As informações que os pais e os outros cuidadores fornecem aos médicos são os mais valiosos aspectos para o diagnóstico e, consequentemente, para o tratamento, prognóstico e todos os outros itens que dependem do conhecimento apropriado da anormalidade apresentada. Assim, mais valiosas que o exame do médico ou que os exames de laboratório e ou de imagem.
E essa condição básica, ouvir cuidadosamente o paciente ou o cuidador quando o paciente for criança, para o ato médico de boa qualidade, é também o aspecto mais significativo para o estabelecimento de uma qualificada relação médico-paciente, com grau aceitável de humanização. Hoje essa é uma das preocupações dos educadores médicos, num momento em que a medicina está baseada em monitores, em bip-bip-bip, em imagens, em exames laboratoriais e em laudos computadorizados.
Portanto, permitir uma melhor relação médico-paciente, favorecer a humanização da medicina, é mais um produto benéfico do ouvir o paciente ou o cuidador. Para cuidar dos pacientes, os médicos analisam:
- A história da doença (dados fornecidos pelo paciente, familiar ou outro informante)
- O exame físico (peso, altura, pressão arterial, inspeção geral, ausculta cardíaca e pulmonar, palpação do abdome, exame neurológico e outros)
- Os exames complementares (laboratório, imagem e outros)
- A evolução da enfermidade (sem ou com intervenção médica, resposta ao tratamento etc.)
A consulta médica presencial é o modelo clássico e ideal para a coleta e registro dos dados. É nessa consulta que o médico avalia e registra com mais propriedade os aspectos da doença, inclusive os de ordem emocional.
A consulta virtual ou teleconsulta, via chamada telefônica ou pelos modernos meios de comunicação, permite diagnosticar e resolver muitos dos problemas mais simples da saúde. Os profissionais que exercem a prática médica para uma clientela definida, há muitos e muitos anos, são acostumados a resolver os assuntos via uma simples e barata chamada telefônica. É a forma mais antiga da telemedicina.
Agora com as chamadas de áudio e vídeo, em que o profissional vê o paciente em seu ambiente e interage mais com os cuidadores, o poder da teleconsulta foi ampliado. Essa moderna tecnologia permite ao profissional ver fotos com lesões que o paciente apresenta e avaliar resultados de exames e de imagens. É extraordinário. As chamadas de áudio e de vídeo são extraordinárias e confortáveis para o paciente, os familiares, os outros cuidadores e também para o profissional.
Nelas existe diálogo entre o cuidador e o profissional. Não falamos sobre as mensagens resumidas em que a mãe ou outro cuidador envia algumas informações por texto ou áudio sobre a saúde da criança. Algumas vezes a situação exposta é complexa e as informações não permitem que o médico responda adequadamente.
Portanto, teleatendimento exige diálogo entre quem relata o problema do paciente e o profissional que atende. Idade, sexo, situação vacinal, passado mórbido, tolerância ou intolerância a medicamentos, exames realizados, sintomas e sinais da doença atual e muitos outros dados são colhidos nesse tipo de consulta.
Na recente epidemia da Covid-19, esse mecanismo de avaliar enfermos foi usado de forma notável. Mas é necessário cuidado para usar criteriosamente o que cada método oferece. Muitas operadoras de planos de saúde podem estar expandindo o teleatendimento simplesmente para reduzir custos. A teleconsulta é mais barata que a presencial.
Também é notório que a consulta presencial permite observar dados que a virtual não permite. Pesar, medir a estatura e o perímetro cefálico, colocar os dados nos gráficos de crescimento, avaliar a genitália, sentir a emoção que a doença causa e estudar outros itens ilustram as vantagens da avaliação presencial. Outro aspecto de especial significado é o registro apropriado dos dados colhidos, isso é essencial para permitir continuidade assistencial. Geralmente, o registro é melhor executado na consulta presencial. É possível que um modelo misto seja o mais indicado na atualidade.
O atendimento telefônico, em Pediatria, é válido?
