O Professor Fernando Figueira, que marcou a educação de toda a atual geração de pediatras de Pernambuco, sempre dizia que as crianças que brincam estão trabalhando, aprendendo, praticando. E o sábio mestre, quando conversava com os cuidadores, sempre perguntava: “onde sua criança brinca?”. O brincar é essencial para cada criança!
Quais os reais benefícios do brincar para as crianças?
As crianças que brincam estão:
- Estimulando o sistema nervoso, os ossos, as articulações, os músculos e todos os outros órgãos corporais a se desenvolverem e a funcionarem de forma adequada. Isso é alcançado, sobretudo, nas atividades ao ar livre, onde há espaço para correr, pular e transpor obstáculos.
- Favorecendo a alimentação saudável e evitando a obesidade.
- Interagindo com o meio e demonstrando seus pensamentos e sentimentos.
- Experimentando e criando situações e encarando a possibilidade do sucesso ou do fracasso, aprendendo a lidar, desde cedo, com cada uma delas; aprendendo a solucionar os problemas à medida que eles aparecem, além de aprender a prever situações.
- Estabelecendo seus limites e aprendendo a respeitar os limites dos seus colegas.
- Descobrindo a incerteza e o prazer de desafiar e transpor o obstáculo de forma prazerosa.
- Ampliando seu círculo de amizade e também favorecendo a interação com os pais deles.
- Mantendo, desde cedo, o contato com as regras, inclusive com as que definem os ganhadores, os perdedores e as penalidades; recebendo outros benefícios, como, por exemplo, o convívio com instrutores, treinadores, arte-educadores e profissionais de distintas áreas.
Quais os brinquedos e as brincadeiras para os menores de 1 ano?
O primeiro brinquedo de todas as crianças é o rosto dos familiares, principalmente da mãe. Os órgãos faciais, a mímica e a voz são estímulos importantes e chamam a atenção dos bebês. Vejam as fases pelas quais passam as crianças de menos de 1 ano:
De 0 a 3 meses: elas se interessam visualmente pelos objetos, percebendo inicialmente grandes contrastes (preto e branco); as crianças fixam o olhar no chocalho e posteriormente acompanham o objeto na horizontal, preparando, assim, a musculatura cervical para um melhor controle da cabeça; o chocalho produz sons que as crianças passam a perceber e a associar com a brincadeira; os brinquedos que emitem sons mais agudos é que chamam mais atenção; nessa idade, é fundamental que o móbile esteja posicionado na altura do campo visual e que elas, ao movimentarem os braços e as pernas, tenham a possibilidade de tocar o objeto; as de três meses movimentam os braços e as pernas e tocam involuntariamente nos objetos; logo aprendem e voluntariamente passam a tocar e a apreender objetos de diferentes texturas; assim, se desenvolve a coordenação olho/mão; a voz humana, sobretudo a da mãe, é estimulante e auxilia no processo de maturação neuroauditiva e emocional; as mães devem cantar ou solfejar e estimular a percepção dos vários timbres da voz humana.
4 meses: crianças passam a segurar voluntariamente objetos e os levam à boca; elas descobrem e brincam com as mãos; quanto menores as crianças, maiores devem ser os brinquedos; além disso, os brinquedos devem ser de um material mais natural para que as crianças tenham a experiência com as diversas texturas, temperaturas e tamanhos.
5 e 6 meses: elas descobrem os pés, conseguem segurá-los levando-os à boca e, em seguida, rolam; as crianças adoram esse movimento do corpo; na posição sentada, olham o objeto e tentam pegá-lo, mas a principal função de suas mãos é de apoio; pegam o brinquedo e levam à boca; deixam que caia e observam o seu movimento; fase que começam a perceber as diferentes texturas dos objetos pela boca, adoram o esconde-esconde; é necessário que a pessoa apareça no local esperado, pois se isso não acontece elas perdem o interesse; tudo isso promove um sadio desenvolvimento da motricidade ocular.
7 e 8 meses: a brincadeira preferida é retirar os brinquedos de um determinado local como caixas e vasilhas de plásticos; ao engatinhar podem observar uma formiga no chão e com o dedo indicador apontar para ela.
9 e 10 meses: o esconde-esconde evolui e as crianças passam a procurar o objeto de onde desapareceu; são capazes de se virar na posição sentada, pois já possuem um melhor domínio nesta posição; avançam da postura de estar sentado para o engatinhar com facilidade; engatinhando vão buscar o objeto; abrem gavetas e caixas de sapato e retiram os objetos aí guardados. Iniciam o guardar; entram numa caixa de papelão grande; tentam entrar no vão entre dois sofás; seguram no sofá e tentam ficar na posição de pé; essa é uma fase perigosa; elas podem ir até a cozinha, brincar no armário e correr riscos de puxar a toalha da mesa e derrubar o que está lá sobre sua cabeça; durante o engatinhar podem achar algo no chão (formiga e outros animais, caroço de feijão e outros objetos) e levar à boca ou colocar no nariz ou no ouvido; é uma fase em que a presença dos adultos para supervisionar a brincadeira é de suma importância para evitar riscos.
11 e 12 meses: elas estão mais ágeis e engatinham com mais rapidez; começam a ficar de pé e a ensaiar os primeiros passos; é importante que tenham contato com texturas diversas (areia, tapetes, emborrachados) para estimular a planta do pé preparando para o caminhar.
O que mais é importante estimular nos menores?
Lá vão mais alguns conselhos:
- O melhor horário para estimular as crianças, principalmente nos primeiros meses, é antes da mamada. Após a alimentação, todos os bebês vão preferir descansar. Um pouco antes da mamada (em torno de 20 a 30 minutos), vocês observam que seus bebês se movimentam, emitem alguns sons, embora pareçam dormindo. Nessa fase, vocês podem acordá-los aos poucos para conversar e brincar. Vale ressaltar que não estamos recomendando que os estimulem de madrugada, isso deve ser feito de dia. Vocês também devem repetir esses estímulos preferencialmente no mesmo horário.
- É importante o estabelecimento de uma rotina para estruturação e organização do comportamento dos bebês. Com as rotinas, as crianças aprendem e acabam prevendo o que acontecerá. A adoção desse comportamento também permite o desenvolvimento de segurança, confiança, tranquilidade e método.
- Vale a pena ressaltar que as brincadeiras devem ser prazerosas e não devem cansar ou entediar a criançada. Devem ter uma duração de poucos minutos nos primeiros meses. Com o passar do tempo e à medida que as crianças mostram alegria e prazer, o tempo das brincadeiras e dos estímulos é progressivamente alongado.
- Quando forem observados bocejos, franzimento da testa ou qualquer outro dado que mostre desconforto, as brincadeiras devem ser cessadas, diferentemente, manifestações de satisfação, como sorriso, mão na face, sucção, extensão da língua, emissão de sons e outros sinais de alegria são convites à continuação das brincadeiras.
