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Conversando com o Pediatra

Parte I — Promoção e prevençãoCapítulo 8 de 46

Aspectos comportamentais e emocionais

Do texto clássico de Zaldo Rocha às telas de hoje: limites, birras, chupeta, desfralde e sexualidade infantil, em conversa franca entre pediatras, psicólogos e famílias.

  • Leitura156 min · 32,741 palavras
  • No livropáginas 141–218
  • Conversa134 perguntas respondidas

Resumo do capítulo

O capítulo abre com um resgate histórico: o texto de 1992 do professor Zaldo Rocha, pioneiro da psiquiatria infantil no Brasil, sobre o papel materno no desenvolvimento emocional — afeto nos primeiros meses, estímulo à autonomia, socialização e respeito aos direitos dos demais, com reflexões sobre disciplina, obediência e punição. Seguem-se o ensaio “Fome e afeto”, de Luiz Schettini Filho, com sete ensinamentos da clínica psicológica, e comentários de profissionais e cuidadores, incluindo um texto de Maria Stella Dunshee de Abranches sobre o ambiente emocional e a saúde da criança.

Nas perguntas e respostas, os pediatras percorrem as fases do desenvolvimento emocional, a importância dos limites e do “não”, birras, mordidas, agressividade, separação dos pais, chegada de irmãos, luto e as primeiras conversas sobre sexualidade. Há seções práticas sobre masturbação, chupeta e dedo, fraldas e peniquinho, roer unhas, tricotilomania e ingestão de substâncias não comestíveis, além de um longo debate sobre o uso saudável das telas, com depoimentos de mães e cuidadoras ao longo do caminho.

Para quem: Para pais e cuidadores de crianças pequenas às voltas com limites, birras, chupeta, fraldas e o uso de telas no dia a dia.

limites e disciplinabirras e agressividadesexualidade infantilchupeta e dedodesfraldetelas

Zaldo Rocha foi um pioneiro, participando do início dos estudos sobre a psiquiatria infantil no Brasil. Foi professor na sua área de atuação, nas décadas de 1960 a 1990, na UFPE e publicou vários livros sobre o assunto.

O texto transcrito no subcapítulo a seguir cumpre duas missões: continuar a divulgar as ideias do professor Zaldo e fazer um resgate histórico do texto escrito por ele em 1992. As suas ideias devem ser olhadas numa perspectiva temporal pois, desde 1992, 30 anos se passaram e o conhecimento científico andou. E como andou!

8.1A importância do comportamento materno no desenvolvimento emocional da criança

Zaldo Rocha (in memorian)

O traumatismo do nascimento

Antes de nascer, o feto encontra-se num estado de completa satisfação. Não sente fome, nem frio, nem calor, nem é incomodado por ruídos, luz ou sensações dolorosas. O processo do nascimento, que separa a criança da mãe, acarreta uma transformação súbita, brusca e radical nas condições da sua existência. Tudo lhe é estranho no novo ambiente em que tem de viver. Além de ser assaltado por múltiplos estímulos que lhe são desagradáveis, é obrigado a abandonar o parasitismo da vida fetal, onde nada lhe afetava, para assumir uma autonomia relativa no que tange a certas funções orgânicas, como a nutrição e a respiração. A tudo isso, o recém-nascido reage de um modo negativo, tentando fugir desse mundo novo e inóspito, procurando reaver a todo o custo o paraíso perdido da vida intrauterina.

A função da mãe

Desvalido e indefeso, esse novo ser pereceria se abandonado à própria sorte. Ainda que, sob uma hipótese pouco provável, viesse a sobreviver, e progredisse fisicamente, seu desenvolvimento não ultrapassaria o nível da idiotia (deficiência mental profunda, onde sequer é observada a comunicação verbal). Mais do que qualquer outra espécie, o ser humano precisa, nesse primeiro estágio da vida, de proteção e cuidados, que lhe são fornecidos, sobretudo, pela figura materna. Apenas assim pode ele vencer, um por um, todos os obstáculos encontrados no novo ambiente. Desse modo, pode cumprir, de forma harmoniosa, cada uma das etapas do desenvolvimento físico e mental. Por essa razão, é difícil até mesmo impossível, pronunciarmos a palavra mãe, ou simplesmente evocá-la, sem que experimentemos as implicações afetivas que em cada um de nós lhe estão profundamente ligadas. De um modo geral, os poetas e filósofos de todas as épocas e de todos os povos, têm enaltecido o amor materno com tal veneração e respeito que temos sido levados a encarar, desde a nossa mais remota infância, aquela que nos carregou em suas entranhas, deu-nos a luz e guiou-nos os primeiros passos, que o pequeno vocábulo acima referido, tão pequeno quanto sublime e significativamente grandioso, jamais poderia deixar de soar aos nossos ouvidos senão como se fosse o nome de algo sagrado ou semidivino!

Tais implicações afetivas por si só bastariam para impedir de nos referirmos ao papel da mãe na educação dos filhos, como a uma função puramente técnica. Assim, os conselhos e sugestões que vamos expor jamais poderiam dar bons resultados, sem que sejam antes integrados à singular cosmovisão de cada mãe que os acolhesse. Sem que antes sejam tocados pelo amor incondicional e genuíno que cada uma delas, no fundo do coração, experimenta e nutre para com cada um de seus filhos.

Atenção necessária

Costuma-se dizer que a criança de tenra idade recebe da mãe duas coisas que lhe são indispensáveis: leite e amor. Embora o primeiro desses dois termos tenha sido sempre levado em conta, o mesmo não acontece com o segundo, muitas vezes e ainda hoje, relegado a um plano secundário. São inúmeros os estudos e pesquisas empreendidos por vários autores. Todos eles concordam em apontar a enorme importância das primeiras relações, entre a criança e a mãe, nos estágios iniciais da vida. Criaram-se mesmo termos como “fome de afeto”, “carência afetiva” e outros para referir-se a esse tipo especial de inanição, cujos efeitos funestos sobre o psiquismo e o desenvolvimento seriam tanto mais graves quanto mais precoces e duradouros. O primeiro conselho que daríamos às mães seria, pois, o de atender, pronta e satisfatoriamente, todas as necessidades do bebê. Para isso, pelo menos no primeiro trimestre, a mãe deveria concentrar a maior parte de seus interesses nos cuidados e na assistência prestados a seu filho. A esse mister, deveria dar tempo integral e, na realização do mesmo, seria desejável que não só a criança, mas ela também experimentasse, sem nenhuma inibição, todo o prazer que aquele ato de amor lhe possa proporcionar. Amamentar, ou dar a mamadeira, dar o banho, trocar os panos molhados, acalentar, consolar e ninar, são atividades que deveriam ser cumpridas integralmente pela mãe. É difícil descrever, de modo fiel, os intercâmbios afetivos implícitos em cada uma dessas atividades, e o que podem as mesmas representar como fonte de bem-estar e como estímulo ao desenvolvimento mental do menor.

Para que a criança possa aceitar o meio exterior, para que possa adaptar-se ao novo ambiente, inicialmente inóspito, faz-se necessário que, pelo menos nesses primeiros meses, todas as suas necessidades sejam pronta e integralmente satisfeitas. E, para isso, é indispensável que a mãe esteja disponível, entre no ritmo de vida do filho, não permitindo que nada se interponha entre ambos. Somente então se poderia lançar mão de certas medidas disciplinares, como por exemplo, a periodicidade das mamadas (de três em três horas), a permanência no berço por períodos de tempo cada vez maiores, o afastamento progressivo da mãe (a que trabalha) até o retorno às atividades profissionais maternas.

Autonomia incipiente

Além de propiciar ao filho o afeto indispensável à segurança emocional, compete à mãe respeitar e estimular sua incipiente e necessária autonomia. E este seria o segundo conselho que daríamos às mães. Vimos como, no período anterior, a criança conta com a mãe e a usa. Aqui, a mesma criança deve continuar contando com ela, mas deve deixar de usá-la.

Este novo período é muito mais difícil de ser atendido, pois enquanto lá as tendências ao amor, ao carinho e à ternura, tão comuns às mulheres em geral, constituem uma ajuda ao cumprimento do primeiro conselho, neste segundo, aquelas tendências são antes um obstáculo e devem ceder lugar a um comportamento mais racional, objetivo e disciplinado. Por isso, não se deveria nunca servir à criança naquilo que fosse capaz de realizar por si mesma, mas ajudá-la com estímulo afetuoso, a que o fizesse sozinha ou, quando menos, empregando de alguma maneira os seus próprios esforços. Assim, uma criança de 18 meses, que já é capaz de locomover-se sem auxílio algum, não deveria viver nos braços da genitora sob o pretexto de que pudesse vir a cair ou machucar-se. Sabemos da Psicologia Evolutiva que durante o segundo ano de vida predominam os interesses motores. As atividades suscitadas por estes interesses proporcionam à criança uma satisfação intensa cuja finalidade biológica é o treinamento da função em jogo, no caso, a função locomotora. Nada, portanto, mais errôneo e prejudicial do que privar o menor desse treinamento indispensável ou daquela satisfação que lhe é legítima e a que tem direito, sob a alegação, piegas e leviana, de que poderia vir a cair ou a contundir-se. A criança dessa idade deve, portanto, deslocar-se livremente, ainda que esteja sendo observada indiretamente. Se cai, e não houve ferimento ou o ferimento não foi grave, a conduta materna mais adequada será consolar o menor com palavras afetuosas que lhe deem segurança ou lhe façam ver que não está sozinho, convidando-o em seguida a levantar-se por conta própria, e, por si mesmo ir até ela que, sem mover-se de seu lugar, o acolheria de um modo afável e encorajador.

Esse mesmo conselho poderia ser extensivo a outros setores da atividade na infância. Assim, a mãe que ainda alimente o filho de três anos, levando-lhe a comida à boca, para que “não suje a toalha” ou “não demore demasiado”, está agindo de modo superprotetor, pois lhe está servindo num mister que ele pode realizar por si próprio. Tal criança, assim acostumada, pode exigir posteriormente aquele comportamento materno sob pena de não se alimentar. E aquela mãe assim o fazia para que ele não sujasse a mesa, fá-lo-á então para que ele “não fique tão magro” ou “não seja acometido de uma doença grave”. Estas últimas palavras são de uma mãe aflita com a saúde de sua filha de nove anos, cuja alimentação ainda lhe era dada na boca.

Considerações análogas, ainda relacionadas com o nosso segundo conselho, também poderiam ser feitas sobre os hábitos de higiene. Conheci uma criança de 8 anos que, após a evacuação, ainda exigia que sua mãe a limpasse. Conheci uma outra que, em plena puberdade, e apesar de um alto quociente de inteligência, não era ainda capaz de banhar-se sozinha. Certamente, não se chegaria a esse estado de coisas se aquelas crianças, desde muito cedo, fossem, com estímulo afetuoso, iniciadas no treinamento dos referidos hábitos de higiene.

Outros pontos importantes poderiam também ser aqui comentados como o vestir-se por si mesmo, o dormir na cama do casal, a participação dos pais nas tarefas escolares, dentre outros exemplos, mas não o fazemos, pois, esperamos que os exemplos dados tenham sido ilustrativos. Gostaríamos, no entanto, de nos referir ainda a mais um tópico relacionado com este segundo conselho que visa a incentivar a “incipiente autonomia” do menor.

Além de não servir diretamente à criança naquilo que ela seja capaz de realizar sozinha, deveríamos respeitar suas necessidades anímicas de bastar-se, ou seja, de estar a sós consigo mesma e com o mundo. Deste modo, deveria ela ter o direito de entreter-se com os seus brinquedos ou com suas fantasias, por longos períodos, sem ser arrancada deste mundo lúdico e fantástico, para o mundo nem sempre agradável da realidade. Algumas mães interferem nesse momento porque “têm pena de ver o filho abandonado”. Nem sequer procuram olhar na sua fisionomia se está alegre ou não. Muitas vezes, não é a criança que se acha solitária, mas as próprias mães que, movidas pelo peso da sua imensa solidão, buscam a companhia do filho ou procuram arrancar-lhe à força, um sorriso a fim de se sentirem menos abandonadas. Referindo-se àquela necessidade de bastar-se a si mesma, alguns autores asseveram que as crianças que não se exercitam nesse sentido ou que não cumprem essas exigências carecem mais tarde de um dos fundamentos essenciais do trabalho independente.

Socialização

Mas o que falamos anteriormente não significa dizer que a criança deva ser incentivada ao isolamento. Ao lado daquela necessidade de bastar-se, existem necessidades de contato afetivo e social que por sua importância não podem deixar de ser atendidas e estimuladas. É preciso, pois, que a “educação” seja dosada de tal forma que uma e outra não deixem de ser atendidas no momento oportuno. A propósito, queríamos enfatizar que se o contato com os familiares (sobretudo com a mãe) é indispensável e quase exclusivo até os dois anos, a partir de então, a criança deve ir-se habituando, paulatinamente, a outras pessoas e a outros ambientes. Um menor que desde muito cedo teve oportunidade de estar em casa de outros parentes, de brincar na residência do vizinho, de estabelecer relações positivas com outros adultos que não os familiares imediatos, por certo terá muito mais facilidade de adaptar-se à escola maternal ou ao jardim de infância, do que um outro cujo relacionamento se tenha limitado ao círculo restrito de seus familiares.

É verdade que a desinserção do ambiente caseiro está ocorrendo numa idade cada vez menor. Em velhos tempos, a entrada na escola se verificava aos seis anos, época em que a criança estava pronta para alfabetizar-se. Além dos interesses intelectuais, estavam aqui em jogo os interesses sociais e a extensão dos laços familiares ao ambiente escolar. Depois, com a criação dos “jardins de infância”, a idade dessa “transição” diminuiu para os 4 anos. O objetivo agora era não somente atender aos incipientes interesses sociais da criança, ao desejo de emancipação materna que já começava a ser observado, mas também, e sobretudo, exercitar certas funções que constituem, por assim dizer, a base da aprendizagem da leitura, como a percepção, coordenação motora, a organização tempo-espacial, e o esquema corporal. Mais recentemente, apareceram as escolinhas maternais, cujas finalidades prendem-se muito mais aos interesses da mãe (cada vez mais chamada a participar no mercado de trabalho, ou cada vez mais necessitando de uma profissão para a sua realização pessoal) do que às necessidades da própria criança. Finalmente, construíram-se as creches que acolhem menores ainda no primeiro ano de vida e para cuja construção, os interesses e as necessidades daqueles menores não foram em nada consultadas.

Esperamos que essa digressão que fizemos não sirva para que se pense que condenamos as creches, nem muito menos as escolinhas maternais. Não há dúvida que elas cumprem importante papel frente à nova realidade da mulher moderna. Para isso, procuram equipar-se do melhor modo possível, a fim de atender às necessidades dos menores que se propõem assistir. Melhor educar a criança numa creche ou numa escolinha do que deixá-la aos cuidados de uma empregada doméstica, figura em extinção, que é frequentemente substituída, não possui nenhum preparo para lidar com os menores, nem alimenta, para com os mesmos, aquele afeto indispensável ao bom desempenho de sua função. Mas mesmo assim, tanto as creches como as escolinhas maternais não deixam de ser um mal menor e somente deveriam ser procuradas quando a mãe estivesse parcial ou integralmente impossibilitada de assistir os próprios filhos. Voltando agora ao tema sobre o qual orientávamos — favorecer a socialização — (e esse seria o nosso terceiro conselho) queríamos assegurar que as mães deveriam favorecer a socialização de seus filhos.

Na medida em que a criança aumenta em idade, a necessidade dos contatos sociais se torna imperiosa. Sobretudo, a partir dos 7 anos (com o incremento das funções intelectuais; a “destronização” das imagens paternas, até então consideradas com imagens de seres oniscientes e onipotentes; a transformação cada vez maior da heteronomia moral numa moral autônoma) a criança é conduzida a uma ampliação cada vez mais externa de laços sociais. Esta ampliação, no entanto, é muitas vezes obstaculizada pelo adulto além de interditar o relacionamento do filho com seus contemporâneos, põe-no, por assim dizer, em guarda contra a sociedade com frases ou adágios como estes: “não te fies senão em teus pais”; “os pais são os únicos amigos”; “cuidado com tuas amizades”; “não fales com desconhecidos”; “boa romaria faz quem em sua casa fica em paz”, etc.

Um fato digno de nota é que muitas mães não se incomodam que os filhos brinquem com os companheiros, contanto que seja em casa, ou mais precisamente, sob sua constante vigilância. Muito embora os argumentos com que defendem seus pontos de vista sejam de certo modo justificáveis, em sua maioria são bem engendradas racionalizações, com as quais se defendem de receios fóbicos ou de ideias obsessivas de que os filhos possam ser maltratados ou explorados sexualmente.

Direito dos demais

Passemos agora ao quarto conselho. Além de proporcionar à criança o afeto necessário ao desenvolvimento, como também de lhe favorecer e estimular a incipiente autonomia, permitir e incentivar o relacionamento com os companheiros, compete ainda à mãe fazer que a mesma criança “aprenda a reconhecer os limites dos seus direitos e a respeitar os direitos dos demais”. Este conselho nos leva inexoravelmente à abordagem de outros temas estreitamente relacionados entre si como o da disciplina, o da obediência e o da punição como princípios da educação. Trataremos cada um deles separadamente:

• Disciplina

Uma certa dose de disciplina é indispensável ao labor educativo. Sem ela, seria impossível a harmonia necessária no seio da comunidade familiar. Não há dúvida de que, face a determinadas situações, deveríamos fazer com que a criança percebesse a necessidade de renunciar ao seu egocentrismo, acatar nosso ponto de vista ou mesmo submeter-se a ele. Nessas situações especiais, as nossas exigências não têm necessidade de ser justificadas. Elas fazem parte da responsabilidade dos pais no desempenho do seu papel de representante da lei moral. A criança atende daquela maneira porque não existe outra. Era como se ela atendesse a uma lei natural, a uma lei universal. Mas nós queríamos aqui distinguir duas espécies de disciplinas. Uma que é imposta, nasce do autoritarismo e alimenta-se do temor, da ansiedade e do sentimento de culpa. Outra que é aceita, nasce da compreensão e se nutre dos sentimentos de gratidão, responsabilidade e colaboração humana. Naquela, a ordem é conseguida pela coação e pelo castigo, transformando-se, quase sempre, em rebelião ou subserviência. Quando deixam de atuar a coação ou repressão exterior, na outra, a mesma ordem se consegue pelo amor, pela paciência, pela firmeza, pela empatia, pela justiça e esses elementos jamais deixarão de atuar ou de fazerem-se sentir, pois se nutrem, gerando sempre sentimentos semelhantes que se arraigam de modo muito profundo no coração daqueles que os experimentam. Finalmente, lá a disciplina é externa e se torna indispensável a toda e qualquer forma de governo totalitário, a toda e qualquer espécie de regime autocrático. Aqui a disciplina é interna e constitui a única e exclusiva modalidade de disciplina capaz de reger a conduta de um cidadão livre.

Um fato importante parece ter contribuído para o descrédito da chamada educação moderna, que preferíamos chamar educação compreensiva. Muitos pais, levados pelo receio de frustrar os filhos, ou pelo desejo de neles se realizar, ou ainda por um otimismo utópico ou comodidade irresponsável, caíram no extremo oposto do autoritarismo, adotando um modo de educar permissivo, negligente e excessivamente protetor, cujas consequências são facilmente previsíveis. Mas quando falamos em disciplina interna ou em educação compreensiva, não estamos nos referindo a este modo de educar. Para a aquisição daquela forma de disciplina e para o ministério daquele tipo de educação citados mais acima, é indispensável muita renúncia, muita dedicação, muito amor e muita maturidade. Somente assim poderemos fazer com que a criança reconheça, de modo mais genuíno, o limite dos seus direitos. Apenas assim poderemos fazer com que ela aprenda de fato a respeitar os direitos dos demais.

• Obediência

Estreitamente ligado ao item anterior, este e o outro estão intrinsecamente relacionados com o “respeito aos direitos dos demais”. De fato, na rotina doméstica do dia a dia, não basta que a criança se submeta passivamente a determinadas situações, mas também que ela acate certas ordens que lhe são dadas, e que as cumpra mesmo na ausência dos pais ou dos adultos que as proferiram. Isto nos conduz ao intrincado problema da desobediência. Muito embora tal problema constitua um verdadeiro tormento para muitas mães, estamos cada vez mais convencidos de que estas últimas estão mais implicadas na determinação do mesmo que a própria criança. Assim sendo, se existe um problema da criança desobediente, existe também, sem nenhuma dúvida, um problema dos “pais da criança desobediente”. Muitos deles consideram como desobediência, o que não deveria ser assim considerado. É o que ocorre com a criança que não concorda em comer a quantidade de alimento que lhe é imposta, ou com aquela outra que se nega a recitar, cantar, ou exibir seus conhecimentos frente aos amigos dos pais, ou ainda com aquela que se opõe a beijar cada um dos parentes por ocasião de uma visita. Claro que estas crianças não deveriam ser consideradas como desobedientes. A importância que deveremos atribuir à desobediência é diretamente proporcional ao valor da ordem que se deva obedecer. Para que exista obediência, no verdadeiro sentido da palavra, é preciso que haja, da parte do sujeito que obedece, o desejo de cumprir aquilo que lhe é ordenado. Obedecer seria, em última análise, manifestar este desejo de cooperar com o adulto e a obediência jamais deveria ser concebida como um fim em si mesmo, mas um meio de que dispõe a educação para incrementar, na criança, o gosto pelo trabalho comum, a satisfação em cooperar com os seus semelhantes, o anseio de crescer, produzir, construir e afirmar-se como ser social.

Muitas mães, no entanto, não pensam dessa forma e procuram ver em tudo uma manifestação de obediência ou de desobediência. E nesse afã de serem obedecidas, ou com o receio de não serem obedecidas, vendo neste fato o germe de um futuro comportamento antissocial, lançam-se, contra o menor, de modo tenaz e pueril, criando uma situação muitas vezes difícil de ser solucionada: a criança que não quer ceder de modo algum e o adulto a todo custo lhe exige obediência. O final desse estado de coisas é sempre desagradável — ou o adulto cede, o que compromete a sua autoridade, ou tem de usar a violência, o que seria duplamente desaconselhável, pois além de gerar ressentimentos difíceis de serem superados, nem sempre conduz ao objetivo pedagógico desejado. Sei de um menino de 3 anos que foi castigado várias vezes consecutivas por insistir em não obedecer a uma ordem da genitora. Tal criança, logo após cada uma daquelas punições, chorando, dizia em sua linguagem ainda mal articulada: “eu faço” e se dirigia, magoada e em prantos para o local interditado. Deveríamos, na medida do possível, evitar tais situações. Deveríamos fazer com que a criança de quem se espera obediência, fosse levada, com persuasão e paciência, a aceitar aquilo que lhe fosse ordenado e exigido. Noutras palavras, devemos dar menos importância àquela norma segundo a qual a criança não deve fazer tudo que deseja, para nos atermos mais àquela, segundo a qual a criança deve sempre desejar tudo o que faz.

• Punição

Ainda no que tange ao reconhecimento dos direitos dos demais, o que fazer quando a criança desrespeita voluntariamente aqueles direitos, ou quando voluntariamente desacata as nossas ordens? Seria conveniente castigá-la? Estamos assim frente ao discutido problema da punição. Na discussão desse problema, há duas posições extremas. Defendem a primeira aqueles que exagerando o preceito bíblico julgam “não ser bom pai o que não usa a vara” e procuram corrigir todos os erros da criança lançando mão de estímulos dolorosos, quando não da pancadaria selvagem, sacrilegicamente racionalizada. A segunda, por sua vez, é defendida por muitos que — levados por um otimismo utópico, por mecanismos patológicos de identificação ou por um comodismo irresponsável — afastam toda e qualquer forma de punição ou castigo na educação de seus filhos. Não vamos comentar aqui os inconvenientes pedagógicos dessas duas posições extremadas. Quem quer que possua bom senso (esse fabuloso guia em educação) e saiba convenientemente utilizá-lo, chegará facilmente à evidência dos efeitos nefastos acarretados por uma ou outra. Tanto a pedagogia do pau (cruel e desumana) como a educação sem repressão (inconsistente e romântica) somente são compreendidas em função dos problemas emocionais ou dos traços de personalidade daqueles que as defendem. Entre os dois extremos, existe uma punição recomendável, necessária, diríamos mesmo indispensável à educação de toda e qualquer criança. Essa forma de punição se caracteriza por ser ditada pelo desejo genuíno de beneficiar o menor, no seu processo de desenvolvimento e de adaptação. Desse modo, ela não pode ser cruel, nem desumana, nem arbitrária. No exercício da mesma, a mãe, ou o pai, ou o adulto responsável, chega mesmo a demonstrar um certo constrangimento, como se fossem forçados a precisar agir daquela maneira. A punição (ou o castigo) pareceria, assim, a consequência natural do erro cometido pela criança. Mas, para isso, é necessário que ela não induza esta mesma criança ao pavor, à humilhação ou aos sentimentos de menos valia ou inferioridade. Que ela não seja muito frequente, pois, sabemos de reflexologia que todo estímulo inibidor perde suas propriedades quando muitas vezes repetidos. Que ela guarde certa relação com o erro ou falta cometida (se o menor “gazeou” aula, poderia no domingo estudar as lições referentes ao dia que faltou a aula). Enfim, que seja aplicada com firmeza e com serenidade.

