as fêmeas podem chegar a 2 cm e os machos, bem menores, em torno de 2 a 3 mm. Possuem hábitos noturnos, geralmente vivem em grupos e costumam fazer suas teias irregulares em arbustos, gramíneas, cascas de coco, canaletas de chuva ou embaixo de pedras. São encontradas próximas ou dentro das casas, preferindo ambientes sombreados, como frestas, embaixo de cadeiras e mesas em jardins.
Quais os sintomas decorrentes da picada da aranha viúva-negra?
Os acidentes por aranhas viúvas-negras (também conhecidas como flamenguinha) são os mais raros, em torno de 1% dos acidentes por aranhas notificados no Brasil. As primeiras manifestações clínicas são a dor local (tipo mialgia), de intensidade variável, sudorese profusa e agitação psicomotora que se iniciam em torno de 30 a 40 minutos após a picada. No local, aparece uma pequena placa avermelhada. Os sintomas podem progredir com extensão da mialgia, contraturas musculares, aumento dos batimentos cardíacos, hipertensão arterial e, mais raramente, arritmias cardíacas e choque.
Como devo proceder se alguém for picado por uma aranha?
A criança picada por aranha deve ser levada imediatamente ao serviço de atendimento de emergência ou ao polo de atendimento mais próximo. Não aguarde o surgimento de sintomas mais graves ou que eles melhorem espontaneamente. Não aplique nada sobre o local da picada, não faça torniquetes nem cortes para tentar retirar o veneno. Essas medidas podem piorar o quadro clínico ou levar a complicações. Se possível, leve o animal que causou o acidente (ou uma foto) para facilitar a sua identificação pela equipe de saúde. Uma técnica simples para capturar a aranha é colocar um pote plástico ou de vidro sobre o animal, passar cuidadosamente uma folha de papel espesso (duro) entre o frasco e a superfície onde está o animal, inverter o conjunto (frasco + papel) e tampá-lo.
Como é realizado o tratamento do envenenamento por aranha?
O tratamento depende da espécie da aranha que causou o acidente e do tipo e da intensidade dos sintomas apresentados pela criança. O tratamento poderá ser somente sintomático ou talvez tenha que ser aplicado o soro antiveneno (soro antiaracnídico), cuja dosagem dependerá da gravidade dos sintomas. Mesmo que a sua aplicação não seja necessária num primeiro momento, a criança deverá permanecer em observação médica em ambiente hospitalar por um período de tempo suficiente para ser descartada a possibilidade de ainda vir a apresentar sintomatologia mais grave que indiquem a utilização do soro antiveneno.
Como podemos prevenir o acidente por aranhas?
A seguir são elencadas algumas recomendações do Ministério da Saúde2voltadas à prevenção dos acidentes com aranhas:
- Manter jardins e quintais limpos. Evitar o acúmulo de entulhos, folhas secas, lixo doméstico, material de construção nas proximidades das casas.
- Evitar folhagens densas (plantas ornamentais, trepadeiras, arbusto, bananeiras e outras) junto a paredes e muros das casas. Manter a grama aparada.
- Limpar periodicamente os terrenos baldios vizinhos, pelo menos, numa faixa de um a dois metros junto das casas.
- Sacudir roupas e sapatos antes de usá-los, pois as aranhas e escorpiões podem se esconder neles e picar ao serem comprimidos contra o corpo.
- Não pôr as mãos em buracos, embaixo de pedras e troncos podres.
- Usar calçados e luvas de raspas de couro podem evitar acidentes.
- Vedar soleiras das portas e janelas ao escurecer, pois muitos desses animais têm hábitos noturnos.
- Vedar frestas e buracos em paredes, assoalhos e vãos entre o forro e paredes, consertar rodapés despregados, colocar saquinhos de areia nas portas e telas nas janelas.
- Usar telas em ralos do chão, pias ou tanques.
- Combater a proliferação de insetos para evitar o aparecimento das aranhas que deles se alimentam.
- Afastar as camas e berços das paredes. Evitar que roupas de cama e mosquiteiros se encostem ao chão. Inspecionar sapatos e tênis antes de calçá-los.
- Preservar os inimigos naturais de escorpiões e aranhas: aves de hábitos noturnos (coruja, joão-bobo), lagartos, sapos, galinhas, gansos, macacos, coatis, entre outros (na zona rural).
Os escorpiões
Os escorpiões são animais pertencentes à classe dos aracnídeos, com mais de 2.400 espécies descritas no mundo até o momento. Eles habitam as regiões quentes e temperadas, onde ocorre uma grande diversidade de espécies. Eles têm hábitos noturnos e se abrigam durante o dia embaixo de pedras e troncos podres, e, dependendo da espécie e do habitat, enterram-se na areia ou no solo úmido das florestas. Já nos meios urbanos, podem ser encontrados embaixo de dormentes das linhas de trem, em lajes de túmulos, nas margens dos córregos, galerias de águas pluviais, canais, galerias de esgoto e bocas de lobo e onde o lixo doméstico e o entulho propiciam alimento farto — principalmente as baratas — e abrigo para esses animais. No Brasil, existem cerca de 160 espécies de escorpiões. Entretanto, as responsáveis por acidentes graves pertencem ao gênero Tityus, particularmente as espécies:
- Tityus serrulatus (Escorpião-amarelo), encontrado em praticamente todas as macrorregiões do país, devido a sua enorme facilidade em se adaptar ao meio urbano e reprodução sem a necessidade de acasalamento (partenogênese), e responsável pela maioria dos acidentes graves.
- Tityus bahiensis (Escorpião-marrom), encontrado na Bahia e regiões centro-oeste, sudeste e sul do Brasil.
- Tityus stigmurus (Escorpião-amarelo-do-nordeste), a espécie mais comum no nordeste, mas agora já encontrada nos estados de São Paulo, Paraná e Santa Catarina.
- Tityus obscurus (Escorpião-preto-da-Amazônia), principal espécie causadora de acidentes e óbitos na região Norte e no Mato Grosso.
Quais os sintomas decorrentes da picada do escorpião?
Chamamos de escorpionismo o envenenamento pela picada do escorpião. O veneno do escorpião causa dor imediata no local da picada, em praticamente 100% dos casos, de intensidade variável, mas na maioria das vezes de forte intensidade. A dor pode ser acompanhada de sensações de formigamento ou dormência, suor e vermelhidão locais. Raramente se observa um ponto de inoculação na pele. Na grande maioria dos acidentes, o quadro clínico se limita a essas ações locais do veneno. Entretanto, em alguns casos, principalmente em crianças que constituem o grupo mais suscetível ao envenenamento grave, pode ocorre a instalação rápida (geralmente em menos de 2 horas) de sintomas sistêmicos como sudorese profusa, agitação psicomotora, tremores, náuseas, vômitos, sialorreia, hipertensão ou hipotensão arterial, arritmia cardíaca, insuficiência cardíaca congestiva, edema pulmonar agudo e choque.
Sem dúvida, o escorpionismo é o acidente por animal peçonhento mais importante no Brasil, seja pelo maior número de casos notificados em relação aos outros tipos de acidentes, seja pelo potencial de causar casos graves e fatais, sobretudo em crianças.
Como devo proceder se alguém for picado por escorpião?
Não há nada que possa ser feito no ambiente doméstico. Nunca aplique nada no local, inclusive gelo! A criança deve ser conduzida imediatamente ao serviço de saúde de emergência ou o hospital de referência mais próximo. Nunca espere que a dor passe ou que a criança melhore, pois ela pode evoluir rapidamente para as formas graves do escorpionismo e o tempo entre a picada e o tratamento eficaz é um fator extremamente importante para o prognóstico. Não perca tempo tentando achar ou capturar o animal! Veja: nunca sabemos quanto de veneno foi injetado e se a criança vai ou não desenvolver a forma grave, independentemente da intensidade da dor!
Como é realizado o tratamento do escorpionismo?
Nos casos em que a criança esteja apresentando apenas os sintomas locais, é preconizado o tratamento adequado da dor, muitas vezes com aplicação de anestésicos locais, associado ou não com outros analgésicos, e a manutenção do paciente sob estrita observação médica em ambiente hospitalar por não menos de seis horas, pois, caso ela venha apresentar os sintomas sistêmicos, haverá a necessidade da aplicação do soro antiveneno (soro antiaracnídico ou soro antiescorpiônico) em doses de acordo com a gravidade e a internação em regime de unidade de terapia intensiva.
Como podemos prevenir o acidente por escorpiões?
O Ministério da Saúde apresenta algumas recomendações visando a prevenção dos acidentes por escorpiões3. São elas:
- Acondicionar lixo domiciliar em sacos plásticos ou outros recipientes que possam ser mantidos fechados, para evitar baratas, moscas ou outros insetos de que se alimentam os escorpiões.
- Combater a proliferação de baratas no intradomicílio. No caso da utilização de pesticidas, recomenda-se o uso de formulações do tipo gel ou pó. Esta atividade deve ser executada somente por profissionais de empresas especializadas.
- Manter jardins e quintais limpos. Evitar o acúmulo de entulhos, folhas secas, lixo doméstico e materiais de construção nas proximidades das casas. Usar calçados e luvas de raspas de couro nas tarefas de limpeza em jardins e quintais.
- Evitar folhagens densas (plantas ornamentais, trepadeiras, arbusto, bananeiras e outras) junto a paredes e muros das casas. Manter a grama aparada.
- Solicitar ao proprietário ou, no impedimento deste, à prefeitura, a limpeza periódica de terrenos baldios vizinhos, pelo menos, numa faixa de um a dois metros junto às casas.
- Sacudir e examinar roupas e sapatos antes de usá-los, pois escorpiões podem se esconder neles e picam ao serem comprimidos contra o corpo.
- Evitar colocar as mãos sem luvas em buracos, embaixo de pedras, troncos podres e em dormentes da linha férrea.
Nas casas e apartamentos utilizar soleiras nas portas e janelas, telas em ralos do chão, pias e tanques. Vedar frestas e buracos em paredes, assoalhos e vãos entre o forro e a parede. Consertar rodapés despregados. Afastar as camas e berços das paredes. Evitar que roupas de cama e mosquiteiros se encostem ao chão. Não pendurar roupas nas paredes. Preservar os inimigos naturais de escorpiões: aves de hábitos noturnos (coruja, joão-bobo), lagartos e sapos.
As taturanas
As lagartas são formas larvárias das borboletas e mariposas. Esses animais pertencem à ordem Lepidoptera (da classe dos insetos) e são muito abundantes, sendo conhecidas mais de 100.000 espécies. Parte dessas espécies de lagartas possui o corpo (tegumento) recoberto por cerdas urticantes, geralmente finas e flexíveis, contendo toxinas capazes de provocar irritações e queimaduras quando em contado com a pele humana. Daí o nome popular “taturana”, que na língua tupi significa “semelhante a fogo” (tatá = fogo, rana = assemelhado). Também são conhecidos outros nomes populares, como: lagarta-cabeluda, lagarta-de-fogo, taturana-gatinho, dentre outros. Fato interessante dessas taturanas é que muitas se apresentam coloridas e com formas exuberantes e acabam servindo de atração para as crianças, causando acidentes.
Quais os sintomas decorrentes do contado com taturanas? Pode ser grave?
Os acidentes com lagartas ocorrem quando a criança toca o animal, geralmente em tronco de árvores ou ao manusear a vegetação, seja em locais abertos, jardins ou mesmo em vasos de plantas. O contato com as cerdas faz com que o veneno contido nos “espinhos” seja injetado na pele. A dor, na maioria dos casos, é de forte intensidade, irradiando-se do local do contato para outras regiões próximas do corpo. Além da dor, a área do contato pode tornar-se avermelhada e inchada, podendo eventualmente evoluir com a formação de bolhas e necrose superficial. O quadro inflamatório local geralmente se resolve em torno de 24 horas, sem complicações. Entretanto, existe um gênero em particular, denominado Lonomia (principal espécie Lonomia obliqua) cujo veneno, além dessas manifestações locais descritas, pode causar uma síndrome hemorrágica grave. Nesse caso, a pessoa acidentada pode apresentar sintomas gerais, como mal-estar, dor de cabeça, náuseas e dor abdominal, e manifestações hemorrágicas que podem ser de categoria menos grave, como manchas arroxeadas na pele (equimoses), sangramento nasal (epistaxe) ou gengival (gengivorragia), até muito graves, com a presença de sangue na urina (hematúria), vômitos com sangue (hematêmese) e hemorragia intracraniana, além de insuficiência renal, com potencial de levar ao óbito.
Como devo proceder se alguém sofrer um acidente com taturana?
De imediato, lave o local com água fria e coloque uma bolsa com gelo no local (saco plástico envolto por uma toalha, deixando no máximo por 10-20 minutos de cada vez) e conduza a criança para uma unidade de saúde de emergência. Se possível, leve uma foto ou o animal que causou o acidente. Para apanhar a taturana com segurança, use luva e camisa de manga longa, e uma pinça longa ou graveto para colocar o animal dentro de um pote ou de uma garrafa pet cortado ao meio, não se esquecendo de tampar firmemente e de fazer alguns furos.
Como é realizado o tratamento do acidente com taturanas?
A abordagem inicial é voltada para o alívio da dor, podendo ser utilizados analgésicos sistêmicos ou locais, dependendo da intensidade da dor e da região do corpo afetada. O principal desafio será descartar o acidente por Lonomia, daí a importância da identificação do animal causador, através de foto ou da presença do próprio animal, quando possível, ou do fornecimento de informações detalhadas sobre as características da taturana. Na ausência de informações seguras ou na possibilidade de tratar-se de acidente lonômico, serão solicitados exames laboratoriais para verificar se ocorreram alterações na coagulação sanguínea, que poderão ser repetidos em intervalos de 12 horas, conforme o caso. Havendo alterações nesses exames, será indicado o uso do soro antiveneno (soro antilonômico), em doses de acordo com a gravidade, e internação hospitalar.
Como podemos prevenir o acidente com taturanas?
De uma maneira geral, ao coletar frutas no pomar, realizar atividades de jardinagem ou em qualquer outra em ambientes silvestres, observar bem o local, troncos, folhas, gravetos antes de manuseá-los, fazendo sempre o uso de luvas para evitar o acidente. No caso das crianças, principalmente as pequenas, não as deixe sozinhas nos ambientes onde possa haver a presença desses animais. Verifique sempre se há taturanas presentes nas plantas e árvores dos jardins e nos vasos de plantas. Oriente sempre para que não toquem nesses animais.