- A posição para brincar no início da vida (0 a 3 meses) deve ser de barriga para cima ou de barriga para baixo, sempre com supervisão do adulto. A posição barriga para baixo é importante, pois as crianças usam e estimulam melhor a musculatura, o que é relevante para o desenvolvimento da coordenação motora.
- O anda-já ou o andador é proibido. Ele perturba o uso natural da musculatura e dificulta a experimentação montada para o normal desenvolvimento motor. A exploração livre é o melhor mecanismo para toda a musculatura que favorece a marcha. As crianças devem desenvolver vontade e perseverança com o cair, levantar e tentar mais uma vez, mais uma vez e mais uma vez. São situações aparentemente simples que trazem benefícios emocionais. Além desses inconvenientes, o anda-já favorece a ocorrência de acidentes.
- Utilizando brinquedos adequados, a criançada é estimulada a desenvolver a marcha. Nesse sentido, sugerimos estimular a meninada a brincar de empurrar cadeirinha, empurrar carrinhos grandes com um peso na frente. Também orientamos estimular a criançada a empurrar brinquedos com peso. A maioria dos brinquedos é de plástico, muito leves, e pode virar quando empurrados. A ideia de colocar um peso, um livro grande, em cima do brinquedo funciona.
- A partir dos 4 meses, as crianças podem brincar na posição sentada com apoio nas costas. Aos 6 meses, elas podem brincar na posição sentada, mas podem cair para trás ao tentar alcançar objetos à sua frente. Aos 7, 8 ou 9 meses, elas brincam deitadas, sentadas e, em algumas vezes, de “gato”. Aos 10, 11 ou 12 meses as crianças já brincam na posição sentada, deitada, de “gato” e em pé.
E para as crianças de mais de 1 ano?
Lá vão algumas informações básicas:
- As crianças de 1-2 anos de idade ficam em pé, de cócoras, sentam, correm, sobem em objetos de pouca altura, descem, entram e saem de carrinho, exploram tudo sem ter noção de risco. É uma fase em que precisamos ficar atentos principalmente na cozinha face à existência de pias, fogão com líquidos quentes e objetos cortantes. Nessa idade, elas jogam, pegam, empurram, puxam e carregam objetos. Quando entregamos um livro para as crianças dessa idade, elas viram as páginas, apontam para os desenhos e nomeiam as figuras.
- As crianças de 2 anos de idade se movimentam mais livremente e exploram tudo ao seu redor. São interessadas, principalmente, no ambiente no qual convivem. Exploram as pessoas de seu convívio, sobretudo pais e irmãos. Elas têm a consciência da existência das outras, mas ainda brincam apenas ao lado delas, é o que se chama brincadeira paralela. Interessam-se por quaisquer brinquedos que façam com que utilizem o corpo inteiro nas atividades, são fascinadas pelos movimentos da coordenação motora global (movimentos grandes entre braços e pernas, andar, pular subir e descer...) e da coordenação motora fina (pegar objetos pequenos, movimentar os dedos das mãos...). Curiosas, exploram tudo que é desconhecido, adoram motoquinha, bola, balanço, pirâmide de argola, quebra-cabeça simples (de duas partes). Imitam as rotinas dos adultos e gostam de brincar de boneca, de dar a comida e banhos nos seus “bebês”, varrer a casa, dirigir o carro, martelar e telefonar. Nessa idade, as crianças passam gradualmente a mudar o ato de brincar. Primeiro imitam e depois conseguem imaginar que uma caneta pode virar uma pessoa e começam a dar vida aos símbolos (jogo simbólico). Adoram livros e estórias, ouvem as mesmas por várias vezes e passam a colocar palavras e frases no contexto. Produzem rabiscos nas folhas e nomeiam o que produziram ao terminarem. Os contos curtos e repetidos várias vezes são importantíssimos, pois estimulam a linguagem e o imaginário — devem ser curtos, pois a atenção das crianças nessa faixa etária é rápida e a repetição também lhes trazem a certeza de que não há o inesperado.
- As crianças de mais de 3 anos passam a compreender que determinados brinquedos são delas e que aqueles outros não lhes pertencem. A partir de então começam a dividir e compartilhar os brinquedos em companhia de outras crianças. A curiosidade já não é apenas em seu ambiente imediato (pais, irmãos, quarto, sala...) e é ampliada para o ambiente mais amplo e fora do familiar (parque, creche, priminhos...). Lá perto dos quatro anos de idade as crianças possuem movimentos corporais mais coordenados, conseguem correr e desacelerar, praticam brincadeiras com esses movimentos principalmente o de pular com os dois pés. Pulam corda amarrada na cadeira, correm até determinado local e param de uma vez e vão de um canto a outro repetidamente. Têm interesse em nomear as cores, são interessadas por animais e coisas da natureza e adoram os zoológicos, os sítios e as fazendas. Elas brincam com as outras e dividem os brinquedos, porém ainda não se organizam para obter um objetivo em comum — não adianta brincar com jogos de regras simples com objetivo de ganhar, nessa fase, estão mais preocupadas nos outros. Imitam, observam, falam sobre a ação dos colegas.
- As crianças de 4-5 anos gostam de quebra-cabeça, são capazes de montar um jogo de até dez peças, fazem desenhos específicos, adoram comparar seus trabalhos com os dos colegas e gostam de ter os desenhos expostos, brincam com grupos organizados de até três crianças para atingir o mesmo objetivo. Na brincadeira de faz de conta assumem papéis diversificados. As crianças dessa idade ainda possuem dificuldades em aceitar perder e assim não são recomendadas as competições. Dessa forma, recomendamos os jogos cooperativos, pois, nessa idade, elas são muito egocêntricas. Um jogo tipo dominó pode ser oferecido uma vez que elas já podem compreender suas regras simples. Porém, como elas não entendem os valores da competitividade, não devem ser determinados os vencidos e os vencedores. Elas, ao se sentirem fracassadas e frustradas, podem ter sua autoestima arranhada. Nessa fase, elas trazem para as brincadeiras a sua realidade. As crianças brincam imitando o cotidiano familiar, imitam os adultos que as cercam, suas falas, seus gestos.