Se os pais, que só batem nos filhos quando perdem o controle emocional, pudessem assistir ao filme de sua punição, com ênfase especial em sua fisionomia, certamente, não tornariam mais a bater nos filhos. Embora não nos oponhamos, de modo radical, ao castigo físico aplicado com moderação, somos do parecer que, na medida do possível, ele deveria ser evitado. Educar não é domesticar, nem é estabelecer reflexos condicionados a partir de estímulos dolorosos. Tais medidas só se fazem necessárias quando a educação vem, desde o princípio, elevada de erros, e todos nós sabemos como seus resultados são transitórios, contribuindo para aumentar, mais ainda, as dificuldades na relação entre os pais e os filhos. São essas dificuldades que constituem, em última análise, a base das manifestações indesejáveis. Debelar tais manifestações através da violência é querer debelar o sintoma sem lhe arrancar a causa. É cortar a planta daninha ao nível do solo sem lhe arrancar a raiz. E, do mesmo modo que a raiz da planta, entranhada na terra, fará brotar novos ramos, também o conflito intrapsíquico, não debelado pelo castigo físico, fará surgir outras perturbações nos demais setores da atividade pessoal da criança.

8.2Fome e afeto

Há lembranças que revigoram a vida. Foi o que senti quando tomei conhecimento do texto do Dr. Zaldo Rocha. Rememorei seu cuidado com crianças e seus pais. Era sua marca. Logo me chamou a atenção, quando faz referência a um aspecto fundamental à relação da mãe com seu filho recém-nascido, dando ênfase à importância da fome, que mantém vivo o corpo com o afeto que dá vida à pessoa. Não basta só o leite, será preciso o amor.

Essa observação nos leva a afirmar que a relação de filiação ultrapassa a origem biológica em que tanto insistimos para configurar a maternidade. Ser mãe ou pai não resulta apenas da função ligada à sexualidade, mas é também, e acentuadamente, o que decorre da função do cuidado. Cuidar é ação que mantém a vida em todas as suas dimensões, do nascimento ao envelhecer. Suponho que foi por esse caminho que o biólogo suíço Adolf Portman sugeriu que começamos no útero biológico e, após o nascimento, temos a oportunidade de nos tornarmos pessoas no “útero social”. Sem cuidado nos deterioramos. Sem cuidado não existimos, apenas sobrevivemos.

Para os humanos, viver será sempre conviver. Dificilmente viveremos plenamente sozinhos. Enquanto pensava na “fome e afeto” referidos por Zaldo, saltou-me da memória o que disse o filósofo Emmanuel Lévinas: “nunca existimos no singular”. É no afeto que nós percebemos pessoas, na convivência com outras pessoas.

A mãe real é aquela que constrói um vínculo afetivo com a criança que gera ou com a criança que adota como filho. É preciso saber que ninguém se torna filho por iniciativa própria. O filho resulta de uma decisão do amor de alguém que se torna pai ou mãe. A adoção não é simplesmente um ato jurídico; é uma ação que faz a vida persistir através de uma relação de amor.

Cuidar implica o cuidar-se. Educar implica o educar-se, assim como amar implica o amar-se. Isso nos leva à compreensão de que adotar um filho (gerado por nós ou não) exige um cuidar com reverência. Aqui, reverência é o respeito à individualidade do filho. Não importa que ele não atenda à totalidade de nossas expectativas. O filho real será sempre o filho possível.

De uma forma resumida e essencial, atender às necessidades físicas e emocionais dos filhos, exigirá sempre estarmos nos ocupando do que nos alertou Luigina Mortari: “não nascemos para contemplar, mas para agir”.

Ao final, quero compartilhar sete ensinamentos que minha experiência em clínica psicológica confirmou.

  • Maternidade e paternidade não podem ser terceirizadas no que se refere, sobretudo, ao estabelecimento de um vínculo afetivo. As pessoas importantes na formação da criança como filho são aquelas com quem ela estabelece permanente interação afetiva. A fragilidade dos vínculos afetivos com os pais dificulta a consolidação da relação de filiação.
  • A maneira de dar e de fazer vale tanto quanto o que se dá e o que se faz. A forma é tão importante quanto o conteúdo. A forma inadequada deteriora o conteúdo do ensinamento no processo educativo do filho. Formas impróprias podem desfigurar palavras ou ações essencialmente boas.
  • O filho será tanto filho quanto se sinta desejado como tal. Para o filho sentir-se desejado, será preciso que ele perceba verdade e afeto nas ações pedagógicas dos pais.
  • Cuidar do filho não é necessariamente fazer o que achamos ser o melhor para ele. Cuidar, na sua essência, é uma ação de cura de algo que é doloroso no seu processo de desenvolvimento.
  • Os filhos não são nossos, nós é que somos deles. Nas relações de afeto não cabe a ideia de posse. A posse desmantela o amor.
  • A filiação se constitui na transformação do especificamente biológico no profundamente afetivo.
  • Não basta amar o filho; é preciso manifestar o amor que temos por ele da maneira pela qual ele possa perceber. A expressão do amor é uma ação individual, razão por que ela precisa ser adequada à pessoa do filho a quem amamos.

8.3Comentários de profissionais e de cuidadores sobre o texto do professor Zaldo Rocha e outros temas

Comentários de profissionais

“Sou psicóloga e opino que o texto do professor Zaldo é uma relíquia bela e preciosa. Ainda é atual e escrito com clareza, bom senso e elegância. Os pais deveriam decorar cada letrinha. Assim teriam menos problemas em criar seus filhos para serem bons cidadãos, mais íntegros e mais felizes.”

Texto elaborado pela psicóloga Dra. Maria Stella Dunshee de Abranches que participou dos grupos de mães, entre 1980 e 1990, realizados em um consultório pediátrico no Recife. O texto foi publicado em um dos livros da série Conversando com os pais.

O ambiente emocional e a saúde da criança

A maioria de nós, “pais modernos”, se preocupa em proporcionar um ambiente familiar adequado ao desenvolvimento saudável dos filhos. Poucos desconhecem a importância de cuidar da parte emocional e afetiva da criança e a íntima relação que existe entre corpo e mente.

Estudos da medicina psicossomática nos mostram a ligação que há entre inúmeras doenças infantis e os estados emocionais. Saúde mental e física já são vistas como indissociáveis.

Questões relacionadas à educação e à psicologia povoam nossas mentes de pais interessados. As novas informações chegam aos montes, nos atordoam e exigem modificações de comportamento.

Ficamos por vezes atônitos e desconcertados, sem saber ao certo como proceder. Contestamos boa parte dos valores do passado e ainda não nos sentimos muito seguros em relação aos que adotamos para substituí-los. Culpamos as gerações que nos antecederam de assumirem uma postura de excessivo distanciamento em relação aos filhos, de exercerem uma disciplina muito rígida, de não estabelecerem com eles um diálogo franco e aberto, de reprimirem demais as suas manifestações.

Sentimos na pele os efeitos dessas condutas! E por conhecer bem as consequências, evitamos repeti-las com nossos filhos. Talvez seja por este motivo que alguns pais tenham partido para o extremo oposto. Hoje, é muito comum a existência de famílias nas quais a criança se sente perdida pela falta de limites, onde ela ocupa, por vezes, um espaço invasor até mesmo dos direitos de seus pais.

Se quando éramos crianças tínhamos que nos sentar à mesa em silêncio para não incomodar os adultos, hoje em dia, em muitas casas, se tornou quase impossível se fazer uma refeição em família com certa tranquilidade.

Se antes bastava um olhar mais duro de um pai para que o obedecêssemos, hoje vemos crianças agredindo fisicamente seus pais que, desnorteados, não sabem como reagir.

Conseguimos incutir em nossos filhos os valores da crítica, do questionamento, da liberdade. Embora, talvez, não tenhamos sido tão eficientes na transmissão das noções de responsabilidade e respeito que estes valores trazem implícitos.

Outra questão que se coloca para nós é a cobrança excessiva de um bom desempenho. Temos que ser bons pais. Temos que acertar de todo o jeito. Vamos então, atrás de informações, de receitas, de livros, de tudo enfim que possa nos auxiliar nesta nossa função. E aí, tentamos seguir ao pé da letra aquilo que nos é recomendado.

Assumimos então comportamentos estereotipados, atitudes artificiais tão distantes da nossa realidade, que, ao invés de ajudar, acabam provocando sentimentos de incapacidade e impotência. Por não conseguirmos desempenhar nosso papel como “manda o figurino”, nos sentimos frustrados e angustiados.

As receitas dos manuais não funcionam como esperávamos. E é óbvio que não poderiam funcionar mesmo. As relações entre pais e filhos são condicionadas por inúmeras circunstâncias, sendo algumas de complexa avaliação. Cada caso é um caso. Cada filho é um ser singular, que nasce num momento diferente da vida dos pais e que assume uma significação diversa naquilo que simboliza para eles. Cada criança possui fatores constitucionais específicos, ocupa uma posição diferente na família e recebe influências diversas do meio. Como esperar então que, diante de tal singularidade, pudéssemos encontrar, nas generalizações dos livros, receitas aplicáveis a todos os casos?

Não se trata, evidentemente, de negar a importância dos conhecimentos psicológicos, ou de qualquer forma do saber que possibilite uma maior compreensão da natureza e do comportamento infantil. No entanto, esta compreensão racional, que é tão útil, não deveria estar desvinculada do saber instintivo e do bom senso. Valorizamos em demasia as informações recebidas e esquecemos do nosso saber intuitivo. Deixamos de ouvir a voz interior para obedecer apenas a regras e critérios externos. E com isso, perdemos a confiança na nossa própria intuição, na orientação do amor, na força da comunicação não verbal que este amor estabelece entre pais e filhos. É como se não acreditássemos mais em nós. Precisamos ter sempre o respaldo de algo que consideramos superior, quer seja um psicólogo, um professor, um médico, ou até mesmo um livro. Que enorme poder concedemos aos técnicos!

Alguns ainda agem como se a paternidade e a maternidade fossem profissões às quais tivessem que se dedicar com todo o afinco. E aí o objetivo principal pode passar a ser o sucesso de sua atuação, e não o bem-estar de seus filhos. Outros têm a tendência de criar os filhos que gostariam de ter. Seria mais vantajoso para eles que os ajudassem a se desenvolver em seu ritmo próprio, de acordo com o que eles querem e podem ser.

Um ambiente emocional adequado ao desenvolvimento sadio da criança não é um ambiente perfeito, mas sim uma situação autêntica de vida onde as gratificações e as frustrações se alternem de uma forma natural. Não pode ser planejado, nem artificial. Ele decorre da nossa capacidade de estabelecer com nossos filhos um relacionamento afetuoso, com respeito mútuo e limites bem definidos, e que lhes possibilite também viver responsavelmente suas próprias experiências. Implica que saibamos reconhecer e respeitar suas características individuais, as quais nem sempre serão aquelas idealizadas por nós. Esse ambiente é consequência da forma como nos sentimos em relação a eles, a nós mesmos e ao mundo que nos cerca.

É na investigação sincera dos sentimentos, na busca da realização pessoal, na compreensão das deficiências e limitações, na clara definição dos limites e na valorização de relacionamentos mais amorosos e verdadeiros, que se criam as condições para que se estabeleça entre pais e filhos uma relação sadia e facilitadora do crescimento de ambos.

Comentários de cuidadores

I. Opinião de psicóloga de crianças e que fez observações sobre o que escreveu o Prof. Zaldo Rocha. Sobre o direito dos demais, ela observa que:

“Crianças, até certa idade, são cognitivamente incapazes de reconhecer o outro como um ser diferente dela, têm a fantasiosa ideia de que tudo e todos são apenas um prolongamento de si. A capacidade de altruísmo vem em decorrência da maturidade cognitiva e das experiências sociais.”

II. Sobre disciplina, ela cita que:

“É importante salientar que a introjeção de valores éticos e morais vem com o tempo. As crianças inicialmente são regidas por uma ‘heteromoralidade e ética’, ou seja, copiam àqueles à sua volta, e só após certa maturidade cognitiva e afetiva são capazes de comportar-se conduzidas por uma ‘automoralidade e ética’. Daí o grande cuidado a ser tomado pelos pais que serão durante bom tempo referenciais diretos. É importante sempre ter em mente que as palavras comovem, mas os comportamentos convencem.”

III. Opinião de senhora que não tem formação em psicologia, mas tem extremo bom senso para observar o que ocorreu na sua casa:

“[...] Devido a um clima não muito amistoso em minha casa, com períodos constantes de oscilações emocionais entre meus pais, sou exemplo de que a criança pode desenvolver sintomas físicos como consequência de aspectos emocionais. Tive crises de asma intensas e frequentes até aproximadamente 15 anos de idade. Contudo, frequentei desde cedo a casa de uma amiga-irmã que tem uma família grande e acolhedora. Nesta casa, onde passei diversos finais de semana, parte de férias escolares e feriados, nunca tive uma única crise de asma, apesar de algumas vezes ficar exposta a coisas que me faziam mal [...]”

IV. Opinião de psicóloga clínica, com sólida formação:

“No capítulo referente à função materna, poderia ainda comentar paralelamente a todo o sentimento próprio à figura da mãe, decantado por poetas e filósofos, como escreve com muita beleza Zaldo Rocha, o lado normalmente esquecido da figura materna, relacionado às dificuldades no exercício dessa função. O bebê, em sua constante demanda de amor e de cuidados, não tem condição de perceber que a mãe nem sempre está disponível por vários motivos. Faz-se necessária uma compreensão desses sentimentos e ressaltar a importância da colaboração de alguém que permita à mãe descansar, bem como a presença do pai, em algumas ocasiões, para que a ‘maternagem’ possa ser feita também por ele, possibilitando o início do laço paterno.

Quanto ao item disciplina, hoje tão difícil de ser aplicado, pode-se questionar como os pais lidam com essa questão, como adquiriram o sentido do limite e o que entendem quando dizem o ‘sim’ ou o ‘não’. Caso os pais não tenham introjetado a noção de lei, não tenham internalizado, dificilmente vão fazer com que seja colocada aos filhos de forma adequada. O ‘não’ e o ‘sim’ têm que ser verbalizados de maneira coerente, no momento necessário, para que o filho possa compreender e daí, posteriormente, usar durante a vida com ética e bom senso.

No capítulo referente ao ambiente emocional e à saúde da criança, escrito por Stella Abranches, pode-se comentar, ainda, a importância de se saber qual o lugar que a criança ocupa na família. Muitos pais não têm a noção precisa de seus lugares junto ao filho. A mãe, por vezes, se apossa do bebê, esquecendo o seu parceiro. O filho fica num lugar que jamais deve ocupar: o lugar do pai. Muitas mães se sentem tão realizadas com a maternidade, que deixam de exercer outras funções, como a de esposa, de profissional e até a de mulher. O marido fica preterido e, sem saber o que fazer, sai de seu lugar e deixa de exercer a função de pai. O filho precisa saber que é uma criança e que não pode e não tem o direito de estar em qualquer outro lugar senão o de filho. Deste lugar, ele pode ter como referencial os pais e se sentir protegido por eles, jamais servindo para atender às carências e vazios das figuras parentais. Neste lugar de objeto que tampona a falta, que aponta para as incompletudes maternas, tirando a ilusão de ser perfeito, como costumam dizer ‘não preciso de mais nada, estou realizada completamente como mãe’, o bebê passa a ser um objeto de satisfação materna e, como tal, não poderá ser dono do próprio desejo, perdendo a possibilidade de se desenvolver com um ser único, separado, distinto da mãe, passa a ser um “pau mandado”, como se diz no popular.

O auxílio da babá no desenvolvimento da criança é inegável, mas vale ressaltar que ela tem uma função de auxiliar materno, mas não pode e não deve ocupar o lugar da mãe. As obrigações dos pais jamais devem deixar de ser executadas. Isso vale também para colégios e creches, que muitas vezes são colocados para exercerem funções que não lhes são devidas. As obrigações dos pais jamais devem ser transferidas a outros.

No tocante a chegada de um irmão, os pais devem permitir que o filho expresse seu ciúme através da fala e devem mostrar as vantagens de ser ‘grande’ e poder falar, passear, brincar com amigos.

Viver a morte de um ente querido é importante. A criança tem o direito ao choro e a tristeza própria ao luto. Não confundir sua tristeza com depressão e respeitar aquele período necessário para a elaboração da perda. Depois a criança com certeza voltará a seu comportamento anterior e falará daquela ausência como saudade, não tristeza.

Não se pode esquecer de que o corpo é suscetível de excitações, principalmente nas zonas erógenas. A criança ao tocar o corpo dos pais, sente intenso prazer, similar ao ser tocada, e como não há condição de descarregar a tensão daí ocorrida, sintomas diversos podem aparecer. Com relação à criança, nunca é tranquilo ver ou tocar o corpo de seus pais. Também os limites que foram falados antes podem estar ligados aos impedimentos que devem ser colocados pelos pais evitando essa intimidade desnecessária.

O fato de o menino brincar com objetos de meninas ou meninas com objetos de meninos não representa qualquer patologia. Pode ser apenas um indício de uma aprendizagem quanto ao universo do outro, favorecendo a compreensão e aceitação das diferenças sexuais. Pode estar dentro da normalidade e não trazer qualquer consequência para sua vida sexual futura.”

A avaliação do médico ou do psicólogo é sempre o aspecto mais importante. Os textos ajudam, mas sempre há necessidade de particularizar a análise do caso para individualizar a conduta terapêutica.

8.4Generalidades

Inquestionavelmente todos nós e todas as instituições (escolas para educação básica, escolas de nível superior da área da saúde, igrejas, clubes esportivos e de lazer, e outras) que pensam e que cuidam do bem-estar do ser humano deverão estar atentos para os aspectos comportamentais e emocionais das crianças, dos adolescentes e também dos adultos.

O pessoal do setor saúde que deve atender às demandas dos cuidadores das crianças e dos adolescentes, e entre eles o pediatra, apresentam notórias deficiências quando são chamados a cuidar de assuntos da esfera psíquica. Essa deficiência é notada ao longo da prática médica e, em se tratando da infância e adolescência, é mais marcante pois o reconhecimento desses períodos da vida como estágios que possuem suas próprias características específicas, começaram a ser estudados na segunda metade do século XVII e início do século XIX. Antes desse período as crianças eram encaradas como miniadultos e o adolescente tinha as mesmas cobranças sociais de um adulto.

É um assunto amplo e complexo e apenas será possível dar algumas pinceladas sobre o todo.

Como é o desenvolvimento emocional das crianças?

As crianças e os adolescentes são seres dinâmicos que mudam física e psiquicamente ao longo dos anos. As fases do desenvolvimento emocional, estudadas pelos psicólogos e psiquiatras, são sumariamente descritas:

  • Oral precoce: vai até os primeiros 3 ou 4 meses de vida. O sistema nervoso é maduro para garantir o choro, a respiração, a alimentação e outras funções vitais, mas tudo se passa num nível não consciente. Diz-se que as crianças dessa fase são reflexas e uma característica dominante é o ciclo: sente fome, acorda, reclama, chora, mama, dorme, sente fome e tudo se repete. Entre 2 e 3 meses, aumentam os períodos de vigília e os traços da personalidade passam a ser percebidos e são esboçados os primeiros sinais de vida social.
  • Oral tardia: vai dos 3 ou 4 meses até os 12 a 18 meses. Há grande amadurecimento dos órgãos sensoriais, motricidade ocular, coordenação mão/boca e marcha. No segundo semestre, as crianças ainda são seres dependentes, mas respondem às experiências prazerosas e às manifestações de afeto, embora reajam com pouca frustração e ainda não tenham desenvolvido as reações de hostilidade e defesa (essa última informação é controversa pois já no primeiro ano, a criança é capaz de apresentar raiva, preferência, rejeição, negação). O tempo de vigília aumenta e também aumenta a capacidade motora de tocar seu próprio corpo, o da mãe e os objetos do ambiente, usam os órgãos sensoriais, mas, sobretudo, a boca.
  • Anal: vai dos 18 meses aos 3 anos. Há controle sobre o funcionamento da bexiga e do intestino e existe sensibilidade prazerosa oriunda do ânus e da defecação. As crianças reagem com obstinação e negativismo frente aos obstáculos, é a época em que mais dizem não, mostram comportamentos ambivalentes com sentimentos que oscilam entre o afeto e a repulsa. Nas competições mostram preocupação com o poder.
  • Pré-escolar fálica: vai dos 3 a 4 anos até os 5 ou 7 anos. O amadurecimento do sistema nervoso permite o aumento da reatividade sensorial gerada no pênis e no clitóris. É contínua a maturação intelectual, é a época em que surge a manipulação dos órgãos genitais no menino e na menina. Há sentimentos de ambivalência em relação à ambos os pais e é essa a fase típica do complexo de Édipo, o comportamento ora é agressivo, ora não. O menino, na maior parte do tempo, é confiante, aventureiro e muito ativo, mas vez ou outra está cabisbaixo. A menina é mais recatada (essa caracterização sexual já é sabida que é fruto do ambiente pois o menino e a menina são estimulados de forma diferente desde os primeiros meses, talvez esse trecho seja identificado como misógino atualmente). As fantasias são comuns nos dois sexos e é época das bonecas, dos castelos, dos carrinhos, das cozinhas de brinquedo, das fadas.
  • Escolar ou de latência: vai dos 5 a 7 até os 8 a 10 anos. O amadurecimento neurológico continua e a habilidade motora é cada vez mais coordenada. É chamada de latência porque a libido é menos marcante que nos anos anteriores, a energia é mais canalizada para os interesses físicos e intelectuais. Os clubes do “Bolinha” e da “Luluzinha” são típicos, há autores que falam que elas estão um a dois anos na frente deles quando se avalia a maturidade emocional e social.
  • Adolescência: vai dos 10 a 12 anos até os 16 a 18 anos. Há intensas transformações físicas gerais e da genitália, desenvolve-se grande capacidade de raciocínio e de abstração. O impulso sexual é direcionado intensamente ao que é visto no adulto e há marcado o interesse nos amigos. O estado de humor, sobretudo, no início, oscila de forma marcante, ocorrem preferências pelos ídolos, pelos namoros e pelas relações extrafamiliares. Com o passar dos anos, os adolescentes mudam, as amizades deixam de ser tão importantes, e os interesses passam a ser a profissão e valores dos adultos.

Parece que há outras perspectivas e observações sobre o tema?

Sándor Ferenczi (1873 -1933) apresenta visão diferente, pois não leva em consideração só os elementos libidinais destacados por Freud. Em seu texto Desenvolvimento de sentidos de realidade e seus estágios, de 1913, Ferenczi traz sua percepção da realidade do ser humano ao longo do tempo e os divide em estágios, mas o definia como um processo contínuo desde o nascimento até sua vida adulta.

  • Primeiro estágio sensório motor: primeiros meses de vida, não há uma percepção clara da realidade e suas ações são reflexas e baseadas em impulsos instintivos.
  • Segundo estágio percepção: inicia-se por volta dos 6 meses, onde a criança começa a desenvolver uma percepção mais clara da realidade diferenciando objetos de pessoas.
  • Terceiro estágio elaboração mental: começa por volta dos 2 anos de idade, representação mental da realidade e elaborar conceitos sobre o mundo ao seu redor.
  • Quarto estágio, a identificação com o mundo externo: por volta dos 3 anos, caracterizado por se identificar com as pessoas e objetos no seu ambiente e desenvolver um senso de si mesmo em relação ao mundo.
  • Quinto estágio, a integração: há um processo de integração de suas experiências anteriores com os presentes e uma compreensão mais complexa e unificada da realidade, absorvendo o elemento temporal na sua percepção.

Essa forma de descrição da percepção da realidade demonstra a complexidade do processo de desenvolvimento do ser humano, que pode ser descrito como percepção da realidade, mas mostra o quanto o processo é complexo e contínuo e que diversos fatores estão envolvidos como experiências sensoriais, cognitivas e emocionais.

Outros autores também escreveram sobre o desenvolvimento do psiquismo e emoções com destaques a elementos pontuais evidenciados no processo.

Melanie Klein (1882 -1960) argumentava que o bebê tem que aprender a distinguir o self e o objeto, feito por um processo de identificação projetiva, onde o bebê projeta partes de si no objeto e depois as reintegra. Por exemplo, o bebê acredita que o seio materno é parte de si mesmo e não um objeto separado. Outro elemento importante enfatizado por Klein é que a relação mãe-bebê é fundamental para o desenvolvimento emociona e, ao sorrir para os estímulos do bebê, ela fortalece a base desse processo favorecendo um desenvolvimento emocional da criança mais saudável.

Donald Winnicott (1896 - 1971) traz um elemento fundamental, que gera muita discussão ainda hoje nos processos de orientações a criança. Consiste na capacidade da criança dizer não, como um sinal de sua capacidade de estabelecer limites saudáveis. E, assim, construir a capacidade de expressar seus desejos e necessidades, como também entender o não do outro e os seus limites.

Com Jacques Lacan os temas sorriso e não foram abordados na sua teoria do espelho, onde a criança nasce numa plenitude no início da vida e, ao se olhar no espelho, essa sensação é quebrada. Lacan argumentou que o bebê aprende a se identificar com sua própria imagem no espelho, mas essa identificação é sempre parcial e nunca completa. Ele argumentou que essa incompletude é fundamental para formação da identidade humana e que a capacidade da criança de dizer “não” é uma parte importante desse processo, pois sem a construção dos limites do “eu” e “outro” e sem a construção da sua própria identidade o processo de desenvolvimento de uma vida emocional saudável torna-se prejudicado.

Complexo, não?