Sim. É a forma mais elementar de telemedicina. A mãe atenta e que acompanha diuturnamente o que está ocorrendo com o filho pode transmitir preciosas informações por telefone ao médico. E os profissionais experientes ouvem e fazem algumas perguntas chaves: está com febre? Está com tosse, catarro, diarreia, vômitos, manchas na pele? Tomou vacina recentemente? Está tomando antibiótico ou outro medicamento? Como está o estado geral? Tudo isso somado permite que os profissionais orientem sobre o que fazer. É bem demonstrado que o médico experiente e atento interpreta a narrativa de um cuidador capaz de prestar informações qualificadas.
Podemos dispensar o exame do médico?
A margem de erro na consulta telefônica é muito maior do que na presencial, A consulta médica, apenas com a história clínica, fornece a maior parte, mas não todas as informações necessárias para a tomada de decisões. O exame físico feito pelo médico, os exames laboratoriais e de imagem podem fornecer dados decisivos. Novamente, damos exemplos. Médico percebe tumor abdominal em menino normal, sem queixas e que é levado para a visita de rotina; profissional evidencia crescimento anormal da cabeça, produzido por um cisto que precisou de cirurgia, em outra criança, também tida como normal, sem queixas; pediatra descobre sopro cardíaco que precisa de investigação especial em criança normal e sem queixas. O exame do pezinho é o melhor exemplo de como o laboratório pode informar sobre doenças não manifestas. O exame permite o diagnóstico de anormalidades existentes, mas sem sintomas e com o exame médico normal, que poderão se transformar em gravíssimo problema poucos meses depois. Então, o importante é o conjunto. É a história contada por vocês, o exame dos médicos, os elementos dos exames laboratoriais e de imagem, a evolução da enfermidade, a resposta ao tratamento e outros elementos que permitem aos profissionais definir o melhor caminho a seguir.
A consulta médica completa é essencial?
Vocês devem ter percebido que o papel dos médicos é muito maior. É o de ouvir, ouvir, ouvir, examinar, apalpar, pegar, medir, anotar nos gráficos, cheirar, olhar, olhar de novo, refletir, pensar, avançar numa linha de raciocínio, desistir dela e tentar outra. É o de verificar se os resultados dos exames complementares se ajustam aos outros elementos que ele dispõe. É de somar tudo, pensar sobre tudo e tentar concluir. É o de ajustar o tratamento às expectativas e até aos recursos que dispõe e à competência financeira da família. Então, a resposta é que o contato com os médicos é essencial e o papel dele transcende o conversar com vocês, transcende o exame clínico e transcende a análise do exame laboratorial. O conjunto é mais importante que uma parte. E quanto mais complexa a situação, mais verdade é essa assertiva. Os pediatras experientes podem orientar por telefone a conduta a ser seguida para as crianças que apresentam coriza, tosse, vômito, diarreia e muitas das condições simples da clínica pediátrica. Mas eles não podem orientar, por telefone, o que fazer nas condições mais complexas, como numa criança que está respirando mal.
Qual a frequência de avaliação presencial na Pediatria?
A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) define, como visto abaixo, a lista de consultas presenciais feitas pelo médico ou por outro membro da equipe de saúde que cada criança ou adolescente, normal, sem queixas, sem problemas, deve receber, é o check-up da criança e do adolescente.
São consultas que a SBP define, sabiamente, como de puericultura, mesmo para os adolescentes. Portanto, sem queixas, a criança e o adolescente devem ir à presença do profissional da área de saúde para cumprir um ritual predeterminado. Assim, cada consulta deve ter um conteúdo específico. Já no primeiro ano de vida, cada criança deve ter peso, altura e perímetro cefálico avaliados com registro nos gráficos de crescimento, programa vacinal conferido, nutrição avaliada, aquisição das habilidades motoras revisadas, por exemplo. E em cada idade o profissional deve conferir dados específicos, além dos gerais.
Então é ainda essencial a presença do garoto ou da garota e do adolescente dos dois sexos no consultório do profissional, médico ou não, para avaliação do estado de saúde. Mesmo que sejam considerados hígidos, sadios. E, em certas condições mórbidas, a presença do paciente no consultório do médico é ainda mais importante.