As abelhas
Abelhas são insetos da ordem Hymenoptera, assim como as vespas e as formigas. Estima-se a existência de algo em torno de 20 mil espécies no mundo, com papel importante na biodiversidade. Algumas dessas espécies (Apis melífera) são conhecidas por produzirem o mel e viverem em colônias, onde se observa a presença de uma rainha, alguns machos férteis e milhares de operárias fêmeas. Essas operárias possuem o aparelho ovopositor modificado sob a forma de ferrão, associado a uma glândula de veneno, e são responsáveis pela defesa da colônia, atacando apenas quando ameaçadas. O aparelho inoculador é extremamente sofisticado: ao picar, se separa do corpo da abelha (que morre em seguida) e continua a injetar veneno por alguns segundos. Também ocorre a liberação de feromônio, que atrai outras abelhas, podendo ocasionar acidentes com centenas de picadas.
As abelhas podem causar acidentes graves?
Na grande maioria das vezes, a picada de abelha provoca dor, inchaço e vermelhidão local que costuma regredir em algumas horas ou de um dia para o outro. Chamamos isso de reação tóxica local. Entretanto, quando a pessoa é alérgica ao veneno, essa reação local pode ser mais intensa e perdurar por vários dias. Aqui uma preocupação: se o inchaço for grande e próximo das vias aérea pode ocasionar obstrução mecânica. Além disso, há a possibilidade do desenvolvimento de uma reação alérgica sistêmica, cujos sintomas podem variar desde apenas o comprometimento cutâneo, com vermelhidão e lesões urticariformes pruriginosas espalhadas pelo corpo, associadas à sensação de mal-estar, até um quadro grave, com dificuldade respiratória (ocasionada por edema de glote e obstrução das vias aéreas), alterações cardiocirculatórias (choque anafilático), colapso e perda da consciência. Por outro lado, no caso de múltiplas picadas, que podem variar de algumas dezenas a centenas de picadas, a grande quantidade de veneno injetada leva a um quadro de intoxicação sistêmica, em geral grave e potencialmente fatal, com alterações em vários sistemas orgânicos, incluindo alterações hematológicas (hemólise e anemia), respiratórias (insuficiência respiratória), cardiovasculares (infarto agudo do miocárdio, insuficiência cardíaca e choque), hepáticas (destruição de células hepáticas), renais (insuficiência renal), sistema muscular (destruição de fibras musculares), neurológicas (coma) e falência de múltiplos órgãos.
Como devo proceder se alguém sofrer um acidente com abelha?
No caso de uma única picada, preconiza-se a retirada do ferrão, compressas frias e o uso de analgésicos comuns. Mesmo assim, recomenda-se que a criança seja avaliada pelo pediatra. No caso de reações alérgicas (locais ou sistêmicas) ou de múltiplas picadas, a criança deve ser conduzida imediatamente para um serviço de atendimento de emergência.
Como é realizado o tratamento dos acidentes por abelhas?
O tratamento das reações alérgicas depende da gravidade e não difere daquele recomendado para as reações de hipersensibilidade de outras causas. Para os acidentes provocados por múltiplas picadas, ainda não está disponível um antiveneno específico para uso clínico (o soro antiapílico encontra-se em desenvolvimento através de uma parceria entre o Centro de Estudos de Venenos e Animais Peçonhentos da Universidade Estadual Paulista – CEVAP/UNESP – e o Instituto Vital Brazil), sendo o tratamento sintomático e de suporte, na maioria das vezes em regime de internação em unidade de tratamento intensivo (UTI).
Se a criança teve uma reação alérgica sistêmica, ela poderá se repetir se for picada novamente? O que deve ser feito?
Sim, embora não se possa afirmar que será mais grave ou não. Assim, após o tratamento da reação alérgica, a criança deve passar em consulta com especialista em alergia (médico alergologista) para avaliar a necessidade, ou não, de ser submetida a um tratamento de dessensibilizarão do veneno (imunoterapia), além de receber outras orientações, como quando e de que maneira utilizar dispositivos de injeção de adrenalina, naturalmente se o risco de reações graves justifique a sua utilização, sempre com orientação médica.
Existem formas de prevenção de acidentes por abelhas?
O Ministério da Saúde aponta algumas orientações para prevenir os acidentes por abelhas4:
- A remoção das colônias de abelhas situadas em lugares públicos ou residências deve ser efetuada por profissionais devidamente treinados e equipados, preferencialmente à noite ou ao entardecer, quando os insetos estão calmos.
- Evite aproximar-se de colmeias de abelhas africanizadas sem estar com vestuário e equipamentos adequados (macacão, luvas, máscara, botas, fumigador etc.).
- Evite caminhar e correr na rota de voo das abelha.
- Barulhos, perfumes fortes, desodorantes, o próprio suor do corpo e cores escuras (principalmente preta e azul-marinho) desencadeiam o comportamento agressivo e, consequentemente, o ataque de abelhas.
- Sons de motores de aparelhos de jardinagem, por exemplo, exercem extrema irritação em abelhas. O mesmo ocorre com som de motores de popa.
- No campo, o trabalhador deve ficar atento para a presença de abelhas, principalmente no momento de arar a terra com tratores.
Considerações finais
Como saber em quais unidades de saúde o soro antiveneno está disponível?
O Ministério da Saúde mantém em seu site5 uma lista de hospitais de referência para o atendimento de acidentados por animais peçonhentos. Entretanto, no caso de um acidente por qualquer tipo de animal peçonhento, recomenda-se a procura de uma unidade de saúde de emergência mais próxima, pois, mesmo que ali não tenha o soro antiveneno disponível, poderá ser realizado o tratamento de suporte e a criança ser transferida de forma segura ao centro de referência local, ou o soro ser solicitado, dependendo do risco no transporte. Procure conhecer, antecipadamente, as unidades de atendimento de emergência e os hospitais de referência da sua região.
Sites recomendados
Informações adicionais sobre os acidentes por animais peçonhentos podem ser obtidas nos seguintes sites:
- FUNED – Fundação Ezequiel Dias: http://www.funed.mg.gov.br/publicacoes/;
- Instituto Butantan: https://butantan.gov.br/atendimento-medico/primeiro-socorros;
- IVB – Instituto Vital Brazil: http://www.vitalbrazil.rj.gov.br/index.html#,
- Ministério da Saúde: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/a/animais-peconhentos.
20.5.7Aspiração de corpo estranho
Corpo estranho (CE) é qualquer objeto sólido ou líquido que pode penetrar o corpo ou suas cavidades. Aspiração consiste na entrada de corpo estranho na via respiratória. É uma emergência médica, pois, além de poder levar a vítima a óbito, pode causar sequelas se não diagnosticada e tratada adequadamente. Cerca de 80 % dos casos ocorrem em menores de 5 anos, (principalmente menores de 3 anos): as crianças pequenas “conhecem as coisas” colocando-as na boca, são muito ativas enquanto comem e não têm molares para mastigar alimentos suficientemente.
Quais são os objetos mais comumente aspirados por crianças?
Dentre os alimentos, temos: pipoca, nozes, amendoim, milho, feijão, salsichas e ossos ou fragmentos de ossos. Outros objetos como peças de brinquedos, bolinhas, moedas, tampas de canetas, tachinhas, pinos, clipes de papel, unhas, parafusos, balas e bexigas (essa última, geralmente fatal).
Quais são os sintomas da aspiração?
Os sintomas dependem do grau de obstrução das vias aéreas, podendo se apresentar como eventos agudos com dificuldade respiratória leve à grave. Um corpo estranho não obstrutivo e não irritante, em compensação, pode produzir poucos sintomas, mesmo após um período de tempo prolongado. Por isso é importante que, na suspeita de aspiração de um corpo estranho, a vítima seja levada ao serviço médico.
Um episódio testemunhado de engasgo seguido de acesso de tosse, muitas vezes acompanhado de lábios roxos, principalmente em uma criança previamente saudável, é bastante sugestivo de aspiração.
O que devo fazer se meu filho engasgar?
Se ele estiver tossindo efetivamente, não mexa (não sacuda, não bata nas costas, não vire de ponta cabeça, não tente retirar com os dedos o que você não estiver vendo). Retire com a mão apenas objetos ou secreção visíveis. Mantenha a criança em posição confortável para ela. A tosse é, neste caso, a manobra mais eficaz para retirar o corpo estranho que causou o engasgo, nesse caso, com obstrução parcial da via aérea; também significa que há respiração. Incentive-o a tossir e leve-a imediatamente ao serviço de emergência.
Se a criança não emitir nenhum som (sinal de obstrução completa da via aérea):
- Menores de 1 ano: coloque o bebê de bruços sobre o antebraço não dominante com a cabeça mais abaixo que o corpo, tendo o cuidado de manter a boca do bebê aberta (apoiar o antebraço + bebê na coxa do socorrista). Aplicar 5 batidas com o “calcanhar” da mão nas costas do bebê, na região entre as escápulas (omoplatas). Mova o bebê para o outro antebraço, virando-o de barriga para cima, mantendo a boca aberta. Novamente, a cabeça da criança deve estar mais baixa que o peito, durante todo o movimento. Usando dois dedos da mão livre, faça cinco compressões no osso do peito (esterno) logo abaixo de uma linha imaginária traçada entre os mamilos. Repita esse ciclo até o bebê expelir o objeto ou desmaiar (ficar inconsciente). Se ficar inconsciente, acione o serviço de emergência (ligue 192 ou 193).
Observação: você pode fazer a ligação pelo celular e deixar no “viva-voz” para orientações, quando acionar o serviço de emergências.
- Maiores de 1 ano (manobra de Heimlich): posicione-se em pé ou ajoelhado atrás da criança, avisando-a que irá ajudá-la e inicie a manobra: apoie a mão fechada em punho, encoberta pela outra, entre o umbigo e a extremidade inferior do osso do peito da criança e realize compressões em trancos para dentro e para cima, até que a criança consiga expelir o objeto ou desmaie. Se ficar inconsciente, acione o serviço de emergência e proceda como na parada cardiorrespiratória.
Como evitar a aspiração de corpo estranho?
- Ensine a criança a não colocar pequenos objetos entre os lábios ou na boca.
- Certifique-se de que os brinquedos estão em boas condições e são adequados à idade.
- Compre brinquedos certificados pelo Inmetro ou órgão correspondente do país de origem.
- Ofereça alimentos bem cortados e em pequenas quantidades para evitar que as crianças coloquem muita comida na boca.
- Ensine a criança a mastigar bem seu alimento. Sente-se e coma com ela para dar o exemplo, mastigando bem os alimentos e comendo lentamente.
- Não dê alimentos duros e crocantes (como pipocas, doces duros, amendoins etc.) a uma criança até que tenham pelo menos 4 anos de idade.
- Tenha muito cuidado com alimentos que possam se amoldar na via aérea (uvas, tomate cereja, salsicha) ou objetos com o mesmo risco (bexigas).
- Certifique-se de que a criança esteja acordada e bem alerta antes de oferecer comida.
- Nunca dê ou deixe que a criança ou bebê se alimente deitado.
- Não ofereça nada para a criança comer ou beber enquanto estiver andando, brincando, falando, chorando etc. Evite alimentar a criança com o carro em movimento.
20.5.8Acidentes nos esportes
A prática de esportes auxilia o desenvolvimento motor, cognitivo, físico e social de crianças e adolescentes. Ajuda a incorporar hábitos saudáveis, desenvolve a coordenação motora, aprimora a cognição (crianças e adolescentes fisicamente ativos têm o raciocínio estimulado); propicia a sociabilização, combate a obesidade infantil; ensina a respeitar regras (em modalidade coletiva, aprendem a conviver com hierarquia, nas figuras do técnico e do capitão de equipe, por exemplo); prepara para lidar com frustrações e diminui o risco de doenças mentais.
Quais são os acidentes mais comuns nos esportes?
A maioria das lesões é de intensidade leve, principalmente entorses, distensões musculares e hematomas. Fraturas, lesões ósseas ou da placa de crescimento, lesões por esforço repetitivo e trauma na cabeça também podem ocorrer.
Todos os esportes têm risco de lesões. Em geral, quanto mais contato em um esporte, maior o risco de uma lesão traumática. Existem dois tipos principais de lesões: a lesão aguda, geralmente resultante de um evento isolado, como uma batida ou queda; e a lesão “crônica” por esforço repetitivo (LER — lesão por esforço repetido) que se desenvolve lentamente, em decorrência da sobrecarga em tendões, músculos, ossos ou articulações. Crianças que participam de dois ou mais esportes que utilizam a mesma parte do corpo, como natação e voleibol, apresentam maior risco de LER do que aquelas que participam de esportes com ênfase em diferentes grupos musculares, como futebol e basquetebol.
Como tornar a prática de esportes segura para crianças e adolescentes?
Em primeiro lugar, deve-se escolher uma atividade que seja compatível com o desenvolvimento físico e mental da criança/adolescente em questão. A afinidade e o gosto da criança pelo esporte devem ser considerado. Permita que as crianças pequenas pratiquem uma variedade de atividades físicas. Estudos mostram que as crianças se desenvolvem melhor quando praticam diferentes tipos de esportes antes da puberdade. Eles também são menos propensos a perder o interesse ou desistir.
Toda criança ou adolescente deve passar por uma avaliação física com um médico, antes da participação na atividade esportiva. Garanta que a criança/adolescente utilize equipamentos adequados para a prática esportiva, como protetores (pescoço, ombro, cotovelo, peito, joelho, canela, dentes), capacetes, óculos, sapatos e roupas adequados, colete salva-vidas e até protetor solar. Deve-se orientar sobre o uso de itens de proteção de maneira didática, de tal forma que a criança/ adolescente compreenda a importância do uso.
O ambiente onde será realizada a atividade deve contar com medidas de segurança e equipe especializada. As crianças/adolescentes devem ter pelo menos um ou dois dias de descanso por semana das atividades esportivas. Oriente o jovem atleta a informar caso sinta dores.
Devem se hidratar e alimentar adequadamente. Atletas em crescimento precisam de mais calorias e de alimentos ricos em ferro e cálcio. As adolescentes devem ficar atentas aos problemas causados pelo excesso de treinamento, como a falta de menstruação.
Quando deixar que a criança/adolescente se inicie no esporte competitivo?
A especialização esportiva ocorre quando uma criança/adolescente se concentra em apenas um esporte, geralmente o ano todo. O esporte competitivo vai além da atividade física. Ele requer maiores habilidades motoras, treinamentos específicos, carga horária de treinamento elevada e compromisso com o esporte praticado. Pais e treinadores são os maiores motivos pelos quais as crianças decidem treinar intensamente.
A iniciação esportiva ideal divide-se em estágios, conforme a maturidade física e mental da criança. Os primeiros anos de treinamento (a partir dos 5 anos) são importantes para aquisição de habilidades motoras globais, que poderão ser utilizadas em vários esportes posteriormente. Entre 10 e 11 anos, amplia-se o repertório de movimentos e se introduz os elementos técnicos, regras e táticas dos esportes. Nos anos seguintes, com a puberdade, meninos e meninas terão um aumento do tamanho corporal pela ação dos hormônios. Muitos passarão por uma fase de adaptação ao novo corpo, em relação à coordenação e equilíbrio, principalmente. Além disso, esse novo peso e tamanho aumentam o risco de lesão do ligamento cruzado anterior (LCA) um dos principais ligamentos que dão estabilidade ao joelho. Essas lesões ocorrem com mais frequência em meninas, por não apresentam o ganho muscular equivalente que os meninos têm nessa fase com o pico da testosterona. Os treinos devem ser específicos e auxiliar essas mudanças.