- As crianças de 5-6 anos têm mais domínio do corpo e melhor coordenação de braços e pernas, ficam em pé de uma perna só, saltam, dão cambalhotas, patinam, pulam alto e adoram velocípedes e bicicletas. Embora possam começar a se interessar pela tesoura, são mais recomendadas as brincadeiras de picotar com as pontinhas dos dedos. Isso trará benefícios para a pega-pinça muito útil para o manuseio do lápis. Os trabalhos manuais também são atividades lúdicas benéficas para o desenvolvimento motor fino, concentração, atenção, raciocínio lógico. O tricô de dedo e o alinhavo são práticas interessantes. É importante também que sejam lidos os contos de fadas, de preferência os dos irmãos Grimm (é interessante que sejam escolhidas as boas traduções dessas obras e os contos mais interessantes devem ser repassados para as crianças sem a dramatização que nós adultos impomos para o “lobo mau” e para as “bruxas”). Os contos têm a função mitológica, arquetípica, de trabalhar o inconsciente que produz muitos benefícios. A música, o canto e as brincadeiras de rodas devem ser estimulados. As atividades domésticas, tipo tirar uma mesa, ajudar na arrumação de uma gaveta, varrer e outras, são educativas e lúdicas. Além de promoverem valorização do trabalho do outro, ensinam a valorizar o seu próprio labor e a imitar algo positivo. Assim, estamos promovendo atividade física para as crianças que estão muito paradas e com o hábito de receber tudo na mão. As práticas da culinária são atividades interessantes, desde que bem orientadas, ensinam, inclusive, os rudimentos da matemática. A confecção de bolos, pizzas, pães e biscoitos ensinam a importância das rotinas, dos rituais, de copiar e de se preocupar com detalhes. Na construção dos desenhos, ficam atentas aos olhos, ao nariz, aos dedos, às unhas. Elas se interessam em tornar as brincadeiras mais próximas da vida real, observam os acessórios, as marionetes e os trajes importantes para dar ênfase às histórias. As crianças dessa faixa etária se organizam para brincar com jogos de regras mais complexas e iniciam a compreensão do ganhar e perder; quanto mais estimularmos jogos cooperativos, ainda nessa idade, teremos crianças com menos “ranhuras”. Elas ainda não têm maturidade para as perdas;
- As crianças de 7 anos têm a coordenação dos braços e das pernas bem desenvolvida, andam como os adultos, correm, pulam de um pé só, são capazes de realizar a prova de colocar, de olhos fechados, o dedo na ponta do nariz e de executar rápida e alternadamente movimentos opostos, como mudar rapidamente a posição da mão para cima e para baixo. Têm a coordenação motora fina bem desenvolvida, sendo capazes de coordenar o movimento fino das mãos. Elas se interessam por jogos com regras e competitividade. Durante o brincar permanecem por maior tempo participando da mesma brincadeira. Não é recomendável estimular a competição muito cedo. Aos 7 anos, ainda é mais significativo estimular a cooperação, lá pelos 9 é que se percebe um comportamento mais “amadurecido” para a competição. Com 10 anos, é perceptível essa necessidade de competir para ganhar. O estímulo exagerado para a competição, que está sendo observado muito cedo na vida da criançada, pode ter relação com o desenvolvimento de comportamentos egoístas.
E nas outras idades? E na adolescência?
As práticas esportivas — natação, judô, capoeira, futebol de campo e de quadra, vôlei, basquete, tênis de quadra ou de mesa e outras — devem ser estimuladas. O ideal é que todas as crianças frequentem escolinhas de esportes para que os valores esportivos, sociais e humanitários sejam estimulados. Nesses locais, as crianças e os adolescentes podem, além da prática esportiva, brincar, se divertir, conhecer e interagir com colegas. Montar quebra-cabeças mais elaborados e participar de jogos que exigem raciocínio (dama, xadrez e outros) são práticas saudáveis. O comparecimento aos parques e praças e o envolvimento com brincadeiras que exigem movimento grupal (pelada de futebol, amarelinha, esconde-esconde e outros) são sempre extremamente agradáveis.
Podemos brincar jogando a criança para o alto e após alguns centímetros de queda livre pegá-la?
Para começar, recomendamos que vocês leiam na Internet alguns textos sobre a síndrome do bebê sacudido que pode causar problemas cerebrais graves. O quadro é produzido por adultos que agridem as crianças sacudindo-as violentamente. Essa condição é cercada por choro e sofrimento. Então, isso faz parte da síndrome da criança espancada. É diferente do que está sendo perguntado. O que a pergunta pretende discutir é a brincadeira que os adultos fazem jogando as crianças para cima, uma ou mais vezes, e as pegando centímetros abaixo. Isso não causa dor, nem sofrimento. Causa sorrisos e alegrias. Essas brincadeiras elas ativam o sistema vestibular, importantes para o desenvolvimento psicomotor de toda criança. E não há indícios científicos de que a brincadeira cause problemas para as crianças. Mas há sempre o risco de acidentes, quedas, que podem ser evitados não praticando a brincadeira.
E gatos, cachorros, peixes e outros animais na casa?
Os animais domésticos distraem e estimulam as crianças. Os animais as alegram, reduzem as suas horas ociosas, ajudam a tirá-las da frente da TV, aceleram o seu desenvolvimento motor, as obrigam a ter responsabilidade como a de alimentar os peixinhos, e as auxiliam a tocar a vida. Evidentemente, os melhores animais para ter em casa são os que não agridem. Assim, os peixinhos são imbatíveis. Eles não têm defeitos, não latem, não criam desordem e são muito educados. Quem opta por ter cão ou gato em casa deve avaliar a potencial agressividade desses animais e sobre a provável necessidade de vacinar as crianças contra a raiva quando forem mordidas por um deles. Também nos lembramos da extraordinária experiência sensorial que é o convívio com animais em granjas e fazendas, nos zoológicos e nos hotéis-fazendas. A vivência do montar a cavalo, desde que tomados os cuidados para evitar os acidentes, é inesquecível. É sempre importante lembrar que alguns animais de pelo e pena podem agravar a doença de crianças alérgicas.
O convívio com outras crianças é talvez a mais gostosa e rica das brincadeiras, não é?
Seguramente, o brinquedo mais importante e a brincadeira mais fantástica para as crianças são as outras crianças. O principal brinquedo para uma criança não é encontrado numa loja. É outra criança. E criança rola, pega e disputa os objetos, emite sons, chora, faz movimentos de todo tipo, corre, anda, joga bola, faz o inesperado, brinca de boneca e faz mais um montão de outras coisas como fonte de alegria, prazer e estímulo. Desde muito cedo, as crianças devem conviver com outras. Quanto mais, melhor.
Gostaríamos de ouvir mais sobre isso.
Aí vão algumas informações sobre a relação entre as crianças:
- Antes de 1 ano, os bebês aprendem, por meio do conhecimento e da vivência do próprio corpo. Numa creche, as crianças de até 1 ano buscam os outros bebês, mas estão interessadas nos brinquedos ou nos outros objetos que esses últimos estão usando.
- A partir dos 2 anos, as crianças necessitam conviver com outras da mesma idade até mesmo para vê-las. Elas, no princípio, imitam os adultos e, em seguida, seus pares. Convivendo com os coleguinhas, elas se movimentam melhor, se desenvolvem mais rapidamente, se defendem mais prontamente, inventam brincadeiras mais precocemente, aprendem mais coisas, desenvolvem a fala mais rapidamente e tendem a se socializar de forma mais adequada.
- A partir dos 3 anos, elas iniciam a interação, o brincar com as outras. Nessa fase, as brincadeiras se tornam mais produtivas, pois a interação que gera um pouco de competição é altamente estimulante.