Sim. Essa é a razão maior para que os que se dedicam ao trabalho com a saúde da criança devem ser amantes dos livros e dos estudos. E que também sejam modestos.

Quais as causas das complexas relações entre pais e filhos?

A intensa afetividade que liga os pais aos filhos é o motor principal a sustentar a sobrevivência das nossas crias. Faz com que as mães arrisquem ou percam a vida para salvar os filhos. Faz com que elas passem fome para alimentar os seus dependentes. Os pais até roubam para alimentar seus filhos. Tudo isso somado pode justificar muitos dos erros cometidos por todos nós que temos propostas, projetos, pensamentos e ideias sempre grandiosas para os nossos sucessores. Propostas, projetos, pensamentos e ideias que foram estruturadas sem a admissão de erros, falhas e imperfeições que ocorrem mesmo que os pais tenham sempre a melhor das intenções, de não errar, de tentar que tudo seja bem-sucedido.

Para melhor falar dessa intensa relação emocional, que constrói, mas, que pode prejudicar e até destruir o projeto, recomendamos a leitura do lindíssimo texto A lua que não dei, escrito pelo jornalista e escritor Cecílio Elias Netto. Pelo google é fácil chegar ao texto completo. Transcrevemos o primeiro parágrafo:

“Compreendo os pais – e me encanto com eles – que desejariam dar o mundo de presente aos filhos. E, no entanto, abomino os que, a cada fim de semana, dão tudo o que filhos lhes pedem nos shoppings, onde exercitam arremedos de paternidade. E não há paradoxo nisso. Dar o mundo é sentir-se um pouco como Deus, que é essa a condição de um pai.”

Os erros sempre existirão?

Acreditamos que 100% de acertos é uma utopia, mas o nosso projeto para cada filho foi pensado sem erros. Mas os desacertos ocorrem e ajudam, ensinam e aperfeiçoam a relação entre pais e filhos quando há o propósito de refletir e de corrigir. O importante é acertar mais do que errar. É valioso, sem dúvida, reconhecer o erro e pedir desculpas ao filho ou à filha. Não importa a idade da criança. Desde cedo, o erro deve ser reconhecido e a desculpa deve ser pedida. Esse é um mecanismo educacional e é esperado que mais na frente a própria criança pratique essa autocrítica e também se desculpe quando errar.

A partir de que idade as normas, as diretrizes, passam a ser importantes?

Desde o nascimento. Evidentemente, as normas para as crianças de 1 mês de idade são diferentes daquelas para as de 2-3 anos. As diferenças se acentuam ainda mais se elas têm 6-7, ou se são adolescentes. No início da vida, são orientações ou rotinas relativas à alimentação, vestuário, sono, higiene, estímulos, brincadeiras e outras necessidades básicas. Nessa fase, já é importante a verbalização sobre o que está sendo feito e o porquê das rotinas. As explicações, mais tarde, serão essenciais, fundamentais. Assim, todos os pais devem começar bem cedo a exercitar esse comportamento que mais na frente será mandatório. Há a fase da explicação seguida de diálogo, de ouvir a outra parte e de adaptação da norma ao comportamento de quem vai cumpri-la. À medida que a idade avança e outras necessidades e comportamentos vão aparecendo — prática de esportes, atividades fora da casa, escolinha, convivência com colegas, fim de semana na casa de outras pessoas, comparecimento a “shows” e a cinemas, até a fase do namoro e da direção do carro dos pais, muitas transformações e adaptações serão necessárias. Mas, em todas essas fases, em todas essas práticas, que devem ser organizadas, normatizadas e controladas, os pais devem sempre manter coerência, certa uniformidade comportamental, capacidade de diálogo, de mudança e de adaptação. E nos valemos do texto do professor Zaldo para falar do modelo de autoridade que os pais devem manter na rotina da casa que nunca deve ser imposta, irracional, autoritária, arbitrária e irreversível. As crianças devem ter certeza de que os pais são flexíveis, são mutáveis e que qualquer norma pode ser mudada pelo diálogo e pelo entendimento. Mas também devem ter certeza de que eles são coerentes, seguros e que procuram cumprir as normas para o benefício de todos. Lembrar que os pais devem convergir em relação às regras estabelecidas, pois divergência entre os pais pode ser tão danosa quanto a falta de orientação.

Ouvi falar que o não é importante. É verdade?

Para nos ajudar, vamos usar trechos do texto Pais maus, escrito pelo psiquiatra Carlos Hecktheuer. O google permite a leitura do texto completo para que todo o conjunto seja valorizado e compreendido:

“Um dia, quando os meus filhos forem crescidos o suficiente para entender a lógica que motiva os pais e as mães, eu hei de dizer-lhes: Eu os amei o suficiente para ter perguntado aonde vão, com quem vão e a que horas regressarão. Eu os amei o suficiente para não ter ficado em silêncio e fazer com que vocês soubessem que aquele novo amigo não era boa companhia. Eu os amei o suficiente para vos fazer pagar os rebuçados que tiraram do supermercado ou revistas do jornaleiro, e vos fazer dizer ao dono: Nós tiramos isto ontem e queríamos pagar. Eu os amei o suficiente para ter ficado em pé, junto de vocês, duas horas, enquanto limpavam o vosso quarto, tarefa que eu teria feito em 15 minutos. Eu os amei o suficiente para vos deixar ver além do amor que eu sentia por vocês, o desapontamento e também as lágrimas nos meus olhos. Eu os amei o suficiente para vos deixar assumir a responsabilidade das vossas ações, mesmo quando as penalidades eram tão duras que me partiam o coração. Mais do que tudo, eu os amei o suficiente para vos dizer NÃO, quando eu sabia que vocês poderiam me odiar por isso (e em alguns momentos até odiaram)...

Agora que já somos adultos, honestos e educados, estamos a fazer o melhor para sermos Pais maus, como eles foram. Achamos que este é um dos males do mundo de hoje: não há suficientes pais maus!”

Não é exagerada tal conotação?

Não achamos. O autor fala várias vezes que essa é uma postura educacional. Quando cita “Mais do que tudo, eu os amei o suficiente para vos dizer NÃO, quando eu sabia que vocês poderiam me odiar por isso (e em alguns momentos até odiaram)”, ele nos quer dizer que quem ama tem a obrigação de educar e que o pai que age como um “pai mau” para educar é um pai bom. Que o pai que atua como um “pai mau” e estabelece regras é um pai bom. Que o que age como um “pai mau” e que diz NÃO, quando é necessário e cabível, é um pai bom.

Qual a importância da função materna?

O vínculo afetivo entre as mães e os bebês, ocorrido nas relações iniciais, é de fundamental importância para o desenvolvimento afetivo do ser humano. Repercute por toda a vida, inclusive nas relações interpessoais e sociais futuras. A formação desse vínculo afetivo inicia-se primeiramente através do contato corporal e do significado simbólico que a mãe dá a esse contato. Instintivamente, a mãe segura o bebê, aconchegando-o carinhosamente, seja para amamentá-lo ou para ampará-lo, prazerosamente. O bebê, por sua vez, sente-se seguro e confiante, satisfazendo, assim, suas necessidades vitais (proteção, nutrição, afetividade). As crianças que têm em sua experiência uma boa e satisfatória relação afetiva desenvolverão expectativas positivas em relação ao mundo, acreditando na possibilidade de satisfação de suas necessidades, de independência e de autonomia. Já as outras com uma relação escassa ou insatisfatória tenderão a desenvolver em relação ao mundo expectativas inseguras e menos positivas. Isso não significa que as crianças que por qualquer motivo não tenham tido esse contato com a mãe biológica estão “condenadas” a ter relações disfuncionais na vida. Não! Porque, quando falamos no vínculo ou nessa relação de cuidado, afeto e nutrição que geralmente é a mãe que exercesse, estamos falando da função materna, que a depender da história de vida do bebê pode ser exercida pelo pai, avô, avó, tia, mãe adotiva, qualquer pessoa que sinta esse afeto e se disponha a ocupar essa posição na construção de sua relação com o bebê.

Qual a importância da função paterna?

A ciência tem investigado há décadas o papel da figura paterna no desenvolvimento infantil. Os resultados têm sido consistentes. Demonstram a importância da função do pai no desenvolvimento cognitivo, social e emocional das crianças. A presença paterna tem sido associada a uma maior autoestima, autoconfiança, habilidades sociais, sucesso acadêmico e menor probabilidade de comportamentos de risco na formação da identidade de gênero da criança, ajudando-a a compreender as diferenças entre os gêneros e a desenvolver um senso de masculinidade ou feminilidade. O pai pode ser um modelo importante para as crianças em termos de comportamentos, valores e habilidades, e pode ajudar a criança a desenvolver um senso de independência e autoestima. Além disso, a figura paterna pode desempenhar um papel importante na redução de problemas comportamentais e emocionais em crianças, como ansiedade, depressão e agressividade. No entanto, é importante destacar que a presença paterna nem sempre é benéfica. Um pai ausente, negligente ou abusivo pode ter um impacto negativo significativo no desenvolvimento da criança. Portanto, é importante que a figura paterna esteja presente e envolvida na vida da criança de maneira saudável e positiva.

Serão mesmo as crianças folhas de papel em branco?

A maioria dos teóricos do desenvolvimento infantil não concorda. Eles dizem que as crianças nascem com conteúdo comportamentais herdados geneticamente. Porém, esses conteúdos são moldados já intraútero, com estímulos que a cada dia são mais praticados por casais durante a gestação como expor o embrião a músicas, conversas, massagens e, indiretamente, com a mudança de rotina da genitora proporcionando um ambiente intrauterino mais harmonioso e já preenchido com conteúdo do ambiente que vai receber o recém-nascido. Posteriormente, ao nascer, a criança já é modulada de acordo com a posição que chega na família, o primeiro filho tem um ambiente muito diferente do último filho, também as questões educacionais ambientais (família, sociedade, escola, cultura...) que têm grande influência no resultado emocional alcançado porque, apesar de uma predisposição neurobiológica, o ambiente pode abrandar certos comportamentos e maximizar outros. Tomando como exemplo as crianças que têm uma genética favorável ao transtorno de conduta podem não desenvolver esse perfil de comportamento a depender do ambiente em que estejam.

Como fica a criança quando o pai diz sim e a mãe diz não para um mesmo assunto?

Fica atrapalhada. Vez ou outra é aceitável que pai e mãe discordem sobre o mesmo assunto. E isso é bom, desde que seja em assuntos de menor importância, como tomar um ou dois picolés e desde que a discórdia não termine em tapas. A discórdia colocada com um tom de diálogo, de defesa de posição sem radicalismos, ensina. Mas a discórdia constante entre pai e mãe, principalmente se referente a assuntos de extrema importância, como o comparecer ou não à escola sem motivo significante, e se praticada com gritos e agressões, é deseducativa, errônea. Deve ser evitada. Pai e mãe devem debater seus assuntos pessoais sem a participação das crianças e entrar em acordo sobre como proceder nos assuntos de maior importância. Quando o pai diz que o filho deve comparecer à escola, pois não há motivo relevante para essa atitude, a mãe deve manter a posição. Mesmo quando os pais estão separados, essa uniformidade comportamental com relação aos filhos deve ser mantida. Seguramente é mais difícil, nessa última situação, do que quando os pais estão juntos. Mas é importantíssimo buscar essa unidade de atitudes e de posturas. É absurdo saber que um dos pais separados agride o ex-companheiro (a) dizendo à criança para se portar diferentemente do que foi orientado pelo outro pai, mesmo sabendo que a orientação está correta. Divergir não deve ser o problema. O problema é expor essa divergência de forma conflituosa à criança.

Na casa dos avós as regras são outras. O que fazer?

Na casa dos avós é diferente e também é assim na casa dos outros familiares e dos amigos. As crianças se beneficiam com essas diferenças que as ensina sobre a diversidade dos comportamentos humanos. Mas os erros e as distorções aprendidas lá fora devem ser corrigidos em casa. Não apenas corrigidas como também esclarecidas. As crianças após os 3 ou 4 anos assimilam os bons e os maus aprendizados e é absolutamente razoável que os pais digam a verdade aos seus filhos: “na casa dos avós é assim, mas na nossa casa é dessa outra forma”. É aceitável que na casa dos avós os netos possuam maior liberdade, mas é importantíssimo que aprendam o papel educativo dos pais quanto à alimentação, estudos, modo de se comportar, obrigatoriedade de comer o alimento à mesa e não na frente da TV, dentre muitos outros exemplos que poderiam ser citados.

O pediatra precisa saber da vida emocional dos familiares?

O diagnóstico e o tratamento das dificuldades emocionais das crianças começam e, quase sempre, terminam pelo conhecimento, resolução e mudanças das dificuldades, problemas ou modelos educacionais e psíquicos vigentes no seio das famílias. As crianças são consequências e não as causas dos seus problemas emocionais. Quando removidas as causas, cessam os efeitos. Nessa ordem de ideias, o pediatra deve “cair de cabeça” na dinâmica emocional vigente em cada família para tentar resolver as dificuldades comportamentais e emocionais apresentadas pela meninada. Isso é essencial. Com frequência, pai e mãe não ditam o ritmo e o tônus emocional da casa. Às vezes, é uma avó, um avô ou mesmo um tio ou tia que fazem isso. Isso deve ser conhecido e essa pessoa, junto evidentemente com todo o conjunto que cuida das crianças, deve ser abordada e trabalhada para que se consiga algum resultado palpável. Frequentemente o psicólogo auxilia nessa tarefa.

E a babá como participa desse esquema? E a escola?

Há capítulos que discutem esses assuntos, na atual edição.

Qual o melhor mecanismo de estabelecer limites?

É clássica a observação que criança não nasce com “manual de instrução”. Não é como o liquidificador. Gradativamente, aos pouquinhos, ao longo dos anos, e por toda a vida, os pais e os outros familiares mais próximos, e mesmo as babás, os educadores, os amigos, outras pessoas e o próprio indivíduo vão imprimindo as características comportamentais que nos marcam. Assim, não há fórmula para estabelecer limites. O importante é saber que os limites são essenciais e novamente lançamos mão do texto escrito pelo professor Zaldo Rocha, quando ele brilhantemente discorreu sobre o “direito dos demais”. E esse estabelecimento de limites vai embutido numa série de rotinas da casa. Se há rotinas para dormir e acordar, para a higiene, tomar o alimento e ir e voltar da escola, nelas estão definidos vários limites. A própria norma é um excelente mecanismo para definir limites. Quando o pai e a mãe dizem que inexistem razões para o não comparecimento à escola, quando informam que não é aceita a agressão a quem quer que seja, quando falam que perder é desagradável, mas, faz parte do jogo, quando argumentam que na casa do coleguinha é assim, mas, na nossa casa é diferente, quando estabelecem limites para as compras, quando orientam para os horários de chegada em casa, quando aconselham para andarem sempre com outros colegas e que prestem atenção à violência que anda por aí, estão ensinando e estabelecendo limites. E esse estabelecimento de limite e de respeito começa desde os primeiros meses de vida. Quando os pediatras orientam para que a mamadeira seja dada numa posição que permita à mãe ou à babá perceber o primeiro sinal de saciedade e a imediata suspensão da oferta do alimento, significa respeito ao apetite que é um mecanismo fisiológico de estabelecimento de limites. Agora, há situações difíceis, como o adolescente de 15 anos que quer dirigir o carro dos familiares porque o amiguinho da mesma idade já está fazendo isso. Há que se ter muito pulso e determinação para falar que o pai do amiguinho errou e que as leis do país proíbem que menores dirijam automóveis. As crianças que aprenderem a respeitar os pais, os familiares e a conviver com limites certamente aceitarão na adolescência, com menos dificuldade, a respeitar às leis.

É importante lembrar que cada criança é única, e os pais devem experimentar diferentes abordagens para encontrar as que funcionam melhor para sua família. Abaixo vão algumas dicas de autores e estudiosos do tema:

CLOUD, Henry; TOWNSEND, John. Limites: quando dizer sim, quando dizer não. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, [s.d.]. Obra que enfoca a importância de estabelecer limites saudáveis para o desenvolvimento infantil, ensinando as crianças a tomarem decisões responsáveis dentro de uma estrutura clara e segura.

FABER, Adele; MAZLISH, Elaine. Como falar para as crianças ouvirem e como ouvir para as crianças falarem. Tradução de Ana Luiza Dantas Borges. São Paulo: Editora Summus, 2003. Livro clássico que explora técnicas de comunicação não violenta e eficaz entre pais e filhos, oferecendo ferramentas práticas para promover a compreensão mútua e o respeito, fundamentais na definição de limites.

FAY, Charles; CLINE, Foster. Parenting with love and logic: teaching children responsibility. Colorado Springs, CO: NavPress Publishing Group, 1990. Apresenta uma abordagem educativa que enfatiza a responsabilidade da criança por suas próprias escolhas e pelas consequências naturais que delas decorrem, destacando a importância da consistência parental com empatia.

NELSEN, Jane. Disciplina positiva: a chave para um comportamento infantil mais saudável. Tradução de Bete P. Rodrigues. São Paulo: Manole, 2016. Oferece técnicas de disciplina que encorajam a cooperação e o respeito mútuo, fundamentadas na ideia de ser gentil e firme simultaneamente, proporcionando uma estrutura para o estabelecimento de limites de forma não punitiva.

Há pais que não sabem estabelecer limites?

Existem pais mais enérgicos, mais disciplinadores, e os menos disciplinadores. E há também as crianças que dificilmente aceitam os limites e as que mais se adaptam aos regimes com normas. Assim, a aceitação das regras variará com o comportamento dos familiares e das crianças. Mas não há dúvidas da importância do estabelecimento de algumas regras essenciais. Já foi dito que desde a infância mais tenra, os filhos devem conhecer limites e devem perceber o quanto eles são importantes. Já falamos sobre a importância do não que desde muito cedo na educação da criançada deve ser usado de forma apropriada, coerente, firme, racional. A criança fica perdida se recebe um não quando solicita um biscoito minutinhos antes do almoço e um sim no dia seguinte para a mesma situação. É claro que não somos uma linha reta e, vez ou outra, escorregamos como quando, por exemplo, achamos que devemos fazer uma exceção e permitir que eles façam o que antes havíamos proibido. Mas o não deve ser coerente, aceitável, convincente e repetido, sempre que possível para a mesma situação, inclusive por pessoas distintas. Mas cada não exige uma explicação. Explicação que justifica a negativa. E essa justificativa também deve ser repetida quantas vezes necessárias. Sempre que vier o “eu quero um biscoito agora” a resposta deve ser “não, agora é hora de almoçar”. E quando o biscoito for dado, como uma exceção, o sim deve ser racionalmente explicado: “hoje o almoço vai demorar e por isso você pode comer o biscoitinho”.

É correto a mãe assumir o estabelecimento dos limites?

“Vou falar com o teu pai” ou “vou contar à tua mãe” são observações do cotidiano que todos nós conhecemos. É evidente que isso transfere imensa responsabilidade e respeitabilidade para o cônjuge oposto. E subtrai responsabilidade e respeitabilidade de quem assim procede e que está se definindo “incompetente”. É óbvio que esse comportamento possibilitará que a criança “deite e role” nas próximas situações conflituosas em que for necessário o posicionamento de quem abdicou de sua função de educador. Outros absurdos notados e que dizem respeito a esse mesmo assunto são: “não vá ali não que tem um bicho que morde”, “cuidado com o papafigo” e outras joias desse gênero. As recomendações são que cada cônjuge tenha a mesma responsabilidade que o outro e deva estabelecer o limite, a regra. Nunca deve transferir para o outro a função de fazê-lo. Em algumas situações muito especiais, é aceitável não definir e dizer “mais tarde, vou conversar com o seu pai e nós dois definiremos o que fazer”. E nunca usar essas imagens abstratas, esses monstros, para impor regras ou limites.

Os limites na infância são úteis para as chefias no futuro?

Sem dúvida são. O estabelecimento de limites na casa, desde muito cedo, tem relação com a aceitação da hierarquia na escola e no trabalho, mesmo anos depois. O desempenho das tarefas de chefe e de chefiado é influenciado pelas experiências da infância. A aceitação das funções, das cobranças, dos controles e de tudo o que for referente às atividades funcionais serão mais bem toleradas se o exercício dos limites tiver sido praticado na infância. Também a prática da chefia, vivenciada desde cedo com a autoridade equilibrada, racional, amorosa, vigente na casa, será facilitada mais na frente.

Posso usar a voz num tom mais elevado e dar uns tapinhas?

Não há evidência que bater seja leve ou não ensine a criança da forma correta os limites. A agressão física nunca pode ser uma opção. Por vários motivos não é a melhor opção, pois a criança pode entender que não é para fazer aquilo ou que bater sempre é a forma correta de definir limites. Pelo contrário, há muito mais evidência de que as crianças que apanham são mais violentas do que as que não apanham e costumam usar mais a violência para resolver seus problemas. A American Academy of Pediatrics (AAP) recomenda que os pais evitem punir fisicamente seus filhos e que usem outras formas de disciplina, como recompensas positivas, estabelecimento de limites claros, conversas, exemplos e orientações. Essas técnicas são mais eficazes na construção de uma relação de confiança e respeito com as crianças e ajudam a promover o seu desenvolvimento saudável e bem-estar emocional. Bem, mas diante de uma situação que os pais notarem que não conseguiram e excederam na forma de estabelecer limites, é uma ótima oportunidade de ensinar a pedir desculpas, e juntos reestruturarem de forma positiva acordos sobre a situação que fez ambos, crianças e pais, extrapolar limites.

E se as crianças não querem tomar banho?

Se vocês agirem pacientemente, devagarzinho, aos pouquinhos, amorosamente, mas firmemente, sem vacilos, se vocês repetirem os conselhos de forma doce e gentil, se todos na casa fizerem como vocês e reforçarem as orientações, se os professores na escola agirem também assim, as crianças vão terminar aceitando as rotinas do banho, da alimentação e do cumprimento das tarefas escolares. Pode ser lento, mas vai acontecer. Mas há que se ter um cuidado especial. Aquilo que foi conseguido ao longo de semanas ou meses, por exemplo, sentar à mesa para fazer a alimentação junto com os familiares, pode ser perdido por uma simples afrouxada no esquema. O ganho deve ser mantido diuturnamente, com carinho, paciência e firmeza.

E a agressividade?

A irritabilidade e a agressividade podem ter razões psíquicas, orgânicas ou mistas. Existem doenças que desde os primeiros meses de vida podem tornar as criancinhas irritadas, nervosas, chorando muito. Existem outras doenças orgânicas que ocorrem na criança de 2, 3 ou 4 anos, e existem aquelas que acontecem na adolescência. O que queremos enfatizar é que as crianças ou os adolescentes, irritados, impacientes, de “pavio excessivamente curto”, devem ser examinados pelos pediatras. Alguns exames — função da tireoide, taxa da glicose, estudos de imagem e outros — podem ser importantes, junto com a impressão clínica dos médicos, para dizer, primeiro, antes de tudo, se existe ou não doença orgânica. Após essa fase, é que os médicos entram na discussão dos aspectos emocionais e comportamentais que inclusive incluem a genética familiar e os elementos ambientais como a criança em questão, suas vivências, foi vítima ou participante de atos de violência no ambiente que vive? Essa é uma forma que ela vê que os adultos do seu meio resolvem os problemas? Essa análise estuda o comportamento das pessoas — mães, pais, avós, babás, professores, amigos — e situações — escola, lugar onde a criança brinca, falta de espaço, solidão, crianças presas em apartamentos pequenos, excesso de TV — que podem influir no psiquismo das crianças e dos adolescentes. Evidentemente, não é um estudo simples e o médico e o psicólogo, com certa frequência, não podem dizer que é “o comportamento dessa determinada pessoa que causa a agressividade”. Mas os profissionais experientes podem apontar caminhos a serem seguidos: prática esportiva, espaço para as crianças brincarem, incremento do contato com coleguinhas, mudanças comportamentais dos cuidadores, troca de escola e outros. Ainda, sobre a agressividade e a impulsividade, é importante lembrar que podem fazer parte do Transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) debatido em outro capítulo deste livro.

Mas o que fazer na hora, numa crise de agressividade?

Quando a criança está agressiva, irritada ou de birra, a primeira medida, “para quebrar o clima e acalmar os nervos”, é se questionar o porquê? Se a criança está com fome? Está cansada? Está com sono? Está doente? Essas são situações que podem explicar um comportamento disruptivo, embora não os justifique, mas devem ser identificados pelos pais/cuidadores e assim ensiná-los a identificá-los: “você está chorando e irritado porque está com sono, vamos tirar um ‘cochilinho’ e depois a gente volta a conversar sobre o que te deixou chateado”. Esse perfil de abordagem ajuda a criança a entender porque ele está agindo assim? Nem sempre, mesmo identificando e orientando o menor ele não consegue se acalmar, então a família pode construir estratégias como abraço, colo, cantar, respirar pausadamente como técnicas que acalmam, e, paralelamente, ver se alguns dos fatores descritos acima estão envolvidos e assim também ensiná-los a responder de outra forma quando frustrados, com fome, sono, cansaço etc. Isso funciona melhor que qualquer palavra, porque as crianças também se assustam com a própria agressividade, sem saber o que fazer com a emoção negativa. O adulto deve ser o “continente” no sentido de absorver o impacto sem devolver o tom, mas, ao mesmo tempo, ensinar a criança a se conter. Isso mostra para a criança que a mãe, ou o cuidador, sabe lidar com os próprios sentimentos e não vai ficar machucado na situação, e assim aprenderá a lidar com o próprio tumulto interior.