De acordo com a Academia Americana de Pediatria, a melhor fase para que o adolescente se especialize em um esporte é em torno de 15 anos, quando há um significativo desenvolvimento da sua capacidade intelectual e física.
Como avaliar se o treinamento está sendo excessivo para a criança/adolescente?
Embora muitas preocupações envolvam a intensa competição esportiva em crianças, pouca informação científica está disponível para apoiar ou refutar esses riscos. No entanto, é importante fazer esforços para ajudar os jovens atletas a evitar riscos potenciais de treinamento e competição excessivas. As condições de crianças atletas envolvidas em treinamento intenso devem ser acompanhadas regularmente por um pediatra. A atenção deve ser focada em medidas seriadas de composição corporal, peso e estatura; achados cardiovasculares; maturação sexual e evidências de estresse emocional. Os pais, técnico e pediatra devem estar alertas para sinais e sintomas do excesso de treino, incluindo declínio no desempenho, perda de peso, anorexia e distúrbios do sono.
O que fazer em caso de lesão?
- Ralados/cortes: lave bem com água e sabão. Se estiver sangrando, comprima com pano limpo, gaze estéril. Se mantiver sangramento considerável após alguns minutos, ou o corte for mais profundo, procure serviço de emergência.
- Hematomas, marcas de batida: aplique gelo e comprima o local, retirando de 30 em 30 segundos (por apenas alguns segundos), para que não “queime a pele”.
- Em caso de fraturas, coloque o membro afetado na posição mais natural possível, sem causar dor ou desconforto à criança/ adolescente. Imobilize o local da fratura e as articulações logo acima e logo abaixo da área afetada (para impedir de mexer). Use papelão, jornais dobrados, cabos de vassoura e leve a criança/adolescente ao serviço de emergência.
- Se a criança /adolescente bateu a cabeça — observe sinais de alarme: vômitos, sonolência, alteração na marcha, na fala ou dor importante. Se houve perda de consciência, desorientação mesmo que brevemente, leve-a ao serviço de emergência.
20.5.9Brinquedos
Por que os brinquedos são importantes para a criança?
Por meio dos brinquedos, jogos e brincadeiras reforça-se o desenvolvimento das crianças. Os pais são os principais responsáveis por fornecer experiências de qualidade para que seus filhos aprendam. Os brinquedos podem ser utilizados como adjuvantes no processo e não como substitutos de carinho e atenção. Os brinquedos ajudam a desenvolver a autoestima, a segurança e reforçam a coordenação motora e as habilidades sociais.
Quais são os pontos principais na escolha dos brinquedos?
A escolha deve ser cuidadosa, levando em consideração a idade, o interesse e o nível de habilidades das crianças. Importante verificar se atende à recomendação de idade e se possui certificação de qualidade. Optar por brinquedos leves, que não tragam perigo caso caiam sobre a criança. Evitar brinquedos que produzem ruídos altos ou estridentes, com pontas ou bordas afiadas, que tenham partes pequenas ou que destaquem componentes (menores de 3 anos), que tenham correntes, tiras e cordas com mais de 15 cm, que arremessem ou lancem componentes (menores de 5 anos). Ler as instruções sobre o uso e como deve ser higienizado.
Falando em limpeza, como deve ser feita?
Móveis e chão devem ser limpos utilizando água e detergente líquido; tampo das mesas deve ser higienizado com álcool; brinquedos de plástico e borracha com água e sabão neutro semanalmente. Usar pano umedecido em água nos demais brinquedos e prateleiras.
Como se recomenda dividir os brinquedos por faixas etárias?
Recomenda-se dividir e separar as faixas etárias em 3 grupos: menores de 2 anos, de 2 a 5 anos e de 5 a 10 anos. No momento da compra, é preciso ter em mente a fase de desenvolvimento que a criança se encontra e sua capacidade em manipular com segurança esses brinquedos — sua maturidade pode ser mais importante do que a idade cronológica.
Onde os brinquedos devem ser guardados?
As crianças devem ser orientadas, desde pequenas, a guardar os seus brinquedos depois de brincar, para evitar acidentes (quedas e tropeções). Podem ficar em caixas próprias para seu acondicionamento — mas devem ser seguras: a tampa deve ter trava de segurança e deve ter aberturas para ventilação. Brinquedos das crianças maiores devem ser mantidos fora do alcance dos pequenos — em armários altos e trancados — e as crianças mais velhas devem ser ensinadas a manter seus brinquedos longe dos menores.
A criança deve ser supervisionada enquanto brinca?
Sim! Sempre de perto e de forma atenta, principalmente crianças menores de 6 anos. E não é só isso: tirar e descartar as embalagens, especialmente as plásticas; manter caixas, objetos grandes e acolchoados longe de janelas, varandas e portas (para não servirem para escalar, tropeçar e cair); mostrar à criança como usar os brinquedos de forma adequada e segura; brinquedos dirigidos pela criança não devem ser usados próximo a escadas, piscinas, garagens e ruas.
É importante cuidar da manutenção dos brinquedos?
É fundamental que os brinquedos sejam verificados periodicamente para avaliar rupturas e possíveis perigos.
Alguns brinquedos podem apresentar riscos sociais ou emocionais?
Podem sim: apresentações de violência interativas, como em alguns jogos de videogame e computador, podem levar a criança a imitar atos de violência. Armas de brinquedo ou outros que promovem a violência devem ser desencorajados. Os pais também devem considerar se um brinquedo promove preconceitos raciais, estereótipos étnicos, culturais ou de gênero.
Quais são os tipos de acidentes mais comuns associadas com brinquedos?
| Cortes e contusões | Verificar o estado do brinquedo, pontas ou bordas afiadas, quando quebrar jogar fora. |
|---|---|
| Perfurações | Pontas ou bordas afiadas |
| Afogamentos | Vigilância total de banheiros, baldes, piscinas, praias, poços e rios, mesmo em água rasa. |
| Queimaduras | Evitar ou vigiar rigorosamente o uso de brinquedos elétricos ou movidos à gasolina ou derivados. |
| Intoxicações | Descartar brinquedos pintados com tinta que contém chumbo. |
| Sufocação/ asfixia | Não deixar a criança ter acesso a balões e bexigas. Manter objetos pequenos (clipes, parafusos, alfinetes, grampos de cabelo, moedas, sacos plásticos e embalagens) longe da criança. |
| Acidente de captação | Não ter brinquedos com molas, rodas dentadas ou dobradiças. |
Fonte: Os autores.
Quais componentes presentes nos brinquedos são extremamente perigosos e podem ser responsáveis por atendimentos nos serviços de emergências?
Alguns componentes são muito perigosos, como os ímãs/magnetos, metais pesados e ftalatos.
Os imãs, quando ingeridos pela criança podem ocasionar graves lesões que demandam cirurgia de emergência —quando é engolido mais de um magneto bem forte em um curto período, podem atrair um ao outro, enquanto percorrem o sistema digestório, podendo causar torções e criar um bloqueio e rasgar as paredes do intestino, causando perfurações.
Metais pesados, como o chumbo, cádmio e níquel, já foram encontrados, principalmente na pintura, de brinquedos, bijuterias e material escolar. Crianças pequenas costumam colocar tudo na boca e brinquedos que contenham metais pesados podem causar, entre outros, problemas de aprendizado, cognitivos, hormonais, reprodutivos, toxidade hepática e câncer.
Quanto aos ftalatos, materiais utilizados nos brinquedos, responsáveis por dar ao policloreto de vinil (PVC) um aspecto de borracha, maleável e com toque aveludado, observou-se que em altas doses estas substâncias podem causar mudanças hormonais e reprodutivas.
No Brasil, os brinquedos são certificados?
Aqui no Brasil os brinquedos possuem sua conformidade avaliada de forma compulsória — isso significa que todos os brinquedos comercializados no mercado formal têm seu processo produtivo avaliado por organismos acreditados pelo Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro).
Já brinquedos que estão fora do mercado formal e são importados de outros países, acabam não tendo certificação. Já se encontrou irregularidades como: cordas de puxar maiores que o tamanho estabelecido; não apresentar indicação da idade mínima; não ter rotulagem de advertência em português; possuir partes pequenas que, quando destacadas, poderiam ser engolidas pelas crianças e nível de pressão sonora bem maior do que a permitida.
E os brinquedos e suas propagandas que anunciam estímulo ao desenvolvimento da criança?
Não há nenhuma evidência científica que sugira que qualquer brinquedo é necessário ou suficiente para promover um aprendizado ideal. Na realidade, esses anúncios promovem desinformação, expectativas inadequadas e gastos desnecessários, além da culpa que pode gerar nos pais que não podem pagar por tais brinquedos.
20.5.10Parques infantis - playgrounds
O parque infantil é importante para a criança?
Sim, ao oferecer ar fresco, estimular atividades físicas e amizades e colaborar para a construção de hábitos saudáveis e seguros. Essa expansão de horizontes estimula o desenvolvimento, mas pode representar diversos perigos, que poderão ser evitados se os espaços forem adequados e estruturados.
Quais os principais riscos de acidentes nos playgrounds?
As quedas são os acidentes mais comuns, seguidas por riscos relacionados com o próprio equipamento, tais como quebra e montagem, encarceramentos e colisões com outras crianças ou contra o equipamento que está parado ou em movimento. As mortes estão relacionadas ao uso de cordas, vestuário inadequado, quedas e falhas estruturais.
Na maioria das vezes, os acidentes poderiam ser evitados com medidas simples de prevenção que, se praticadas e obedecidas por todos, evitam traumas e lesões graves. Regras de segurança e manutenção adequada dos equipamentos são importantes para a segurança das crianças.
A supervisão da criança enquanto está brincando é importante?
É fundamental e a qualidade desta supervisão depende do conhecimento do responsável, com relação ao comportamento das crianças, tipos de equipamentos e noções de segurança. Pais e encarregados de playgrounds devem estar cientes de que nem todos os seus equipamentos são adequados para todas as crianças que utilizam o parque infantil. Crianças e pré-escolares exigem mais supervisão do que as mais velhas, mas não se deve confiar em deixá-las sozinhas um instante sequer.
Quais são os principais requisitos para um playground seguro?
O ambiente do playground deve ser visualizado como um todo, brinquedos e equipamentos devem ser separados por faixa etária e é fundamental que exista sinalização para qual idade é apropriado. Recomenda-se dividir e separar as faixas etárias em 3 grupos: menores de 2 anos, de 2 a 5 anos e de 5 a 10 anos. Cada faixa etária tem uma série de requisitos de segurança que devem estar incorporadas ao projeto e área do playground.
Quais os tipos de material dos equipamentos são os melhores para cada faixa etária?
Para crianças pequenas playgrounds de brinquedos de plástico rotomoldados são mais seguros, mas como absorvem muito calor, é recomendável que fiquem num local coberto, mas perto de área externa sem cobertura. Embora a vida útil do material seja menor, os riscos de causar acidentes graves diminuem bastante.
Já para os maiores de 7 anos, o brinquedo de madeira atende com mais tranquilidade e segurança. Se os equipamentos forem instalados em locais públicos, sujeitos a serem vandalizados, os de madeira e aço são mais robustos.
Como deve ser o piso do playground?
O material deve ser resistente à abrasão, possuir estabilidade química, oferecer boa manutenção, alto desempenho na absorção do impacto da queda, sistema antiderrapante adequado, além de uma composição que não agrida a criança e o meio ambiente.
A escolha mais correta é o piso emborrachado (que tenha no mínimo 30 cm de altura para a absorção necessária das quedas). Materiais soltos, como areia e pedriscos atendem a esse requisito, desde que respeitada a camada mínima de 30 cm. Pisos de concreto, asfalto, terra batida e até mesmo grama natural ou sintética não são seguros: com o uso ficam como a terra seca, portanto incapazes de absorver impactos. Madeira pode se decompor facilmente e serragem pode se espalhar para fora da área do playground. Pisos de pneus reciclados são baratos, absorvam bem e são duráveis, mas podem conter substâncias tóxicas e a limpeza é difícil.
Como deve ser a segurança de cada equipamento?
A melhor medida de prevenção contra acidentes em playgrounds é a supervisão atenta dos pais, que devem manter uma visão direta e próxima das crianças, sem obstruções e sempre monitorarem suas brincadeiras para o uso correto dos brinquedos e equipamentos. Os pais podem manter certa distância à medida que percebem que os filhos estão seguros.
Analisando brinquedo por brinquedo, temos:
- Balanço: deve ser utilizado exclusivamente por menores de 12 anos e apenas por uma criança por vez; confeccionado em material macio (plástico, lona ou borracha), evitar de metal ou madeira; a distância entre um balanço e outro deve ser pelo menos de 60 cm. Ao redor dos balanços devem existir barreiras de segurança, como cercas ou paredes, que devem estar localizadas pelo menos a 1,80 m de cada lado da estrutura do balanço e a entrada deve ser projetada de forma a restringir a velocidade dos usuários. Balanços devem estar longe de outros equipamentos, as distâncias ideais na frente e atrás devem ser o dobro da altura da barra suspensa. As crianças sempre devem se sentar no assento do balanço (nunca ficar de pé ou de joelhos), devem segurar as laterais com ambas as mãos enquanto está em movimento e somente sair dele quando parar completamente. Se o balanço estiver sendo utilizado por um bebê, deve ser um modelo apropriado para bebês e os pais devem manter a distância de um braço de alcance da criança. Assentos para lactentes devem ser do tipo cadeira, com encosto e proteção nas laterais, com alças de correntes fortes para a criança se segurar, sendo estas protegidas por plástico ou borracha. As crianças devem estar a uma distância segura dos balanços, tomando cuidado para não correr ou andar na frente ou atrás dos que estão em movimento.
- Escorregador: devem estar instalados em área de sombra. O material de que é feito não pode acumular energia solar em excesso (os de plástico são melhores porque não esquentam). A prancha de deslizamento deve ser constituída de chapa única, com bordas arredondadas (evitando escoriações, cortes ou que a roupa da criança se enrosque). Uma criança de cada vez na plataforma e ao descer pelo escorregador. As crianças devem subir os degraus um a um, mantendo distância uma da outra. A escada de acesso deve ter corrimão e espaço no topo, que permita que a criança sente com facilidade e segurança. A criança deve escorregar sentada, com os pés para frente, ao descer, não devendo encostar qualquer parte do corpo nas laterais. No final da rampa, uma elevação discreta ajuda a amortecer o impacto da descida. Crianças menores de 8 anos podem escorregar em equipamentos de até 1,80 metro, acima disso e até 2,40 metros, é recomendado somente para crianças com mais de 8 anos.
