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Conversando com o Pediatra

Parte II — Principais problemasCapítulo 27 de 46

Convulsão

Quando a convulsão vem sem febre: o que pode causá-la, como reconhecer crises discretas, quando correr ao hospital e o que esperar do futuro.

  • AutoriaLucas Victor Alves
  • Leitura8 min · 1,595 palavras
  • No livropáginas 823–827
  • Conversa10 perguntas respondidas

Resumo do capítulo

As convulsões que surgem sem febre são sintomas de doenças que atingem o sistema nervoso central — de meningites e malformações a distúrbios metabólicos, traumas e tumores. O capítulo abre com um guia prático direto: toda criança que convulsiona precisa ser atendida e investigada, e na primeira crise é obrigatório ir rapidamente ao hospital mais próximo de casa.

Em perguntas e respostas, o texto apresenta as causas mais comuns por idade, os exames da investigação (liquor, eletroencefalograma, ressonância magnética, exames genéticos) e a enorme variedade de crises, inclusive as discretas, como a criança “desligada” ou uma fala “enrolada”. Explica que o risco de sequelas depende em grande parte da doença que causa a convulsão, que grande parte das crianças não terá sequelas e que o acompanhamento com pediatra e neurologista é fundamental. Fecha com o relato de pais de um menino com epilepsia que, após anos de ajustes na medicação, comemoraram o primeiro eletroencefalograma normal.

Para quem: Para famílias de crianças que tiveram uma convulsão sem febre ou que convivem com a epilepsia.

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27.1Guia prático

  • A convulsão consite em contrações musculares, repetidas, involuntárias, nos quatro membros, ou em um lado do corpo e até em apenas um membro. Pode haver perda da consciência, queda, eliminação de fezes e urina. Existem outros tipos como a ausência em que a criança por um tempinho fica “desligada” do mundo.
  • Convulsão representa doença que atinge o sistema nervoso (meningite, encefalite, malformações, alteração do metabolismo, hipóxia neonatal).
  • Todo paciente convulsivo tem que ser atendido pelo sistema de saúde e ser submetido a uma investigação minuciosa.
  • Na primeira crise é obrigatório ir rapidamente ao hospital mais próximo da residência.
  • Nas crises repetidas, mesmo com os familiares bem instruídos, quando o episódio é diferente, ou mais prolongado, ou é mais repetitivo, também é importante ir a uma emergência médica.
  • O médico vai prestar a assistência devida (remédio para parar a crise, se for o caso, e ministrar oxigênio suplementar e adotar outras medidas necessárias) e iniciar a busca da causa.
  • As crianças novinhas devem ficar internadas por alguns ou vários dias até o diagnóstico da doença causal.
  • Os portadores de algumas situações especiais (encefalites, meningites, distúrbios metabólicos, defeitos congênitos do cérebro e outros problemas graves) também podem precisar de hospitalização prolongada, estudos e tratamentos especializados.
  • No longo prazo, o pediatra assistente e o neurologista de criança são mais fundamentais nessa situação do que na convulsão febril.
  • É essencial o contato com os pediatras assistentes.

27.2Conversando...

As convulsões não febris são sintomas de múltiplas doenças do cérebro ou de outras partes do corpo que afetam o sistema nervoso central. O significado das convulsões não febris e tudo o que os médicos e os familiares devem fazer dependem da causa, da doença.

São comuns essas convulsões sem febre?

São menos frequentes que as crises convulsivas febris, mas ocorrem com certa frequência. Cerca de 1% da população apresenta epilepsia.

Quais doenças produzem essas convulsões não febris?

Pode ser causada por uma grande lista de condições. Vamos separar por idades:

  • Em recém-nascidos: as causas mais frequentes são as ligadas à redução do fornecimento de oxigênio para o cérebro no momento do parto. Ainda existem as malformações do sistema nervoso central, as meningites, infecções congênitas, microcefalia.
  • Em crianças maiores, as meningites continuam sendo importantes. Mas, aparecem outros distúrbios metabólicos (hipoglicemia, desidratação), traumas do crânio, tumores do cérebro, intoxicações e hipertensão arterial.

Os médicos sempre encontram a causa?