E quando meu filho chega em casa mordido ou agredido?

A resposta para essa pergunta é complexa. Na análise do problema, está envolvida a idade da criança, quem o agrediu, em que situação ocorreu a agressão e a frequência que isso acontece. De forma geral, temos que ter em mente que nunca devemos estimular a violência, mas também não podemos deixar de empoderar a criança, principalmente as pequenas, de que elas têm que encontrar uma estratégia para se defender, por que o corpo a corpo, o bater ou morder, principalmente entre os menores de 4 anos, está muito relacionado com a dificuldade linguística de expressar o que querem ou o que não gostaram, e que os menores estão aprendendo a entender os limites em relação outro. Com o tempo e orientação, as crianças vão aprendendo que não precisam de formas violentas para se defenderem e estabelecerem seus limites. Mas inibir a iniciativa de defesa também pode proporcionar a redução da autoestima das crianças. Obviamente, quando falamos de crianças no período escolar e adolescentes, a abordagem é a conscientização que o uso de violência não é uma estratégia para resolver conflitos.

Mas eles mordem muito!

As formas de relacionamento nos primeiros anos de vida ocorrem por impulsividade e a mordida é uma das pouco elegantes. As crianças, na fase inicial da infância, mordem porque sua força ainda é oral e sua relação com o mundo também. Nesse contexto, a mordida é uma forma de comunicação, de busca por um objetivo, e não de agressão. Mas que pode concretamente ser uma atitude agressiva. A prova é que elas mordem em qualquer lugar. Até que o desenvolvimento da linguagem atinja certo estágio de comunicação, as crianças podem utilizar a mordida para se comunicar e expressar sentimento de frustração, insatisfação, raiva, ciúmes, dentre outros. Depois dos 4 anos, mais ou menos, quando diminui o egocentrismo e elas já possuem maior poder de expressão oral, a mordida passa a ser um comportamento inadequado. Deve-se explicar que morder dói, machuca e que elas podem se relacionar ou obter o que desejam através de outros meios. O morder será superado dando lugar a outras novas fases.

O que fazer nas crises de birra?

As crianças que esperneiam, que choram, que se jogam no chão, que gritam, que tiram a roupa e que batem a cabeça no chão quando aborrecidas ou frustradas compõem um quadro comum nas experiências das famílias. Na crise de birra, a conduta é deixar que o quadro termine, sem críticas, sem agressões, sem consolo. Podem estar tranquilos de que elas nunca batem a cabeça no chão, com força, a ponto de se ferir. Elas encenam. Passada a fase da birra, é oportuno refletir com a criança sobre o que ocorreu e como ela está: cansada, com fome, com sono? Se o episódio de birra foi induzido por uma solicitação que mereceu um não absolutamente justificado, a mãe deve deixar bem claro que da próxima vez o não vai ser repetido. A mãe deve mostrar que assim não se conseguem ganhos. Observem novamente a história dos limites e da importância do não. Uma boa estratégia para desestimular a repetição dos episódios de birra é sair de junto deixando-as sozinhas. Quando não há público, não há show. Quanto mais se atende ou se dá atenção, mais elas usam esse mecanismo de pressão.

E a criança muito parada, muito quieta, é diferente?

Anemia, mau funcionamento da tireoide e muitas outras enfermidades orgânicas causam esses problemas. Assim, os pediatras devem examinar todas as crianças, de todas as idades, que estão paradas, sem interesse, quietas, sem brincar, sem correr e sem competir. O mesmo é recomendado quando o fato ocorre com os adolescentes. Mas há muitas situações psíquicas que causam o sintoma e é sempre importante lembrar que até as crianças de pouca idade sofrem de depressão. Também é função dos pediatras rever o que pode estar causando essas anormalidades e apontar, sempre debatendo com os familiares, alternativas terapêuticas. Seguramente, o autismo tem que ser pensado nessas situações descritas. As crianças muito quietas também podem apresentar uma das formas de TDAH (Transtorno do déficit de atenção e hiperatividade – ver capítulo, neste livro) situação em que elas parecem estar sempre alheias a tudo (“estão no mundo da lua”), parecendo desinteressadas ou desestimuladas a participar das atividades.

É importante falar um pouco sobre o autismo?

É assunto importantíssimo e será abordado em capítulo neste livro.

Como poupar os filhos das dificuldades entre os casais?

É possível que a melhor fórmula, a mais inteligente, a mais bem orientada pelos psicólogos e a mais debatida pelos casais para ultrapassar a fase da separação, da constituição de outras famílias e do nascimento de irmãos frutos dessas novas uniões, não resolva o trauma gerado por essas situações. Mas há princípios básicos que devem ser seguidos e que podem minimizar a problemática. Assim os pais não devem:

  • Discutir nem se agredir mutuamente na presença dos filhos.
  • Mentir e devem informar com palavras simples o que está se passando.
  • Usar as crianças como arma para agredir o ex-marido ou ex-esposa dizendo a elas coisa do tipo “aquela mulher do seu pai é uma piranha”.
  • Difamar a imagem do ex-cônjuge. Ao contrário a imagem materna e paterna deve ser preservada com o máximo de carinho após a separação.
  • Permitir que se limite o tempo e o espaço para o convívio dos filhos com os pais e as mães. Todos os pais separados devem levar as crianças às escolas, participar das festinhas infantis, enfim estar presentes. Vez ou outra eles devem estar juntos com os filhos, numa mesma casa, num mesmo restaurante, falando sobre frivolidades e sobre os temas importantes relativos às crianças.

E o nascimento do irmão?

Essa é uma fase crítica na vida de algumas crianças que sofrem barbaramente com o sentimento de “perda” ou de “divisão” da mãe a partir do nascimento do irmão. Algumas crianças nada demonstram. Outras demonstram ciúmes de várias formas. Voltam a chupar chupeta, a tomar mamadeira, a mamar na mãe, a fazer xixi e cocô nas roupas, a chorar como bebê e alguns tendem, inclusive, a agredir o irmãozinho. Ao mesmo tempo, mostram afeto e amor pelo que acabou de nascer. Habitualmente, essa fase é transitória e logo é superada. Para minimizar essa ciumeira, as modificações que tiverem que ser feitas na vida da criança maiorzinha devem ser providenciadas muito tempo antes do nascimento. Assim, se essa dona do pedaço é mudada de quarto após o nascimento do irmão, ela vai ligar essa troca com o nascimento e mais dificuldades surgirão. Por isso, a decisão de ir à escolinha, de mudar de quarto e de tomar qualquer outra atitude que signifique alteração significativa nos hábitos da criança maior devem ser feitas antes do nascimento do outro. Outra atitude que as mães podem adotar para tentar minimizar essa ciumeira é fazer a criança maior participar da preparação para o nascimento. Ir comprar o enxoval e preparar o quarto, por exemplo. Mas algumas mães compram uma lembrancinha e levam para a maternidade. Quando o irmão chega para visitar o novinho, a mãe mostra o presentinho que o irmãozinho trouxe. Aí começa a se instalar o mecanismo de compra e venda. É válido? Possivelmente não. O uso do “presente” pode significar um pacto de respeito pelo mais velho.

Como deve ser a participação nos momentos tristes?

Deve ser sem mentira. As crianças devem visitar os doentes, mesmo que seja alguém muito próximo como um avô muito querido ou mesmo a insubstituível mamãe, provavelmente após os 3 ou 4 anos quando os princípios do pensamento racional começam a ser montados. É importante que elas saibam e, mais que isso, vivenciem que a vida é feita de boas e alegres fases e de instantes maus e tristes. Evidentemente, há que se escolher o momento adequado para que isso seja feito. Levar as crianças ao hospital ou à casa do doente para uma visita, num momento menos crítico, acompanhadas por pessoas menos dramáticas e com mais equilíbrio emocional, é o ideal. E se elas desejarem voltar a visitar, isso deve ser providenciado. E os adultos devem responder às suas dúvidas, com palavras que possam entender, e sem dramaticidade excessiva. É claro que os adultos devem demonstrar, eles mesmos, certo grau de tristeza com o que está ocorrendo. E não há malefícios em citar a palavra morte, usando os exemplos da natureza, muitos já conhecidos pela criançada. O comparecimento ao funeral e ao enterro também deve fazer parte das experiências dessas crianças maiores. Não são aceitas as explicações enganosas para a morte, que todos ouvimos. Qualquer criança de 4 ou mais anos que não participou das cerimônias fúnebres de um ente muito querido, que sumiu sem explicações, que vai fazer muita falta e deixar saudades, dificilmente vai aceitar a explicação “vovô foi para o céu”. E é assim que muitas famílias procedem para poupar a participação nesses momentos de dor. Essa criança seguramente aceitará a morte, evidentemente com certo sofrimento, se participar sem mentiras, de alguns momentos desses eventos naturais. E há algumas dificuldades emocionais vivenciadas pelo ser humano e relacionadas com a primeira postura, de omitir os fatos, de esconder a verdade, de montar uma historinha irreal.

Como proceder nas quedinhas da vida?

Nossa atenção maior é para impedir os acidentes graves — quedas, fraturas, traumas cranianos, intoxicações medicamentosas e por venenos, choques elétricos e aspiração de corpo estranho. Leiam o capítulo Acidentes. As quedinhas ensinam. A dor que causam também ensina a se cuidar, a estabelecer limites. As crianças devem ser colocadas, a partir dos cinco ou seis meses de idade, num ambiente mais espaçoso que permita movimentação e ajude a acelerar o desenvolvimento. Essa exposição a um maior espaço, obviamente o chão, e mesmo que seja num piso emborrachado (tatame) que algumas lojas vendem, mesmo com todos os cuidados, vai expor a criançada a algumas quedas que são, numa última análise, o início da experiência de viver livremente. Assim, é certo que algumas quedinhas vão acontecer e isso faz parte do aprendizado para a vida. Então, nessas quedinhas, logo após o terapêutico colo e o maravilhoso carinho, e ao se constatar que nada de mais aconteceu (não houve sangramento e nenhum outro sinal de algo mais grave) é importante devolver a criança para o chão para que continue a brincar. E se ela novamente cair, volte a devolver para o chão. É óbvio que cada uma vivencia a quedinha de forma diferente, assim como os familiares. Mas nada de drama. Nada de criticar a babá. Nada de achar que essas quedinhas causam lesão cerebral. Logo, logo, as crianças vão desenvolver mecanismos para evita-las, como também estabelecer os seus próprios limites. E a vida continua, nessa fase, com mais aprendizado, com mais habilidades, com uma melhor definição dos limites.

Quando preparar a criança para viver sem os pais?

Pensamos que a partir do desmame os pais devem deixar os filhos aos cuidados das avós ou das tias por curtos períodos — alguns fins de semana, por exemplo — para que eles aprendam a confiar em outras pessoas e também aprendam a viver sem a presença da mãe e do pai. Assim, as crianças têm um duplo aprendizado: o primeiro é confiar em outros cuidadores e, a partir daí, confiar nas pessoas de um modo geral; o segundo é começar a se acostumar a viver sem a presença constante das mães e dos pais. Certamente, os pais também amadurecem com essas separações curtas e percebem, na volta, que tudo se passou sem atropelos. É importantíssimo perceber que mamãe e papai são maravilhosos, mas não são os únicos. É lastimável a observação constante de que certas mães e pais têm que sair escondidos, pela porta da cozinha, para que os filhos não chorem. Isso é uma atitude equivocada. As crianças têm que se acostumar com as idas e as vindas, com as presenças e as ausências dos pais. E isso deve ser preparado desde cedo, desde o primeiro ano de vida. Após esse início, é importante passar alguns fins de semana sem os pais, na companhia de outros familiares por um tempo maior para que se acostumem. Lá na frente, quando houver uma separação por um período longo, para um intercâmbio cultural no exterior, por exemplo, ou para a mudança definitiva da casa dos pais, os traumas e as incertezas estarão minimizados, tanto para os filhos quanto para seus pais, por esse aprendizado anterior.

Essa separação é sempre um sofrimento!

Seguramente, a melhor mãe é como o melhor diretor de empresas: sai de férias e a firma continua a operar normalmente. Para nos ajudar a esclarecer sobre a questão recorremos a alguns trechos do texto A mãe desnecessária, escrito por Márcia Neder (vilamulher.com.br). Diz a Márcia que: “a boa mãe é aquela que vai se tornando desnecessária com o passar do tempo”. Dentre outras noções de grande valor ela diz:

“Ser ‘desnecessária’ é não deixar que o amor incondicional de mãe, que sempre existirá, provoque vício e dependência dos filhos, como uma droga a ponto de eles não conseguirem ser autônomos, confiantes e independentes. Prontos para traçar seu rumo, fazer suas escolhas, superar suas frustrações e cometer os próprios erros também... O que eles precisam é ter certeza de que estamos lá, firmes, na concordância ou na divergência, no sucesso ou no fracasso, com o peito aberto para o aconchego, o abraço apertado, o conforto nas horas difíceis. Pai e Mãe — Solidários — criam filhos para serem livres. Esse é o maior desafio e a principal missão. Ao aprendermos a ser ‘desnecessárias’, nos transformamos em porto seguro para quando eles decidirem atracar.”

E o sono, chupeta, roer unhas, anorexia nervosa?

Esses assuntos foram debatidos em outros capítulos.

Quando e como começar a tratar das questões sexuais?

Transcrevemos alguns aspectos da resposta de uma das colaboradoras que é psicóloga, formulada anos atrás:

“A diferença entre os sexos deve ser tratada da maneira mais natural possível. Quando uma criança questiona por que a outra tem no corpo alguma coisa que ela não tem, a resposta deve ser a mais simples e verdadeira possível, ou seja, porque a outra criança é do outro sexo.

O tempo todo a criança esbarra com diferenças. A diferença entre os sexos é apenas mais uma delas e deve ser tratada e respondida com a mesma naturalidade de todas as outras.

Damos um exemplo prático do banho comum de crianças de sexos distintos ou do banho delas com os adultos. Não adianta querer separar os irmãos no banho porque uma hora ou outra eles vão se dar conta da diferença e quanto mais cedo e com mais naturalidade isso for tratado com a criança melhor. Tomar banho junto com os pais também não deve proibido. Mas é importante ressaltar a necessidade de a criança estar sozinha no banho para que ela se toque, se conheça, se descubra. E nesse momento é importante que ela esteja sozinha.

Para reduzir segredos, mistérios ou tabus, usar de verdade, mas uma verdade simples e acessível à criança, sempre se limitando a responder só o que foi perguntado, sem explicações complexas e prolongadas.

É importante que a criança conheça a genitália dos pais e dos irmãos do outro sexo. Por uma questão social é bom que a exposição não seja frequente. Obviamente, é importante que os pais não tomem aquele baita susto e corram para se esconder como se sua genitália fosse algo secreto ou vergonhoso. Isso, sem dúvida, permite a criação de mil fantasias na cabecinha das crianças e alguns traumas podem vir daí.

Acho importante que os pais tentem buscar na memória como foi para eles a descoberta das diferenças entre os sexos. Caso tenha sido uma experiência tranquila, é importante tentar que ela se repita com os filhos.

Uma dica legal é tentar devolver a pergunta para criança, por exemplo: por que você acha que nasceu assim e seu irmão de forma diferente? Quem você acha que escolhe se a gente nasce menino ou menina? Você queria ser do outro sexo, por quê? Como é que seria se você não tivesse nascido menino? Você sabe quais são as outras diferenças entre meninos e meninas? Com estes questionamentos vocês conseguem ter um entendimento de até onde seu filho já sabe, quais são as fantasias dele, o que é que ele realmente quer saber.”

E quando a criança insiste em tocar na genitália dos pais?

Tocar uma vez na genitália dos irmãos ou dos pais não deve causar surpresa nem susto. Isso é uma forma de conhecer e não tem significado. Mas nessa mesma oportunidade os pais devem esclarecer aos pequenos que os genitais e os outros órgãos do corpo de cada pessoa têm que ser cuidados com muito carinho e devem ser tocados apenas por pessoas confiáveis. Assim, os genitais, os olhos, os ouvidos, a boca e todos os outros órgãos devem ser cuidados com extremo carinho e não podem ser tocados a qualquer momento, por qualquer pessoa, sobretudo por estranhos.

Opinião de uma cuidadora

“Acho que o toque dos genitais dos pais até poderia ser natural desde que, para os pais, não haja constrangimento. Caso seja embaraçoso, o que é bastante normal, tal atitude não deve ser permitida, pois a criança perceberá o mal-estar e poderá criar fantasias negativas a partir dessa experiência. Ter partes do corpo que são tratadas de forma particular e privativa não tem nada de mal, desde que não se passe a ideia de que elas são sujas ou pecaminosas.”

Como falar para a criança sobre quem pode tocar na genitália dela?

Os pediatras, enquanto examinam os genitais das crianças, devem dizer de forma bem simples que apenas os papais, os avós e os médicos podem tocar nos genitais delas. E que mesmo o médico deve examinar os genitais na presença dos pais. Os profissionais devem falar que as crianças da rua, da escola e os outros adultos não devem fazer isso. Essa orientação, formulada lá pelos 5 anos de idade, deve sempre ser acompanhada de explicações simples e acessíveis. “Você não deve deixar que uma pessoa estranha toque no seu corpo, no seu olho, na sua boca e no ‘pipi’. Faz mal, pode trazer doenças” ou “seu corpo é limpinho e a pessoa estranha pode estar com a mão suja”. O médico não deve, nessa idade, dar conotação sexual. Os pais não devem ficar repetindo, com frequência essa orientação, mas, vez ou outra, quando estiverem fazendo a higiene genital, o assunto deve ser abordado. Desde sempre a manipulação genital por estranhos e a conotação de violência sexual pode e deve ser abordada. Caso você tenha dificuldade há uma literatura extensa que ajuda a conversar sobre esse assunto nas diversas idades

A opinião de uma cuidadora e psicóloga

“Acho superimportante que não comecemos a incutir nas cabecinhas dos pequenos as questões das maldades humanas, seria terrível crescer e se constituir em um mundo tão inseguro assim, mas como vocês mesmo disseram, lá pelos 8 ou 10 anos, muito mais por uma questão de segurança, as crianças devem começar a ser alertadas de maneira mais enfática.

É ótima a ideia de tratarmos o corpo humano como um todo, sem supervalorizar determinadas partes, como a genitália. Dizer que não se deve tocar na genitália, como não se deve tocar nos olhinhos ou na boca para não causar doença é uma excelente maneira de informar e educar sem assustar ou traumatizar.

Podemos ainda, orientar os pais a, logo que a maturação motora e cognitiva possibilite, incentivarem seus filhos no sentido de uma autonomia no que se refere a higiene dos órgãos genitais, pois percebo muitas vezes, nos relatos do consultório, que os pais não dão tanta importância a essa questão, mas ao mesmo tempo esperam que seus filhos sejam os primeiros a largarem a chupeta, a fralda, mamadeira etc. Não percebo os pais tão preocupados assim, no que se refere a higienização autônoma dos órgãos genitais de seus pequenos.

Outro tema que considero interessante, apesar de não presenciar tanto esta temática no consultório, é a questão incestuosa dos irmãos, que deve ser algo no mínimo desesperador para os pais que enfrentam a situação.

Outro dia, também me vi em uma situação embaraçosa quando, ao passear com minha filha, nos deparamos com um travesti. Ela imediatamente percebeu ‘algo de estranho’ me questionando se se tratava de um menino ou uma menina. A primeira resposta que me veio à mente foi dizer que era um homem e ela, obviamente, me questionou por que ele estava vestido de mulher. Meio perdida, respondi que ele estava fantasiado de menina para ir a uma festa. Ela continuou a me olhar com ar de estranheza, mas como não fez mais questionamentos, dei o assunto por encerrado. Aceito dicas ou sugestões sobre diferentes formas de responder a esses tipos de questões.

Bom, audaciosamente, contrariando Nelson Rodrigues, não creio que ‘toda nudez será castigada’, mas que se tratada de maneira natural, toda nudez será abençoada.”

E as crianças que “brincam” com os genitais

Essa “brincadeira” é debatida no capítulo Masturbação.

E a questão do gênero na infância?

O fato de o menino de 4, 6 ou 8 oito anos se interessar por brincadeiras de meninas e por apresentar certos trejeitos femininos pode ou não ser questão de gênero. É possível que uma presença feminina dominante no seu ambiente, junto com a ausência masculina, do pai ou de colegas do mesmo sexo, o leve a ter interesses voltados mais para as bonecas e outros itens de interesse feminino. Nesse caso, o pai deve se aproximar do filho e promover brincadeiras com meninos. Embora não se possa falar em tendência homossexual, é importante desde cedo reprimir a homofobia e respeitar a tendência sexual de todos o que deve ser um bom exemplo aprendido em casa para tornar os filhos mais tolerantes no futuro. Estes argumentos são passíveis de muita censura, de muita crítica.

Nas crianças, existem as doenças psicossomáticas?

Ocorrem nas crianças, certas situações, algumas graves e até letais, causadas por problemática emocional. Há formas graves de desnutrição causada por carência afetiva. Há crianças que ruminam e que vomitam por meses todo o alimento ingerido e nas quais nunca se consegue demonstrar doença orgânica. Algumas morrem por inanição. Isso é clássico. Há evidências de que no útero os fetos vivenciam as angústias maternas e alguns podem desenvolver doença orgânica como a úlcera gástrica. A asma, a enxaqueca e outros tipos de dor de cabeça, a dor óssea, articular e muscular, a dor abdominal, o vômito, a diarreia e muitos outros problemas que podem ser produzidos por doenças físicas, infecções e outros problemas. Os capítulos sobre Asma, Dor, Dor de cabeça, Diarreia, Constipação intestinal, Vômitos e outros deste livro, tratam do envolvimento emocional em várias situações clínicas.

Quando recorrer ao psicólogo ou ao psiquiatra?

Os pediatras indicam consulta a um desses profissionais sempre que a situação extrapolar o seu nível de conhecimento e de resolução ou quando houver algum motivo especial para avaliação e/ou seguimento por um profissional com qualificação especial na área do psiquismo infantil. A orientação adotada pelo psicólogo ou pelo psiquiatra deve sempre ser compartilhada com o pediatra para que exista uma orientação consensual para que os melhores resultados sejam conseguidos. Eles têm uma função extraordinariamente importante que é definir se o que o paciente apresenta se chama um distúrbio reativo de conduta ou outra situação mais importante. O distúrbio reativo de conduta é aquele que decorre das circunstâncias emocionais que cercam a criança ou o adolescente. A maior parte dessas situações é diagnosticada e orientada pelos pediatras. Mas existem situações que decorrem de distúrbios mais complexos, até da química interior do indivíduo, que precisam da avaliação de quem for mais qualificado para diagnosticá-las e tratá-las, os psicólogos e psiquiatras especificamente qualificados para diagnosticar e ajudar a resolver problemas do psiquismo.

Quando usar remédios?

Evidentemente as medidas terapêuticas dos desvios comportamentais que discutimos decorrem do entendimento das causas, que são também de ordem psíquica ou afetiva, e da sua correção. A fitoterapia, a homeopatia e os florais de Bach, somados às medidas de controle das causas desses desajustes, auxiliam. Os remédios são usados para situações mais importantes como as formas mais críticas de depressão e do transtorno do déficit de atenção e hiperatividade. E, habitualmente, quem os receita são os psiquiatras ou neurologistas de crianças e adolescentes.

Outra participação de uma cuidadora e psicóloga

“Sei que este é um assunto espinhoso, mas acho que vale a pena ser inserido. Há atualmente muitas crianças sendo medicadas com Ritalina. O remédio é usado para hiperatividade, quando na realidade não são crianças hiperativas, mas apenas cheias de energia, levadas e dinâmicas. Os pais usam a medicação para “dopar” os filhos e assim terem menos trabalho. É desnecessário dizer do absurdo deste expediente. Remédio não pode ser usado como babá e os pais precisam entender que estão, de alguma forma, drogando seus filhos.”

Onde poderemos conhecer mais sobre o psiquismo?

Recomendamos alguns livros:

TIBA, Içami. O sucesso dos pais não garante a felicidade dos filhos. São Paulo: Editora Gente, 1992.

TIBA, Içami. Sexo e adolescência: a sexualidade do jovem brasileiro. São Paulo: Editora Gente, 1993.

TIBA, Içami. Amor, felicidade & Cia.: o que a família tem a ver com isso? São Paulo: Editora Gente, 1994.

TIBA, Içami. Ensinar aprendendo: como superar os desafios do relacionamento professor-aluno em tempos de globalização. São Paulo: Editora Gente, 1998.

TIBA, Içami. Disciplina: o limite na medida certa. São Paulo: Editora Gente, 1996.

TIBA, Içami. Quem ama, educa!. São Paulo: Editora Gente, 2002.

TIBA, Içami. Puberdade e adolescência: aproveitando as mudanças, evitando os perigos. São Paulo: Editora Gente, 2005.

TIBA, Içami. Seja feliz, meu filho!. São Paulo: Editora Gente, 2006.

TIBA, Içami. Abaixo a irritação: como prevenir a violência. São Paulo: Editora Gente, 2008.

ZAGURY, Tânia. Escola sem conflito: parceria com os pais. Rio de Janeiro: Record, 1995.

ZAGURY, Tânia. Limites sem trauma: construindo cidadãos. Rio de Janeiro: Record, 2001.

ZAGURY, Tânia. Educar sem culpa: a gênese da ética. Rio de Janeiro: Record, 2005.