Qual o valor de cada informação que o médico colhe?
As pesquisas indicam que a narrativa dos cuidadores, a anamnese, permite que os médicos façam o diagnóstico e definam o tratamento em 80% das vezes. O exame físico do paciente, isoladamente, possibilita que sejam feitos 10% dos diagnósticos. Assim, os dois mecanismos fornecem 90% das informações úteis para a condução de cada problema de saúde. Todos os outros dados juntos, inclusive os de imagem e laboratoriais, auxiliam em apenas 20% das situações clínicas comuns.
Os cuidadores que conhecem a criança fornecem os dados mais valiosos. O médico deve valorizar quando lhe dizem: “essa criança não está bem”, “o intestino dela não é assim”, “ela está quente”, está irritada”, “ele não está comendo bem”, “estou dando o antibiótico, mas ela não está melhor”, “minha filha não está ouvindo bem”, “não está enxergando normalmente”, “está urinando com dificuldade” e “apareceu sangue nas fezes”.
Isso é a base para o trabalho médico. Os pais e os outros cuidadores têm que caprichar no relato e os médicos devem avaliar criteriosamente cada dado. Tudo começa com essa narrativa.
O que posso fazer para caprichar?
Você deve vivenciar a alimentação, a higiene, as brincadeiras, o estudo, o sono e todas as atividades de cada um dos seus filhos. Significa pegar, cheirar, olhar, perguntar, desconfiar, estar atento. É óbvio que isso é facilmente viável quando os familiares cuidam do filho. Mesmo quando trabalham fora de casa, devem ter o cuidado de saber o que se passou na sua ausência. É importante relatar as mudanças na aparência dos órgãos da criança (na pele, no olho, no odor da boca, e em outros órgãos), falar sobre as modificações nas funções (coração acelerado, respiração diferente, sono excessivo ou insônia, mudança no padrão de evacuação e de micção, dentre outros), informar sobre as alterações no comportamento e no aprendizado (irritabilidade, baixa do rendimento escolar, dentre outros). É evidente que o relato dos dados deve ser o mais exato possível. Os pediatras ficam satisfeitos quando o cuidador leva uma listinha com o que deve ser relatado.
E os médicos, o que devem fazer para caprichar?
Atualmente, os médicos têm tido forte tendência ao uso abusivo dos exames laboratoriais em detrimento da história referida pelos familiares. Isso tem preocupado os educadores das escolas médicas. O que os profissionais têm que fazer é ouvir. Os médicos que ouvem com atenção colhem dados de extremo valor e estabelecem sólidas relações com seus pacientes e familiares. Os familiares confiam mais nos médicos que ouvem bastante e examinam bem.
Podemos induzir o médico a erros?
Sem dúvida. A narrativa subdimensionada induz a erros e a superdimensionada idem. Omitir dados não é bom e informar o que não está ocorrendo é um absurdo. A medicina conhece situações em que os familiares informam problemas inexistentes no filho e isso cria dificuldades para o médico e complicações jurídicas para os informantes. Esconder traumas e agressões sofridos pela criança causa graves problemas médicos e judiciais.
Como os médicos avaliam se o que dizemos é correto?
Os médicos sempre trabalham com a soma dos dados. Eles analisam as queixas, fazem o exame físico e confrontam com todas as informações. Em seguida, comparam os resultados dos exames laboratoriais com a noção obtida do somatório dos dados. Isso tudo, feito meticulosamente, mesmo por profissionais experientes, não garante 100% de certeza. Assim, é sempre importante ter uma atitude aberta para a possibilidade de outro diagnóstico.
O que os médicos conseguem saber apenas com o que falamos?