- Gira-gira: é contraindicado para menores de 2 anos; uma cerca ou outro tipo de barreira física ajuda a restringir o acesso indevido ao brinquedo em movimento. Deve ter altura suficiente para evitar o risco de o pé da criança se prender entre o chão e o brinquedo. Deve ter estruturas ou alças nas quais a criança possa se segurar, um dispositivo que limite a velocidade de rotação em 5 m/s a 30 rotações por minuto, além de um encaixe perfeito da parte giratória com a fixa.
- Gangorra: adequada para menores de 5 anos, deve possuir alças para as crianças se segurarem de modo firme. Os assentos da gangorra devem ter o formato de cadeira, de material confortável, e sua altura máxima de elevação do chão não pode ultrapassar o limite de 1 metro. As crianças devem segurar firmemente com as duas mãos quando a gangorra está em movimento, colocando um pé de cada lado. Devem levar uma criança por vez de cada lado, que se sentarão frente a frente. Os pesos e tamanhos das crianças que vão brincar em cada lado devem ser aproximados. A outra criança deve ser avisada quando quiser descer da gangorra.
- Tanque de areia: deve estar situado em local que receba sol; inspecionado a cada três meses, com a retirada de objetos e materiais que se acumularam. A areia deve ser trocada a cada dois anos e necessita ser revolvida anualmente a uma profundidade de 50 cm. Evitar comer, beber, urinar, evacuar ou trocar fraldas no banco de areia. Aconselha-se cobrir o tanque à noite, para evitar o acesso de animais. Evitar levar brinquedos ou objetos pontudos ou cortantes para o banco de areia.
- Brinquedo de escalar: recomendado para crianças entre 5 e 12 anos de idade. Sua altura total não deve exceder dois metros. Deve ser aberto e precisa dispor de barras bem fixadas ao solo. As crianças não devem pular de qualquer altura da barra do brinquedo e não podem colocar a cabeça ou os pés entre suas barras.
O que é importante que os pais ou cuidadores saibam para prevenir acidentes?
A supervisão deve ser constante, por meio de um adulto atento para mantê-las em vigilância enquanto brincam e, se possível, supervisão por mais de um adulto. As crianças devem estar de short ou calça, camiseta e calçado ao utilizar qualquer brinquedo do parque. Recomenda-se tirar acessórios como boné ou capuz quando estiverem utilizando os brinquedos. Importante separar as crianças por idade: maiores de 5 anos de um lado, menores- entre 2 e 5 anos de outro.
O que pais e cuidadores sempre devem analisar?
Se os equipamentos estão no tamanho adequado para as crianças, de que material é o piso do parquinho, se absorve impactos e se os brinquedos estão instalados corretamente e de acordo com as orientações do fabricante e as normas de segurança.
Quais são as principais recomendações de segurança que devem ser adotadas por todos?
Ideal que o playground esteja em região iluminada e arborizada, onde bata sol, tenha sombra e esteja livre de poluição ambiental e sonora; separado do tráfego de automóveis, bicicletas, patins e skates; seja cercado com barreira física para impedir o acesso à rua; possua em suas cercanias bebedouro, banheiro e telefone público; tenha manutenção periódica dos brinquedos (a cada 3 meses por profissional especializado) e checagem periódica para garantir que não haja superfícies com arestas ou enferrujadas; cada brinquedo e equipamento deve ter placa de identificação, (com a idade para a qual é destinado) e deve estar separados por faixas etárias;
Observações:
- Defeitos encontrados devem ser comunicados imediatamente aos responsáveis pelo parque, para que o brinquedo seja interditado se for o caso.
- A Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), por meio da Comissão de Estudos Especial de Segurança, elaborou normas para garantir a segurança das crianças. A NBR 16.071 traz, de maneira mais clara e objetiva, a recomendação para que os responsáveis pelos playgrounds tenham um livro permanente de registro de ocorrências, façam inspeções mensais e providenciem laudos técnicos anuais por um especialista. A ABNT lembra que a norma não é obrigatória, mas adverte que as orientações devem ser cumpridas rigorosamente. É recomendada uma vistoria diária pelo agente da comunidade, o zelador ou mesmo uma mãe e, a cada seis meses, deve haver uma vistoria técnica, observando as estruturas e anualmente deve-se realizar uma vistoria com responsabilidade técnica, verificando-se todos os requisitos de segurança listados na norma.
20.6Primeiros socorros: traumas, feridas, fraturas
O que os cuidadores devem fazer quando a criança sofre um acidente em casa?
A primeira coisa a fazer é manter a calma, isso vai ajudar a pensar racionalmente no que fazer avaliar o que de fato ocorreu e o que terão que fazer nos momentos que se seguem ao acidente, até que seja disponibilizado atendimento médico adequado.
Muitas vezes basta tirar a criança de alguma situação de risco — perigo de cair, de bater a cabeça, de se queimar — e saber que algumas vezes não fazer nada pode ser o melhor a ser feito. Devem ter um telefone disponível por perto e ter anotados os números da Central de Atendimento de Emergência de sua cidade ou região e do pediatra.
É importante também manter em local de fácil acesso, em casa, no trabalho e no carro: lista de medicamentos e doses (fornecida pelo pediatra), lista de eventuais alergias, estojo de primeiros socorros (que poderá auxiliar no cuidado inicial de pequenos ferimentos).
É mais indicado esperar ajuda especializada ou realizar os primeiros socorros ainda no local do acidente?
Os pais podem aprender como atuar realizando o Curso de Suporte Básico de Vida (BLS- Basic Life Support) e de Primeiros Socorros, disponíveis para pessoas que não trabalham na área de saúde. Se acontecer uma situação que os pais não saibam como proceder ou se não trabalham na área da saúde ou não têm experiência é melhor esperar o socorro chegar e não adotar medidas intempestivas que possam piorar o quadro.
Existe algum risco para a criança caso os pais apliquem os primeiros socorros de forma errada?
Sim, ao adotar medidas incorretas podem, inadvertidamente, piorar a situação da criança. Alguns exemplos: dar leite para a criança tomar em caso de ingestão de produto cáustico, passar pasta de dente, manteiga ou borra de café numa área que sofreu queimadura, tentar ajudar estando ferido também, não se certificar que o local está seguro antes de entrar, permitir que outras pessoas se tornem vítimas também, não remover a fonte do perigo, não desligar a fonte de eletricidade, remover a criança do lugar sem saber como fazê-lo, sem ter sido necessário ou sem esperar o resgate chegar.
Quando ir ao pronto-socorro e quando ficar em casa?
Aí vão alguns conselhos sobre o que é certo:
- O primeiro e mais importante é, na dúvida, ir a uma emergência médica, lá estão os profissionais e a estrutura adequada para atender os acidentados.
- Devem ser conduzidas para avaliação médica todas as crianças pequenas vítimas de trauma.
- Também devem ser levadas as que apresentam: sangramento significante em qualquer local do corpo; sangramento que continua por mais de dez minutos e que não é controlado pela compressão leve e persistente; ferida que parece importante; trauma de crânio, de olho e de genitália; lesões no tórax ou no abdome e com falta de ar ou dor abdominal que chamam a atenção; traumas nos membros e com manifestações que sugerem fraturas ou lesões significantes nas articulações; perda dental; e tudo o que parecer importante, ou deixar os pais e responsáveis inseguros, ou que gerar dúvida.
- Ainda devem ser conduzidas as que apresentam: mal-estar importante, palidez, dor significativa, tonturas, confusão mental ou qualquer outro dado que chama a atenção ou pareça estranho.
É errado ficar em casa, ouvindo os vizinhos, gastando tempo com telefonemas inúteis, botando gelo e adotando outras orientações sem ter certeza da gravidade da lesão. Destacamos o certo e o errado:
Certo: tentar manter a calma, sem pânico; o descontrole fará com que as crianças acreditem que a situação é mais grave do que realmente parece e também faz com que elas entrem em pânico; providenciar um pano limpo (uma toalha ou uma fralda) e comprimir, de forma delicada e contínua, porém com firmeza, o local do sangramento, evitar força em excesso que provoca dor, assim o sangramento parará e vocês poderão pensar com calma e providenciar ajuda para levar o acidentado a um serviço de urgência, onde o médico vai avaliar melhor a lesão e definir a melhor opção de tratamento.
Errado: entrar em pânico, perder a calma, ficar à procura de culpados ou querendo esclarecer como o fato ocorreu; isso é assunto para depois; não ficar lamentando o fato ou julgando os seus filhos azarados; demorar a procurar atendimento médico quando a situação exige isso.
20.6.1Fraturas
O que são fraturas e luxações?
Fraturas são lesões ou rompimentos dos ossos e podem ser completas ou parciais. Num trauma onde ocorre fratura de um osso pode haver também lesões em tecidos daquela região, como músculos, ligamentos, pele e nervos. Luxações são deslocamentos ou desencaixes dos ossos na articulação, são lesões graves que causam ruptura de ligamentos e outras estruturas.
Onde as fraturas ocorrem mais?
A maioria ocorre por quedas dentro de casa, ou no quintal, ou no jardim e geralmente de pequena altura. Localizam-se mais nos braços — clavícula, punho, antebraço e cotovelo.
Quais os sintomas das fraturas?
O sintoma mais importante é a dor que ocorre imediatamente ao trauma e que fica mais forte com o movimento ou compressão da região afetada. A criança evita movimentar o membro para a dor não aumentar, quando a fratura ocorre nas pernas, a criança evita apoiar no chão ou manca. Pode ter inchaço (edema), assim como hematoma (mancha roxa) no local do trauma e também deformidade no membro.
O que fazer quando há suspeita de fratura?
Primeiramente deve-se imobilizar o membro, para diminuir a dor e o inchaço e evitar aumento da lesão. Não apertar ou mudar a posição do membro fraturado (imobilizar na posição que está). Isso pode ser feito com uma tipoia, com um pedaço de papelão e faixa de crepe ou pano.
Se houver ferimentos, devem ser limpos com água corrente ou soro fisiológico e cobertos com material limpo ou estéril até a ida ao serviço de emergência. Se houver um sangramento abundante é conveniente uma compressão moderada da ferida para estancar o sangue. Procurar um serviço de emergência o mais rápido possível.
Qual é o tratamento da fratura?
O tratamento pode ser conservador, com imobilização por tempo adequado. Outra forma de tratar é por meio da redução, no caso de algumas fraturas com desvio (com anestesia geral, local ou regional ou até mesmo sem anestesia, o ortopedista faz um movimento rápido, coloca o osso no lugar e a dor passa bem rapidamente).
Algumas fraturas necessitam de cirurgia, no centro cirúrgico e com anestesia. Os ossos serão fixados com pinos, hastes, placas ou fixadores. Algumas fraturas podem ser colocadas no lugar sem a necessidade de cortes e fixadas com pinos passados pela pele.
Em que situações estará indicada a cirurgia?
Em fraturas que atingem a articulação, a placa de crescimento, fraturas expostas e quando existe lesão da artéria (alteração da cor da extremidade ou perda do pulso).
Como a fratura é imobilizada?
Geralmente com tala de gesso, gesso circular ou aparelhos. O gesso sintético, de menor peso e maior resistência, é de alto custo, não pode molhar e não permite uma modelagem ideal. Talas são usadas em situações em que pode haver um inchaço muito grande e há segurança quanto à estabilidade da fratura. Apresenta menor resistência e durabilidade.
Quais são os controles e terapias que devem ser feitos?
Algumas fraturas podem necessitar de controles radiográficos. Fisioterapia e reabilitação quando houver atrofia do membro e dificuldade no retorno do movimento.
Quando a criança pode retornar às suas atividades?
O retorno deve ser progressivo e ser levadas em conta a idade e atividade da criança. Atividades sem impacto, como a natação, podem ser reassumidas prontamente. Qualquer esporte com risco de impactos e quedas como futebol, skate, basquete, devem ser retomados após um determinado tempo, a ser definido pelo médico.
Quais são os principais cuidados com o gesso?
Não pode molhar o gesso, se parte ficar úmida pode ser seca com secador de cabelos, sem usar o ar quente. Caso o gesso molhe e perca sua forma ou resistência o ortopedista deve ser contatado para uma avaliação.
Não coçar com instrumento cortante tipo agulha de crochê ou caneta, pode levar a ferimentos e infecções. Não retirar o gesso em casa, exceto quando orientado pelo ortopedista. Evitar contato com animais como cães pelo risco de exposição a pulgas. O calor do local é especialmente atrativo para elas.
Observar as datas de retorno. Pode ser que o ortopedista marque retorno e avalie somente a condição do gesso e dos dedos, isto é necessário para a segurança do tratamento.
O que não se deve fazer?
Não fazer massagem ou passar pomadas ou outros produtos. Não tentar colocar no lugar. Não alimentar até o contato com o serviço de emergência, pois se houver necessidade de cirurgia com anestesia o tempo de jejum mínimo é de 6 a 8 horas. Não tirar a imobilização sem orientação do médico.
Quais os principais cuidados após o tratamento da fratura?
Observar as recomendações do médico. Manter o membro elevado a maior parte do tempo nos primeiros dias.
Quais são os sinais de alarme quando a criança estiver com gesso ou outra imobilização?
Dor forte, progressiva, sem resposta ao uso de analgésico. Inchaço ou palidez dos dedos, dedos frios, dobrados, dificuldade para movimentar, extremidades roxas, formigamento ou alteração de sensibilidade. Esses sinais indicam que está havendo compressão e que pode levar a lesão dos nervos e músculos, a criança deve ser levada ao serviço de emergência sem demora, pois pode ser que haja necessidade de abrir ou retirar o gesso. As queixas da criança devem ser valorizadas!6
20.6.2Ferimentos corto-contusos e perfurantes
O que é importante saber?
São lesões decorrentes de traumas com comprometimento de tecidos não rígidos. Geralmente provocam lesões que comprometem os tecidos de revestimento (pele, tecido celular subcutâneo, tendões, músculos e aponeuroses), mas dependendo do objeto e a força empregada podem atingir sistemas vitais para a vida ou órgãos profundos. Esses ferimentos geralmente acometem as extremidades e requerem uma avaliação inicial e condutas específicas, mesmo que o ferimento seja único e de aparência inocente.
Como são classificados?
Abrasão: ferida rasa, com perda parcial ou total da cobertura de pele, de bordos imprecisos e muito dolorosa— queda e raspar a pele no asfalto. Geralmente este ferimento é uma associação de ferimento cortante e contusão superficial, porém é mais extenso que profundo.
Incisão: corte com lâmina de gilete e faca de lâmina fina e afiada, causa uma ferida profunda, de bordos nítidos e regulares, sem perda de tecido.