Há programas de televisão que ajudam a conhecer sobre essa temática e recomendamos especialmente a Supernanny. Recomendamos ainda que vocês interajam com o blog da educadora e teóloga Alexandra Guerra (www.alexaguerra.blogspot.com) que apresenta excelentes textos e outros materiais sobre a educação dos nossos filhos.

8.5Masturbação

8.5.1Aspectos conceituais

O tema será abordado do ponto de vista biológico. Não serão revistas as tradições culturais e os dogmas religiosos acerca do tema.

Os pais, vez ou outra, procuram os pediatras sobre os meninos e as meninas, de poucos anos, flagrados em práticas que lembram a masturbação. Eles não procuram discutir o tema nos adolescentes e, portanto, o assunto nas crianças parece não preocupá-los. Assim, revisaremos o tema apenas nas crianças.

Crianças de poucos anos têm prazer sexual?

A sexualidade tem raízes na infância. Prazer, erotismo, sexualidade, libido — energias vitais — estão presentes desde os primórdios da vida. Já foi citada a fase oral quando a boca tem significado erotizante e a amamentação ao peito é tida como o protótipo da relação amorosa. O passar dos anos assiste à substituição da boca por outras zonas erógenas, a anal e a genital. Logo, a menina e o menino identificam o pai e a mãe, respectivamente, como seus ideais sexuais. O psiquismo avança e levanta barreiras contra o pai e a mãe como objetos sexuais. Um período de latência é observado e é consequência dessas barreiras e da inibição sexual. No início da alfabetização, surgem múltiplas e novas áreas de interesse. De forma simplista, é possível dizer que a criança dessa etapa canaliza seu interesse sexual, sua libido, para esses novos objetos: pessoas, pensamentos, conhecimentos e várias outras áreas interessantes. Finalmente, os hormônios desencadeiam a puberdade, com suas profundas transformações físicas e psíquicas, e a sexualidade desabrocha plenamente. E a masturbação se instala como um dos seus marcos. De forma resumida, é assim que os estudiosos falam sobre a sexualidade nos primeiros anos. Mas todos devem ler mais sobre o assunto.

A masturbação na adolescência não preocupa. E na infância?

A manipulação genital, a busca pelo conhecimento do corpo, é normal em toda a criançada após os 2 anos de idade. E é a exploração normal da genitália que permite a criança descobrir o prazer que isso provoca. E esse prazer inicial é importantíssimo na montagem da vida sexual futura tão fundamental e saudável para todos nós. E tudo o que é bom, gostoso e prazeroso tende a ser repetido. A exploração dá lugar à masturbação que é a manipulação genital com manifestações de prazer. É mais observada ao redor dos 4 anos, quando se avalia que um terço das crianças a praticam. Logo, surgem outros interesses que canalizam as energias da gurizada e se instala uma fase de latência e de inibições que fazem com que a masturbação seja minimizada ou não praticada, até desabrochar plenamente na adolescência.

Isso é válido para o menino e para a menina?

Sim. Meninos e meninas se masturbam, lá pelos 4 anos. Isso é absolutamente normal, desconstruindo, ainda muito cedo, a ideia de que o homem necessita mais de sexo. Uma das colaboradoras diz que o “prazer é um direito divino e deveria ser constitucional”.

O que é exploração do corpo e o que é masturbação?

Após algum tempo de observação, é possível definir o que é exploração e o que é masturbação. A observação deve ser discreta, sem críticas, sem comentários, sem “ensinamentos sábios”. Vejam as seguintes diferenças:

A exploração da genitália ocorre em todas as crianças lá pelos 2 ou 3 anos e é transitória. Elas manipulam a genitália uma vez ou outra, sobretudo durante o banho, e não têm prazer. Logo elas perdem esse interesse.

A masturbação não acontece em toda a criançada e é mais bem caracterizada após os 4 anos de idade. Existe prazer durante a manipulação e as crianças parecem estar ausentes, absortas, aturdidas e ficam enrubescidas. O prazer justifica a repetição da prática que tende a se prolongar por meses ou anos. Algumas crianças se masturbam várias vezes ao dia, outras apenas uma vez na semana. Acontece principalmente quando estão sozinhas, vendo televisão, ou sob stress, como pressionadas para deixar a chupeta.

A masturbação é sempre com as mãos?

É usual com as mãos. Roupas e outros objetos poderão ser usados.

Doenças genitais ou nas vias urinárias causam masturbação?

Doenças genitais — vulvite na menina e postite no menino, anais, oxiurose, ou urinárias, cistite — produzem coceira, ardor ou dor local que podem produzir manipulação excessiva da genitália. Todas as crianças que estão se tocando excessivamente precisam ser avaliadas pelos médicos. Essas doenças causam aumento na manipulação, mas nunca a masturbação. A masturbação não é causada por doença. É uma manifestação saudável do organismo, da biologia das crianças.

O tipo de roupa aumenta a manipulação genital?

Pode aumentar a manipulação, mas não causar masturbação. Calcinhas de tecidos sintéticos e certos produtos para asseio genital podem causar vulvites que podem fazer com que a criança toque mais na genitália. Fato semelhante pode ocorrer com o menino.

Criança sexualmente estimulada pode se masturbar?

As crianças estimuladas sexualmente por alguém podem desenvolver o hábito e é possível que essa iniciação sexual estimulada possa causar danos ao desenvolvimento normal da sexualidade. Assim, os pais devem ter o cuidado de verificar atentamente se esses estímulos estão sendo oferecidos aos seus filhos que se masturbam. É importante verificar quem cuida do asseio geral e do genital em particular, pois é possível que na hora dessa higiene, a genitália esteja sendo estimulada.

Quando considerar a masturbação um problema?

Praticamente nunca. São excepcionais os casos em que a criança se masturba com uma frequência muito alta e de forma intensa. Nesses casos chega a deixar de brincar para ficar se masturbando. Nessas raras situações, os pais devem buscar um auxílio profissional para descobrir o que está provocando esse comportamento. A medicina alerta sobre a possibilidade de a criança estar sendo estimulada ou sobre outras condições que favorecem o hábito: solidão, excesso de TV, falta de atividade física e de coleguinhas, tensão emocional.

Masturbação pode significar tendência para perversão?

A medicina e a psicologia nada conhecem que sugira isso. Algumas crianças valorizam mais essa atividade por características peculiares de sua natureza psicoafetiva ou instintiva. Cada criança tem sua forma de viver a sexualidade e isso varia até entre irmãos.

E quando a masturbação ocorre num lugar público?

Quando vocês perceberem isso, procurem de forma bem inteligente desviar a atenção delas para algo interessante. A masturbação é suspensa de imediato. Depois, lá na sua casa, vocês devem explicar a seus filhos que há coisas — fazer coco, xixi e brincar com os órgãos genitais — que não devem ser feitas na frente das pessoas. Devem mostrar a diferença entre o público e o privado e não entre o certo e o errado

Devo censurar minha filha que está se masturbando?

Censurar, criticar, bater na mão e adotar uma série de outras ações punitivas, mesmo pessoalmente, mas principalmente na presença de outras pessoas, é errado e não educativo. A masturbação deve ser tratada de forma muito simples, natural, nunca como uma coisa feia, proibida, doentia, maléfica. As crianças que se masturbam devem sentir que vocês entendem e respeitam esse comportamento que é absolutamente normal.

Nossas atitudes poderão estimular a masturbação?

A melhor postura é a de neutralidade. Vocês não devem manifestar agrado nem desagrado. Não devem achar feio nem bonito. Nem estimular nem desestimular. Já foi dito que os adultos não devem proibir a masturbação, mas é óbvio que não devem estimulá-la. As duas posturas são errôneas e podem contribuir para aumentar a frequência e para tornar a masturbação mais contínua e talvez dificultar o andamento da sexualidade normal.

É duro aceitar muitos desses conselhos.

Acreditamos que o modelo vigente na época em que as senhoras e senhores foram criados é diverso do que é adotado hoje. Mas é importante acreditar no que os psicólogos e psiquiatras que estudam o assunto nos ensinam. Eles informam que a masturbação faz parte do comportamento humano normal, mesmo numa criança de 5 anos. E são extremamente enfáticos ao dizer que a masturbação não deve ser reprimida, proibida, maculada, estigmatizada. Também falam que não deve ser estimulada.

Sempre que vocês estiverem com dúvida sobre a masturbação ou outro aspecto do comportamento das crianças é importante refletir sobre o tema. Vocês devem procurar ajuda se: as crianças persistem com a masturbação na presença de outras pessoas ou tentam manusear os genitais de outras pessoas; há suspeita de que alguém as tenha excitado sexualmente; elas não estão felizes; vocês não aceitam a masturbação como fato normal.

Falem sobre outras atitudes certas e erradas.

É certo: conversar com as pessoas da casa — babás, tios, avós — e com os professores para que uma mesma orientação seja seguida por todos. Esse é aspecto essencial e é terrível que a criança perceba que a mãe aceita, mas que o pai recrimina a masturbação. Falar reservadamente com a criança que pratica a masturbação; pai e mãe devem aumentar o contato com a criança que se masturba, pois a carência afetiva pode estimular o hábito; criar atividades físicas (natação, futebol, judô, escolinha de arte e outras) e estimular o convívio com muitos coleguinhas já que o isolamento favorece a masturbação; dar exemplos sobre o que deve ser feito num ambiente público (conversar, brincar) e o que deve ser feito num ambiente privado (defecar, urinar, masturbar); conseguir um acordo para que a masturbação ocorra num local privativo, por exemplo, no quarto ou no banheiro; responder às dúvidas da criança com palavras simples e apenas ligadas às perguntas formuladas; respeitar as crenças religiosas; identificar se há dados de compulsividade, de isolamento, de baixa autoestima ou de outros comportamentos atípicos que precisam ajuda psicológica e/ou médica;

É errado castigar, punir, censurar, criticar, humilhar e usar qualquer mecanismo repressivo que cria conflitos difíceis de reparar e provavelmente maléficos para o desenvolvimento da sexualidade normal; usar os termos proibido, sujo, feio, imoral e outros que deturpam o ato masturbatório; abordar a criança na presença de outras pessoas e passar informações sobre o assunto; ignorar o que está ocorrendo e deixar que a masturbação seja praticada em qualquer lugar; ficar vigiando a criança; dar muitas explicações sobre sexo e sexualidade e muito menos mentir sobre esse tema; auxiliar na divulgação de mitos como os que informam que a masturbação faz crescer pelo na mão, que causa doença nos genitais, que produz loucura.

8.5.2Aspectos práticos

Vejam o relato de uma cuidadora para acrescentar e aprofundar o conhecimento sobre esse tema:

“Tenho duas irmãs e já depois de adultas, em conversa informal e corriqueira, descobrimos que só havíamos nos masturbado depois de adultas. Todas as três! Aí tinha coisa! Minha mãe, infelizmente, teve uma vida sexual nada satisfatória e isso deve ter a levado a desvalorizar o sexo, afinal, se ela não tinha prazer, achava correto ‘poupar’ as filhas, culminando em algumas consequências que poderiam ser evitadas. Certamente, fomos prejudicadas de alguma forma. No mínimo, não nos foi permitido o ‘prazer’ que já foi considerado um pecado para as mulheres. Este tipo de prazer era coisa para homens com profissionais do sexo. Nossa mãe certamente não teve uma educação sexual e deve ter passado também por problemas que naquela época não se resolviam como hoje. Para se ter uma ideia, ela se referia à higienização da genitália como uma desinfecção. Usava a seguinte frase: ‘vou me desinfetar’. Já depois de mãe, flagrei a minha avó que estava ao lado da minha filha, ao assistir a um simples toque na genitália, foi logo com um discurso repressivo e absurdo, chamando a genitália de suja, feia e fedorenta. Eu, já escaldada, dialoguei imediatamente com a minha filha, substituindo os adjetivos pejorativos por outros bem mais agradáveis e conversei seriamente com a minha avó sobre o fato. Foi importante não só esclarecer as coisas com a minha filha como alertar a avó que sua orientação educacional era outra, que eu não concordava com aquilo, explicando ao máximo, com carinho e argumentos para que o fato não se repetisse mais. Acredito que muitas mães, pelo menos da minha geração, passaram por esses problemas e o pior, acredito que isso se repete até em gerações posteriores.”

O resumo que apresentamos não esgota o tema nem substitui a avaliação médica e/ou psicológica. Todos devem ler mais sobre o assunto, o que sem dúvida implica um “mergulho” num dos mais interessantes temas do comportamento humano.

8.6Chupeta ou dedo?

A sucção do dedo e da chupeta são práticas antiquíssimas e, embora pensemos que os médicos manifestam mais dúvidas do que certezas sobre o tema, vamos tentar revisá-lo sob a ótica da medicina.

No feto e no recém-nascido a sucção é reflexa, “automática”, independente da vontade. Fetos chupam o dedo lá pelas 18 semanas de gestação. A maioria das crianças novinhas continua a sugar de forma não voluntária. Sugam tudo: seu dedo, sua mão, a do médico e até a roupa. Essa capacidade de sugar é um dos critérios de normalidade do recém-nascido. O que não suga está doente. Os mamíferos desenvolveram a sucção para a sua sobrevivência: sugar o peito materno. Após algum tempo, a sucção involuntária desaparece e passa a ser voluntária.

A chupeta, inventada para imitar e substituir o mamilo materno, é registrada há muitos séculos. Há relatos sobre os primeiros formatos, sempre imitando o mamilo das mães, e dos primitivos materiais usados na sua confecção. A forma e os produtos atuais usados na fabricação (látex e silicone) são escolhidas pela indústria para que a chupeta se assemelhe ao mamilo materno.

Não pretendemos debater a sucção involuntária do dedo ou da chupeta nos primeiros tempos de vida, na fase reflexa. Isso faz parte da biologia normal do ser humano, mamífero. Pretendemos discutir as implicações para a saúde da sucção do dedo ou da chupeta, por meses ou anos.

Será que a chupeta não é imposta à maior parte das crianças?

Há dados indicando que nove de dez mães dão chupeta se o filho que acabou de nascer está chorando. E cremos ainda que a maioria das mães a inclui no enxoval. O bebê, que tudo suga automaticamente, pega a chupeta com avidez. Os desavisados, que não sabem dessa fase não voluntária, pensam que ele está gostando da “pepeta”. Nos berçários, a oferta generalizada, abusiva, não criteriosa e não pensada é evidente. Chorou, chupeta no bebê! Está sugando o dedo, chupeta nele! Está com fome, chupeta para enganar! Chupeta até quando não há razão aparente para oferecê-la. Mas, independentemente de ser bom ou mau hábito, ela vem sendo usada por séculos.

As recomendações para o uso variam em todo o mundo. A OMS desaconselha e a Academia Americana de Pediatria a recomenda por algum período, com base em estudos científicos, para a prevenção da Síndrome da Morte Súbita. Orienta que os bebês devem usar quando já estiverem estabilizados, a partir de três a quatro semanas.

E quando a chupeta deve ser dada?

A chupeta não deve ser oferecida com tanta liberalidade; não deve fazer parte do enxoval. Se oferecida, o bebê vai sugar e se deliciar. *Lembrem-se sempre disso: a boa prática é não dar a chupeta nos primeiros dias da vida. Nesses primeiros tempos, a mãe deve amamentar e levar a criança ao peito, livremente. Também deve pegar no filho, colocar no colo, acalentar, acariciar, acalmar com palavras, num ambiente tranquilo, com pouca luz. Esse tempo é para aprender sobre as necessidades e características do neném. E só com algum tempo de conhecimento e de observação é possível ver se há algum espaço para a chupeta.

Mas a pressão para dar a chupeta vai ser grande! Como reagir?

A nossa cultura é de dar a “pepeta”. Todos os que cercam o bebê vão insistir. A mãe, cansada, também tende a usar, a lei do menor esforço. Mas não é correto. Mãe, pai, avós, babá têm que esperar algum tempo. Vejam se o bebê se ajusta e se acalma com a amamentação e com carinho, o colo e a tranquilidade de todos. Essa tranquilidade é adquirida com as informações corretas. Procurem falar com o neonatologista, o pediatra, enfermeiras e, se possível, com fonoaudiólogo e odontopediatra, para saber sobre riscos e benefícios. Chupeta deve ser exceção.

Mas qual a hora de dar a chupeta?

O ideal é não dar. Nosso povo chama a chupeta de “consolo” e os de língua inglesa de “pacifier” (pacificador). Denominações geniais, não acham? Algumas crianças, mais que outras, necessitam sugar intensamente continuamente, tanto é que chupam o dedo. Após algum tempo de vida, se o bebê é irritadiço, mesmo no peito e bem atendido em suas necessidades, se quer sugar mais, se está com o dedo na boca, se não quer nada com o berço, é possível que a chupeta ajude. Não existe fórmula para informar qual o momento certo. Nosso pensamento é que a chupeta é como remédio. Ambos devem ser usados com critério, com cuidado, sempre que preciso, após esgotadas outras alternativas. Um outro aspecto que nos faz refletir sobre a não necessidade da chupeta é o comportamento dos bebês exclusivamente amamentados que na grande maioria rejeita a chupeta.

Qual chupeta dar?

Os odontólogos recomendam as ortodônticas, preferencialmente de silicone. Mas há crianças que se adaptam melhor às chupetinhas antigas, de borracha, bem baratinhas, vendidas nas feiras livres. As chupetas têm prazo de validade. Após três meses devem ser trocadas, ou mesmo antes, se apresentam sinais de desgaste ou de sujeira. Trocar por um tipo diferente do anterior é mecanismo para desestimular o apego ao “consolo”.

A chupeta deve ser dada para os que suagam o dedo?

É possível que esse seja um dos critérios para oferecer a chupeta. Estudo recente, mostra que os problemas podem surgir tanto por uso da chupeta como por uso do dedo ou de outros objetos, o que os dentistas chamam de “hábitos orais persistentes”. Eles podem causar alterações tanto na posição dos dentes na boca, como interferir na mastigação, respiração e alteração dos sons das palavras, dependendo de alguns fatores: duração do hábito, intensidade, posição do dedo ou da chupeta na boca. Alguns autores afirmam que se o hábito for interrompido até no máximo os três anos, os danos serão menores.

Mas alguns só querem o dedo! O que fazer?

Há crianças que são apaixonadas pelo próprio dedo e não aceitam chupeta. Na visão de alguns estudiosos, para os ávidos pelo dedo, a chupeta é uma alternativa menos maléfica. Mas essa troca não deve ser forçada. Não deve ser decisão dos adultos. Se ela quer o dedo, mesmo com todas as tentativas com chupeta diferente ou chupeta de outro material, que assim seja. Nos momentos de maior intensidade de sucção tentem distraí-la mostrando brinquedos coloridos ou sonoros e, à noite, durante o sono “pesado”, tentem retirá-lo da boca. É claro que essa tentativa pode durar por algum tempo.

Os dentistas criticam os dois hábitos?

Eles são os principais críticos dos dois hábitos. Demonstram que vários problemas de arcada dentária podem decorrer dessa prática. Mostram que sugar o dedo é mais nocivo do que sugar a chupeta, porque a relação que o dedo sugado mantém com as estruturas bucais é mais maléfica do que a produzida pela chupeta, pois há maior esforço para chupar o dedo. Eles alegam que a chupeta ortodôntica é menos lesiva e que os problemas de dentição produzidos tanto por dedo quanto por chupeta serão mais graves quanto maior for o tempo de uso. No entanto, outros estudos mostram que os dois hábitos se igualam em complicações. Os odontólogos mostram que as graves alterações produzidas, que podem necessitar de custosas, prolongadas e agressivas intervenções terapêuticas. Apresentam dados sobre os problemas como a posição da língua, dos lábios, com a musculatura e o perfil facial e falam dos problemas com a mastigação e a deglutição dos alimentos.

E os fonoaudiólogos?

Eles também são críticos de chupetas, mamadeiras e hábito de sugar dedo. Reconhecem as alterações na arcada dentária, lábios, língua e musculatura facial, que podem causar dificuldade até para a emissão de sons. Especialmente para alguns bebês, sugar chupeta exige menos esforço do que sugar o seio materno, especialmente se a mamãe não está preparada para o ato sublime e único da amamentação. O menor esforço dispensado à chupeta pode levar ao enfraquecimento da musculatura da boca e da face, se o hábito é bastante prolongado, levando a alterações faciais e afetando a mastigação, deglutição e fala. Mostrando a importância do tempo de uso do vício, uma fonoaudióloga pediatra declara: “se o bebê usa a chupeta somente para se acalmar e não cria uma dependência, as chances de surgirem alterações é muito baixa”.

Os psicólogos também criticam?

Eles sempre mostram muita preocupação com a criança quase que abandonada e entregue à chupeta. Criticam a postura de oferecer o “consolo” com a pretensão de que a criança fique mais calma e menos ávida por contato humano, por alegria, por afeto. Os psicólogos, embora reconheçam que alguns bebês têm uma necessidade intensa de sugar, pensam que a chupeta não substitui a relação mãe-filho, ou pai-filho ou avô-neto. Dizem que a chupeta não é solução para o choro e a inquietação das crianças. Tudo o que é usado na criança para substituir a falta de presença, de afeto e de ternura poderá prejudicar o desenvolvimento psíquico dela. Para falta de carinho é necessária a presença de carinho e chupeta não é capaz de preencher esse vazio. Esta é uma opinião de cunho psicológico, de fácil entendimento, mostrando o mau uso da chupeta. Vamos ao outro lado da moeda?

Há o reconhecimento de ser a sucção um reflexo inato, observado desde a vida intrauterina, que leva o bebê a entrar em contato com o mundo externo, satisfazendo suas necessidades afetivas, além da nutricional. A psicologia reconhece que a descoberta do mundo ocorre pela via oral, no início da vida (fase oral). O bebê descobre o mundo dessa forma, levando tudo à boca. O objetivo do uso da chupeta é tão somente acalmar a criança.

E os pediatras?

A maior atenção é com a interferência na amamentação. Há acordo que a oferta de chupeta logo após o parto, numa fase em que o bebê deve conhecer e sugar apenas o peito materno, causa o que é conhecido como “confusão de bico”. Está documentado que a chupeta interfere com o número de mamadas por dia e com a duração, eficiência e exclusividade da amamentação. Para os pediatras, estas seriam causas decisivas, para limitar o uso liberal da chupeta, mas, há mais: infecções de ouvido médio são mais vistas se a criança usa chupeta; diarreias e parasitoses intestinais ocorrem com maior frequência nas crianças que usam chupeta e já engatinham ou andam, além de outras complicações em diversos setores da saúde da criança, já abordadas aqui. Os pediatras referendam o que os odontólogos, fonoaudiólogos e psicólogos comentam sobre os dois hábitos.

E os benefícios de chupar a chupeta e/ou o dedo?

As recomendações para o uso de chupeta são controversas, em todo o mundo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) desencoraja o uso e a AAP (Academia Americana de Pediatria) o recomenda após 3 a 4 semanas de vida (quando a amamentação já estiver bem estabelecida) como prevenção da Síndrome de Morte Súbita do Lactente (SMSL), com base em estudos científicos efetuados nos Estados Unidos, em 2005. A hipótese de que a chupeta protege contra a SMSL (em 50 a 90%) tem base no fato de que ao sugar a chupeta, a língua do lactente ajuda a manter a via aérea livre. Outros estudos realizados pelos mesmos pesquisadores, em 2011, mostraram que a amamentação (mais ainda quando exclusiva) apresenta efeito protetor contra a SMSL. Mesmo assim, esse grupo de pesquisadores mantém a recomendação do uso, com essa finalidade, apesar de outros fatores de risco já bem conhecidos.

O “consolo” e o dedo parecem acalmar crianças que necessitam sugar intensamente, são inquietas, choram excessivamente e cansam os familiares. Isso é questionável, pois é possível que a chupeta sirva mais para o adulto, funcionando como o “cala a boca”. Mães muito calmas, tranquilas, que têm tempo para dedicar à maternidade, que botam o peito pra fora e dizem “vem mamar querido (a)”, não precisam dar a chupeta e nem seus filhos vão precisar sugar dedo, a não ser em alguns casos específicos (como o bebê que suga excessivamente) ou onde a cultura familiar pró chupeta predomine.

Quando começo a tirar a chupeta?

O ideal é planejar o desestímulo logo no início do uso, com base nas informações recebidas até aqui.

E como fazer isso?

Lá vão alguns conselhos:

  • Ter apenas uma chupeta, várias estimulam o uso. Vemos crianças com uma chupeta na boca, outra na mão e outra pendurada na roupa. Há as que têm um pote cheio de chupetas!
  • Trocar a chupeta a cada três meses, preferentemente por outro tipo, na tentativa de reduzir o apego a um determinado modelo. Fazer isso de forma bem natural, sem festa para a chegada da nova chupeta. Independentemente do tempo de uso, trocar quando houver sinais de desgaste.
  • Não oferecer sempre que a criança chora, tentar acalentar, brincar, conversar, passear.
  • Oferecer apenas quando houver aparente necessidade: irritabilidade, sono. Retirar logo que a criança adormeça.
  • Usar chupetas mais simples, que não lembrem aviãozinho ou coelhinho, ambos sedutores.
  • Manter a chupeta em ambiente adequado, não pendurada na roupa.
  • Usar objetos que a criança possa levar à boca (mordedores, brinquedos que não levem a risco de alergia ou engasgo) e que possam substituir a chupeta.
  • Orientar avós, tios, babás e conhecidos para não presentearem com chupetas, fazendo que todos participem dessa luta.
  • Quando duas crianças usam chupeta, recomenda-se retirar primeiro da mais nova, evitando que a criança mais velha apresente resistência ao perceber que a menor continua utilizando.