Os médicos podem com a narrativa de vocês definir:
- O órgão acometido: diarreia, vômitos, cólicas e distensão abdominal mostram que o problema tem componente gastrointestinal, que até pode não ser o mais importante. Tosse e falta de ar remetem para as vias respiratórias. Erupção na pele indica acometimento cutâneo e se vem acompanhada de febre, o médico dirige a atenção para as infecções. Dor de ouvido deve indicar adoecimento nessa estrutura. Dor ao urinar e urina avermelhada provavelmente apontam para doença das vias urinárias. Essa é a primeira conclusão do médico: “a estrutura acometida, provavelmente, é esta”. Mas há situações em que não é possível definir, apenas com a história clínica, qual o(s) órgão(s) acometido(s). Há, por exemplo, algumas doenças febris na criança, o exantema súbito é exemplo.
- As crianças acometidas têm febre altíssima e os familiares nada encontram. A evolução e o exame físico do médico, junto com outros dados, é que sugerem o diagnóstico que só pode ser confirmado quando surge o quadro cutâneo e a febre vai embora.
- A doença mais provável: criança com olhos vermelhos, erupção cutânea e febre, que não tomou vacina contra sarampo e que 10 dias após ter tido contato com outra criança com essa doença começou a apresentar os sintomas referidos, deve estar com sarampo. Se a erupção cutânea é acompanhada de muita coceira e ocorre numa criança que não tem febre e que está usando antibiótico, é provável que esteja acontecendo uma reação alérgica ao medicamento. Menino que apresentou dor de ouvido várias vezes, está sendo seguido pelo otorrinolaringologista, já foi medicado com antibióticos devido ao problema, e agora está com muito catarro nasal, chorando e pegando na orelha, deve estar com otite média aguda. Febre que surge após a aplicação de determinada vacina deve ter sido induzida por ela. Vejam que todos esses dados podem ser conseguidos com a mãe ou cuidador principal da criança.
- A potencial gravidade da doença: vocês já devem conhecer a pergunta clássica do médico: “como está o estado geral? ”. A pergunta é para os profissionais avaliarem a gravidade da doença. Criança com febre muito alta que brinca, sorri, corre, come e que está corada, com bom aspecto geral, não deve ter doença grave. Outra com febre baixa, mas que está decaída, dormindo muito, pálida, sem comer, brincar e sorrir, pode ter doença significante. Essa leitura do estado geral é bem-feita pela mãe ou por outra pessoa que bem conhece a criança. E esses dados são, ao lado de outros, usados pelos profissionais para pensar na gravidade do problema apresentado e na necessidade de buscar assistência médica imediata. Essas são informações passadas pelos familiares. Evidentemente, há condições em que os próprios familiares percebem a gravidade potencial do problema e buscam assistência médica imediata. São bons exemplos: crises convulsivas, traumas cranianos e acidentes.
- A evolução e a resposta ao tratamento: as informações de como os sintomas da doença estão caminhando e de como a resposta ao tratamento está ocorrendo também são informadas por vocês.
Qual o nosso papel no acompanhamento da doença?
Toda doença tem uma dinâmica própria. Algumas andam muito rapidamente, são as agudas. Outras andam mais lentamente, são as crônicas. As da criança são predominantemente do primeiro tipo. São enfermidades que duram dois, cinco dias ou mais alguns dias, em média. E é a observação materna, na casa, no dia a dia da criança, que fornece os mais importantes elementos sobre a dinâmica da enfermidade. Não é a observação dos médicos que faz isso, embora ela seja importante e, algumas vezes, decisiva. Para um melhor entendimento, usemos o exemplo da maior parte das doenças febris da criança. Nas primeiras horas das enfermidades que cursam com elevação térmica, se a mãe nada notou além da febre, é pouco provável que os médicos descubram alguma coisa no exame físico. Após 24 a 48 horas, quando a mãe já percebe algo diferente, por exemplo, nariz entupido, tosse, diarreia, manchas na pele, é mais provável que os médicos possam definir qual é o problema. Isso acontece em muitas e muitas outras enfermidades, mesmo as afebris. Por isso é se recomenda que os mesmos profissionais avaliem os pacientes, repetidas vezes, se há dúvida diagnóstica. É uma orientação clássica e que deve ser respeitada quando os médicos dizem no fim da consulta: “não posso definir o que está ocorrendo. Observem seu filho e também preciso examiná-lo após alguns dias para verificar o que há. Telefonem se ocorrer algo especial”. Então, mais uma vez, vejam o papel de vocês. São os familiares que dormem com os filhos, os alimentam, os higienizam e os observam de perto. Dia e noite. Os médicos não fazem isso. Eles usam os dados que vocês informam. Observem bem as suas “crias” e comuniquem aos profissionais, direitinho, com precisão, as anormalidades notadas.