Cortante: ferimentos por faca, machado ou caco de vidro, causam feridas profundas, com bordas parcialmente nítida, com pequena perda de tecido.
Perfurante: causada por ponta de agulhas, facas, pregos, tesouras, cacos de vidro e outros objetos pontudos, ferida profunda que provoca lesões puntiformes ou com perfuração única, podendo atingir qualquer profundidade.
Lacerante: decorrentes de traumas com grande energia cinética, como acidentes de automóvel, quedas de grandes alturas ou mordeduras de animais, a ferida é profunda, com bordas nítidas e irregulares, com grande perda de substância e desorganização das camadas de tecidos.
Corto-contusos: causados por objetos conhecidos como arma branca: facas, tesouras, cacos de vidro, mordedura de animal (associa laceração e ferimento corto contuso) e traumatismos múltiplos associados a quedas e/ou acidentes a motor (associação de diversos tipos de ferimentos). As lesões são bem extensas, podendo atingir qualquer profundidade, com comprometimento variável dos tecidos no mesmo ferimento.
Outros ferimentos são o escalpelamento de couro cabeludo e o desenluvamento de membro, que se caracterizam por grande exposição de tecidos internos (crânio, tendões e músculos), geralmente comprometem os tecidos de revestimento, requerem cirurgias, rigorosa avaliação de lesões associadas, deixando grandes cicatrizes e sequelas.
Como tratar esses ferimentos?
A conduta começa com as corretas assepsia, antissepsia, hemostasia e remoção de tecido desvitalizado.
- Assepsia: limpeza adequada da lesão com água e sabão (neutro) ou solução salina (soro fisiológico), para remover corpos estranhos e/ou contaminantes grosseiros (cacos de vidro, grãos de areia e outros) e secreções existentes (saliva de animal quando da mordedura de animal). Essa limpeza deve ser tão intensa quanto mais profunda, contaminada ou complexa for a lesão.
- Antissepsia: após a assepsia rigorosa, há necessidade de se “esterilizar” a pele ao redor da lesão, bem como a própria lesão, com antissépticos. Atualmente tem sido mais empregado o uso de derivados de iodo (p.e., iodopovidona, “povidine”), com gaze estéril e em movimentos circulares excêntricos à lesão.
- Hemostasia: a hemorragia é controlada por simples compressão local. Sangramentos por lesão de vasos se não forem controlados com a compressão deles haverá necessidade de se fazer ligadura dos mesmos ou eletrocoagulação. Vasos mais calibrosos podem precisar ser ligados (por transfixação ou com uso de pinças hemostáticas).
- Espaço vazio: quando os tecidos traumatizados forem aproximados de forma errada, pode ocorrer o aparecimento de “espaços vazios”, que são preenchidos por secreções, que podem se tornar um meio de cultura para bactérias, além de predispor a uma cicatrização irregular. Desse modo é fundamental a aproximação cuidadosa dos tecidos da profundidade para a superfície.
- Ausência de tensão: as suturas devem apenas aproximar os tecidos, evitando-se nós apertados que possam dificultar a circulação sanguínea e a nutrição dos tecidos lesados. Deve-se evitar tração da incisão, principalmente em lesões com perda de substância, pois também pode provocar cicatrizes alargadas.
E após os cuidados iniciais?
Após os cuidados iniciais faz-se o tratamento definitivo: em lesões superficiais, de pequena extensão, pode se fazer um curativo simples, oclusivo com uso de gaze estéril e adesivo (micropore), para evitar que a secreção do ferimento cole no curativo, pode-se utilizar gaze vaselinada, “rayon vaselinado” ou inadine.
Lesões profundas, com pequena extensão (1-1,5 cm), sem comprometer tecidos profundos (músculos, tendões, nervos e outros), são cobertas com curativos simples ou com aproximação com pontos falsos (micropore, steri-strip) ou até adesivos estéreis (Dermabond).
Lesões mais extensas devem ser submetidas à sutura, utilizam-se fios inabsorvíveis (na pele) e absorvíveis (ferimentos de lábios, língua e genitais; além de tecido celular subcutâneo, músculo e aponeuroses), finos, com espessura mínima que impeça a ruptura deles. Em caso de lesões de outros órgãos (sistemas circulatório, neurológico, digestório, urogenital, músculo esquelético e pele) deve-se proceder ao tratamento de acordo com o tipo de lesão e tecido comprometido, sempre que possível, sob orientação de especialista.
O uso de antibiótico é recomendado?
Não é recomendado nos ferimentos superficiais e menores e nem para prevenir infecções. Deve-se usar quando houver contaminação grosseira, alto risco de infecção e necrose tecidual. Mordeduras de animal devem ser tratadas com antibiótico, assim como ferimentos perfuro ou corto-contusos em plantas de pés. Não remover corpos estranhos do ferimento pode interferir também na sua evolução.
Pode usar Dermabond em todos os lugares?
Não pode ser usado em lesões laceradas e/ou extensas, com bordas irregulares, próximo a orifícios (nariz, boca, ouvidos, olhos e genitais) ou em mãos e grandes articulações. Ferimentos decorrentes de mordeduras de animal devem ser tratados com curativos simples, pois são considerados contaminados e potencialmente infectados quando suturados. Deve-se submeter à sutura quando são extensos, porém com cuidados redobrados quanto à infecção.
Quando é necessária anestesia?
- Anestesia local quando há necessidade de sutura, desbridamento de tecidos ou remoção de corpos estranhos, habitualmente se utiliza derivados da lidocaína.
- Verificar sempre se há antecedente de alergia ao anestésico.
- Em caso de lesões profundas pode ser necessária cirurgia com anestesia geral.
- Lesões de face e couro cabeludo considerar o uso de anestésico tópico.
- Lesões em palmas das mãos, plantas dos pés, ou de dedos considerar o emprego da anestesia loco-regional (bloqueio dos plexos nervosos do membro envolvido).
- Cabelos e pelos nas lesões devem ser afastados ou cortados com tesoura, lâminas para removê-los aumenta o risco de infecção. Não devem ser retirados pelos das sobrancelhas.
A sutura tem que ser feita em quanto tempo?
As suturas em ferimentos com baixo risco de infecção podem ser realizadas em até 12 horas após o trauma, porém quando o risco de infecção é elevado (contaminação grosseira, áreas mal vascularizadas, pacientes imunossuprimidos) devem ser feitas em até 6 horas.
Quais devem ser os cuidados após a sutura?
- Após a sutura e o curativo, ele deve permanecer ocluído sem molhar por 48 horas, após esse período pode-se molhar, sem mergulhar ou esfregar. Observar a presença de sinais locais de infecção (hiperemia, edema, secreção e calor).
- Na maioria das vezes os pontos devem ser retirados em cerca de sete dias, porém em suturas de face deve-se retirá-los em cinco dias, em locais de tensão de pele (articulações) eles permanecem por 10 a 15 dias.
- Nesses locais, após a retirada dos pontos devem-se aplicar fitas adesivas (micropore ou “steri-strip”), para diminuir o risco de deiscência ou alargamento da sutura.
- Deve-se evitar a exposição ao sol durante pelo menos seis meses.
Quais são os procedimentos corretos?
- Não subestimar a profundidade e extensão do ferimento, retardando o atendimento inicial; procurar atendimento médico o quanto antes.
- Não perder tempo para procurar atendimento médico (mesmo que inicialmente seja em local de poucos recursos), ferimentos limpos podem se transformar em potencialmente contaminados.
- Não garrotear membro ferido, mesmo quando houver sangramento abundante, deve-se comprimir o local apenas o suficiente para conter o sangramento, mantendo a compressão constante; use panos limpos.
- Lavar bem o ferimento com água corrente e proteger o local com um pano limpo, até que o atendimento adequado ocorra.
- Em caso de contaminação grosseira (sujeira, terra), lavar com água corrente limpa, secar e comprimir levemente com panos limpos ou gaze.
- Não usar substâncias estranhas para fazer curativos ou na tentativa de cessar o sangramento (pó de café, pasta de dente, manteiga).
- Em ferimentos que estão sangrando, fazer uma leve compressão local, usando um pano limpo, somente o suficiente para parar o sangramento.
- Após o atendimento, seguir as orientações de trocas de curativos, molhar no banho, atividades esportivas e momento da retirada dos pontos.
O que não se deve fazer?
- Assepsia e antissepsia insuficientes.
- Prescrever ou tomar antibiótico sem necessidade.
- Retirar os pontos precoce ou tardiamente.
- Suturar mordedura animal, exceto em situações especiais.
- Subestimar a profundidade do ferimento, bem como o comprometimento de tecidos vitais.
- Esquecer de checar imunização contra tétano.
Quais são as principais complicações que podem acontecer?
- Infecção no local da lesão, caracterizada por inchaço, vermelhidão, calor local e saída de pus. É tratada com a retirada de pontos na área comprometida, curativos com limpeza das secreções e emprego de antibiótico sistêmico.
- Hematomas associados ao trauma, que só devem ser manipulados se houver suspeita de infecção associada.
- Rompimento da sutura e abertura precoce do corte podem ocorrer em caso de infecção, problema técnico com a sutura ou fatores que prejudiquem a cicatrização (presença de corpo estranho, tempo decorrido entre o trauma e a sutura).
E a imunização contra o tétano?
É importante saber quando a criança recebeu a última dose de vacina antitetânica. No quadro abaixo encontram-se as principais informações do que fazer, de acordo com a história vacinal da criança e tipo de ferimento para a prevenção de tétano.7
| História de imunização | Ferimento pequenos e limpos | Ferimentos pequenos e limpos | Outros ferimentos* | |
|---|---|---|---|---|
| Toxóide | Imunoglobulina | Toxóide | Imunoglobulina | |
| <3 doses ou não sabe | Sim | Não | Sim | Sim |
| >3 doses. Tempo da última dose: | ||||
| < 5 anos | Não | Não | Não | Não |
| Entre 5 e 10 anos | Não | Não | Sim | Não |
| > 10 anos | Sim | Não | Sim | Não |
Fonte: Os autores.
Outros ferimentos: ferimentos contaminados, perfurantes plantar, queimaduras extensas, avulsões, esmagamentos.
20.6.3TCE (traumatismo crânio encefálico)8
Como é classificado o traumatismo cranioencefálico (TCE)?
Em leve, moderado ou grave. A forma leve não é acompanhada por perda de consciência, ou ela tem duração curta (< 1 minuto). Na maioria dos casos, a criança fica apenas um pouco atordoada nos minutos que se seguem ao trauma. Já nos moderados e graves a criança apresenta alteração persistente do nível de consciência, em graus variáveis (desde confusão mental, a agitação psicomotora, até o coma propriamente dito), dependendo da gravidade do comprometimento cerebral.
O que é importante observar após o trauma?
Primeiramente, é importante saber se o TCE foi leve, moderado ou grave. A maior preocupação é a possibilidade de o TCE causar lesão cerebral. O choro que ocorre imediatamente após o evento é um bom sinal, pois indica que a criança não perdeu a consciência. A maioria das crianças que vomitam após um TCE leve não apresentam hipertensão intracraniana e sim comoção labiríntica (alteração no labirinto, que pode causar vômitos, palidez cutânea e sonolência e, após um breve período de sono, ficam normais). A principal manifestação clínica da hipertensão intracraniana aguda (inchaço cerebral) na infância não são os vômitos e sim a sonolência persistente, o torpor e o coma.
O que fazer quando a criança cai e bate a cabeça?
Colocar a criança na posição deitada, na posição de lado (decúbito lateral), com a cabeça e o pescoço alinhados (certificar-se se não apresenta dor à palpação do pescoço), pois ela pode apresentar vômitos, dor de cabeça e sonolência.
Certificar-se que ela está consciente e apresenta um comportamento normal (reconhece as pessoas e se comunica através da fala, ou gestos). Palpar a cabeça para verificar a existência de ferimentos, hematomas, ou inchaços.
Limpar os ferimentos com água e sabão neutro, proteger com uma gaze e aplicar gelo ou uma compressa fria sobre a região que bateu por aproximadamente 15 minutos, protegendo a pele da criança da ação direta do frio (envolver cubos de gelo num pano). Limpar a boca e o nariz da criança para que ela possa respirar livremente.
Se o ferimento estiver sangrando, comprimir a região com um pano limpo e providenciar o transporte da criança para a unidade de emergência. Se ocorrer perda transitória da consciência (< 1 minuto), após realizar as medidas acima, entrar em contato com o médico da criança ou levá-la para a unidade de emergência, a fim de receber as instruções necessárias.
Quando há um inchaço de grandes proporções no couro cabeludo que não diminuiu após algumas horas da aplicação da compressa fria, deve-se levar a criança a unidade de emergência, mesmo que ela esteja consciente, pois há risco de fratura craniana.
Procurar deixar a criança em repouso e evitar a movimentação rápida da cabeça (sentar-se, correr, andar de automóvel), pois isso pode desencadear piora. Na presença de náusea, ofereça alimentos líquidos em pequena quantidade. Vômitos repetidos podem levar à desidratação, o que pode exigir hidratação endovenosa no hospital.
O que fazer após o TCE?
A observação em casa, sob a supervisão de um adulto responsável que entenda as instruções fornecidas pelo médico, é suficiente nos casos de TCE leves.
Se a criança quiser dormir após o adulto certificar-se que ela está plenamente consciente, não há problema. Se o trauma ocorreu próximo ao horário de sono normal da criança, é óbvio que ela estará com sono. Importante observar a criança durante o sono e certificar-se que está consciente.
Examinar cuidadosamente a região do pescoço (a fim de excluir lesão causada pelo trauma da coluna cervical) antes de mexer e mobilizar a criança.
Se houver algum indício de fratura (dá para palpar alteração na nuca), imobilizar o pescoço de modo a que ele não se movimente durante o transporte. Procurar estancar qualquer hemorragia visível.
Após a estabilização das condições gerais, levar a criança rapidamente para a unidade de emergência mais próxima, ou chamar uma ambulância (com médicos ou paramédicos) para fazer o transporte, se a criança estiver em coma, mas respirando bem.
Se for possível, avisar a unidade de emergência e o pediatra que estão a caminho. Nos casos de TCE moderado ou grave, a avaliação da criança pelo especialista é importante pelo risco de lesões potencialmente cirúrgicas, ou pela possível presença de hipertensão intracraniana, decorrente do “inchaço cerebral”.
O que não se deve fazer?
Não mobilizar a cabeça da criança abruptamente, principalmente mexendo o pescoço em movimentos de rotação lateral. Não jogar água sobre o rosto da criança. Se necessário limpar os eventuais ferimentos com um pano umedecido e limpo. Não transportar a criança sem que a cabeça esteja alinhada em relação ao corpo e amparada durante a mobilização. Não colocar nada sobre a cabeça e o tórax da criança que possa atrapalhar a respiração. Não administrar medicamentos que possam causar sonolência (medicamentos para vômitos, principalmente) sem orientação médica. Perder tempo com outras medidas que não as definidas acima. Nos casos de TCE moderado ou grave, onde ocorre a perda da consciência, é importante checar os movimentos respiratórios, a pulsação e manter condições respiratórias adequadas (reanimação).