Posso tentar tirar a chupeta trocando por um presente?

Pode ser feito, desde que o presente seja dado de fato e que fique clara a não possibilidade de desfazer o “negócio”, o que exige firmeza de decisão (um ensinamento). Não se deve criar artifícios, pois a mentira não pode fazer parte da relação pais/filhos. Podem ser usadas manobras que já foram discutidas aqui, como não oferecer ao primeiro choro, usar chupetas simples, retirar da boca sempre que possível (cochilou, a chupeta sai), etc.

É indicado tentar tirar a chupeta num momento de tensão?

Óbvio que não. O nascimento de um irmãozinho não é hora nem de falar em parar com a chupeta. Mudança de babá, de escolinha, de casa e outras situações que criem ansiedade, também. A hora de tentar tirar a chupeta é quando tudo está bem com mamãe, papai e todos os que convivem no lar.

Criança pode voltar à chupeta após o nascimento de um irmão?

Isso é observado com alguma frequência. O irmãozinho mais velho não é imune ao sentimento de “perda do monopólio das atenções” e já passou pela experiência da saciedade oral, com o mesmo instrumento. Muitas vezes o recomeço se dá pela tomada da chupeta do bebezinho indefeso.

Nessa fase difícil para a criança mais velha, pressionar não adianta. Melhor deixá-la com a chupeta por algum tempo, para depois começar a desestimular, aproveitando para incluir o bebê nesse “desmame” de chupeta.

Será que as bonecas com chupeta estimulam o hábito?

Sem dúvida, as bonecas com chupeta e mamadeira estimulam o uso desses dois produtos. Bonecas são modelos e, assim como o batom e o esmalte, a chupeta pode estimular o uso.

Como impedir o hábito da sucção do dedo?

Isso é mais complexo. O ideal é lutar para que o sugar reflexo não se transforme em hábito. O dedo está disponível o tempo todo, o que complica uma política de desestímulo. Pode se tentar dar a chupeta no lugar do dedo. Fazem parte do desestímulo as conversas explicativas, repetidas, contínuas. Outra estratégia: ocupar as mãos da criança com brinquedos interessantes (bolas, joguinhos), livros para colorir ou desenhar, leitura de livros infantis pelas pessoas mais velhas, principalmente naqueles momentos identificados como os mais prováveis dela vir a chupar o dedo.

E a pimenta e a placa do dentista?

Práticas agressivas como uso de pimenta ou enrolar o dedo com gaze e esparadrapo devem ser evitadas. É possível que seja mais fácil corrigir uma arcada dentária mais tarde do que corrigir frustrações e decepções causadas pelos que devem amar, proteger, cuidar. As placas sugeridas pelos dentistas podem ser usadas, mas tanto o profissional como os familiares devem explicar a finalidade do aparelho e tentar captar a adesão do amante do dedo para o tratamento.

E quando o hábito da suscção traumatiza/fere o dedo?

Acontecem com bastante frequência, especialmente se o hábito já tem alguns meses ou anos. Umidade constante (ou muito frequente) provocada pelo contato com a saliva e ambiente infectado (contato com chão e materiais sujos) leva a infecções por vírus, fungos e bactérias sendo necessário, às vezes, uso de antibióticos. Está criada a oportunidade de se falar (para as crianças que já entendem) sobre os malefícios e usar isso para desestimular a sucção.

Como são feitas a higiene da chupeta e do dedo?

A higiene da chupeta segue os mesmos cuidados dos utensílios alimentares. Se a chupeta cai no chão, deve ser higienizada. Após ser sugada por algum tempo também. A fato de ter apenas uma chupeta já ajuda na estratégia de desestimular o uso. Durante o processo de higienização, a criança vai ficar sem ela. Com o dedo a higienização é mais complicada. Criança que engatinha vive em contato com o chão e não há como higienizá-lo sempre. É cuidar bem da higiene corporal, cortar e escovar bem as unhas (especialmente a mais comprometida ou as mais comprometidas). E rezar.

Existem acidentes com a chupeta?

O Nationwide Children’s Hospital dos Estados Unidos, atende, a cada 4 horas, uma criança com menos de 3 anos na sala de emergência devido a acidentes com mamadeiras, chupetas e copinhos com tampa. A incidência maior está em torno de 1 ano de idade, em crianças aprendendo a andar, pelo grande número de quedas. Para evitar os acidentes adotem as recomendações:

  • Usem chupeta em “monobloco”, que não tenham peças que possam se soltar.
  • Evitem chupetas artesanais. Deem preferência às fabricadas por indústrias tradicionais, confiáveis, para evitar engasgos com partes da chupeta ou com fragmentos da peça artesanal.
  • Evitem fitas para manter a chupeta no pescoço, pois podem causar estrangulamento.

O ambiente emocional influi nos dois hábitos?

Não conhecemos estudos (até podem existir) que respondam a essa pergunta. Há estudo mostrando que o bebê novinho reage com choro quando está sendo segurado por mãos tensas, por pessoas que choram. Existe relação entre a frequência de choro excessivo do lactente e o estado de ansiedade materna. Mães não ansiosas têm 3% de probabilidade de ter um bebê com cólica. Nas ansiosas, essa probabilidade passa a ser de 27%. Nas mães que não têm o apoio para a maternidade (solteiras, adolescentes), o percentual alcança 60%. Se transportarmos essa experiência para o tema em debate, é lógico pensar que a ansiedade das pessoas que lidam com os bebês deverá causar maior frequência, maior tempo de sucção, maior duração e maior dificuldade de deixar o hábito. As crianças percebem a ansiedade da mãe, de parentes e de cuidadores no olhar, nos gestos e no tocar.

Vemos que os assuntos são mais complexos do que parecem!

Por serem hábito muito antigos e que fazem parte da cultura de todos os povos do planeta — que não deverão desaparecer — é preciso admitir que existem os benefícios e os riscos envolvidos. Esses riscos e benefícios devem ser conhecidos por todos os que se envolvem com os bebês, a começar por mamãe, papai, avós, parentes e aderentes. Só esse conhecimento (adquirido por informações de profissionais nos períodos pré-natal, natal e pós-natal) vai permitir a tomada de decisão correta. O princípio básico é: não é natural, é um artifício, logo, de princípio, não usar é a melhor decisão. Mas, sabemos como os seres humanos somos todos diferentes, até mesmo quando gêmeos univitelinos — os chamados gêmeos iguais. Daí a frase conhecida por todos os médicos, desde os primeiros anos do curso: “em medicina nem nunca, nem sempre”. Dar ou não dar a chupeta é uma decisão sempre difícil e que exige bom senso. Nada melhor do que tentar superar as primeiras horas, os primeiros dias, os primeiros meses para entrar em acordo com a pessoinha que identifica o mundo através da boca, da sucção. Para isso é preciso ter as informações necessárias. Saber, por exemplo, que existem os desvios do “normal”. Por algumas razões (mamilo de difícil pega, mãe muito tensa) o bebê pode preferir o “mamilo artificial” que chamamos de chupeta. Gosto não se discute, o que se pode fazer é tentar convencer a adquirir hábitos mais saudáveis. Um ambiente familiar tranquilo ajuda muito nessas decisões.

Vejam as opiniões de duas cuidadoras sobre o tema:

  1. “Preocupada com a interferência da chupeta na amamentação do meu filho, que chorava com cólicas, terminei dando a chupeta na primeira semana de vida. Fiquei muito angustiada com a possibilidade da confusão de mamilo e tentei, a todo custo, evitar oferecer a chupeta, sem muito sucesso, pois, muitas vezes, era a única coisa que o fazia acalmar. Felizmente, acredito que por ele ser muito guloso, isso não causou nenhuma interferência com a amamentação. Talvez não se deva chamar a atenção da criança que chupa o dedo para o problema com frases do tipo ‘tire o dedo da boca’, mas sim tentar distraí-la, oferecendo-lhe uma coisa par pegar ou mostrando qualquer coisa de modo a que a criança tire o dedo da boca e vá perdendo o hábito.”
  2. “Creio que todas as mães que deram chupeta têm as suas desculpas literalmente (para tirar sua culpa, aliás, mãe coleciona culpas). As da minha faixa etária faziam parte da moda da época que era nunca dar chupeta. Você sabe que até nisso tem modismo. Eu recorri ao uso da chupeta quando descobri que meu peito funcionava como uma chupeta. Meus filhos mamavam, enchiam a pança e fiavam só chupando o mamilo, sem fazer esforço maior. Eu ficava exausta, sem dormir, com a chupeta ali devidamente pendurada. Quando dei a chupeta fiquei arrasada porque não houve a menor reação ou repulsa por parte dele, eu descobri que não passava de uma chupeta ambulante. Também a chupeta se tira, o dedo é mais complicado.”

8.7Fralda, mamadeira e peniquinho

Quando iniciar a retirada das fraldas?

De modo geral, o controle sobre os mecanismos que permitem reter fezes e urina se inicia por volta de 18 meses de idade. Para saber a hora certa de começar a retirar as fraldas, o melhor é esperar que as próprias crianças comecem a avisar ou indicar, de alguma forma, que evacuaram ou que urinaram. Essa é a hora de começar. A cobrança ou o treinamento feito antes da hora pode dificultar o processo e trazer complicações.

Recebi o texto pela internet e faço uma pergunta

Li que “a cobrança ou o treinamento feito antes da hora pode dificultar o processo e produzir consequências desagradáveis”. Mas quais dificuldades ou consequências desagradáveis? Problema urinário? Prisão de ventre no futuro? Sugiro que os médicos respondam, pois é isso que nos apavora.

A constipação intestinal é uma dessas consequências desagradáveis. Há crianças que se habituam a fazer cocô nas fraldas e ficam constipadas quando sem elas. Do mesmo modo, as crianças podem tentar não urinar quando sem as fraldas. Isso tudo, mais tarde, pode atrapalhar o controle da defecação e da micção e o uso do peniquinho e do vaso sanitário. Outras consequências que podem advir, sempre que se adotam modelos rígidos, são as de natureza psicológica. Assim, a relação mãe/filho pode ficar dificultada quando as crianças são obrigadas a deixar as fraldas, as quais representavam conforto e segurança. Por fim, ressaltamos que as crianças também têm senso crítico e ficam constrangidas.

O uso das fraldas por muitos anos atrapalha?

As crianças logo percebem que os adultos e os irmãos mais velhos não usam. Assim, é desejável que lá pelos 3 anos nenhuma delas use fralda. Elas se sentirão maiores, “grandes”, importantes, mais valorizadas, quando passam a usar calcinha como a mamãe e cueca como o papai. A manutenção da fralda a partir de certa idade, entre 2 e 3 anos, quando elas já percebem bem as diferenças entre o vestuário dos adultos e o das crianças maiores e o delas, passa a ser sentido de forma depreciativa. “Continuo a ser bebê” ou “meu coleguinha já cresceu, ele usa cuecas” e outros pensamentos desse tipo devem passar pelas cabecinhas desses que continuam a ser tratados como se estivessem com 1 ano de idade. É notado no consultório do pediatra que as fraldas prolongam a eliminação da urina e fezes nas vestes. É como se as crianças pensassem assim: “fralda é para fazer xixi e cocô”. Seguramente, a retirada das fraldas auxilia no uso do peniquinho. Após a introdução do peniquinho, o uso diurno das fraldas deve ser suspenso. Por cerca de seis meses, ainda devem ser usadas à noite, mas logo devem ser eliminadas. É comum observar que as crianças que fazem xixi à noite, na fralda, deixem de fazer quando ela é trocada por uma cuequinha ou calcinha.

Nos indiquem um modelo a seguir.

Esperem que seus filhos sinalizem o momento de iniciar a retirada das fraldas. Isso acontece quando eles avisam que fizeram cocô ou xixi lá pelos 18 ou 24 meses de vida. A partir daí, evitem o uso diurno e expliquem a seus filhos. Eles já conseguem entender muito bem que a cuequinha é o melhor para o garoto e que a calcinha é o melhor para a garota. Evidentemente, os exemplos do pai, da mãe e dos irmãos mais velhos devem ser dados e, sem dúvida, as crianças de 2 anos já conhecem bem essas peças do vestuário até porque foram usadas por cima das fraldas nos tempos anteriores. E se as crianças fazem suas necessidades nessas roupinhas mais sumárias, nada de reclamar ou de voltar atrás. Continuem a usar essas peças e, em pouco tempo, elas terão passado essa fase. Dessa maneira, a fralda é tolerada, à noite, por mais seis meses ou um ano, mas logo também deve ser eliminada, sobretudo para as crianças que apresentam controle sobre o xixi e o cocô de dia. O tema é significativo e tem motivado, inclusive, a elaboração de livros e textos como o Tirar a fralda sem choro e sem trauma, escrito por Penny Warner e Paula Kelly, editado pela Ground.

Colhi na grande rede a seguinte orientação no blog Coisas de Mãe que nos ajuda a enfrentar essa fase.

Vamos expor o que a senhora colheu na Internet:

Desde outubro, mais ou menos, que a Maria não usa fraldas de dia. Houve alguns acidentes, houve uma fase em que tivemos que construir um mapinha de autocolantes de “prenda” por cada xixi feito no devido sítio. Mas ultrapassados os obstáculos, e o desfralde está completo.

O desfralde da noite teve início há cerca de um mês. Até agora, tem havido alguns acidentes, mas nenhum descalabro. Normalmente, coloco-a para fazer xixi antes de se deitar e, cerca das três da manhã, levo-a ao banheiro. Essa rotina tem funcionado bastante bem. Ontem e anteontem, dormiu a noite completa, sem a colocar para urinar no meio da noite e acordou seca, o que é bom (http://www.coisasdemae).

Aproveito para deixar aqui um “truque” que li um dia num blog que agora não me recordo o nome. Para que durante a noite, quando acontecem os acidentes, seja mais rápida a troca do lençol, colocar sobre o colchão um protetor de colchão.

Quando usar o peniquinho?

Não pode ser muito cedo e nem com muita “pressão”, com prazo definido, com muita cobrança. Há consenso de que as crianças que são induzidas muito cedo a usar o peniquinho por familiares muito rígidos podem ser prejudicadas na relação com os adultos e com o seu corpo. Podem, por exemplo, apresentar constipação intestinal e dificuldade de controlar a emissão da urina e das fezes, tudo de ordem emocional. Esse assunto é mais uma boa oportunidade para mostrar amor, tolerância, paciência e respeito ao individualismo. Há crianças que amadurecem muito rapidamente e deixam de molhar a cama, à noite, aos 12 meses de idade, e outras que amadurecem muito lentamente e só conseguem isso aos 6 anos de idade.

Então, qual a idade?

Lá pelos 2 anos é tempo de apresentar o peniquinho às crianças. É essa a idade em que elas andam, começam a correr e são capazes de perceber que a bexiga e o reto estão cheios e que é hora de fazer xixi e cocô. É essa a idade em que as crianças têm amadurecimento para começar essa nova fase. Também é nesse período que surge um conjunto de características psíquicas: percepção da importância da higiene e a valorização de tudo o que têm e o que fazem, inclusive o xixi e o cocô. Nesse contexto emocional e afetivo dos pequenos de 2 anos, é importante valorizar e elogiar as conquistas. Mas é muito importante não valorizar excessivamente os avanços. Há sempre o risco de supervalorização desses fenômenos naturais e a manipulação das diversas situações como forma de controlar os pais. Então, a época para começar é aquela em que as crianças têm capacidade de reconhecer o que está se passando em seu corpo. É evidente que existem mecanismos facilitadores. Por exemplo, se existe na casa outra criança maior usando o peniquinho, é evidente que a mais nova assista às “aulas” práticas. Mas há os mecanismos complicadores. E aqui se sobressai a ansiedade da mãe, da vovó, da babá que não toleram “menino sujo” com “cheiro de cocô”.

E o que fazer antes disso?

Deixar as crianças fazerem cocô e xixi na fralda e cuidar da sua higiene com um sorriso nos lábios, sem reclamações, sem protestos, sem críticas. Se alguma coisa tem que ser falado diga “seu cocô está lindo”, “que legal é fazer xixi”. As agressões do tipo “você é sujo”, “menino fedorento” e coisas desse tipo são absolutamente indesejáveis e podem prejudicar o amadurecimento emocional e dificultar o controle da micção e da defecação. Assistir ao irmão mais velho, ou ao papai ou a mamãe usar o vaso sanitário, com algumas explicações muito singelas e sem discurso erudito, ajudam no processo.

Mas quando começar a usar o peniquiho?

Vocês devem apresentar o peniquinho quando eles:

  • Entendem o que quer dizer xixi, cocô, seco, molhado, limpo, sujo e peniquinho. Esses significados, com exceção do último, são ensinados e aprendidos a partir de 1 ano de idade, de uma forma bem natural, legal, sem pressa ou pressão.
  • Percebem o significado da higiene e gostam de estar limpinhos. O valor da higiene é ensinado após 1 ano e a significação do banho, do cuidado com os dentes e com as unhas e do asseio após a micção e a evacuação são comportamentos aprendidos. Além de trocar as fraldas e fazer a higiene após a defecação e a micção, com naturalidade e alegria, é importante reforçar com palavras do tipo “agora você está com o bumbum bem cheiroso”. Mesmo dormindo as crianças percebem a importância de estarem secas e limpas e preferem que a fralda seja trocada.
  • Reconhecem os sinais de que está na hora de urinar e de defecar e as mães aprendem a “ler” seus filhos e reconhecem que está na hora quando eles: emitem sons, como grunhidos, adotam certas expressões faciais, colocam as mãos sobre os genitais, tentam tirar as roupas, andam de um lado para outro, sentam-se de cócoras, contorcem-se ou soltam gases e sentam com as pernas encolhidas. Vocês devem ajudá-los a entender esses sinais perguntando da forma mais natural possível: “quer fazer xixi? Quer fazer cocô?”. Ensine-os, estimule-os a procurá-los nessa situação.
  • Compreendem a relação entre roupas secas e o uso do peniquinho e têm a capacidade de adiar por pouquinho tempo o ato de urinar ou defecar. É possível que nessas tentativas, de adiar um pouquinho, eles voltem com xixi ou cocô na roupa, mas que não muda a montagem do exercício de tentar exercer certo controle sobre essas necessidades fisiológicas.

Qual o peniquinho? E como apresentá-lo às crianças?

O peniquinho deve ser montado numa base larga que permita um bom apoio e boa sensação de segurança. Imaginem o que é a criança sentar pela primeira vez num deles e ter a impressão de que o penico vai escorregar e ela cair. O peniquinho adaptado a uma cadeirinha, que permite que as crianças se sentem e levantem sem a ajuda de um adulto, é boa opção. A cadeirinha oferece mais sensação de segurança e de controle do processo, aspectos essenciais para a continuidade do aprendizado. E há os com motivos infantis, como os montados em carrinhos que ajudam muito os meninos que estão habituados a brincar com eles. Existe até um peniquinho musical. A estreia do peniquinho deve ser bem natural, simples, sem muito floreio e novamente sem discurso erudito. Para valorizar o “equipamento”, a compra deve ser feita com certo ritual, como se fosse a compra de um presente, semanas antes de ser usado para sua real finalidade. É útil falar na compra de uma cadeirinha diferente, especial. A criança pode ajudar a decorá-la e a pintar o seu nome.

Mas como usar o peniquinho?

Uma ideia muito simples é, lá pelos 2 anos de idade, introduzir dois peniquinhos na vida das crianças. Um para ficar misturado aos brinquedos, para as crianças fazerem dele o que quiserem: colocar na cabeça como chapéu ou usar como depósito de brinquedos. O outro para ficar no banheiro. Vez ou outra, a mãe transfere o cocô da fralda para o peniquinho do banheiro. Em seguida, lança o cocô na bacia sanitária. Isso é feito sem palavras, sem discursos. As crianças vão perceber que aquele peniquinho, que fica lá no banheiro, é para fazer cocô e logo, logo, vão experimentar usá-lo. E também vão logo perceber que o cocô é para ser colocado na bacia sanitária que logo será usada se existe um adaptador para uso dos pequenos. Outro esquema é ter apenas um peniquinho mantido ao lado da bacia sanitária que é usada por crianças maiores ou pelos adultos. É claro que algumas palavrinhas sobre a sua função são úteis. A observação dos irmãos maiores e dos pais usando a bacia sanitária e vendo outras crianças usando o peniquinho são excelentes mecanismos facilitadores.

O que fazer após o uso do peniquinho?

Logo após o uso, o peniquinho deve ser lavado para que elas percebam a importância da higiene e, talvez, umas palavrinhas desse tipo ajudem: “o peniquinho gosta de ficar limpo. Vamos lavar bem direitinho para ele estar prontinho para a próxima vez”.

Gostaria de expor como retirei a fralda da minha filha e como introduzi o peniquinho.

“Comecei a retirar a fralda quando minha filha completou 1 ano e 6 meses de idade. Não tive muito sucesso no início. Mesmo sendo muito esperta e já se comunicar muito bem através da fala, o xixi e o cocô sempre saíam na calcinha e não no banheiro. Como trabalho o dia inteiro fora de casa, sempre achava difícil cobrar da babá um bom resultado.

Com a entrada na escola, quando completou um 1 e 8 meses, achei que iria conseguir concluir o processo de retirada da fralda. Isso porque no colégio havia um período em que as crianças ficavam brincando apenas de calcinha e cueca, mas não observei grandes avanços em casa. Apenas quando ela completou 2 aninhos (bem na época das férias escolares) que vi um grande avanço na retirada da fralda. Eu e minha mãe deixamos a garotinha sem fraldas o dia inteiro e começamos a levá-la para o penico a cada meia hora. Algumas vezes, ela fazia outras não. Com o tempo, fomos observando e aprendendo os horários do xixi e do coco. Assim, não era mais necessário levar a menina para o banheiro a cada meia hora. Desde o início dessas tentativas, retiramos de vez a fralda nas sonecas da tarde e nas saídas e passeios. Vimos que na rua ela controlava bem a ida ao banheiro. Mas em casa sempre relaxava.

Para corrigir isso, criamos uma recompensa. A cada acerto, ela recebia um adesivo da cartela que ela mesma escolheu na loja (desses bem baratinhos mesmo). Em poucos dias, ela ficou 100%. Ela sempre vibrava quando recebia o adesivo. Ainda no banheiro eu já pedia para ela escolher o próximo adesivo. E isso gerava uma expectativa nela. Várias vezes, a vimos correr para o banheiro dizendo que iria ganhar o tal adesivo. Para não ficar muito repetitivo, alternei também com uma caixa de lápis de cor e massinha de modelar. A cada acerto, ela escolhia uma cor diferente e deu super certo.”

Falem mais sobre o adaptador para o assento sanitário.

Essa opção tem o inconveniente de, ao usar a bacia sanitária do adulto, a criança não poder tocar os pés no chão. Ela só pode se sentar nesse assento ou sair dele com a ajuda de um adulto. Lá pelos 5 ou 6 anos de idade é que as crianças poderão usar sem o apoio dos adultos os sanitários usados por seus pais. Os ambientes coletivos, como escolinhas, oferecem bacias sanitárias para os pequeninos que ajudam nessa fase de adaptação. Facilmente, eles estabeleçam ligação entre essa bacia sanitária pequenininha, a bacia sanitária dos adultos da sua casa e o peniquinho.

Pareceu tão simples. É sempre assim?

Essa é a orientação geral que deve ajudar a encaminhar bem a transição cocô e xixi na fralda para o peniquinho na maior parte das crianças. Mas há situações bem diferentes e mais difíceis e o pediatra deve ser consultado.

O que mais ajuda a usar o peniquinho sem traumas?

Há filmes em DVD e livros como o Vamos usar o peniquinho, de Beatriz Matioti Odriozola, relatos na internet ,como o excelente Diário do Victor: largando as fraldas – novas metodologias, encontrado no blog http://diariodovictor.blogspot.com, e bonecas (Mikinha com peniquinho) que ajudam. Sempre destacamos que os textos fornecem orientações gerais que podem não se aplicar a uma situação específica. Por isso, a orientação profissional é sempre importante para a discussão de problemas e condições particulares.

8.8Chamar a criança de “meu bebê”

Observamos crianças de 4, 5 ou mais anos de idade vestindo fraldas, usando chupetas e tomando leite na mamadeira como se ainda fossem bebês. Assistimos a mães chamando, carinhosamente, seus filhos de “meu bebê” ou “meu neném” sem se dar conta de que eles já cruzaram essa fase. Sabemos ainda que as mães perguntam como usar o peniquinho e como ajudar as crianças a superar a fase do xixi e cocô na roupa. Então vamos debater. Quem começa?

Chamar as crianças de 4 anos de bebês é legal?

O fato isolado de chamar crianças de 4 anos de bebês ou nenéns já é um erro. Há um conjunto de atitudes, mais adequadas às de menos idade, que atrapalha mais. Além de chamá-las de “bebês”, os pais as vestem com fraldas, dão mamadeira, estimulam o uso da chupeta e adotam uma série de outros comportamentos inapropriados como a dependência das babás. Isso dificulta o passar da fase do bebê para a do garoto/garota. Os pais precisam criar mecanismos para que seus filhos passem de uma fase para a seguinte, como se passassem de uma série para outra na escola. As crianças de 4 anos que falam com desenvoltura, que correm, brincam e competem com destreza, que ligam e desligam aparelhos eletrônicos com habilidades que até surpreendem, comem com suas mãos, montam quebra-cabeças, vão ao colégio e fazem muitas outras coisas de forma independente, não devem ficar felizes ao serem chamadas de bebês. Elas dizem “eu já sou grande”. Essas crianças preferem ser comparadas com as maiores, espertas, que correm, que fazem coisas desconhecidas para elas, que falam no telefone, que ligam e desligam a televisão e o computador e jogam bola.