E nosso papel no seguimento da resposta ao tratamento?
A resposta ao tratamento instituído é item de extrema importância para os médicos definirem se o diagnóstico e a orientação estão corretos. Isso é óbvio por si só. Os médicos têm a obrigação de definir o diagnóstico, prescrever o tratamento e instruir sobre a resposta que será observada. Para que os profissionais usem esse dado é essencial o fiel cumprimento da orientação terapêutica. Ele não poderá avaliar o resultado se ao invés de dar o antibiótico de 6/6 horas como foi prescrito o familiar estiver usando a cada 24 horas. Esse é um dos pilares dessa avaliação e, sem o fiel cumprimento da prescrição, não é possível tirar conclusões. Assim, conclamamos todos vocês para cumprir a prescrição e, se houver dúvidas, o caminho é discutir o assunto com os médicos. Quando, apesar do cumprimento fiel da receita médica, os familiares notarem que a resposta não está ocorrendo conforme as instruções dos profissionais, eles devem voltar para rediscutir o assunto. O correto é voltar aos mesmos profissionais. Isso é essencial e a medicina não anda sem esse retorno, sem as informações de como o cliente está se comportando frente ao tratamento. E novamente é o familiar atento, perceptivo, observador, interessado, que traz as informações mais valiosas. É ele quem diz “a febre desapareceu”, “a diarreia melhorou”, “a criança voltou a comer”, “a dor desapareceu”. Também é o familiar que refere “a febre continua”, “ela não está melhor”, “acho que está pior”, “surgiram manchas na pele após o uso do antibiótico”. E esses dados, cotejados com o exame que os médicos fazem nos pacientes e com alguns exames complementares, definem qual o caminho a seguir. Novamente, cremos que isso ficou bem definido, que vocês é que têm a maior responsabilidade com a coleta de dados para os médicos avaliarem e decidirem. Prestem atenção nos seus filhos. Falem com os médicos. Telefonem para eles.
Qual nossa participação nos outros dados?
Com certa frequência, os profissionais que estão cuidando das crianças necessitam ouvir outros médicos, habitualmente um que tenha mais experiência na provável problemática apresentada. Mas, nesse caso, os dois profissionais, o que indicou a consulta com o especialista e esse último, devem entrar em acordo para definir o que fazer. Nessa situação, vocês devem prestar as mesmas informações aos dois profissionais. É ideal que os dois trabalhem com os mesmos dados fornecidos por vocês. Informações díspares podem gerar condutas diferentes o que é totalmente indesejável. Então, vejam mais uma vez a importância da atenção dos pais e mães para que as anormalidades observadas na meninada sejam repassadas integralmente e fielmente para os médicos. E quando há dois profissionais envolvidos no diagnóstico e no tratamento de uma criança, o familiar também deve auxiliar na comunicação entre eles, o que beneficiará a criança. É óbvio que os principais responsáveis por isso são os dois médicos que devem enviar relatórios ou telefonar, para que uma orientação uniforme seja obtida. Mais uma vez, o papel dos familiares é importante.
Podemos ajudar os médicos a enfrentar as dificuldades?
A prática médica é complexa. Médicos e familiares, com certa frequência, estão tristes com diagnósticos imprecisos, resultados inesperados aos tratamentos, falta de respostas apropriadas para as dúvidas e uma série de outras questões do ato médico. E vocês podem ajudar sabendo que:
- A medicina não é exata. Há sempre a possibilidade de erros em tudo o que os médicos fazem. A prática dos médicos de crianças é particularmente difícil, pois as queixas são, usualmente, informadas por uma pessoa que não é a enferma.