20.6.4Ferimentos na face
Traumatismo dentário
Qual a principal causa de trauma nos dentes?
A criança desenvolve o controle e a coordenação motores conforme cresce — o reflexo de colocar os braços e mãos como anteparos (para evitar de bater o rosto no chão) no momento de uma queda pode ainda não estar desenvolvido nas crianças pequenas e lesões dentro da boca certamente vão ocorrer. Crianças maiores, ao brincar ou praticar alguma atividade física de contato, podem sofrer quedas com traumatismos dentários.
Como saber que houve um traumatismo dentário?
Em crianças com até 3 anos de idade, ocorre luxação do dente de leite (decíduo) — o osso da face da criança pequena é mais esponjoso e maleável, permitindo a absorção do impacto. Na criança maior, que tem os ossos mais resistentes, pode ocorrer a fratura (quebra) do dente ou numa fase mais madura, com o osso mais resistente, é comum acontecer a quebra do dente (fratura) ou mesmo a sua queda (avulsão do dente). A criança pode apresentar, após a queda e traumatismo dentário, um sangramento na boca e dor de cabeça.
Quais são as lesões que podem ser causadas pelo trauma no dente?
O dente pode ficar “mole” e até cair. As lesões que podem ocorrer são: deslocamento — o dente não cai, mas fica mole e móvel. Intrusão: o dente é empurrado para dentro do alvéolo dentário. Fratura: o esmalte do dente pode trincar (casos leves), ou quebrar (casos moderados — com quebra do esmalte e da dentina) e, em caso mais graves, o dente pode cair. Avulsão: o dente cai do alvéolo dentário (ocorre em impactos intensos).
É motivo de preocupação se o dente de leite cair?
Deve ser sim, deve-se conservar ao máximo a integridade do dente decíduo (de leite) e, quando cair, pode prejudicar o desenvolvimento do dente permanente.
O que fazer em caso de trauma dentário?
Havendo sangramento na boca, a criança deve morder uma gaze envolvendo um cubo de gelo por cinco minutos — isso pode ajudar a estancar o sangramento. Se o dente cair após o trauma ou queda, deve-se pegá-lo pela coroa (nunca pela raiz!), lavá-lo em água corrente e colocá-lo num copo contendo um pouco de leite. O leite contém substâncias que permitem conservar melhor o dente até a chegada no dentista e o tempo para o reimplante do dente poderá ser de até 6 horas.
Por outro lado, se o dente for conservado em uma gaze ou copo de água, o tempo para o reimplante será de 15 minutos após a queda dele. Mesmo que seja identificada a lesão que ocorreu no dente no momento do trauma é importante que a criança seja levada ao dentista, pois podem ter ocorrido outras lesões internamente.
Se houve queda e trauma dentário, é importante saber e avaliar se houve trauma na cabeça e no crânio. Na situação de trauma na cabeça, deve-se manter a criança deitada, se possível de lado e observar sinais de lesão neurológica, como: sonolência, irritabilidade, fala desconexa e alterada, vômitos, palidez e tontura. Nesta situação, deve-se chamar o SAMU (192) o quanto antes.
Trauma na boca
Em que situações e quais tipos de lesões podem ocorrer dentro da boca?
A situação clássica é a criança estar correndo ou andando rápido com algum objeto na boca (colher, caneta, lápis ou pirulito) tropeçar e cair. O objeto pode causar laceração no palato (“céu da boca”) ou atingir a língua e a amígdala. Essas lesões podem provocar sangramentos e muita dor.
O que fazer nessa situação?
Quando a lesão é pequena e superficial, o objeto deve ser retirado da boca cuidadosamente e o sangramento deve parar logo. No caso de lacerações maiores, a criança deve ser levada a um serviço de emergência, passar por avaliação de otorrinolaringologista e poderá ser necessário ser submetida a cirurgia com anestesia geral, para controlar o sangramento e reparar as estruturas lesionadas.
Trauma no nariz
Trauma nasal acontece com frequência?
Pode acontecer sim, seja na criança pequena aprendendo a andar (lembrar que criança pequena geralmente cai para a frente e pode bater o nariz) ou nas maiores, por impactos com bola e outros objetos.
O trauma nasal pode provocar sangramento?
O trauma no nariz costuma provocar pequenas fissuras na mucosa do septo nasal (cartilagem que divide as duas cavidades nasais), com sangramento sem gravidade, que para espontaneamente. O trauma pode causar desvio do septo, que é percebido quando a criança passa a apresentar obstrução nasal. Outras vezes, o sangue pode ficar preso entre a mucosa e o septo, formando um hematoma (acúmulo de sangue), que será diagnosticado e tratado pelo otorrinolaringologista.
No trauma nasal pode ocorrer fratura dos ossos nasais?
A presença de edema (inchaço) do nariz nasal ou hematomas na pele ao redor dos olhos sugere fortemente que houve fratura dos ossos nasais. Se o impacto foi forte, o nariz pode estar deformado.
Qual o tratamento ideal após o trauma ter ocorrido?
O tratamento cirúrgico, com anestesia geral, deve ocorrer imediatamente após o trauma, uma vez que a manipulação do nariz é mais fácil nas primeiras horas, sendo possível reposicionar e conter as estruturas no lugar.
E quando não houve trauma e o nariz da criança está sangrando?
Crianças podem ter epistaxe (sangramento nasal) ao coçar o nariz, ou estar com crise de rinite, entre outros motivos. Para parar o sangramento deve-se:
- Apertar com o dedo a parte externa do nariz contra o septo.
- Aplicar gelo na parte de fora.
- Fazer a criança sentar-se com a cabeça inclinada para a frente e colocar uma cuba ou bacia embaixo do nariz.
Corpo estranho no nariz
O que acontece quando a criança colocou algo no nariz e ninguém viu?
A presença de um corpo estranho pode passar despercebida inicialmente, mas, após alguns dias, começa a sair pus fétido do lado onde está o corpo estranho. Um corpo estranho de maior tamanho pode causar obstrução nasal, levando a criança a se queixar de incômodo.
O que se deve fazer?
- Se alguém viu o episódio, levar a criança imediatamente para atendimento no serviço de emergência mais próximo, para que possa ser avaliada pelo otorrinolaringologista.
- Pedir para a criança assoar o nariz, pode ser que o corpo estranho saia espontaneamente.
O que não fazer?
- Não tentar retirar o corpo estranho do nariz, ele vai se deslocar mais para dentro e pode machucar a criança e dificultar o procedimento correto.
- Não brigar com a criança, a conduta melhor é mantê-la sempre com supervisão atenta.
Traumatismo na orelha
Um trauma na orelha pode causar hematoma do pavilhão auricular?
Pode sim, pelo acúmulo de sangue entre a cartilagem e a pele. A criança deverá ser levada ao otorrinolaringologista quando sofrer um trauma e ficar com a orelha inchada — se tiver um hematoma, terá que ser drenado para prevenir deformidades. A cicatrização pode levar à formação de um tecido fibroso, que pode causar deformidades, como a “orelha em lata”, que pode ocorrer em praticantes de lutas que fazem atrito com o chão.
Corpo estranho na orelha
Um corpo estranho na orelha pode causar perda auditiva com o tempo?
A presença de um corpo estranho no ouvido pode não causar sintomas e ele pode permanecer ali por um tempo indeterminado e resultar, algumas vezes, em perda auditiva.
Quais os sintomas de um corpo estranho na orelha?
Pode causar dor, sangramento e infecção, com saída de pus.
O que se deve fazer?
- Não tentar remover o corpo estranho — pode lesionar o tímpano e os ossículos.
- Tentar retirar somente o que estiver sendo visto e alcançado com a ponta da unha.
- Na presença de um inseto no interior da orelha, pode-se tentar atraí-lo para fora com o uso de uma lâmpada acesa ou, se não funcionar, pingar óleo na orelha (para que fique imobilizado).
- Não molhar o canal auditivo se tiver um grão em seu interior, pois vai aumentar de tamanho.
- Não usar instrumentos para tentar retirar o corpo estranho, pois pode ser empurrado mais para dentro, podendo machucar o canal e o tímpano.
- Como o corpo estranho não provoca danos imediatos no canal auditivo, vale esperar a sua retirada pelo otorrinolaringologista.
Lesões no tímpano
Como são causadas?
O cotonete pode causar traumas e lesões graves, como perfuração do tímpano. A criança sente dor, pode ocorrer sangramento e diminuição auditiva com o tempo.
O que se deve fazer?
- Não molhar a orelha, para prevenir infecções.
- A perfuração causada por trauma vai cicatrizar, exceto se for muito grande ou infectar.
Fratura no osso temporal9
O que pode acontecer nesse tipo de fratura?
O sistema auditivo está localizado no osso temporal. Dentro dele estão os órgãos da audição (tímpano, ossículos, cóclea), o labirinto (responsável pelo equilíbrio) e o nervo facial, que responde pela movimentação dos músculos da face. Traumas nessa região podem causar fraturas no osso temporal, com perda irreversível da audição, vertigens e paralisia facial.
Que tipos de acidentes podem causar a fratura do osso temporal?
Acidentes associados a traumatismos cranianos podem provocar essas fraturas, sendo mais frequentes em crianças maiores e adolescentes, decorrente de quedas de bicicleta e de skate ou de acidentes de trânsito.
20.6.5Trauma de tórax10
O trauma de tórax é frequente? Quais os órgãos mais acometidos?
É pouco frequente, mas pode ser muito grave. Os pulmões e as costelas são mais frequentemente acometidos e em mais da metade dos casos ocorrem lesões em outras partes do corpo, como cabeça, abdome ou membros.
Qual é o mecanismo de lesão torácica mais comum? Em quais situações ocorre?
É o trauma que resulta de contusão direta no tórax. Situações de acidentes de trânsito (criança como pedestre ou passageira) e esportes (bicicleta, patins, skate) são os mais comuns a causar lesões no tórax.
Quais são as lesões mais comuns?
A maioria desses traumas é leve, levando a escoriações ou hematomas na pele, porém os mais graves podem comprometer o sistema respiratório (pulmões) e causar fraturas de costelas, com perfuração das pleuras e pulmões e sangramento interno. Ocorre também o traumatismo fechado, sem perfuração ou corte das estruturas do tórax e lesões perfurantes em adolescentes, decorrentes de ferimentos por armas de fogo ou facadas.
O que se deve fazer?
Como é possível haver lesões dentro do tórax sem grandes alterações visíveis na pele, deve-se sempre levar a criança para um serviço de emergência. Lesões perfurantes podem ser muito graves e devem sempre ser avaliadas no hospital.
O que é pneumotórax e hemotórax?
Pneumotórax ocorre quando entra ar no espaço entre as pleuras (ficam entre os pulmões e as costelas). Se houver uma lesão do pulmão, nos brônquios, ou na parede do tórax, o ar se acumula nessa região, podendo comprimir o pulmão e os vasos do coração, levando a comprometimento cardiorrespiratório grave. O hemotórax é quando acumula sangue nessa região.
O que é importante saber?
A maioria dos traumatismos torácicos ocorre em decorrência de acidentes graves, esportes, quedas de grandes alturas e objetos pesados que caem em cima da criança. A prevenção dos traumatismos graves deve ser feita através da supervisão constante de crianças durante suas atividades de rotina.
20.6.6Trauma de abdome11
O abdome é local frequente de traumas em crianças?
Sim. Perde em frequência para os traumas de membros e da região craniofacial.
Quais os tipos e mecanismos de lesão no abdome?
O tipo mais frequente é a contusão direta, associada a acidentes automobilísticos, como colisões ou atropelamentos. Traumas de alto impacto, decorrentes de golpes isolados no abdome, como queda de bicicleta em cima do guidão, uso inadequado de cinto de segurança ou socos também são frequentes. Menos frequentes são as quedas de altura superior a 3 metros ou duas vezes a altura da criança, que podem ser muito graves e ocasionar lesões não só no abdome. O trauma abdominal penetrante, resultado de tiros ou facadas, é pouco comum.
Quais os órgãos mais acometidos? Quais os sinais e sintomas que podem mostrar que ocorreu lesão interna?
No trauma por contusão, o fígado e o baço são os órgãos mais frequentemente lesados por serem os maiores e pouco protegidos por uma parede abdominal fina e frágil. Lesões de rins, pâncreas e intestino são menos frequentes. Quando ocorre lesão penetrante (facas, tiro), lesão do intestino é a mais frequente. A maioria dos traumas são leves e ocasionam apenas machucados na pele e não promovem risco de lesão nos órgãos internos, porém quando ocorre lesão nesses órgãos, o sangramento interno é a principal causa de mortalidade. Os sinais que sugerem lesões internas são: hematomas grandes na pele, marca do cinto de segurança e dor abdominal no exame físico.
Qual é a maior preocupação quando a criança é vítima de trauma no abdome?
São as hemorragias internas. No trauma abdominal fechado, cerca de 50% das lesões ocorrem nos órgãos sólidos — principalmente no fígado, baço e rins.
O que se deve fazer?
Se o trauma foi de grande impacto, como em atropelamentos ou acidentes automobilísticos, a criança deve ser encaminhada para o serviço de emergência. Alguns sinais devem ser observados após o trauma no abdome: dor abdominal intensa e contínua, palidez, tontura, perda de consciência e sangramento pelo sistema digestório ou urinário. Se ocorrerem, deve-se levar a criança imediatamente ao serviço de emergência.
O que é importante saber?
A prevenção dessas lesões é importante, por meio da supervisão constante de um adulto responsável, obedecer e respeitar as orientações de segurança no trânsito. A prevenção de quedas é fundamental e a criança deve estar sempre sob supervisão de um adulto e em um ambiente seguro.
Trauma em membros12
Quais os mecanismos de sua ocorrência?
Ocorrem desde simples quedas e lesões durante a prática esportiva até situações complexas, como acidentes automobilísticos e atropelamentos, com risco de vida e que necessitam atendimento imediato.
Quais as lesões mais frequentes nos membros?
São as contusões, entorses, fraturas, luxações e ferimentos cortantes.
O que são fraturas, luxações e contusões?
Fraturas são lesões no osso que pode estar quebrado total ou parcialmente. Luxações são lesões mais graves, nas quais uma articulação é deslocada de sua posição normal. As torções (entorses) acontecem quando os ligamentos, faixas de tecido fibroso que unem um osso ao outro em uma articulação, são esticados além de seu limite, podendo romper-se total ou parcialmente. Essa lesão é menos comum em crianças devido a sua elasticidade. As contusões são as “batidas” que apesar de dolorosas são, em sua maioria, lesões simples que não requerem tratamento.