- Na adolescência, a competição é um grande motivador de qualquer brincadeira e, no caso de jogos de conhecimentos gerais, ganhar de um adulto é extremamente gratificante e motivador.
- Isso foi mais uma vez ressaltado para mostrar que as crianças nas diversas idades são diferentes na sua vida interior e na sua relação com o mundo e com as outras crianças. Quando muito jovens, elas têm dificuldade para a socialização. Assim, as crianças de 3 anos se comportam como se tudo fosse a continuidade delas e, emocionalmente, têm que ser vistas dentro de um universo menor, mas, mesmo nessa idade, a noção de que as crianças são as principais fontes de estímulo para as outras continua válida.
E as brincadeiras nas praças, parques, praias, fazendas?
As brincadeiras nas praças e em outros ambientes externos são fundamentais. As crianças nas praças, parques, praias e fazendas têm contato com coisas — areia, terra, água do mar, sons, balanço, túnel, girador, escorregador e outros — que a casa não oferece. O contato com diferentes texturas é importante estímulo tátil. As crianças de 10 meses de idade necessitam desses estímulos, principalmente na região plantar, preparando-as para a postura de pé e, posteriormente, o andar. O túnel é importante para organização, orientação espacial e conhecimento do próprio corpo no espaço. Quem nunca brincou no girador de olhos fechados simplesmente para sair dele e perceber que tudo fica girando? Essa sensação desenvolve o sistema vestibular que é importante para o desenvolvimento psicomotor de qualquer criança. O sistema vestibular fica situado no ouvido interno, tem como função coordenar os movimentos dos olhos, manter a posição da cabeça e corpo no espaço e de mover as partes do corpo. O sistema sente a direção da gravidade e do movimento, o que permite com que o corpo ajuste sua posição para manter o equilíbrio e a suavidade da ação.
As crianças de 3, 4, 5 anos necessitam brincar de ficar em um pé só, o que favorece enormemente o desenvolvimento do andar e do correr. O brincar de pular corda é outra atividade importantíssima por permitir a associação dos movimentos dos braços e das pernas e ativar o sistema vestibular
Além disso, as brincadeiras fora de casa permitem que elas explorem outros ambientes e facilitam o encontro com colegas. A socialização e o convívio com as outras crianças devem acontecer desde muito cedo. As crianças de 1 ano de idade não brincam com os coleguinhas como as de quatro anos fazem, contudo, devem ser expostas aos da sua idade e mesmo a crianças um pouquinho maiores, para facilitar a vida em comum. Vale ressaltar, mais uma vez, que as crianças de 1 ano não brincam com as outras. Elas brincam ao lado das outras, cada qual com seu brinquedo. Aos 4 anos interagem com as outras.
Qual a posição de vocês sobre os jogos na TV, no computador, no tablet e no celular?
Nossa opinião é que brincar com os joguinhos na televisão, no computador e nas outras telinhas eletrônicas não deve ser estimulado. Opinamos, inclusive, que deve ser desestimulado, que deve haver controle sobre o uso dos jogos eletrônicos com suas guerras, corridas de carro e competições repetitivas e monótonas. Quando falamos em certo controle, admitimos que a criançada deve ter contato com o mundo dos eletrônicos e que os joguinhos no computador podem inclusive servir de iniciação a essa ferramenta essencial dos nossos tempos. As crianças trocam ideias sobre o que fazem e aquelas que não conhecem um pouquinho dos jogos eletrônicos podem se sentir excluídas das conversas com os amiguinhos. Mas permitir que as crianças e os adolescentes passem horas praticando corridas de carro, ataque e defesa e outros jogos em casa ou nos famosos game stations, barulhentos e aparentemente neurotizantes, não é recomendável. Um dos aspectos mais criticados desses jogos eletrônicos é que eles impedem a livre busca por atividades lúdicas, dificultam o exercício da criatividade, favorecem o imobilismo, estimulam o consumo dos fast-food, favorecem o desenvolvimento da obesidade e atrapalham a socialização. Esses jogos são apenas criança e máquina, nada mais. Outro aspecto que chama a atenção é que o tamanho das telas de alguns aparelhos que as crianças brincam (videogames e telefone celular) são pequenas o que provoca um esforço visual intenso e contínuo, o que pode causar cefaleia e prejuízo visual.
Existem prejuízos visuais para a turminha muito ligada na telona e nas telinhas?
O uso exagerado das telas de TV e de computador cobra dos nossos olhos o que eles não estão preparados para oferecer. Surgem problemas conhecidos como síndrome visual do usuário de computador ou fadiga visual que pode atingir de 70 a 90% dos que ficam muitas horas por dia na frente da tela. Eles podem apresentar dor de cabeça, olhos vermelhos, lacrimejamento em excesso ou olhos secos, sonolência e “vista cansada”. Pesquisa recente mostrou que os que usam o computador mais de doze horas por dia têm aumento da dor de cabeça, olho seco e miopia. Estejam seguros que o excesso de horas na frente do computador ou das telas dos brinquedos eletrônicos é maléfico para a visão e que são comuns o desencadeamento da miopia transitória nas crianças e a vista cansada (presbiopia) nos adultos.
E o uso da TV como distração?
Neste livro, temos um capítulo sobre o assunto.
Quais os riscos dos brinquedos e das brincadeiras?
Todos os brinquedos e todas as brincadeiras oferecem riscos. Quem adquire brinquedos deve verificar suas propriedades (cor, forma, tamanho, peso, textura e temperatura) e deve responder a algumas questões básicas: o que é o brinquedo? Para quem ele se destina? Quando ele deve ser oferecido? Como oferecer? Vamos dar alguns exemplos. Uma criança de 8 meses deve brincar com objetos pequenos para trabalhar a coordenação motora fina, mas é preciso que um cuidador esteja supervisionando, pois ela pode tentar engolir o brinquedo ou parte dele e engasgar-se. Reforçamos o que foi dito antes quando citamos que nos pequenos são preferíveis os brinquedos grandes que poderão ser apreendidos por toda a mão e estimularão mais os músculos, o tato e a visão. Uma criança mais velha que está andando de bicicleta, skate ou patins deve estar devidamente protegida (cabeça, joelhos, cotovelos) para minimizar os traumas das quedas, além de praticar a brincadeira em locais apropriados, longe do tráfego de carros. A que não sabe nadar e vai passar um fim de semana numa granja que dispõe de piscina deve ser muito bem vigiada para evitar o terrível acidente que todos conhecemos. Quem leva um menino para um parque público para brincar nos balanços e escorregadores deve verificar o estado dos brinquedos. Deve olhar, por exemplo, se não existem objetos cortantes nos escorregadores e deve verificar o estado das correntes dos balanços. O adolescente que vai numa fazenda e vai experimentar andar a cavalo deve estar protegido com o capacete especial, pois as quedas tendem a produzir graves lesões cerebrais. Quem acompanha as crianças e adolescentes em suas brincadeiras, no seu lazer, deve estar sempre pensando nos possíveis acidentes causados pelas brincadeiras e pelos brinquedos e deve estar atento para evitá-los.