É inacreditável!

Os termos bebês e neném são ótimos, maravilhosos, carinhosos, sobretudo quando cercados de abraços, beijos e afagos, se aplicados a crianças novinhas. Mas é um erro continuar a usar essas denominações para aquelas de mais de 2 anos que começam a usar o peniquinho e que iniciam a retirada das fraldas. Assim, lá pelos 2 anos, vamos encher de carinhos e de afeto as palavras “minha garota”, e “meu garoto” ou equivalentes e vamos esquecer os termos bebês e neném.

8.9Roer unhas: onicofagia

O hábito de roer as unhas é comum? Qual a causa?

A onicofagia ocorre em 28 a 33% das crianças de 7-10 anos e em 45% dos adolescentes. Acomete tanto meninos como meninas e começa por volta dos 3 a 5 anos. A maior parte rói as unhas das mãos, mas certas crianças roem as dos pés. Muitas logo abandonam o hábito, mas outras continuam. O hábito está, provavelmente, associado à ansiedade, isolamento, sedentarismo. Crianças com a vida rica de atividades prazerosas, que veem pouca televisão, que praticam esportes, têm chance menor de desenvolver ou de manter o hábito. A ansiedade exacerba a prática. Certamente, a criança também rói as unhas em outros momentos, mas durante os jogos do seu time ela nem consegue se conter. Os hábitos de autoagressão, caracterizados por uma ação repetitiva, involuntária e compulsiva, maníaca, parecem ser uma resposta a um estado ansioso em indivíduos que assim procuram descarregar suas tensões. Embora existam fatores emocionais envolvidos, não se pode afirmar que todas as pessoas que apresentam onicofagia tenham doença psíquica.

Quais os prejuizos que o hábito pode trazer para a saúde?

Ocorrem alterações estéticas e podem acontecer infecções bacterianas e/ou fúngicas das unhas e dos tecidos vizinhos. Acontece ainda redução do comprimento, serrilhamento das bordas distais e fissuras ungueais. Nos casos mais antigos, a largura das unhas supera o comprimento e podem ser observados múltiplos sulcos transversais, os quais os dermatologistas chamam de “unhas em tábua de lavar roupas”. As infecções secundárias, nos casos mais graves, acometem a matriz ungueal (aquela parte mais branca) podendo haver perda permanente das unhas ou o aparecimento de verrugas ao redor ou abaixo delas. Acontecem raramente osteomielites que são infecções nos ossos das falanges.

Há crianças que usam canivetes para arrancar pedaços de unhas?

Esse comportamento é mais raro e está mais associado à doença psíquica ou mental. É uma variante da onicofagia, a onicotilomania. A pessoa afetada tem o hábito de traumatizar as unhas, em geral arrancando pedaços com tesouras, facas, lâminas de barbear, cortadores de unha, canivetes etc. É um tipo de automutilação que muitos que a praticam negam e outros admitem, mas sempre com uma explicação fora da realidade, como o propósito de extrair parasitas ocultos sob as unhas. Outra variante é a perionicofagia. As pessoas acometidas mordem ou arrancam a pele em volta das unhas, provocando fissuras (cortes), dor local e infecções secundárias.

Como tratar esses desvios do comportamento?

O tratamento de todos estes problemas é parecido. Não é fácil. Os pediatras têm dificuldade em lidar com o problema, pois há escassez de literatura científica sobre o assunto. O primeiro aspecto a destacar é que não devem ser adotadas atitudes punitivas, depreciativas, agressivas, hostis. Além de não ajudarem, agridem o psiquismo de quem as recebe. Não deve ser estipulado prazo para que o problema seja resolvido, pois isso vai atrapalhar a relação filhos/pais. Lutar contra o isolamento, sedentarismo, excesso de TV, criar atividades gostosas de serem vividas, colocar em escolinha de arte, estimular ao máximo a vida ao ar livre e a prática esportiva são atitudes que devem produzir algum resultado. Conversar, explicar os malefícios da onicofagia, vez ou outra, sem pressão, deve ser útil. Mostrar como deve ser o asseio das unhas, periodicamente, de forma tranquila, em vocês mesmos e na criançada, é importante. Quando o roer unhas faz parte de problemática emocional ou física de certa importância, ou quando começar a causar lesões importantes nos dedos, o pediatra deverá ser consultado para que o tratamento seja individualizado. Podem ser usados remédios locais, visando a prevenir as infecções e aliviar a dor. O tratamento por psicólogos ou psiquiatras deve ser considerado em alguns casos.

Passar pimenta nas unhas ajuda a resolver o hábito?

De modo geral não. A aplicação local de pimenta e de outros produtos —esmalte com sabor amargo — é considerada um método arcaico, agressivo e que não respeita o conhecimento que se tem sobre o problema. Ainda há o risco de a criança levar os dedos apimentados aos olhos, causando um terrível ardor e conjuntivite química.

8.10Ingerir cabelos: tricotilomania

E arrancar os cabelos é uma mania? E as causas?

Arrancar cabelos sem fins estéticos é um hábito não muito raro em crianças, adolescentes e até adultos. O tricotilomaníaco pode apresentar outras práticas como ferir a pele ou roer as unhas. Geralmente, a criança alisa os fios de cabelo individualmente e seleciona os que serão arrancados e os descreve como muito finos ou muito grossos, escuros, fraquinhos etc. Cerca de 50% delas praticam uma variedade de comportamentos estranhos com o cabelo arrancado: passam-no nos lábios ou narinas, 1/3 delas morde a raiz, 5 a 18% engolem o cabelo arrancado (tricofagia), o que pode causar o tricobezoar — “bola de cabelo” no estômago. A tricotilomania é um desvio de comportamento. É um problema multifatorial e frequentemente exige uma abordagem multidisciplinar. É associado à grande ansiedade, estresse e depressão, e ao distúrbio obsessivo-compulsivo. Às vezes, são detectados fatores precipitantes: problemas na escola, nascimento de irmão, separação dos pais, entre outros.

Essa mania aparece em qualquer idade?

A idade mais comum é entre 9-13 anos. Ocorre em crianças que têm necessidade de estar sempre “trabalhando” com os dedos, preferencialmente com materiais finos, pontiagudos: arrancando folhas de gramas, fios de cobertores felpudos, cabelos de irmãos, da mãe, de animais de estimação, cílios de bonecas e pelos de móveis estofados. É importante distinguir a tricotilomania do hábito de arrancar cabelos em crianças menores de 5 anos, um evento raro. Algumas delas puxam os cabelos das mães enquanto estão sendo cuidadas. Parece que esse comportamento é uma exploração ambiental normal, benigna, diferente do que ocorre na fase pré-puberal. Em crianças em idade escolar, arrancar os cabelos da cabeça ocorre geralmente durante o cochilo ou ao deitar-se. Esse hábito não está associado a situações de estresse ou comportamento obsessivo-compulsivo e costuma ser autolimitado. Não há diferença com relação a sexo em crianças e adolescentes. Entre adultos predomina nas mulheres.

Os cabelos podem até desaparecer?

Existem diversos graus de tricotilomania que levam desde a pequenas falhas de cabelo à alopecia, que é ausência de cabelos em determinados locais, ou até à calvície total. Algumas crianças também arrancam as sobrancelhas e pelos de outras partes do corpo. Em raros casos, a tricotilomania pode ser observada em locais pouco imagináveis, como as regiões púbica, perianal, nasal e orelhas.

Quais as consequências da tricotilomania?

Algumas ocorrem na esfera psicossocial. O sentimento de vergonha pelo hábito ou pela aparência leva o indivíduo a se afastar das atividades sociais. Alguns pacientes têm que usar apliques ou perucas e há queda da autoestima. Ocorrem danos físicos como infecções secundárias com formação de feridas e cicatrizes no couro cabeludo. O tricobezoar pode causar sintomas gastrintestinais, tais como obstrução e/ou perfuração intestinais, pancreatite, icterícia obstrutiva e anemia. Os fios de cabelo podem voltar a crescer em um período de dois a seis anos.

Há tratamento para esse desvio do comportamento?

Deixar os cabelos bem curtinhos, a medida mais popular, não funciona em todos os casos. Mas há relato de sucesso com o procedimento. O tratamento é difícil e requer forte relação médico-paciente-familiares. Na criança, por tratar-se mais frequentemente apenas de desvio do comportamento, o prognóstico é melhor. Em adolescentes e adultos, onde o componente psicopatológico está muitas vezes presente, haverá sempre maior dificuldade para o êxito terapêutico. O tratamento não farmacológico, baseado em apoio familiar e aconselhamento psicossocial, deve ser considerado a primeira linha de terapia. É bem-sucedido em boa parte dos casos. É importante tratar os problemas secundários: anemia, gastrite e infecções de pele. O tratamento cirúrgico ou endoscópico está indicado para o tricobezoar. Vocês podem obter maiores informações na internet em um grupo de apoio chamado SOS Tricotilomania, através do site: http://tricotilomaniaonline.tripod.com

8.11Perversão do hábito alimentar

E as perversões do hábito alimentar?

Algumas das perversões são devidas a carências orgânicas que levam à vontade de comer qualquer coisa que contenha a substância que está faltando. O exemplo mais comum é o da criança que come terra, barro, cacos de telha ou qualquer coisa que contenha argila (geofagia). É a mais frequente a perversão do hábito alimentar. Essa vontade ocorre pelo fato de o organismo estar carente de ferro. A carência alimentar e os vermes intestinais causam o problema e, quando a falta de ferro é muito grande, há a necessidade de consumi-lo onde ele estiver mais facilmente disponível: na terra. O tratamento é o da anemia carencial e da parasitose como será descrito nos capítulos específicos. As grávidas apresentam esse problema, sobretudo, em locais onde não há assistência adequada. As mulheres perdem sangue com a menstruação e as grávidas necessitam de maior quantidade de ferro porque precisam repassá-lo ao feto. Daí a importância dos exames no período pré-natal que, entre muitas outras coisas, detecta se a gestante tem deficiência de ferro.

Há outras causas para a ingestão de substâncias não comestíveis?

Há uma grande variedade de substâncias que são ingeridas, algumas até difíceis de imaginar. A perversão do hábito alimentar pode ter várias causas. As causas orgânicas, como a geofagia que acabamos de discutir, são as mais frequentes. Outras causas orgânicas mais raras, que levam à mudança no comportamento das pessoas, são os tumores cerebrais, a atrofia cerebral, etc. Além das causas orgânicas, pode haver causas psíquicas que levam a distúrbios do comportamento como alcoolismo, depressão, comportamento obsessivo-compulsivo, esquizofrenia, demência e outras.

Algumas crianças engolem parafusos e pregos?

Esse é um exemplo de perversão do hábito alimentar causada por doença psíquica. Nesses casos, as pessoas acometidas praticam a autoagressão pela vontade irresistível de ingerir as coisas mais estranhas, inclusive fezes.

Hábito de comer fezes?

A coprofagia é mais comum em animais: cachorros, macacos, ratos de laboratório, entre outras espécies. Em seres humanos, é mais observada em pacientes que apresentam retardo mental, depressão e distúrbio obsessivo-compulsivo.

Quais as consequências para a perversão do hábito alimentar?

São várias, a começar pela rejeição social. O hábito não higiênico de ingerir substâncias estranhas pode levar vermes aos intestinos. Outras possíveis consequências são as intoxicações. A intoxicação pelo chumbo é uma das mais severas, causando dores intestinais enormes e vômitos que podem levar à desidratação, além de sintomas neurológicos como irritabilidade, astenia, torpor e até convulsões. O chumbo é encontrado principalmente em tintas, daí a preocupação com as crianças entre 1 e 5 anos, cujo instrumento mais importante de explorar e conhecer as coisas é a boca. O risco de intoxicações aumenta, para crianças de qualquer idade, quando existe a mania de ingerir substâncias não comestíveis como pedaços de paredes e objetos pintados. Há outras consequências que variam de acordo com o tipo de material ingerido. Pessoas que ingerem fezes estão mais expostas a infecções por bactérias e parasitas intestinais. A ingestão de moedas pode levar à necessidade de retirada por endoscopia ou até por cirurgia.

Qual o tratamento para a perversão do hábito alimentar?

O tratamento depende da causa. Algumas causas orgânicas exigem tratamento relativamente fácil, como na geofagia. Para outras, não há tratamento. Não há meios de tratar portadores de importantes doenças cerebrais. Para eles, a preocupação é fazer com que, mesmo com o problema, obtenham a melhor qualidade de vida possível. Nesses casos, devem-se afastar quaisquer objetos que possam ser ingeridos. Quando a perversão é determinada ou acompanhada por componente psíquico, é importante o acompanhamento por psicólogos e psiquiatras.

A decisão do encaminhamento ao psicólogo ou psiquiatra deve ser tomada em conjunto pelo pediatra e familiares. Alguns estudos mostram alguma eficácia com o tratamento com medicamentos, terapia comportamental e técnicas de relaxamento. Os resultados desse tratamento especializado, quando feito por psicólogos afeitos ao problema, são bons, chegando a quase 100% de êxito em crianças e adultos. Importante é que o portador do problema, como em outras situações como a obesidade infantil, por exemplo, aceite submeter-se ao tratamento, o que nem sempre acontece. Nos casos de tricotilomania, observou-se cura espontânea ou com o mínimo de intervenção quando o diagnóstico foi feito com menos de seis meses do início. Além da psicoterapia, responsável pela cura de aproximadamente 90% dos casos, o tratamento com drogas pode ser adjuvante. Alguns estudos mostram que os efeitos dessas drogas e os de placebo foram iguais. Como sempre temos citados, o texto pretende informar sobre o assunto, mas não substitui a avaliação médica.

8.12Promoção do uso saudável e seguro das telas, novas tecnologias e mídias sociais

A televisão e o computador: amigos ou inimigos?

O uso da tela e de tudo o que se relaciona com ela — celular, TV, tablet, computador, game station — e da sedutora Internet têm sido debatidos por pediatras, educadores, fisiatras, terapeutas ocupacionais, psicólogos, comunicadores, sociólogos, políticos, entre outros profissionais e familiares. As opiniões dos que têm se dedicado aos temas são baseadas mais em posturas doutrinárias do que em fundamentos científicos. Teremos dificuldade de abordar o tema sob a ótica científica. Mas vamos tentar, mesmo que tenhamos que apelar mais para os nossos conceitos sobre a vida e sobre o uso que fazemos dela. Os responsáveis por esta segunda edição do Conversando com o pediatra agradecem a colaboração do professor Cristiano Nabuco de Abreu, um dos principais estudiosos do tema no Brasil.

É difiícil criticar o que faz parte da rotina diária!

Antes era o rádio, o fantástico rádio. Agora são o celular e anexos, o computador e a Internet. São os mais importantes meios de comunicação cultural que a humanidade tem. O uso da tela, ao transmitir a imagem em movimento com sonorização simultânea, favorece o aparecimento de um clima de magia que suplanta o do próprio cinema. Assiste-se comodamente, à vontade, no tempo e na hora que se quiser, dentro e fora da própria casa. A cada dia, por todo o mundo, milhares e milhares de crianças, adolescentes ou adultos de todas as idades passam horas assistindo a programas transmitidos por esse eficiente meio de comunicação de massa.

O último levantamento produzido pelo portal Wearesocial.com apontou para uma população de 8 bilhões de habitantes no planeta para, aproximadamente, 6 bilhões de celulares, ou seja, as telas digitais são mais abrangentes do que o saneamento básico no mundo (8 a cada 10 pessoas possuem telas). No Brasil, já existem mais celulares do que habitantes. Estudo realizado no IMIP mostrou que mais da metade das crianças com até 2 anos de idade passam mais de duas horas em frente às telas.

A tecnologia inova continuadamente. Os smartphones passaram a integrar o dia a dia das pessoas com as suas diversas funções na área da comunicação, informação, financeira, lazer, etc. E as inovações são quase que diárias com novos lançamentos de celulares, cada vez com mais recursos tecnológicos. As pessoas, hoje, não vivem sem o celular e as crianças, evidentemente, também são atraídas cedo por essa nova tecnologia. Muitos aspectos da vida humana atual vêm se beneficiando com essas novas tecnologias, como, por exemplo a telemedicina, a rápida e precisa comunicação entre as pessoas, o pleno acesso à informação, à educação através de telecursos e outros meios. Entretanto, existe também o lado nefasto das telas. Além de informações falsas que trazem prejuízos para todos, no caso das crianças, em especial, estudos recentes têm mostrado que o uso excessivo de telas está associado com vários problemas, tanto psicológicos, como físicos e sociais, tais como atraso na aprendizagem, retardo do desenvolvimento, alterações no sono, aumento da impulsividade, déficit de atenção, ansiedade, depressão, sedentarismo, obesidade, inaptidão física, problemas posturais e músculoesqueléticos, alterações oculares (síndrome do olho de computador), isolamento social, déficit de comunicação e muitos outros problemas.

É desejável que todas as casas disponham de internet?

As telas, ligadas à internet, são as maiores fontes de transmissão rápida, eficiente, múltipla, diversificada e atualizada do saber. É essa a razão para que os governos falem tanto em inclusão digital. Quem não dispõe dessas ferramentas fica em desvantagem. Tem menos oportunidades educacionais, menos experiências culturais, menos intercâmbio de ideias. Vocês precisam saber sobre vampiros, por exemplo? Sobre pulgas? Sobre sua cidade? Entre na Internet. Com certeza, vão encontrar tudo sobre a Idade da Pedra, sobre a Idade Média, sobre os tempos atuais. É só saber como pesquisar, coisa que se aprende com o uso e com a necessidade, sem grandes dificuldades. Além disso, as telas podem estar disponíveis a qualquer hora e em qualquer lugar, basta um celular conectado à internet. Por outro lado, a tela é uma verdadeira magia, sendo capaz de “fixar” na cadeira crianças que mal deixaram de fazer xixi na cama e gente de todas as idades. Essa mania pode causar excessos, o vício, acarretando vários problemas para a criança.

As crianças são mais vulneráveis aos malefícios das telas?

Embora a questão não tenha sido cientificamente ainda bem respondida, lançamos mão de um ditado que nos ensina que “não precisamos ser meteorologistas para saber a direção do vento”. Assim podemos afirmar que as crianças sofrem mais que os adultos as consequências danosas das telas. Elas devem brincar correr, competir, praticar esportes, interagir com a natureza e com os colegas. Essas atividades estimulam as habilidades motoras e cognitivas como o raciocínio criativo, a consolidação da memória de longo prazo e outras. O imobilismo na frente das telas as prejudica. As atividades ao ar livre favorecem a socialização, capacidade de vibrar com uma vitória ou de aceitar a derrota, competência para se defender, desenvolvimento do sistema imunológico, desenvolvimento da criatividade, dentre outros aspectos benéficos. As telas não estimulam a aquisição dessas habilidades. A estrutura psicológica das crianças é influenciável pelas questões ambientais desde a mais tenra idade. Elas têm mecanismos para escapar da robotização do comportamento, mas essa capacidade tem limites. As que não se sentem relacionadas de forma agradável e criativa com as famílias, podem sentir-se abandonadas e, nessa solidão, procurar algo mágico que lhes levem para a fantasia. Com um simples toque, essas crianças, muitas delas pouco estimuladas, passam a interagir com a telinha que exibe um mundo fantasioso, lindo, maravilhoso, e, com outro toque, sem esforço, sem luta, mudam para outro tema, mudam para outro tema e assim passam horas. Acrescentamos ainda a incapacidade crítica da criança. O que ela vê ou ouve nas telas passa a ser verdade absoluta. Cabe aos educadores e aos pais impedirem que temas impróprios às crianças e adolescentes sejam vistos. Embora possa haver algum debate sobre essa ótica, nós acreditamos que esses acessos às telas, de forma indiscriminada pelas crianças, possam influenciar no desenvolvimento dos bons costumes e da integridade moral. Portanto, há que se acompanhar as atividades da meninada nas telas. A internet, da mesma forma que traz o mundo com toda a sua cultura, com todos os seus avanços científicos, com todas as suas curiosidades, traz também os perigos da ilegalidade, da perversão sexual, do uso de drogas e de todos os desvios comportamentais. Os jovens precisam dos ensinamentos dos pais e responsáveis sobre o bom uso desses instrumentos e, também, do seu exemplo. Há ainda a questão do desenvolvimento das habilidades interpessoais como a empatia, por exemplo. Ela é uma das bases do que se chama na mídia leiga de inteligência emocional e que só pode ser “treinada” através das interações olho no olho, restringida pelo uso das telas digitais.

O bullying também tem sido evidenciado na internet?

Crianças e adolescentes estão difamando ou intimidando seus colegas através da grande rede ou do telefone celular. O cyberbullying é mais uma triste realidade dos nossos tempos. A frequência é muito elevada e há estudos mostrando que um terço dos jovens ativos na internet foram vítimas. Cerca de 16% dos jovens internautas do Brasil conhecem e estão preocupados com o problema. Há grupos internacionais buscando alternativas para evitar e combater esse tipo de bullying. Uma entidade britânica (www.beatbullying.org) criou uma alternativa para combater esse tipo de comportamento. Tanto aqueles que buscam orientações como aqueles que dão conselhos têm a mesma faixa etária, que vai dos 11 aos 18 anos. Alguns pais têm sido judicialmente punidos pela prática de bullying de seus filhos e essa é mais uma razão para que eles estejam extremamente ligados no que a turminha está fazendo quando está com suas telas ligadas.

O excesso de telas causa prejuízos para a visão?

Os prejuízos visuais pelo uso excessivo das telas estão provados. O uso exagerado tem cobrado dos nossos olhos o que eles não estão preparados para oferecer. Surgem problemas que hoje são conhecidos como “digital eye strain” — fadiga ocular digital ou fadiga visual — que pode atingir entre 70 e 90% dos que ficam muitas horas por dia na frente da tela. Essa fadiga aumentou mais ainda com a pandemia da Covid-19. Eles podem apresentar dor de cabeça ou na nuca, olhos vermelhos, lacrimejamento oxidativo do filme lacrimal, resultando no aumento do estresse ocular, ou olhos secos, sonolência e vista cansada. Mais recentemente tem sido associado também a essa síndrome a miopia e a esotropia (estrabismo) em crianças, em especial, as mais novinhas. Pesquisa com mais de duas mil pessoas que usam o computador mais de 12 a 14 horas por dia mostrou a relação direta entre o mau uso do computador e o aumento da dor de cabeça, do olho seco e até da miopia entre crianças. O problema é causado por muitos fatores, entre os quais se destacam a redução dos movimentos oculares e dos fechamentos e aberturas das pálpebras (isso reduz a lubrificação dos olhos pelas lágrimas) e o excesso de estímulos gerados pelas telinhas (o monitor de vídeo gera 16,7 milhões de cores) que sobrecarregam a musculatura responsável por regular a entrada de luz até a nossa retina. Então estejam seguros de que o excesso de horas na frente do computador ou das outras telas dos brinquedos eletrônicos é maléfico para a visão e que são comuns o desencadeamento da miopia transitória nas crianças e a vista cansada (presbiopia) nos adultos. Sabe-se que, longe das telas, a frequência do piscar é de uma vez a cada 4 segundos, enquanto, na frente de uma tela, a cada 9 segundos.

Qual a idade para a criançada começar a ter contato com as telas?

Infelizmente é comum constatar que as babás e os pais alimentam os bebês ao mesmo tempo em que veem suas telas. Então eles, hoje, estão assistindo às telas a partir das primeiras horas de vida. Isso é inquestionável e provavelmente imutável. Elas começam a mostrar desejo de assistir às telas a partir dos 6 meses de idade e os “danadinhos”, antes de 1 ano, já sabem ligar e desligar o aparelho e mostrar uma interação muito grande com ele. Segundo a Sociedade Americana de Pediatria e a Sociedade Brasileira de Pediatria, se sugere zero tempo de telas até os 2 anos. Por exemplo, “apenas” 50 minutinhos por dia resulta, ao final dos 2 anos de idade, nada menos do que 240 mil palavras não aprendidas.

Quais as interferências das telas na saúde?

Estudos para embasar cientificamente as discussões foram dirigidos para elucidar a relação entre o sedentarismo e a obesidade, bem como entre o sedentarismo e as doenças do coração (infarto do miocárdio) e outros problemas vasculares (acidente vascular cerebral) que estão relacionados à falta de atividade física. Os que dedicam muito tempo às telas são indiscutivelmente sedentários. Assim, os críticos do uso abusivo desses equipamentos acham que existe uma relação entre o estar parado diante das telas e essas terríveis doenças crônicas que começam a atingir jovens e até adolescentes.

As telas influenciam no consumo de alimentos pelas crianças?

Sobre esse assunto, não há discórdia. A sedutora propaganda de alimentos é capaz de mudar, de forma marcante, os hábitos alimentares da criançada o que gera obesidade, cáries, hipertensão arterial, gastrite, esofagite e vários outros problemas. Mais de 50% da publicidade voltada para crianças é de alimentos e, mais de 80% deles, têm alto teor de açúcar, gorduras e sódio, além de vários aditivos químicos, ou seja, são alimentos processados, muitos deles ultraprocessados. A OMS tem alertado para a comprovada associação do consumo de alimentos processados com o desenvolvimento do câncer, em especial aqueles do sistema gastrointestinal. As informações nutricionais dos alimentos voltados para o público infantil, de uma forma geral, têm como padrões referenciais as necessidades do adulto. É comum que apenas um desses alimentos propagados ofereça à criança a quantidade de gordura e de açúcar que deveria consumir em um dia. Vejam mais no capítulo Obesidade.