- Os familiares desempenham um papel importantíssimo no diagnóstico e no tratamento da criança.
- Os médicos devem ser informados sobre todas as alterações que vocês acham que estão ocorrendo com a criança. Eles também devem ser informados sobre o andamento da enfermidade, sobre a resposta satisfatória ou não ao tratamento instituído, sobre a ocorrência de reações adversas aos remédios usados.
- Todas as informações prestadas devem ser precisas, inquestionáveis. A fidelidade da informação tem a importância do segredo que abre o cofre. Sem o dado preciso, não há como penetrar nessa estrutura física, mental e espiritual tão complexa, que é a criança. Nem sempre existe má-fé quando a informação é distorcida. Às vezes, a ansiedade leva a isso. Vejam o exemplo: se há diabetes na família, há tendência a superestimar pequenas mudanças no padrão de sede ou das micções nas crianças que passam a ser vistas como sinais da doença.
- Mudar de médico, quando há algum desencontro, usualmente, não é o melhor remédio. Provavelmente, voltar aos profissionais e relatar francamente o que aconteceu é uma recomendação saudável.
- Sem isso, os mais diferenciados e mais experimentados pediatras do mundo podem falhar.
6.1Aspectos práticos
Abaixo são apresentados alguns exemplos reais de consultas por teleatendimento para ilustrar como esse tipo de serviço pode ser produtivo, útil ou não.
Exemplo 1
Exemplo ilustrativo do atendimento adequado à distância. A mãe de Antônio, a Roberta, percebeu que o filho apresentou erupção cutânea numa parte do corpo e enviou foto para o pediatra. Relatou que percebeu o sintoma quando ele voltou da escola e informou não haver febre ou qualquer outra anormalidade. O pediatra assistente orientou para usar apenas creme hidratante e observar evolução. Explicou que provavelmente era dermatite de contato, pois o garoto não apresentava febre, nem outra anormalidade, e era apenas uma parte da pele que estava acometida, que era pouco provável doença infecciosa pois o menino estava afebril e sem outros dados de doença.
Exemplo 2
Agora, vejam a mensagem de áudio, transformada em texto, enviada em outubro de 2022, por uma cuidadora-mãe, do interior de Pernambuco.
Speaker 1- Dr. José [nome fictício], boa tarde, aqui é Maria [nome fictício], mãe de Paulo [nome fictício], o menino da otite e da bronquiolite, lembra:
Speaker1: Desculpa estar incomodando no sábado é porque assim, Paulo é muito elétrico, como o senhor sabe, é um menino delicado, como diz você. E assim ele ainda não ficou 100% bem, sabe? Ele está tendo muita alergia. A gente está em tratamento com Dra. Ana [nome fictício], lá em Caruaru. Ela é muito boa, mas assim eu queria ouvir sua opinião. Eu sei que você tem que ver, ele estar aí. A gente está com ele, com Aerolín, está com ele, com Clenil, com Allegra, com vários remédios antialérgicos. Mas ele ainda não está 100% bem.
Speaker1: Aqui e acolá ele está tendo uma febre. Aí ele também tá ruim da barriga. Eu não sei se será a medicação que ele que ele toma, o excesso de medicação. Ele está assim. Ele está fazendo aquele cocozinho mole. Aí fica o bumbunzinho dele ao redor do ânus dele. Está ferido. Ele fica coçando todo o tempo. Aí eu queria uma pomadinha em alguma coisa. A gente falou para a Dra Ana e ela mandou colocar pomada de assadura. Mas aí então não está tão bom, não melhorou, não resolveu.
Comentários da equipe médica
Observem que a cuidadora não informa idade, doses dos medicamentos em uso, exames realizados e muitos outros dados que seriam de fundamental importância para que o profissional pudesse emitir parecer com o mínimo de chance de estar correto. A mãe recebeu retorno — todas elas merecem este respeito — em que o profissional informava esperar ligação telefônica para melhor esclarecimento. A cuidadora não retornou a ligação, esse evidentemente não foi um contato produtivo, até agora.