Como estimular a criatividade? Qual o papel das escolinhas de arte?
Infelizmente, as crianças das cidades são pouco estimuladas a inventar seus brinquedos, a fazer suas pernas de pau, a construir seus carrinhos por mais toscos que sejam, a fazer uma bonequinha ou uma bola de meia. Os brinquedos são quase todos comprados prontos. Existem materiais didáticos que orientam os familiares a estimularem seus filhos a construir brinquedos simples e a participar de brincadeiras antigas e tradicionais (passar o anel, amarelinha, pião, bola de gude, pular corda, esconde-esconde e outras). Nesse contexto, as escolinhas de arte são um achado, pois estimulam as crianças a modelarem no barro, a fazer colagens, a construir figuras e brinquedos. É importantíssimo saber que os familiares são essenciais no desenvolvimento da arte de brincar. As crianças pequenas imitam o que os adultos fazem. Se as mães ou os pais procuram desenvolver suas habilidades para a confecção de dobraduras, trabalhos manuais para confecção de brinquedos como bolas de meia, de crochê, bonecas de pano, cavalos de pau, as cinco marias, entre outras, as crianças valorizarão mais os brinquedos que fazem. As bonecas sempre tiveram lugar especial na infância. O cuidar das bonecas é a resposta natural que as crianças dão àquilo que receberam. Bonecas e bonecos não precisam ser confeccionados de forma rebuscada.
Qual o papel dos cuidadores?
Os familiares e os outros cuidadores devem criar oportunidades para que as crianças brinquem, explorem os objetos e o meio ambiente. Devem também ser estimuladores e mediadores das brincadeiras. É comum encontrarmos familiares, cuidadores que encaixam os blocos pelas crianças, que fazem por elas, não permitindo que errem e tentem novamente. A tentativa e o erro no brincar é a maneira de descobrir a forma correta. O familiar mediador da brincadeira deve ser orientado pelo terapeuta ocupacional para discernir o exato momento de ajudar a criança a executar a atividade, para que ela não se frustre, por não conseguir.
Como lutar contra o excesso de brinquedos prontos?
É complicado dar presentes e não estimular o consumo nas crianças. A mídia transformou datas de grande significado, como o dia das crianças, em data para presentear. O verdadeiro significado que deveria ser o da confraternização onde predominassem o convívio, as brincadeiras e os jogos entre filhos e pais é pouco estimulado. O Instituto Alana: http://www.alana.org.br tem informações sobre como lidar com o assunto. Um dos aspectos lá destacados é o de reduzir o tempo de televisão da meninada e uma medida importante é não permitir TV no quarto. Outros aspectos referidos são selecionar a qualidade das mensagens consumidas pelas crianças e participar com elas de conversas sobre o assunto.
Qual a importância da premiação nas brincadeiras?
As crianças devem entender que a brincadeira, em si, é que é o grande presente. É a alegria de estar com os colegas, sorrindo, que é o maior valor a ser preservado. A competição e a premiação não devem ser estimuladas como se fossem o objetivo principal das brincadeiras. Não há malefícios em criar regras prévias que definam que quem chega primeiro ao obstáculo, ou quem dá o maior pulo, ou quem acha a “prenda” que está escondida receba presentinhos simbólicos. É importante que as regras sejam respeitadas pelos “competidores” e que o “juiz” as cumpra fielmente. Servem de ensinamento sobre a importância da obediência ao que foi antecipadamente definido.
O que acham das visitas aos museus, parques temáticos, praças e monumentos, zoológicos, jardins botânicos?
Evidentemente, são atividades de grande interesse cultural e também representam atividade lúdica prazerosa que deve ser estimulada ao máximo. Dependendo da idade das crianças, há que se oferecer informações sobre o que representa o monumento visitado, o que representa o jardim botânico, qual a importância do zoológico e assim por diante.
E as brincadeiras para as crianças com necessidades especiais?
Elas têm o direito de brincar, se alegrar, serem felizes, conviverem com outras crianças e montarem seu patrimônio de experiências. Elas devem ser expostas ao máximo de atividades lúdicas, sem superproteção, medos ou limitações exageradas. Há crianças com necessidades especiais que precisam que a equipe profissional que as assiste e os terapeutas ocupacionais definam quais atividades são permitidas e produtivas face às condições existentes.
Qual a importância das brincadeiras na recuperação da saúde?
Sabemos que a internação hospitalar é uma experiência desagradável e traumatizante, principalmente, nas crianças. As crianças internadas nos hospitais, sobretudo quando estão no curso de problemas agudos, são subitamente retiradas da sua rotina, do seu dia a dia, e seu ambiente corriqueiro é intensamente modificado. Vejam se vocês conseguem perceber o que se passa na cabeça das crianças que imaginam, a todo instante, que a porta do quarto se abre é para a entrada de pessoas que vão agredir seu corpo. Acreditamos que todos ainda estão marcados pelo filme Doutores da alegria e por muitas reportagens que citam a importância das “brinquedotecas” e do estabelecimento de uma estratégia que permita que as crianças brinquem enquanto estão internadas. A alegria é um bálsamo para a alma, da criança e do adulto, e melhora o funcionamento de todos os órgãos corporais, inclusive melhora a imunidade, facilitando a recuperação. As brincadeiras no ambiente hospitalar fornecem às crianças momentos agradáveis e conhecidos. Os brinquedos trazidos de casa fazem com que elas resgatem um pouco de sua rotina antes do internamento. Brincar no hospital traz um momento prazeroso e saudável. Os brinquedos trazidos de casa são os mais indicados para bebês que levam tudo à boca. Sugerimos que sejam laváveis. Devem ser evitados brinquedos como ursinho de pelúcia, por exemplo. O contar histórias, a depender da idade, é uma boa pedida. Ler um bom livro, entoar cantos e cantigas que se reportam a uma fase feliz e tranquila ajudam. A montagem de quebra-cabeças e a prática de jogos lúdicos também são úteis. Evidentemente, tudo vai depender da idade e das circunstâncias para que se possa escolher o procedimento lúdico mais adequado a cada situação. Os terapeutas ocupacionais, que alguns hospitais têm em seus quadros, são uma resposta prática à agressão da internação. Eles podem fazer com que as crianças entendam que as furadas, todos os procedimentos médicos e da enfermagem são necessários para a cura. Brincar de médico e paciente, de enfermeira e paciente, de fazer comidinhas para as crianças que não querem comer, praticar jogos competitivos fazendo com que elas ganhem, ajudam na recuperação. Os terapeutas ocupacionais ajudam os outros profissionais da área da saúde a avaliar a escala da dor e a adotar medidas apropriadas quando o quadro doloroso é significativo.