Como suspeitar que um osso fraturou?
Ao sentir e ouvir um barulho, a criança sente dor, imediata ou que aumenta com o movimento ou com a pressão no local. Pode ocorrer uma deformidade e inchaço local. Em casos mais graves, um pedaço do osso pode até atravessar a pele e ficar visível no ferimento (fraturas expostas). Quando a fratura ocorre nos membros inferiores a criança evita apoiar ou manca.
Quais são as fraturas mais comuns e em que situações costumam ocorrer?
- Mãos: nos três primeiros anos de vida consequentes a queda de objetos pesados, portas e janelas que podem causar esmagamento, na infância devido às práticas esportivas (trauma com bola ou queda sobre o braço).
- Antebraço e Punho: comuns após queda sobre o braço ou trauma direto.
- Cotovelo: consequente à queda com a mão espalmada e o cotovelo estendido.
- Clavícula: pode ocorrer desde o momento do parto, ou em crianças que caem com o braço estendido, ou por trauma lateral no ombro e trauma direto na clavícula.
- Tornozelo: ocorrem mais em meninos, após entorse do tornozelo, causa dor, inchaço e pequena limitação dos movimentos.
- Pés: ocorrem nos metatarsos e falanges (dedos), após queda de um objeto, torção ou chute forte.
O que se deve fazer?
Retirar a roupa do local afetado para evitar que fique apertado. Se houver ferimento e o osso for visível através da ferida, cobrir a lesão com um curativo limpo, de preferência estéril. Se houver sangramento abundante, é conveniente a compressão moderada da ferida para estancar o sangue. O local fraturado deverá ser provisoriamente imobilizado para facilitar o transporte e diminuir a dor.
O que pode ser feito para imobilizar o local fraturado?
Em fraturas do ombro ou braço — improvisar uma tipoia com um lenço triangular ou uma fralda de tecido.
Fraturas do antebraço, da mão e abaixo do joelho — utilizar papelão, revistas ou mesmo um travesseiro para apoiar o local e enfaixar com faixa de tecido.
Dedos fraturados — podem ser imobilizados com palito de sorvete, enfaixados levemente junto com o dedo vizinho e mantidos elevados na altura do coração para facilitar a circulação do sangue.
Fraturas da coxa ou da bacia — nessas situações o melhor a fazer é chamar o transporte especializado (ambulância/resgate). Caso não seja possível, a criança pode ser colocada sobre uma prancha que vá desde o peito até o calcanhar.
Traumas de coluna — requerem cuidados especiais, não pegar a criança no colo e não mexer na região da coluna. O melhor a fazer é chamar o resgate e transportar de ambulância, se não for possível utilizar uma superfície rígida (prancha) para o transporte.
Outra situação preocupante é a de a criança reclamar de dor no pescoço após ter dado “cambalhota”, pode ter havido lesão de coluna.
Conferir constantemente a circulação de sangue do membro afetado, observando a temperatura e a coloração dos dedos. Extremidades pálidas, arroxeadas ou frias são sinais de alerta e tornam a necessidade de atendimento médico ainda mais urgente.
O que não se deve fazer?
Nunca tentar colocar o osso no lugar, o que, além de causar dor pode machucar ainda mais os tecidos (músculos) e até mesmo lesar um nervo ou os vasos sanguíneos. Não massagear ou passar pomadas ou outros produtos. Não devem ser utilizados torniquetes ou garrotes. Não apertar a faixa que está imobilizando o membro — para não dificultar a circulação do sangue. Na suspeita de fratura de coluna pegar a criança no colo e mexer na região da coluna. Não colocar o osso para dentro da pele, pois isso deverá ser feito de forma apropriada pela equipe médica.
Como suspeitar de uma luxação? O que fazer?
O deslocamento ou o desencaixe de uma articulação não é comum em crianças e quando acontece pode estar associado a uma fratura. A articulação pode estar deformada e perde seu contorno normal. A criança sente dor, o local incha e não consegue realizar movimentos. Os primeiros cuidados são semelhantes aos de uma fratura: não tentar colocar no lugar, imobilizar provisoriamente e procurar um serviço de emergência.
O que é importante lembrar?
Na suspeita de fratura ou de luxação não alimente ou dê água para a criança, já que a maioria dos procedimentos para a correção das deformidades é feita com sedação ou anestesia e, para não atrasar o procedimento, o jejum é fundamental.
Como e onde utilizar gelo?
Aplicar gelo é importante imediatamente após o trauma dos membros, tanto para diminuir a dor, como para evitar o inchaço. Pode-se utilizar uma bolsa de gelo ou um saco plástico com pedras de gelo picadas e um pouco de água para facilitar a acomodação sobre o membro. A pele precisa ser protegida com uma toalha ou pano para evitar queimaduras pelo frio e a aplicação deve ser interrompida se for percebida vermelhidão no local. O tempo de cada aplicação é por volta de 10 minutos, sendo intercalado por um período sem o gelo.
O que são as manchas roxas na pele?
São os hematomas, que ocorrem após uma batida (contusão), mas podem aparecer também quando existem fraturas e luxações, mas não devem ser motivo de preocupação quando estão relacionadas a um trauma.
Após um trauma direto a circulação de sangue nos pequenos vasos da pele e de outros tecidos rompe, provocando o extravasamento do sangue, que fica acumulado sob a pele intacta. Inicialmente sua coloração é avermelhada, com o passar dos dias, durante o processo de reabsorção, a quebra da hemoglobina que estava nas células vermelhas do sangue leva a alteração da cor: em até 3 dias a mancha se torna azul ou roxa, depois esverdeada, amarelada por volta do décimo dia e a pele volta ao normal entre duas e três semanas.
20.6.7Situações especiais
Pipas
A prática de empinar pipas — também chamadas de papagaio, maranhão, raia, arraia, califa, pandora, quadrado — existe há milhares de anos e foi inventada pelos chineses como instrumento de guerra, servindo para alertar os batalhões da presença de exércitos inimigos na grande muralha.
Quais são os perigos de empinar pipa?
Quando a pipa está com sua linha ao natural, apresenta perigos mais para as crianças que estão brincando, pois exige que, ao brincar, o olhar e a atenção estejam voltados para o alto e uma distração pode gerar um acidente, como: queda de lugares altos, de árvores, de muros, do telhado, laje ou varanda da casa e atropelamento, ao atravessar na frente dos carros. Os riscos de empinar pipa perto da rede elétrica são os choques elétricos e suas consequências, como queimaduras e até parada cardíaca.
Outro risco importante é o uso do cerol — mistura de cola e vidro moído que é aplicado à linha de empinar, com o intuito de cortar as linhas de outras pipas. O cerol pode agir como uma arma cortante e promover lesões, que podem levar à risco de morte, ao entrar em contato e cortar o pescoço, rosto ou corpo das próprias crianças, pedestres, ciclistas e motociclistas13. O vidro também é um condutor de energia e se o fio com cerol pegar na rede elétrica, a pessoa que está empinando a pipa pode morrer eletrocutada.
Em outros casos, as crianças utilizam pó metálico, que é condutor de energia e causa choque quando toca na rede elétrica. Nem os fios de náilon (de pesca) são indicados, pois cortam tanto ou mais que o próprio cerol. Também há o risco do próprio “empinador” do brinquedo se cortar, além das pessoas que correm e disputam quem pegará as pipas que soltaram das linhas que caem.
Quais são as principais recomendações para brincar em segurança?
As dicas do Corpo de Bombeiros são:
- Nunca soltar pipa perto de antenas, postes e fios elétricos, porque podem se machucar seriamente.
- Preferir locais abertos como parques ou campos, onde não haja fiação elétrica e circulação de carros.
- Nunca empinar pipas em lugares altos, como telhados ou lajes. De tanto olhar para cima, a criança pode tropeçar e cair.
- Brincar de soltar pipa em dias de chuva, principalmente se houver relâmpago, é muito perigoso. Só faça isso quando o tempo estiver bom.
- Jamais utilize linha metálica, como fio de cobre de bobinas ou cerol (mistura de cola com caco de vidro).
- Também não faça pipas com papel laminado porque o risco de choque elétrico é grande.
- Tente soltar pipa sem rabiola, como as arraias. Na maioria dos casos, a pipa prende no fio por causa da rabiola.
- Se a pipa enroscar em fios, não tente tirá-la. É melhor fazer outra. Nunca use canos, vergalhões ou bambus.
- Tenha atenção especial com os motociclistas e ciclistas. Fique atento para que a linha não entre na frente deles.
Caravelas e águas-vivas14
Onde são mais comuns?
As caravelas são mais comuns nas regiões Norte e Nordeste, porém no litoral de São Paulo (Ubatuba), em um recorte de 236 acidentes provocados por animais marinhos 25% foram causados por água-viva.
Que tipo de lesão podem causar?
Causam lesões avermelhadas e elevadas com dor local. A lesão não é uma queimadura e sim um envenenamento da pele provocado pelas toxinas dos tentáculos do animal.
Do que depende a gravidade das lesões?
A gravidade da lesão depende da quantidade de veneno liberada, variando com o número e espécie de animais que tocaram a pele, além da idade e sensibilidade do sistema imune da vítima. Crianças possuem a pele mais fina, o que pode propiciar uma maior absorção do veneno liberado. Não há relato de óbitos por acidentes por água-viva no litoral brasileiro.
Quais os sintomas que esse tipo de acidente pode causar?
A maioria dos acidentes é leve e localizado: a região pode ficar avermelhada com edema e com algumas placas semelhantes à alergia. Pode haver dor muscular semelhante a câimbras. Sintomas mais graves são: dificuldade para engolir ou respirar, dores no peito, arritmias, náuseas, cefaleia e vômitos.
O que se deve fazer?
Os casos evoluem bem se os cuidados iniciais foram adequados:
- Se necessário, tirar os tentáculos delicadamente sem apertar.
- Lavar imediatamente com água do mar gelada.
- Aplicar compressas com vinagre, soro fisiológico ou água termal (preferencialmente gelados para maior alívio).
- Manter a lesão longe do sol e aplicar filtro solar.
Quando será necessário atendimento médico?
Nos casos em que as lesões são maiores ou se a criança for muito pequena.
Que medicamentos poderão ser prescritos pelo médico?
Medicações anti-inflamatórias, antialérgicas ou corticoide podem ser utilizadas com orientação médica para melhor controle da dor e dos demais sintomas.
O que não se deve fazer?
- Não usar urina para limpar o ferimento. Achar que é queimadura e não um envenenamento.
- Esses acidentes podem ocorrer quando se caminha na areia ou se banha no mar, geralmente são pouco graves e com os cuidados iniciais adequados evoluem bem.
- As águas-vivas são lindas, chamam a atenção de crianças que podem querer tocá-las. Oriente-as em relação a esses animais e fique atento em praias onde se encontram muitas águas-vivas na faixa de areia.
Andador
O andador pode interferir ou atrasar o desenvolvimento do bebê?
Quando o bebê está na fase de se soltar para andar sozinho, pode ter movimentos desajeitados, perder o equilíbrio e até cair — mas tudo isso faz parte do desenvolvimento motor normal da criança — que precisa ficar no chão para aprender a rolar, sentar-se, engatinhar e andar.
Ao colocar o bebê no andador ocorre atraso dessa fase do desenvolvimento, vai levar mais tempo para ficar de pé, a fase de andar sem apoio pode atrasar e a criança não aprende a cair. Além disso, engatinha menos e tem escores inferiores nos testes de desenvolvimento.
A atividade física é muito prejudicada pelo uso do andador, a criança gasta menos energia, apesar de ter mobilidade e velocidade maiores do que tentando alcançar o que lhe interessa com seus próprios braços e pernas.
Quais os riscos e acidentes relacionados ao uso de andador?
Ao estar no andador, a criança pode:
- Sofrer quedas, como rolar escada abaixo — podendo causar traumas de crânio graves e fraturas de membros.
- Queimar-se — ao atingir maior altura estando no andador, pode alcançar e puxar os cabos de panelas que estão nas bocas da frente do fogão, puxar uma toalha de mesa e derramar comida ou café quentes que ali estejam e alcançar aquecedores e lareiras.
- Afogar-se — a criança pode cair em uma piscina ou banheira enquanto está no andador.
- Sofrer intoxicações — ao alcançar produtos químicos e medicamentos que estejam em lugares mais altos.
Estatísticas mostram que ocorre pelo menos um caso de trauma para cada duas a três crianças que utilizam o andador. Um terço dessas lesões são graves, geralmente fraturas ou traumas de crânio que necessitam de hospitalização. A grande maioria sofre quedas e, dos casos mais graves, cerca de 80% são de quedas de escadas.
Pode colocar a criança no andador com um adulto por perto?
A maioria das lesões do andador acontece enquanto os adultos estão por perto. Os pais ou responsáveis simplesmente não conseguem responder com rapidez suficiente. Uma criança em um andador pode se mover mais de 90 cm em 1 segundo! É por isso que os andadores nunca são seguros de usar, mesmo com um adulto por perto.
O que os pais podem fazer?
- Deixar a criança ficar no chão, que é o lugar mais adequado para poder se movimentar e se desenvolver em segurança.
- Jardins ou parques são ótimos locais para a criança que está aprendendo a sentar, engatinhar ou andar.
- Quebrar em pequenas partes e jogar fora o andador.
- Certificar-se que não tenha andadores nos locais onde a criança está sendo cuidada, como creches ou na casa de outra pessoa.
- Experimentar o centro de atividades fixo (mesa de atividades que tem um assento com cinto de segurança no centro e a criança pode rodar ao seu redor).
O uso do andador é permitido em todos os países?
A Academia Americana de Pediatria pediu a proibição da fabricação e venda de andadores de bebê com rodas e os andadores são proibidos no Canadá. Hoje em dia existe um movimento muito intenso na Europa e nos Estados Unidos no sentido de que legislações semelhantes à canadense sejam aprovadas e postas em prática, uma vez que todas as estratégias educativas têm falhado na prevenção dos traumas causados por andadores. Enquanto, aqui no Brasil, essa questão não for discutida de forma séria, contamos com o bom senso dos pais ao não expor seus filhos a este produto tão perigoso e absolutamente desnecessário.
Fogos de artifício
Os fogos de artifício constituem um perigo conhecido por todos, mas ignorado principalmente nas festas juninas, final do ano e copa do mundo. Seu manuseio inadequado levou a muitas internações de pessoas de todas as idades todos os anos. Em algumas regiões, as festas juninas começam nas quermesses de maio e vão até julho e verifica-se que 1/3 de todas as hospitalizações ocorrem neste período de 3 meses.
Que lesões os fogos de artifício podem causar?