Exemplo 3
Relato de mãe sobre teleconsulta na Europa
“Fomos passar 10 dias na Europa em novembro deste 2022. Como de costume, sempre faço seguro saúde. Agora ainda mais caro com cobertura para covid-19. Passamos cinco dias em Portugal e fomos para a Espanha. O tempo esfriou mais ainda em Barcelona do que em Madri. Depois de uma semana de viagem, a secreção nasal de Miguel (12 anos) aumentou muito e veio aquele febrão persistente. Corpo mole, dor de cabeça, dor na face do rosto e um episódio de vômito. Conversei com o pediatra dele, no Recife, que me aconselhou a dar remédio para febre e observar os sintomas. Miguel continuou mole e com febre. Resolvi acionar o seguro-viagem que prontamente marcou a teleconsulta de Miguel para o dia seguinte pela manhã. Uma médica espanhola nos atendeu online e fechou o diagnóstico de sinusite bacteriana, sem exames, apenas nos escutando. Passou antibiótico, antitérmico, anti-histamínico e remédio nasal. Fiquei preocupada e achei melhor comprar as medicações e já iniciar tratamento oral. Na primeira tomada de antibiótico, Miguel vomitou a amoxicilina. Falei com o pediatra no Recife e informei que faltavam três dias para voltarmos ao Brasil. Por conta própria, parei o antibiótico.
Assim que retornamos ao Recife, fomos para a consulta presencial com o pediatra. Ele solicitou vários exames laboratoriais. Eu relatei que estava com medo de febre reumática, porque Miguel teve dor nas juntas por duas vezes durante a viagem. E como ele teve também uma infecção bacteriana por streptococcus um mês e pouco antes da viagem ficamos com esta suspeita.
Os exames feitos no mesmo dia apontavam para quadro viral. Em observação continuamos com antitérmico. Em mais 1 a 2 dias saíram mais resultados laboratoriais. Diagnóstico fechado: Miguel estava com quadro viral realmente. Ainda bem que não o mediquei com o antibiótico passado pela Dra. de Madri na teleconsulta.
Fiquei pensando: se eu tivesse começado o tratamento com antibiótico no exterior, acreditado no diagnóstico de sinusite, como ficariam as defesas imunológicas de Miguel? Poxa, a gente paga tão caro um seguro-viagem e ainda passa por isso. Realmente depois dessa experiência, não aconselho consultas virtuais, sem exames presenciais, sem ver o paciente, tocar, escutar, sentir o quadro geral da criança e complementar com exames laboratoriais fica impossível um diagnóstico correto. Vai na sorte!! E isso é tudo que a gente não quer. Que bom que usei do bom senso e resolvi aguardar a consulta presencial. Valeu a experiência!”
Comentários da equipe médica:
Esse último relato nos dá belas lições de como é difícil e complexa a prática médica. Aspectos a ressaltar:
- Impossível que o médico, numa teleconsulta, avalie a competência da mãe. A genitora do Miguel é uma mulher altamente diferenciada que fala em streptococcus e em febre reumática. E, convenhamos, esse aspecto deve ser valorizado com muita atenção. A consulta favorece o conhecimento mais completo dos familiares. A não presencial dificilmente permite esse conhecimento.
- A tarefa do médico assistente, que acompanha o Miguel desde o nascimento, é muito facilitada por conhecer detalhes que o prestador ocasional de assistência médica, sobretudo num teleatendimento, não conhece.
- Consulta à distância num país estrangeiro é, sem dúvida, ainda mais difícil.
- O diagnóstico da sinusite bacteriana ainda hoje é um desafio para os médicos. A prescrição de antibióticos para essa enfermidade, sem ver o doente, é uma aventura. A chance de erro é muito alta.
Para finalizar o relato, informamos que o texto faz parte de um projeto educativo e que a consulta médica é insubstituível.