7.1Brincando com arte e tornando-se artista: uma alternativa ao intenso mundo digital
A arte está presente no cotidiano das crianças de todas as idades através da música, da dança, do teatro, da literatura e suas ilustrações, dos vídeos e outros suportes artísticos que enriquecem o universo do desenvolvimento infantil. As crianças podem ter contato com a arte pela contemplação (ouvir, assistir, ler etc.) ou pela produção (cantar, desenhar, filmar etc.) e com esse contato artístico elas desenvolvem a aprendizagem, habilidades rítmicas, motoras e cognitivas, a capacidade de concentração e memorização, a sociabilidade, a atenção, a expressão verbal e não verbal de suas características e sentimentos, além disso experimentam elementos da vida adulta relacionados às profissões artísticas, como em diversas outras brincadeiras.
A produção e contemplação artísticas são atividades que exigem atenção, criatividade e a habilidade de estar no tempo presente interagindo com o objeto artístico e com os materiais com os quais se produz arte. Atividades como aprender a tocar um instrumento ou aprimorar uma técnica de pintura demandam disciplina e concentração, o que está na contramão do excesso de estímulos videográficos rápidos e repetitivos oferecidos às crianças em redes sociais como tiktok, kwai, instagram, youtube shorts e outras redes e plataformas digitais que estão cada vez mais presentes no cotidiano.
As redes sociais citadas são abertas a produção de vídeo de usuários profissionais e amadores, o que não é totalmente negativo, pois nos dias atuais muitas pessoas com deficiência, pertencentes a minorias religiosas e raciais, fora dos padrões de beleza tradicionais e outras, podem expressar-se gerando um conteúdo que contempla uma maior diversidade de maneiras de ser e estar no mundo. As pessoas que consomem esse conteúdo podem desenvolver empatia e aceitação por causas e temas que antes eram invisibilizados, além disso têm a possibilidade de desenvolver-se de maneira mais autêntica diante de referências mais diversas e múltiplas. Mas os benefícios que as redes sociais trazem podem ser pouco vantajosos diante dos malefícios que as plataformas podem gerar. Além de haver pouca regulação do conteúdo podendo expor as crianças e adolescentes a vídeos sexistas, mentirosos, que promovem sexualização precoce, que incentivam a intolerância, que geram exposição excessiva de menores de idade e impõe padrões de beleza e cuidados inalcançáveis a pessoas comuns, a própria dinâmica dessas plataformas traz um excesso de informações e estímulos que podem promover alterações na capacidade de concentração de seus usuários, principalmente de crianças, com o cérebro ainda em desenvolvimento, além de gerar um espectador apático e viciado que dedica mais do seu tempo para o mundo virtual do que para as atividades lúdicas e pedagógicas do seu dia a dia.
O fazer artístico e a produção de conteúdo em vídeo para a internet têm um ponto em comum: são expressões que não estão dirigidas a um interlocutor específico e sim a qualquer um que seja alcançado pelo objeto expressivo, por isso estão focadas na pessoa que se expressa. Mas o conteúdo videográfico na rede social recebe o feedback de outros usuários através de reações negativas, positivas e comentários que podem fortalecer a autoestima ou colocar a criança e o adolescente em contato com críticas e ofensas que não estão psicologicamente preparados para receber. As pessoas, através de perfis e avatares, podem tornam-se muito mais violentas e ofensivas em suas opiniões do que seriam na vida real diante de pessoas que estão fisicamente presentes. Crianças e adolescentes que fazem uso excessivo de redes sociais podem desenvolver o hábito de validar a expressão de seus sentimentos apenas pela quantidade de retornos virtuais (como views e likes) positivos que sua expressão alcança e consegue, o que pode ser prejudicial para autoestima e gerar ansiedade.
A produção artística é livre e respeita a fase de desenvolvimento da criança e do adolescente, um bebê cantando e batendo palmas está fazendo e usufruindo do prazer da música assim como um pianista experiente que executa uma peça de Chopin, mas ambos estão em níveis de aprendizado diferentes. Para realizar atividades artísticas e expressivas de maneira mais clara e satisfatória para o artista, é preciso aprimorar técnicas através do ensaio, da repetição, da persistência, da paciência e da disciplina, que são capacidades necessárias para o fazer artístico, mas que também podem ser muito benéficas para outras áreas da vida. O desenvolvimento de uma técnica requer tempo e concentração, tempo esse que poderia ser gasto com as redes sociais e concentração essa que poderia ser enfraquecida pelo contato excessivo com vídeos breves e repetitivos nas plataformas. Portanto atividades com artes podem ser uma excelente alternativa ao uso de telas com crianças e adolescentes.
Cada suporte artístico pode desenvolver diferentes talentos e capacidades.
- Música: concentração, persistência, disciplina, desenvolvimento motor, ampliação da linguagem através do aprendizado da leitura de partituras e outras notações musicais, expressão não verbal.
- Teatro: sociabilidade, criatividade em grupo, controle da frustração por criar algo que contemple a vontade de um grupo diante das vontades pessoais, interpretação profunda de textos, empatia.
- Dança: capacidades motoras, sociabilidade, expressão não verbal, autoestima, criatividade, consciência corporal.
- Artes plásticas: controle da frustração por não ser capaz de executar uma obra exatamente como gostaria ou imagina, senso estético, persistência, expressão visual, criatividade, espacialidade.
Todos os suportes artísticos têm potencial terapêutico (arteterapia, musicoterapia, oficina terapêutica de dança e teatro e etc.) desenvolvem a autoexpressão e, ao contrário da produção de conteúdo nas redes sociais, protegem a intimidade e a autoestima do artista uma vez que o que é contemplado, analisado e avaliado é a obra de arte e não o autor.
Atenção:
Crianças e adolescentes não devem ser obrigados a desenvolver atividades artísticas. Há muitos pequenos que preferem esportes, números e outras atividades que são igualmente benéficas. O fazer artístico é complexo e exige dedicação, não deve ser feito de maneira forçada.
Redes sociais e plataformas de vídeos devem ser evitadas, mas os pais e mães não devem se sentir culpados por usar esses recursos para distrair seus filhos de vez em quando. Adultos com filhos costumam ser sobrecarregados pelo trabalho dentro e fora de casa. Eles precisam que seus filhos estejam distraídos e seguros para que reservem um pouco de tempo para si mesmos e para o autocuidado. O Brasil é um país com um número gigantesco de mães solo que cuidam de seus filhos sem nenhum apoio e julgar essas mulheres, física e emocionalmente sobrecarregadas, por dar uma chupeta aos seus bebês ou por usar uma tela com crianças é falta de empatia.
Plataformas de vídeo e redes sociais fazem parte do cotidiano dos adolescentes e uma parte importante de sua sociabilidade desenvolve-se por esses meios de forma inexorável, irreversível e inevitável. Não se deve excluir o adolescente das redes sociais, mas pode-se controlar o tempo de exposição e oferecer alternativas ao uso do universo digital.
7.2Opiniões de cuidadores
Opiniões sobre a brincadeira de jogar a criança para o alto
I “Eu acho essa prática uma temeridade, até pelo perigo de o bebê ‘escapulir’ das mãos dos pais e ir parar no chão.”