Algumas vezes os médicos e todo o arsenal de exames (liquor, eletroencefalograma, ressonância magnética, exames genéticos) não conseguem definir a causa. A principal causa de epilepsia na infância são as de origem genética. O advento desses exames permitiu identificar a causa das crises em uma maior quantidade.

Quais as características da convulsão não febril?

A convulsão na ausência de febre apresenta uma fenomenologia muito ampla. Face às variadas causas, aos distintos mecanismos lesionais, aos vários locais a do cérebro e à gravidade e extensão do processo lesional, o quadro convulsivo tende a ter características bem mais variadas em todos os aspectos observados: tipo de manifestação convulsiva, duração, repetição, significado para os enfermos, manejo terapêutico e outros. O que será resumidamente relatado serve para ilustrar os achados mais usuais:

  • O início é súbito, inesperado, embora alguns doentes percebam que a crise vai ser iniciada devido a certos sintomas chamados de aura.
  • Na maior parte das vezes, as crianças ficam inconscientes. Há crises apenas com essa manifestação, em que elas ficam “desligadas” ou “molinhas”. Há crises convulsivas em que a consciência é mantida.
  • Há crises com abalos musculares dos quatro membros ao mesmo tempo (crises generalizadas). Outras vezes, os movimentos são em apenas um membro ou em parte dele (crises localizadas).
  • O corpo das crianças pode ficar amolecido ou enrijecido. Pode ser notada contração dos músculos da mastigação, o que fere a língua, e eliminação de saliva, urina e fezes. Muitas vezes, surge coloração azulada (cianose) na face.
  • Há crises com um movimento súbito do corpo, como num abraço inesperado.
  • Outras crises são tipificadas por movimentos involuntários e repetidos da musculatura da mastigação, dos olhos, da língua. Outras vezes, ocorre alteração da respiração, do coração e do tubo gastrintestinal.

Apenas os movimentos de língua podem ser convulsão?

Sim, nesses casos os pais irão perceber uma mudança da fala da criança, semelhante a uma fala “enrolada”. Existem inúmeros tipos de crises epilépticas, não só aquela em que o paciente debate os quatro membros. Há quadros típicos como o observado na crise convulsiva tipo “grande mal” em que inesperadamente o paciente perde a consciência e apresenta vigorosos abalos musculares. Até o leigo sabe que algo importante está ocorrendo. Há outros tipos de crise que serão descobertos por um familiar atento que nota repetidamente algo estranho na criança. Também muito importante que o familiar perceba se a criança, principalmente do primeiro ano de vida, está com desenvolvimento normal. Atraso na aquisição de qualquer habilidade, no sentar, por exemplo, pode ser significativo na análise que o médico fará. Até o neurologista experimentado pode ter certa dificuldade de rotular o fato relatado como manifestação convulsiva.

E a duração e a repetição dessas crises?

Esses são outros detalhes que diferenciam essas crises das febris. Elas têm duração não padronizada, podem durar de segundos a minutos. O objetivo principal do tratamento é o controle das crises ou a diminuição da frequência delas.

Elas podem deixar sequelas?

A enfermidade que ocasiona a convulsão é grande determinante desse aspecto. As convulsões que são sequelas de uma meningite ou de uma carência de oxigênio podem ser para toda a vida. Por outro lado, a convulsão que ocorreu por outras condições (distúrbio metabólico da desidratação ou infecção intestinal, por exemplo) não devem deixar sequelas se tratadas a tempo. Outros aspectos como a crise convulsiva (prolongada, repetida, com falta de oxigenação cerebral) e o tratamento instituído (cirurgia do cérebro e outros) também são potencialmente causadores de sequelas. Várias funções cerebrais podem ser comprometidas por esse conjunto de fatores: visão, audição, fala, inteligência e outras. Sequelas físicas (crescimento retardado e puberdade precoce) também podem ocorrer. Mesmo as crises epilépticas de curta duração também podem deixar sequelas.

Quando levar a criança convulsiva ao médico?

Todo paciente que apresentar uma crise convulsiva deve ser visto pelo médico. Na primeira crise, quando for possível caracterizá-la, é obrigatório ir ao hospital mais próximo da residência. Lá o médico vai prestar a assistência devida (remédio para parar a crise, dar oxigênio suplementar e adotar outras medidas) e iniciar a busca da causa.