Além de mortes, o uso de fogos de artifício pode provocar queimaduras, lesões com lacerações e cortes, amputações de membros, lesões de córnea ou perda da visão e lesões auditivas.
Quais são os principais cuidados?
Os cuidados para os adultos são os seguintes:
- Não deixar as crianças ficarem perto e não brincarem com os fogos.
- Sempre seguir as instruções do fabricante.
- Nunca associar a brincadeira de fogos com bebida alcoólica.
- Nunca carregar bombinhas no bolso.
- Não acender próximo ao rosto.
Quais são as principais medidas de segurança?
Não há fogos de artifício seguros para o manuseio de crianças, mesmo os de classificação livre. As crianças devem ser ensinadas que fogos são perigosos, que devem ficar a uma distância segura deles, que só devem ser manipulados por adultos profissionais ou seguindo instruções de segurança.
Meio rural15
Crianças são curiosas, querem conhecer e investigar tudo que está ao seu redor. Quando estão em ambientes novos ou diferentes daqueles que estão acostumadas, sua segurança é muito importante, uma vez que vão se expor a riscos e perigos, com os quais não estão acostumadas e nem familiarizadas.
Quais são os perigos no meio rural? E as medidas de proteção?
A supervisão na área rural e no campo deve ser constante, uma vez que os perigos são inúmeros: água, animais, equipamentos, produtos para uso agropecuário.
Além da vigilância, é muito importante adotar medidas preventivas ativas (nessas ocorre a necessidade de ação para que ocorra a proteção, como trancar locais onde são armazenados os agrotóxicos) e passivas (as quais atuam de forma automática, como cercar os reservatórios de água) e que, quando associadas, promovem mais segurança.
Os adolescentes no campo também necessitam de supervisão e vigilância, uma vez que estão mais expostos a perigos, adotam comportamentos de risco e querem vencer desafios. Os pais e responsáveis devem avaliar se o adolescente está pronto para lidar com animais e trabalhar com máquinas, nas plantações e demais atividades no meio rural.
O transporte no meio rural é seguro?
As estradas rurais costumam ser de terra, estreitas, com muitas curvas, não planejadas, sem sinalização, sem conservação adequada e podem ter animais soltos.
Viajar na parte de trás (carroceria) de caminhonete ou caminhão implica em grande risco de traumas, inclusive em situações em que não ocorre colisão do veículo — uma freada brusca, um desvio ou mudança abrupta de direção poderá jogar a pessoa para fora do veículo, o que pode ocasionar lesões muito graves. Em acidentes com colisão, o risco de lesões é muito maior para os passageiros que estão na área destinada à carga.
O que se deve fazer?
- Adotar os mesmos cuidados recomendados para o ambiente urbano relativos à segurança no trânsito, mesmo em pequenos percursos.
- Usar cinto de segurança.
- Usar assentos apropriados para as crianças.
- Não viajar em carrocerias de caminhonetes e/ou caminhões.
- Jamais permitir, mesmo em estradas rurais de terra, que seus filhos conduzam carro ou motocicleta se não estiverem habilitados.
- Uso obrigatório de capacete para ciclistas e motociclistas.
- Andar devagar; as estradas de terra não permitem velocidade.
- Solicitar às autoridades competentes conservação para as estradas.
E o transporte de charrete ou carroça?
- Escolher um animal adequado.
- Acompanhar as crianças para evitar quedas e outros tipos de acidentes.
- Evitar transitar por estradas movimentadas.
- Respeitar a mão e andar devagar.
- Cuidar da conservação do veículo.
- Estar sempre atento.
Quais as principais medidas de segurança com os equipamentos?
Ferramentas e equipamentos (enxadas, enxadões, facões, foices, machados, máquinas de cortar cana e capim) não podem ser utilizados por crianças. Adolescentes devem ser avaliados antes de delegar atribuições para que possam trabalhar com esses equipamentos e ferramentas. Quando não possuírem experiência, devem ser orientados, acompanhados e supervisionados.
Que tipos de lesões as crianças podem sofrer ao usar ferramentas e equipamentos de forma inadequada?
As lesões são frequentes e há risco de traumatismos graves, acometendo mãos, braços, pés e pernas.
O trator e outros veículos a motor representam riscos?
O uso inadequado pode levar a quedas e atropelamentos. As crianças devem ser ensinadas que não são brinquedos e são perigosos.
O que deve ser feito para evitar acidentes?
- A criança nunca deve ficar por perto ou em cima de tratores ou equipamentos agrícolas em funcionamento ou mesmo desligados.
- O adulto deve estar atento e verificar, antes de ligar os veículos, se há crianças por perto, se houver, retirá-las da área de trabalho.
- Tirar a chave dos veículos após desligá-los.
- Manter equipamentos e ferramentas em boas condições de conservação e guardá-los de maneira segura, longe do alcance de crianças.
Segurança com animais
Cavalos
O que é importante saber?
Não há cavalo que oferece segurança absoluta. Mesmo tomando todas as precauções, como a escolha do animal adequado, local apropriado para cavalgar, há risco em situações inesperadas. O cavalo pode assustar, escorregar e cair, sentir medo e sair em disparada ou modificar a direção, agitar-se e pular ao ser mordido por inseto.
Quais os tipos mais comuns de acidentes e de lesões?
É a queda, mas também há risco de coice, pisoteamento ou mordida pelo cavalo. Daí que os perigos estão presentes tanto quando a pessoa está andando a cavalo como também quando está próxima ao animal, alimentando-o, cuidando dele, preparando-o para ser montado ou estando simplesmente a sua volta.
As lesões mais frequentes decorrem de trauma craniano, na coluna, nos membros e na face, que podem causar ferimentos graves com risco de morte e sequelas.
É importante andar a cavalo usando o capacete?
Sim, é considerado o item de segurança mais importante e indispensável para evitar e/ou diminuir a gravidade dos traumatismos cranianos.
Como o capacete deve ser?
Deve ser próprio para equitação, contemplar os padrões de segurança, ser confortável, de tamanho adequado ao usuário e colocado corretamente antes de se montar. Recomenda-se que a criança esteja com ele em todas as ocasiões que estiver andando a cavalo. Dica importante: as crianças devem estar de capacete mesmo que estejam apenas próximas dos cavalos, devido aos riscos de coice e mordida na cabeça.
Quais são e como devem ser as roupas e equipamentos de proteção?
- Usar calça, camisa ou blusa bem ajustadas.
- Botas de tamanho adequado e que devem adaptar-se bem ao estribo.
- Luvas para proteger as mãos e os dedos.
- Protetores de corpo e ombros devem ser adequados ao tamanho da criança, mas não protegem a coluna.
- Cabelos devem estar presos.
Que outras dicas são importantes?
- Iniciantes devem ser orientados por instrutor competente, que deve ensinar, inclusive, como prevenir traumas quando se está perto do animal.
- Pessoas inexperientes acidentam-se mais, as primeiras aulas devem ser, preferencialmente, em ambiente cercado.
- Sempre procurar uma área segura para andar a cavalo, evitando locais que possam assustar o animal, como outros animais, veículos ou equipamentos com motor.
- Não confiar em um cavalo manso, ele pode também se assustar por vários motivos e causar a queda da criança.
- O animal deve ser manso, castrado e de natureza mais dócil para crianças e iniciantes, cavalos mais velhos costumam ser mais calmos e previsíveis.
- O cavalo deve ser corretamente arreado, não é para andar sem sela e arreios.
- Não se deve amarrar ou enrolar a rédea na mão ou nos dedos, nem quando estiver puxando o cavalo.
- Uma pessoa de cada vez deve montar no cavalo.
- Quando forem cavalgar com outros cavaleiros, manter distância entre os animais.
- Crianças necessitam de vigilância contínua enquanto andam a cavalo ou estão próximas a eles.
- Nunca amarrar ao cavalo a criança que está cavalgando.
- Evitar sempre o uso de álcool e/ou outras drogas.
E a equoterapia, é apenas modismo ou tem sua importância?
A equoterapia é a terapia que trabalha com cavalos para aumentar e reforçar diferentes áreas ou habilidades da criança.
Quando pode ser utilizada?
É utilizada principalmente em crianças com algum tipo de transtorno ou deficiência, como por exemplo no Transtorno do Espectro Autista (TEA), portadoras de paralisia cerebral e de algumas síndromes.
Com que objetivos?
Como adjuvante dos tratamentos convencionais, para buscar maneiras de melhorar, de se conhecer melhor, de potencializar seu desenvolvimento pessoal e a sua qualidade de vida.
Pode ser praticada em qualquer local?
Não, a equoterapia, quando indicada, deve ser praticada em escola apropriada e com profissionais especializados.
Gado
Quais são os principais riscos que as crianças e adolescentes podem correr estando perto do gado?
Correm o risco de serem chifrados, pisados, levarem coices ou serem derrubados por animais. Adolescentes podem sofrer lesões adicionais se trabalham com o gado, enquanto aplicam medicamentos, oferecem alimentos, tiram leite, ou os reúnem. Lembrar que a vaca e o touro são mais perigosos quando têm bezerro novo.
Quais são as principais medidas de segurança?
- Crianças não devem ficar por perto enquanto os adultos trabalham com animais.
- Se os pais considerarem que as crianças podem ir ao curral, ao pasto ou a outros locais onde há gado, devem estar continuamente acompanhadas de um adulto atento que zele por sua segurança.
- O adolescente deve ser avaliado se já tem idade, preparo e experiência para desempenhar, com segurança, o trabalho com os animais e deve ser supervisionado também todo o tempo.
Cães
O que é importante saber com relação aos ataques de cães em crianças?
A mordida de cão em crianças pode ser grave, podendo levar a sequelas físicas e emocionais, além do risco de transmissão de raiva. A criança muitas vezes provoca o animal de forma intencional (manipulando-o) ou não-intencional (ao correr, gritar, pular etc.), levando o cão a reagir.
Se os pais têm filhos pequenos, devem analisar bem antes de adquirir um cão, avaliando bem qual será o momento oportuno e seguro, porque criança pequena nunca poderá ficar sozinha perto do animal, devido ao perigo de ataque.
Lembramos que a grande maioria de mordidas em crianças é causada por animais da própria família ou de vizinhos. Crianças pequenas sofrem os ataques mais graves, que podem causar lesões na cabeça, no rosto e no pescoço. Em crianças maiores, as lesões ocorrem geralmente nos braços e pernas.
Se houver provocação ou agressão, mesmo o cão de raça dócil poderá morder. Se a criança fica amedrontada na presença de qualquer cão, não é a ocasião adequada para adquirir um animal.
O que os pais precisam fazer antes de ter um cão em casa?
- Informar-se com um veterinário sobre as raças mais adequadas e as mais mansas.
- Observar bem o comportamento do cão antes de levá-lo para casa.
- Não ter em casa animal de comportamento agressivo, independentemente da raça.
- Ensinar e vigiar as crianças sobre a maneira adequada para lidar com o animal, como não provocar ou machucar o cão.
- Combinar antecipadamente com as crianças que o cão não poderá dormir com eles nem fazer as refeições com a família.
O que se deve fazer?
- O cão necessita de treinamento e socialização orientados por pessoa habilitada.
- As brincadeiras entre crianças e cães devem ser supervisionadas por adultos.
- Manter as vacinas do animal em dia (conferir sempre), disponibilizar assistência veterinária periódica, cuidar da alimentação, da higiene e da saúde do cão.
- Orientar as crianças para não se aproximarem ou brincarem com animal estranho.
- Se o cão mudar o comportamento, é necessário procurar um veterinário.
- Cão pequeno e/ou de raça mansa não é garantia de que não morderá.
- Cães castrados geralmente são menos agressivos.
- Respeitar o cão.
O que não é recomendado fazer?
- Estimular a agressividade do cão.
- Mexer com o cão, principalmente durante a alimentação, o sono, se tiver filhote novo ou se estiver com aparência de doente.
- Puxar orelhas, patas e rabo.
- Colocar a mão na boca ou nos olhos do animal.
- Tomar brinquedo que esteja com o cão.
- Beijar ou ficar com o rosto perto do animal.
- Tentar separar briga de cães.
- Ficar perto de cães agressivos.
- Encarar o cão.
- Ter cães de raças reconhecidamente agressivas, como: pit bull, rottweiler, pastor alemão, doberman, etc.
- Atentar aos cruzamentos porque podem gerar animais perigosos.
Quais são os principais cuidados para evitar a ocorrência de mordidas?
- Manter os cães em local seguro, utilizando coleira e focinheira.
- Evitar a criação de raças perigosas.
- Educar os pais e as crianças sobre os perigos potenciais de conviver com animais.
- Nunca mexer com os animais enquanto eles estiverem se alimentando.
- Não importunar os animais: puxar sua cauda, amarrar objetos em suas patas ou corpos, chutá-los.
- Não prender os animais em locais apertados.
- Não mexer com animais desconhecidos, se o fizer, somente se estiverem acompanhados de seus donos.
- Notificar os casos de agressão animal para a vigilância epidemiológica e verificar a necessidade da profilaxia da raiva humana, com soro ou vacina.
Quais são as responsabilidades do proprietário?
- Ter controle sobre o animal e adestrá-lo corretamente.
- Não estimular comportamento agressivo.
- Em caso de animal feroz, providenciar placas de alerta com ilustração (nem todos são alfabetizados).
- Conduzir o animal em locais públicos sempre com guia.
- Oferecer assistência veterinária periódica.
- Antes de adquirir um animal consultar veterinários, criadores e proprietários sobre as características e adaptação à rotina familiar.
- Se o animal apresentar comportamento indesejado, consultar um veterinário, nunca o abandonar em locais públicos.
- Saber reconhecer os sinais sugestivos de ataque iminente: pelo eriçado, dentes à mostra e rosnado, orelhas eretas e para frente, cauda elevada e reta e contato visual prolongado.
Quais são as condutas após a mordida?
- Lavar o local da mordida com bastante água e sabão o mais rapidamente possível.
- Se houver inchaço no local da mordida, aplicar uma bolsa de gelo.
- Certificar-se de que o cão é vacinado — providenciar o cartão de vacinas do animal.
- Procurar assistência médica com urgência, para que sejam feitos os procedimentos como possíveis suturas, vacinas etc.
O que não se deve fazer após a criança ter sido mordida?
- Matar o cão.
- Não deixar o animal em observação por 10 dias em local seguro para prevenir agressões a outras pessoas.
- Não tomar providências para que o animal fuja.
- Não procurar atendimento médico imediatamente se no período de observação o cão manifestar qualquer sinal de doença (inclusive mudança no comportamento), desaparecer, ou morrer.
Os editores da segunda edição do Conversando com o pediatra agradecem o excelente trabalho realizado pela Dra. Renata Waksman, organizadora principal do livro Crianças e Adolescentes em Segurança que junto com equipe de refinada qualificação científica realizaram e produziram este capítulo de Acidentes.