II “Achei a resposta boa e esclarecedora.”
III “Eu mesmo fiz diversas vezes com meu filho a brincadeira citada. Arranquei inúmeros sorrisos nesta idade entre 1 ano e os quase 3 atuais. Acredito que antes de 1 ano, a criança ainda não é firme para tentar esta brincadeira, mas depois desta fase é brincar, sem excesso. O ideal, que é o que faço, é não largar a criança, acompanhar a trajetória da subida e descida segurando a mesma. Como se fosse uma gangorra.”
IV “O tema em questão é altamente ‘embananável’. Na resposta, vocês falam, falam, mas não se colocaram e eu entendo. Acho perigoso afirmar, como vocês citam que “causa sorrisos e alegrias”. E não há indícios científicos de que cause problemas para as crianças. Não há indícios que cause, mas não há indícios que não cause. A afirmação do autor citado: Não importa se a sacudida é para brincar ou para dar uma bronca no filho que não para de chorar. O resultado é o mesmo: faz mal de um jeito ou de outro. Pensando nessa linha, como o cérebro vai discernir: esta sacudidela é do bem, aproveite ou eita, essa sacudida foi de uma crueldade... arquive e ela vai passar a fazer parte do mal. Entendem? Acho que vocês devem investigar mais sobre o fato de os cientistas divulgaram uma pesquisa que deram um nome à doença provocada por essa mania: Síndrome do Bebê Sacudido. Que cientistas são estes? Quais as evidências e confiabilidade dos resultados? Onde foram feitas? Em que condições? Só assim você terá segurança para aconselhar ou opinar. Eu, particularmente, também sacudi, mas concordo com o autor. Não deve ser nada agradável para a pobre criança, nem essas sacudidas nem outras coisas que os adultos fazem. Eu costumo dizer que os bebês devem nos achar babacas e chatos.”
V “Aproveito o tema para sugerir que sejam abordadas as práticas de balançar a criança para ela dormir, balançar o bumbum do bebê no berço ou dar aquelas leves tapinhas no bumbum. As minhas crianças já não estão mais nessa fase, mas enquanto bebês, eu morria de medo de as babás os ‘sacudirem’, procurava sempre um balanço levinho, devagar, tipo apenas caminhar devagarinho com o bebê no colo. Certa vez, vi na televisão uma reportagem sobre uma invenção japonesa, eu acho, que era uma cadeira com mola que fazia um movimento vertical. A justificativa era que o balanço do bebê na vertical fazia mal para o cérebro, mas na horizontal não. Temos que aceitar um fato: os bebês adoram um balancinho.”
VI “É difícil dar uma resposta adequada à pergunta feita, pois, como em tantos outros casos, a ação exige bom senso. E nem todos sabem agir adequadamente. Fiz essa ‘brincadeira’ com minhas duas filhas sem imaginar que pudesse prejudicá-las de alguma forma. Talvez possa acrescentar, em sua resposta, alguma reflexão como a que foi feita abaixo quanto a não exposição das crianças a germes, o que as deixa indefesas. Podemos cair na mesma armadilha se afirmarmos que tais brincadeiras com as crianças não devem ser feitas de forma alguma e as prejudicarmos de outra forma, com a perda dos momentos deliciosos com seus pais, a espontaneidade das risadas e, acredito, que deva contribuir para o seu desenvolvimento emocional.”
VII “Não tenho uma opinião formada sobre o assunto e confesso que fico insegura e nervosa quando vejo este tipo de brincadeira. Ao meu ver, algumas crianças parecem se divertir, outras não, demonstrando estar assustadas e temerosas. Como mãe não sou a favor desse tipo de brincadeira.”
Opinião sobre o anda-já
“Nunca ofereci o anda-já aos meus dois filhos porque sempre achei que eu poderia estar favorecendo um duplo aprendizado. Um com o apoio do equipamento e outro sem ele. Sempre achei que o primeiro não faz parte da natureza, tornando-se um aprendizado falso e absolutamente dispensável.”
Opinião sobre a importância dos animais?
“Meu filho resolveu andar de verdade quando o estimulei a correr atrás das gatas da minha mãe. Acho que, para algumas crianças, esse objetivo a alcançar é importante para criarem coragem e darem os primeiros passos sozinhas.”
Opinião sobre o quebra-cabeça
“A faixa etária em que as crianças começam a se interessar por esse brinquedo é a partir dos 3 anos. Observei isso nos meus filhos e nas crianças da escola. Meu filho, que completará 5 anos em março de 2010, já monta quebra-cabeças com mais de 25 peças. Minha filha, que completará 3 anos em novembro de 2009, monta quebra-cabeças com mais de 12 peças. Ambos brincam com jogos com regras simples em que há objetivo de ganhar e perder e demonstram conhecimento seguro das regras, embora, às vezes, quando estão perdendo queiram “trapacear”, tipo jogar duas vezes seguidas. Há jogos adequados para essa faixa etária disponíveis no mercado enfatizando o conhecimento de cores, números, coordenação motora (equilíbrio), contagem, e as regras envolvem estes elementos.”
Sobre o brincar sozinho
“Acho interessante ressaltar a importância de toda criança aprender a brincar sozinha. Eu, que sou psicóloga, tenho recebido alguns pais que se queixam da preferência do filho por brincar sozinho. Isso em si não é problema. Todo ser humano terá ao longo da vida momentos de solidão que devem ser vivenciados de forma absolutamente tranquila. E isso começa na infância. Portanto, brincar sozinho não é problema. Ao contrário, é muito saudável e estruturante, desde que não seja uma escolha exclusiva. Ou seja, o que pode preocupar é o fato de a criança brincar sempre sozinha, de nunca se associar a outras, de não ter interesse comum. Isso pode lembrar autismo e outros problemas
É importante salientar também que o ato de brincar não deveria ser unicamente das crianças. Deveria estender-se até a vida adulta como um dos raros momentos em que o ser humano consegue ser verdadeiro e livre para se expressar. Crianças e adultos quando brincam recriam a si mesmos e o mundo, dando aos objetos novas formas.
Quando os pais me questionam sobre qual o melhor tipo de brinquedo a dar a seus filhos, costumo responder que deem a si mesmos como parceiros em uma aventura lúdica. Isso aproxima pais e filhos, fortalece a relação, faz bem a ambos e não pesa nada no bolso.
Brincadeira é saúde. A ausência do brincar é indicativo de que algo não vai bem. É importante que os pais fiquem atentos às brincadeiras de seus filhos e que não os inibam priorizando a organização, a limpeza ou uma acelerada aquisição de comportamentos desejáveis.”
Artes e brincadeiras
“Meu filho de dois anos adora desenhar com lápis de cera em grandes folhas de papel. Ele também adora brincar com massinha de modelar e tocar piano ou flauta. E acho que tudo isso é muito bom para ele. Tento estimular o gosto pela música e sempre coloco algo apropriado para a idade que ele tem.”