O pediatra assistente e o neurologista de criança são fundamentais. É de extrema importância manter um acompanhamento regular, no qual será avaliado o controle das crises, eficácia do tratamento, seguimento do desenvolvimento neurológico e eletroencefalograma periódico.

Qual o futuro de uma criança que tem o quadro?

Grande parte não terá sequelas no futuro. Principalmente, aquelas que apresentaram apenas uma crise convulsiva em face de um evento isolado não deverão ter dificuldades. Estão entre elas as crises provocadas pela desidratação, hipoglicemia, intoxicação por medicamentos ou até mesmo a meningite precocemente diagnosticada e tratada.

Outro aspecto importante salientar é o advento de novos medicamentos anti epilépticos, com menor risco de efeitos colaterais. Porém há doenças muito graves ou aquelas nas quais a criança já nasce com uma sequela grave. Nesses casos o prognóstico é reservado.

E o papel da família?

A medicina tem conseguido avanços espetaculares. A cirurgia resolve alguns tipos de convulsão, além de corrigir alguns defeitos antes irreparáveis. Há tumores curáveis. Há medicamentos altamente eficientes. Próteses auditivas e transplante coclear são reais. A recuperação fisioterápica é inegável. Confiar, lutar e procurar centros de referência são os melhores conselhos que podemos dar.

27.3Relato de pais

I. RELATO DE PAIS QUE TÊM UM FILHO COM CONVULSÃO NÃO FEBRIL

“Somos pais de um garoto que hoje tem 12 anos, joga basquete está no sétimo ano do ensino fundamental, tira notas acima da média, corre, joga games, lê mangá, vai a pé para escola, gosta de animais, cinema, super-heróis, lego, e tudo aquilo que uma criança faz. Porém, há seis anos, foi diagnosticado com epilepsia, após um (e único) episódio de convulsão presenciado pela mãe grávida de seis meses, que de pronto providenciou o socorro para uma emergência hospitalar, onde, após exames clínicos, em especial a tomografia, foi identificado uma cicatriz encefálica que segundo o neuro de plantão e seus auxiliares, pelo tamanho, foi proveniente ainda enquanto feto, ou seja uma cicatriz intrauterina que pode ter sido ocasionada por diversos fatores, o que não importava muito naquele momento da descoberta da doença.

Assim começou a jornada de uma mãe e um pai em busca do que fazer para cuidar de seu filho. Entre idas e vindas de especialistas de saúde, onde diversos protocolos médicos foram feitos, introduzindo, combinando e retirando medicamentos, vimos nosso filho sentir as reações adversas das medicações, tais como: sonolência, irritabilidade, alucinações, reações de pele, entre outras.

Neste interim, por longos três anos, que para nós pais, pareceram décadas, as crises basicamente eram espasmos que atiravam nosso filho ao chão, uma angústia para nós e uma afiliação para nosso filho, pois toda vez que caía no chão, com as crises, ele externava: ‘eu não quero mais ter vontade de cair´ (denominação dada por ele mesmo para as crises).

Quando foi acertado a medicação (com a administração de três remédios combinados) e os eletroencefalogramas (EEG) começaram a se organizar, e, com isso, as medicações começaram a ser reduzidas e algumas retiradas, ficando apenas uma.

Depois de dois anos e meio sem crises aparentes fomos encaminhados para mais um exame clínico, a polissonografia com eletroencefalograma, e, para nossa felicidade, depois de cinco anos e meio, foi o primeiro EEG limpo (monitorado a noite toda), foi tanta a emoção ao ler o resultado do exame que passamos um bom tempo para nos recompor dos prantos.

Coincidentemente, estamos escrevendo este depoimento durante uma nova polissonografia, após nove meses da anterior, para definir uma nova etapa dessa história com o desmame da última medicação. Queremos aqui deixar nossa vivência para outras famílias que passem por algo parecido, que acreditem nas orientações médicas e que procurem entender mais sobre a enfermidade que seu filho ou ente enfrenta para melhor ajudá-lo.”

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