Os jogos eletrônicos e a TV
I “Minha contribuição vai mais no sentido dos jogos eletrônicos, tipo videogames. Concordo com a abordagem feita de não estímulo a esses jogos. Porém, eles são uma realidade e não se pode negar que estarão mais e mais presentes na vida das famílias no futuro. Ao invés de “condenar” uma prática convencional de qualquer profissional quando consultado, seria muito bom orientar os pais em como administrar e conviver com esse tipo de brinquedo. Além disso, jogos eletrônicos como o Nintendo Wii (interativo e com muito movimento), por exemplo, podem ser sugeridos como substituição aos jogos convencionais e que favorecem o imobilismo. Não sou um expert no assunto e acredito que alguém poderia explorar mais sobre ele. Sei é que tenho me divertido muito e interagido bastante com meu filho nas noites durante a semana, brincando com jogos interativos. Durante o dia, por sermos privilegiados e morarmos num condomínio com muita área verde e de lazer, o mundo eletrônico fica automaticamente de lado. Caso isso não fosse natural, a definição dos limites seria fundamental.”
II “Eu, como avó de um garoto de um ano e poucos meses de idade, percebo que ele demonstra grande interesse em ouvir músicas infantis educativas. Na consulta de dois meses, o pediatra mandou escutar canções com temas para crianças. Desde muito cedo, ele presta muita atenção aos palhaços Patati Patatá, a Xuxa etc., e hoje, apenas com um ano e quatro meses, ele já imita os movimentos de dança das crianças. Gostaria de saber se esse hábito de ouvir música é bom ou ruim, pois às vezes sinto que ele sente falta e manda ligar a TV. Creio ser importante abordar o tema.”
O que vocês, médicos, acham dessas duas opiniões?
A TV, o computador, celular e outras maravilhas do moderno mundo digital, a internet, e seus recursos adicionais são uma realidade e não há como fugir deles. Quem não conviver com esses recursos tecnológicos, desde cedo, poderá estar em desvantagem para enfrentar os estudos, o trabalho e tudo o mais na vida. O importante é saber usar esses equipamentos. O importante é ter competência para dividir o tempo livre para o lazer entre as atividades ao ar livre, a prática de esportes, as brincadeiras criativas e as atividades na frente da TV ou do computador que também podem ser tarefas estimulantes. Tanto as atividades ao ar livre e as esportivas como as na casa — computador — têm que ser administradas. O tipo de atividade física ao ar livre para uma criança de 1 ano é diferente daquela programada para uma de 5 anos. O mesmo ocorre com os filminhos musicados. Indicamos como referência o livro Meios Eletrônicos e educação, uma visão alternativa, da editora Escrituras, escrito por Valdemar W. Steger.
Brincadeiras e acidentes
“Creio que devemos levar em conta a possibilidade dos acidentes, mas nunca devemos proibir ou impedir que nossos filhos corram alguns riscos. Mamãe dizia que ela foi criada para ter medo de tudo e me criou assim também. Portanto, subir em um muro, numa árvore, era praticamente um suicídio. Acho que é bom deixar bem claro que devemos deixar os nossos ‘medos’ escondidos e estabelecer apenas um comportamento de acompanhar no sentido de prevenir um acidente de maior gravidade. Quebrar um braço ou uma perna não mata ninguém. A vida é um risco e a superproteção só faz aumentar a população dos covardes que passam toda a vida com medo de experimentar o novo. Pior, que isso não se restringe a brincadeiras apenas.”
Presença da criança em museus, cinemas, galerias de arte
“Acredito que levar uma criança muito pequena ao cinema só faz com que ela se irrite e cause aborrecimento aos demais espectadores. Creio que no caso de músicas, há de se respeitar os valores individuais, sem impor aos filhos o que os adultos acham que é o “melhor.”
Comentários da especialista em terapia ocupacional
“Ressalto que a brincadeira feito gangorra de levar a criança para cima e para baixo é sadia da forma colocada por esta mãe, nesta idade. A brincadeira favorece a ativação do sistema vestibular, a criança ela tem a experiência de manter a postura da cabeça e do corpo e mover os olhos mantendo o olhar, além disso o sistema sente a direção da gravidade e do movimento o que permite que o corpo ajuste sua posição para manter o equilíbrio e a suavidade da ação. Vale lembrar que a reação deste movimento, para cada criança, vai depender da forma que se encontra o seu sistema vestibular.
Crianças que têm alterações no sistema vestibular, que são muito sensíveis, ficam inseguras, têm muito medo, medo de elevador, evitam escadas seguram muito no corrimão, medo de parques como carrossel e balanços. Crianças pouco sensíveis geralmente buscam esses movimentos, adoram balanços, não ficam paradas, adoram ficar de cabeça para baixo penduradas no sofá. A criança ideal é aquela que aos sete anos aceita esses movimentos e, quando necessário, se mantém atenta e concentrada nas atividades escolares, sem a necessidade de buscar esse movimento.”
“Concordo com o uso do quebra cabeça nesta idade. O que estamos observando é que com a introdução das crianças nas escolas a partir de 1 ano e meio, as predispõe a brincar com o outro mais cedo, tendo que se socializar, interagir e compreender algumas regras mais cedo. A partir dos 3 anos a criança já consegue brincar com o outro, o que já inicia a compreensão de pequenas regras nas brincadeiras. Mas a ela ainda não está pronta para aceitar o ganhar e o perder, mesmo porque ainda está em desenvolvimento neurológico.”
Alguns livros que podem ser consultados
BERKENBROCK, Volney J. Brincadeiras e dinâmicas para grupos: diversões para dentro e fora de sala de aula, encontros de grupos, festas de família, reuniões de trabalho e muitas outras ocasiões. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.
CLOUDER, Christopher; NICOL, Janni. Brincadeiras criativas para o seu bebê. São Paulo: Publifolha, 2008.
CUNHA, Nylse Helena Silva. Criar para brincar: a sucata como recurso pedagógico. Atividade para a psicomotricidade. São Paulo: Aquariana, 2005.
FRIEDMANN, Adriana. Brincar, crescer e aprender: o resgate do jogo infantil. São Paulo: Moderna, 1996.
MACHADO, Marina Marcondes. O brinquedo-sucata e a criança: a importância do brincar, atividades e materiais. São Paulo: Loyola, 1993.
MATURANA, Humberto; VERDEN-ZOLLER, Gerda. Amar e brincar: fundamentos esquecidos do humano. São Paulo: Palas Athena, 2014.
SANTOS, Santa Marli Pires dos. Brinquedo e infância: um guia para pais e educadores em creche. Petrópolis, RJ: Vozes, 2010.
ZATZ, Sylvia; ZATZ, André; BALABAN, Sérgio. Brinca comigo!: tudo sobre o brincar e os brinquedos. São Paulo: Marco Zero, 2006.