As telas podem causar disturbios do sono?

Sim, isso tem sido demonstrado em vários estudos. É absolutamente previsível que os programas que excitam as crianças, com muito movimento, muita luz e cenas de suspense e de violência, causem, como em nós adultos, dificuldades durante o sono. As telas, através de filmes, vídeos, bate-papos pela internet (whatsApp, messenger, skype) podem levar ao êxtase, ao prazer desmedido e incansável. Assim, é lógico supor que possam interferir no sono e no comportamento das crianças e adolescentes. Queixas que façam levar a essa relação são cada vez mais frequentes nos consultórios de Pediatria. É evidente que a programação, sobretudo para os não adolescentes, por essas e por outras razões, deve ser bem escolhida. E, após as 17 ou 18 horas, devem ser evitados os programas que potencialmente podem dificultar o sono. Vários estudos relatam que o uso de telas antes de dormir leva a redução da liberação da melatonina (20% a cada hora de exposição); sono entrecortado, o que inibe a liberação do hormônio do crescimento, consolidação da memória, além de outros malefícios, em decorrência de não se atingir todas as fases necessárias do sono.

O que acham das relações do uso das telas com a escola?

As telas representam a “escola paralela” dos tempos atuais. Inclusive, no pico da pandemia da Covid-19, chegaram a substituir por completo a escola presencial. Alguns têm dito que ela concorre “deslealmente” com a escola tradicional. Não há dúvida de que as telas interferem nas atividades educacionais como um todo. Interfere em toda a dinâmica que deve ser respeitada na escola, inclusive na aceitação da hierarquia, nos aspectos emocionais e valores. Exemplificando, cada vez que a atenção é interrompida, leva-se 23min15s para que ela volte a atingir o mesmo estado de concentração obtido antes da interrupção, o que fragmenta a ancoragem da informação “entrante” (input cognitivo). E essa interferência acontece inclusive nas funções precípuas da escola que são a transmissão do conhecimento acumulado e o desenvolvimento cognitivo. A discussão sobre o quanto ela é benéfica e o quanto ela é maléfica é interminável e inconclusiva. Os canais de conteúdo educativo têm usado esse instrumento de divulgação do saber e têm prestado um enorme serviço à educação. Por outro lado, as emissoras comerciais apresentam poucos programas educativos, muito embora alguns de excelente qualidade infelizmente são divulgados nas madrugadas da vida, nos horários em que as crianças estão dormindo. Os educadores, entidades, pessoas e políticos com sensibilidade para a temática têm tentado sensibilizar os governos e os empresários para um uso mais apropriado das telas de um modo geral, pela sua extraordinária tecnologia de geração, transmissão e recepção. Cabe, sobretudo, aos familiares usar esse recurso para desenvolver nos filhos o amor pela cultura regional e nacional, pelas artes, natureza e ciência.

O excesso de telas interfere na relação pais-filhos?

Essa interferência é um dos assuntos que mais tem preocupado os observadores da relação pais/filhos na atualidade. As preocupações são que os diálogos e as experiências, até mesmo os enfrentamentos, tão importantes nessa relação, estão ocorrendo cada vez menos face à intromissão das telas na vida familiar. Pais e filhos têm que conseguir dias e horários para conviver livremente, para se conhecer, para se enfrentar, para estabelecer limites, para saber das preferências e das ojerizas de cada um. Não há outro mecanismo para o alcance desses objetivos que não sejam esses citados. Certamente, o excesso de telas impede esse conhecimento por distanciar o contato entre pais e filhos. O excesso de tela interfere ainda na criação da empatia e da consequente liberação da ocitocina (responsável pelo estreitamento do elo emocional entre pais e filhos).

O excesso de telas dificulta o gosto pela leitura?

Já foi dito que as telas competem com a literatura escrita, com os livros. É claro que aqui estão excluídos os livros eletrônicos, e-books, acessados unicamente através das telas. E nos parece importante incentivar a leitura desde cedo. Na mesma época em que os meninos e meninas começam a ficar interessados pelas telas, desde antes de um ano, é valioso apresentar a eles os livros repletos de imagens coloridas. É essencial que nessa idade manuseiem livremente os livrinhos. E é importantíssimo que os adultos procurem dizer o que aquelas figuras representam. Logo, logo, eles estarão adorando o contato com esse material e sempre perguntarão pelas suas estorinhas preferidas. Existem até nos supermercados livrinhos bem baratos das histórias clássicas. Ressalte-se aqui o bom uso das telas através dos livros eletrônicos apropriados para crianças. Os e-books têm um custo inferior, muitos podem ser acessados de forma gratuita e, habitualmente, a aquisição é imediata. Entretanto, muitas pesquisas já alertaram que o uso das telas para a aprendizagem é deletério, se comparado ao material impresso. Também chamado de “Modelo F”, a extração da informação através das telas digitais, não permite que exista um recrutamento em todas as áreas responsáveis pela consolidação da memória, portanto, leitura em telas precisa ser realizada com muita cautela e orientação prévia.

O uso das telas pode estimular a violência nas crianças?

Obviamente que vai depender do conteúdo do que a criançada e os adolescentes estão assistindo através de suas telas. De um modo geral, aqueles que produzem os conteúdos das telas têm na violência um atrativo comercial e a aceitam como algo natural. Nesse aspecto, as cenas mais reais, como as de certos filmes ou novelas e dos noticiários, são bem mais prejudiciais que a dos desenhos animados, do Homem-Aranha e dos outros heróis modernos. É complicado saber o que fazer. Até nós, os adultos, maduros, vividos, estamos desencantados com tanta violência, tantas mortes, tantos sequestros, tantas rebeliões nos presídios e tantas notícias frustrantes acerca dos nossos políticos. Deveríamos ter uns noticiários só de notícias boas. Mas, infelizmente, notícias más dão audiência e muitas vezes são mostrados detalhes sórdidos de determinados fatos. Acreditamos que uma vigilância na hora de programas jornalísticos pode ser exercida pelos pais, mesmo porque, hoje em dia, os apresentadores anunciam o que vem no próximo bloco. Exemplos disso são acidentes de avião, casos de assassinatos, entre outros. Não que se deva esconder a realidade da vida, mas dependendo da idade da criança, isso pode trazer consequências mais na frente, como medo de viajar de avião. É importante mostrar que o sensacionalismo diante de tragédias é uma coisa inaceitável.

E o erotismo?

Vamos entrar numa seara complexa. Há um grande debate sobre isso. Existem os que se mostram preocupados com a divulgação maciça de comportamentos e de valores erotizantes que são inapropriados às crianças e aos adolescentes. Vestuários, diálogos, gestos, danças e letras de músicas são apresentados como exemplos dessa erotização precoce e inadequada. Citam esses pensadores que certos programas passam a impressão de que esses comportamentos, além de naturais, são próprios de uma vida alegre, feliz, vitoriosa e moderna. Por outro lado, há os que falam que esses conteúdos exibidos nas telas fazem parte de uma sociedade naturalmente erotizada. E dizem que a exposição das crianças e dos adolescentes a esses programas não interfere no amadurecimento da sexualidade que de toda a forma seria desenvolvida. Embora o debate exista, é possível que o pensamento dominante seja o de poupar as crianças e os adolescentes do excesso de atitudes, diálogos e outros itens que exacerbam a erotização. Provavelmente, o pensamento dominante prefira as crianças brincando de boneca, de carrinho, jogando bola, correndo ao ar livre, pulando, competindo, disputando, inventando, criando e “trelando” do que assistindo aos rebolados exibidos na TV. E que os adolescentes usem suas horas livres para a prática esportiva, para o convívio com os colegas e para outras atividades que não envolvam o erotismo. É bom lembrar que programas aparentemente direcionados às crianças, muitas vezes, trazem danos maiores.

Crianças que veem muita tela tendem a ficar solitárias?

Ocasionalmente, as crianças assistem às telas com os colegas. Elas veem sozinhas os programas. Isso estimula os comportamentos estereotipados e embota a criatividade e o desenvolvimento da crítica. Também induz a hábitos alimentares exagerados e artificiais, sendo bastante correlacionados à videomania, à obesidade e ao sedentarismo. Comer vendo as telas dissipa o prazer da alimentação e favorece o acúmulo exagerado de gorduras no organismo.

E o uso das telas interfere no comportamento humano?

Pesquisadores da Universidade de Leeds, na Inglaterra, demonstraram, de maneira muito clara, que os adolescentes e os adultos que são “vidrados” na internet apresentam significativos índices de depressão. Muitos, inclusive, apresentam depressão que exige tratamento médico. Observaram os autores do estudo que esse excesso de contato com a internet causa uma forma de exclusão social, de isolamento. Eles não chegaram à conclusão sobre quem veio primeiro, se o ovo ou a galinha. Não definiram se os indivíduos depressivos buscam mais a internet que é, para eles, uma busca pela convivência com fatos e pessoas, ou se é a grande rede que causa o problema. Evidentemente, uma associação de fatores pode existir. Mas concluíram, de forma difícil de questionar, que os pais dos adolescentes devem estar muito atentos quando seus filhos usam excessivamente o computador. Outros estudos demonstraram que, em adolescentes, o uso das telas aumenta em três vezes a chance de desenvolvimento de episódio depressivo. Uso das mídias sociais junto a meninas adolescentes, aumenta em 75% a chance de se desenvolver atitudes autolesivas. Uma pesquisa demonstrou ainda que o maior uso de tiktok na primeira infância, resulta em comportamento mais desordenado e impulsivo aos 9 anos de idade.

Quais os outros problemas causados pelo uso das telas pelas crianças?

Todos nós sabemos que a quase totalidade dos grupos que exploram o uso das telas visam prioritariamente o lucro. Especificamente no Brasil, não objetivam a educação do nosso povo, não pretendem divulgar os riquíssimos aspectos culturais da nossa nação e não visam falar sobre a nossa variada natureza. O objetivo primário dessa telinha mágica é estimular o consumo e oferecer algum entretenimento. É notório o apelo consumista dos programas para a meninada e para os seus pais. E, como tudo se passa muito rápido, não há tempo para críticas nem reflexão, havendo basicamente uma recepção passiva do que é mostrado. Isso se agrava quando se usa o chamado merchandising que é a propaganda indireta, inserida na própria, novela, filme, seriado, seja o que for. Um ídolo ou um personagem querido usa ou consome determinado produto, a criançada, que ainda não tem senso crítico, tem a tendência de querer fazer exatamente a mesma coisa, ou seja, consumir o mesmo produto. Esse produto nem sempre é adequado ou permitido para algumas crianças. Comportamentos do tipo adulto podem ser passados precocemente para a mente infantil e as crianças maníacas pelas telas, talvez, corram o risco de ter a infância artificialmente encurtada perdendo muito de molecagem, criatividade e brincadeiras, sendo rotuladas como avançadas para a idade, quando, na realidade, são “chatas” e pouco inventivas. As telas podem levar à massificação, interferindo no jeito de se comportar, no jeito de falar das pessoas, tendendo a acabar com o regionalismo, a marca registrada entre as pessoas das diversas regiões e dos diversos estados da federação, que representa um belíssimo diferencial em um país tão vasto e que fala uma única língua. Já observaram o jeito de falar dos repórteres de todas as TVs afiliadas da Rede Globo em qualquer lugar do país? Onde estão os sotaques pernambucano, mineiro, alagoano, maranhense? Ôxente! Onde já se viu, uai?! Além disso, é importante a censura de papai, mamãe ou responsáveis, na escolha da programação a ser vista nas telas, como já foi dito.

Qual a relação entre o que é mostrado nas telas e o hábito consumista?

A criança é um grande consumidor e muito se tem investido e conseguida nesta área com propagandas extremamente bem-feitas. Cabe aos pais estabelecerem limites e saber dizer não, quando algo for supérfluo ou mesmo prejudicial. Determinadas músicas infantis deseducam o ouvido para o que se pode qualificar de boa música. Vários dos “alimentos” anunciados são basicamente produtos químicos com escasso valor nutritivo. Portanto, quem sabe escolher não compra tudo que aparece nas telas. A maioria das crianças que foi embalada ou criada ouvindo música clássica, desenvolve, desde cedo, o senso do que é realmente música. Boas músicas da MPB, com letras de poetas e escritores como Vinícius de Moraes, Clarice Lispector, Chico Buarque, enfim, também devem ser escutadas dentro de casa, habituando o ouvido das crianças e ajudando na sua formação. Infelizmente, existem mães e pais que acham muita graça nos filhos de 2 aninhos cantando e dançando músicas do mais baixo calão. Sentem-se orgulhosos. Poucos ensinam frevo, muitos ensinam a dança do creu. É conhecido o caso, por exemplo, de uma criança que ouvia Fascinação na voz de Elis Regina na hora de dormir e cresceu adorando essa cantora fabulosa. Existem casos de adolescentes que estudam ouvindo Vivaldi, Mozart e outros compositores clássicos.

É muito importante o registro de que várias pesquisas já demonstraram que o uso excessivo das telas está associado a uma redução expressiva no QI individual do usuário.

Será que é assim mesmo? Não está havendo exagero?

Não pensamos que exista exagero. Pensamos inclusive que o tema ainda não foi valorado como deveria ser.

Quanto tempo as crianças devem passar frente às telas?

O mínimo possível. Quanto mais tempo elas estiverem longe das telas, brincando nas praças, nos parques, nos clubes esportivos e nas escolinhas, melhor. Quanto mais ficarem distantes das telas, interagindo com as crianças de outras famílias, conhecendo outros comportamentos e outros esquemas de valores, expressando seus pensamentos e seus sentimentos, competindo em jogos educativos, aprendendo a vencer e a perder, experimentando e treinando para a vida, melhor. As telas podem ser valorosos instrumentos de aprendizado. O uso racional e não o abuso pode proporcionar avanço no conhecimento geral e até mesmo lazer. O importante é que esteja previsto tempo para aquelas atividades feitas ao ar livre, com espaço para correr e que são imprescindíveis para o desenvolvimento físico e mental das crianças.

Quanto tempo?

Há estudos mostrando que muitas crianças passam quatro horas por dia na frente das telas. Absurdo. Mais de quatro horas por dia na frente das telas produz fadiga mental e cansaço dos órgãos dos sentidos pelo excesso de estímulos. Mas o que fazer se as mães e os pais têm que participar na manutenção da casa e assumem responsabilidades fora do lar? O que fazer se a insegurança dos grandes centros urbanos dificulta a saída em busca por espaços públicos para brincar, correr e jogar? O que fazer se esses espaços públicos são pouco numerosos e os que existem habitualmente são despreparados para proteger e para oferecer lazer para a criançada? As crianças que mais assistem às telas são as que ficam trancadas em apartamentos e que convivem basicamente com as empregadas domésticas. Como resolver isso? Incutindo na cabeça de pais e educadores a necessidade de combater o sedentarismo precoce? Talvez sim. Todos nós sabemos que o sedentarismo pode levar à obesidade, com todas as suas consequências: hipertensão arterial, doença cerebral, doenças cardiocirculatórias e diabetes. Sabemos que uma alimentação saudável — não aquela que a criança costuma comer quando está sentada na frente das telas — e uma atividade física regular são “remédios” preventivos contra essas doenças. Assim, vamos colocar isso na pauta do nosso dia a dia! Se isso for feito, deverá resultar em mudança, mesmo com os pais distantes. A Sociedade Brasileira de Pediatria tem uma recomendação específica para o tempo de tela de acordo com cada faixa etária: https://ammg.org.br/wp-content/uploads/MANUAL-PEDIATRIA.pdf

Assistir à noite, no quarto, é prejudicial?

O hábito de assistir a programas até tarde da noite pode prejudicar bastante o rendimento escolar e as brincadeiras livres tão importantes para a socialização e o aprendizado da vida. Portanto, pensamos que esse hábito deve ser evitado rotineiramente. Nessa mesma linha de ideias, não recomendamos a disponibilização de aparelhos com tela no quarto. Isso favorece o isolamento e prejudica o diálogo com o resto da família. Telas no quarto separam mais as pessoas da casa e evidentemente tolhe a discussão, o debate e o confronto de ideias sobre o que está sendo divulgado e sobre o que ocorre no cotidiano. E, seguramente, favorece o uso abusivo das telas e o fácil acesso a filmes na madrugada.

Há crianças viciadas em telas?

Há especialistas que falam que há pessoas dependentes das telas, o que pode ser considerado um vício. Todos nós conhecemos alguém que ao entrar na casa, antes de saudar quem estiver lá, antes de perguntar se está tudo bem, liga logo as telas. Pessoas que tomam banho e almoçam com a tela ligada. Essa dependência pode se iniciar na infância. É fácil perceber que o uso excessivo tende a formar um ciclo que, cada vez mais, leva a um maior uso. Os próprios meios de comunicação estimulam os espectadores a permanecerem ligados às telas e alheios ao que está ao seu redor até nos intervalos dos programas, nas mensagens comerciais.

O que é mais importante: o tempo vendo telas ou a programação?

Pensamos que o ideal é ver o mínimo de telas e ver uma programação bem definida que deve ser ajustada a cada faixa etária. Não é fácil escolher e definir os programas a serem vistos pelas crianças, pois quem define a programação é o interesse comercial, o lucro dos produtores. Os familiares podem oferecer aos filhos uma seleção educativa de excelente qualidade.

Os pais que veem muita tela podem criticar os filhos?

O hábito dos pais em relação às telas é da maior influência para os filhos. O exemplo é fundamental. Ser criativo é programar outros tipos de diversão, participar de atividades esportivas, passeios ou mesmo o “simples” brincar e conversar com os filhos são caminhos para encontrar e estimular outras opções de lazer.

Qual o papel dos pais?

É responsabilidade dos pais controlar o tempo que as crianças passam assistindo às telas e, sobretudo, verificar a programação que está sendo vista, dialogando sobre os temas abordados ou o conteúdo. O ideal é que a escolha do conteúdo seja feita da mesma maneira que se escolhe um filme no cinema ou uma peça para o teatro. Programas que transmitem emoção devem ser preferidos. Discutir e estabelecer opções, bem como horários, é de grande importância. Da mesma forma, os pais devem acompanhar os filhos quando estiverem navegando na internet, checando os sites visitados e mostrando os maravilhosos recursos oferecidos. As emissoras de TV, por necessidades comerciais, ouvem muito os pais. Telefonar ou escrever críticas e elogios pode ser um caminho para melhorar a qualidade do que é mostrado. Apesar dos estudos atuais, ainda são imprevisíveis muitas das influências das telas sobre crianças, havendo necessidade de ser crítico e cuidadosos com esse hábito. Enfim, é a questão de saber usar as telas como algo proveitoso. Sempre que possível estar junto ao filho e conversar sobre o assunto pode fazer com que as telinhas mágicas sejam amigas que enriqueçam a vida da família. Procurar perguntar a opinião deles, destacar os comportamentos positivos abordados, fazer articulações entre o que está sendo visto com a realidade que os cerca. Mostrar as consequências, desfavoráveis ou não de determinados comportamentos. Instigar a capacidade de argumentação e questionamento deles, colocando em foco, por exemplo, o papel da mídia, para perceber o que está subentendido nas informações transmitidas e procurar trazer à tona outras versões, outras interpretações para o que está sendo divulgado. Há inclusive uma recomendação internacional e mais atual para que se use o termo “engajamento parental” em contraposição ao termo “supervisão parental”, ou seja, os pais devem participar ativamente, na medida do possível, das atividades digitais dos filhos.

Finalmente apresentamos a excelente contribuição do Dr. Lucas Vitor Alves, neuropediatra.

TikTok tiques

Em 2021 a prestigiada revista científica Movement Disorders descreveu a primeira associação de tiques provocados pelo famoso aplicativo utilizado pelos jovens, o tiktok. O conjunto de tiques inconscientes e involuntários envolvem pigarros repetitivos, caretas e piscadas involuntárias, movimentos bruscos e, às vezes, essas crianças expressam palavras sem sentido algum, assobios ou podendo até se expressar com sotaques diferentes do próprio idioma. Sintomas clássicos da síndrome de Tourette, mas manifestados por simples repetição em crianças e adolescentes com frágil saúde emocional. Jovens tendem a sentir necessidade de serem vistos e é esse sentimento que os leva a buscar se diferenciar, mesmo que essa identidade seja de uma pessoa doente.

Estudos comprovaram que o tiktok tique é efeito colateral da exposição constante e exagerada a vídeos de pacientes com Tourette. Tal condição é caracterizada pelo paciente apresentar múltiplos tiques orais e motores. A viralização desse conteúdo provocou, sobretudo nesses jovens que viveram muito tempo em isolamento e estresse combinadas com o uso descontrolado da tecnologia, uma onda de repetição, uma mecânica semelhante e que acontece com a humanidade há muito tempo.

No tique do tiktok, as manifestações têm instalação aguda, sobretudo em meninas, e apesar de lembrar o Tourette, se diferencia porque tem apresentação mais complexa, com a presença de vários tiques motores e vocais ao mesmo tempo.

A partir da moda de assistir pacientes com Tourette, foi observado esse fenômeno de repetição que nos fala sobre saúde emocional. Para tratar uma diminuição da exposição é fundamental, mas é preciso que pais e responsáveis observem que o ponto é observar a saúde emocional das crianças e controlar o acesso e exposição a recursos tecnológicos que podem trazer danos mais à frente.

Da mesma forma que aparecem do nada, esse conjunto de tiques some à medida que os pacientes diminuem a exposição a esses vídeos e retomam um dia a dia mais normal. O sofrimento emocional causado pela pandemia e por sentimentos como solidão, baixa autoestima, tristeza, ansiedade refletiram um uso exagerado das redes sociais.

Precisamos, seja como pais, responsáveis ou profissionais de saúde, repensar nossos hábitos e nossa relação com a tecnologia. Estimular o cérebro digitalmente é um passo para desenvolver condutas mais imediatistas, reações automatizadas e menos reflexivas, causas que podem estar por trás desse adoecimento. Moderação e atenção são essenciais.

Comento um pouco mais o assunto no Instagram: @drlucaslavesneuro. O vídeo em que abordo o tema teve até junho de 2023 mais de 30 mil visualizações. O tema tem suscitados muitos estudos e muitas especulações pelo mundo afora e para mostrar algumas posições de abril de 2024 transcrevemos textos elaborados pelo estudioso pediatra, Prof. João Guilherme Bezerra Alves:

1- Exposição a tela nos primeiros meses de vida e alterações sensoriais

A exposição à tela no começo da vida é uma experiência relativamente nova na história do homem e seus efeitos ao longo da vida ainda são desconhecidos. Entretanto, já é bem conhecido que o tempo gasto em frente às telas diminui o tempo para brincadeiras e interações sociais das crianças. Isso, a princípio, pode provocar um desenvolvimento atípico do processamento sensorial. O processamento sensorial responde pela integração das informações recebidas pelo organismo através do sistema sensorial (audição, visão, tato, paladar e olfato), para formar respostas comportamentais apropriadas e eficientes. No transtorno do processamento sensorial, o cérebro não processa de forma adequada os estímulos recebidos, dessa forma, as respostas comportamentais e motoras são inadequadas e afetam o aprendizado, a coordenação, o comportamento geral e a linguagem do paciente. Exemplos de alterações sensoriais: fascínio visual por luzes ou objetos que rodam, resposta adversa a sons ou texturas específicas, cheiro ou toque excessivos de objetos, aparente indiferença a dor, calor ou frio. Existe substancial evidência entre o processamento sensorial atípico e desordens do desenvolvimento, particularmente em crianças com TEA (Transtorno do Espectro Autista); alterações sensoriais são consideradas um dos sintomas centrais do autismo, sendo reconhecidas, como um dos critérios diagnósticos do TEA (DSM-5). Estudo publicado agora (JAMA Pediatr 2024;178), acompanhou 1.471 crianças expostas à tela nos primeiros meses de vida até a idade pré-escolar. Os autores observaram uma associação da exposição à tela com alterações do processamento sensorial. A exposição à tela foi avaliada aos 120m, 18m e 24m; quanto mais cedo a exposição, maiores as alterações do desenvolvimento. Os autores recomendam evitar exposição à tela nos primeiros meses de vida.

2- Exposição à tela nos primeiros anos de vida e atraso no desenvolvimento

A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Academia Americana de Pediatria (AAP) recomendam que o tempo de exposição à tela seja limitado a uma hora diária para crianças de 2 a 5 anos; antes dos 2 anos, a exposição à tela deve ser zero. Entretanto, muitos estudos têm mostrado que a exposição à tela nas crianças vem aumentando nos últimos anos, em especial após a pandemia da Covid-19. Um grande estudo no Japão, divulgado recentemente, reuniu 7.097 crianças e verificou associação entre exposição à tela no primeiro ano de vida (< 1 hora; 1 a 2 horas; 2 a 4 horas e > 4 horas) e atraso no desenvolvimento entre 2 e 4 anos de idade (JAMA Pediatr. doi:10.1001/jamapediatrics.2023.3057). Foram avaliados cinco componentes do desenvolvimento neuropsicomotor: comunicação, motor (fino e grosso), capacidade de resolver problemas e habilidades pessoais/sociais. Foi observado uma associação de maior tempo de tela com atraso na comunicação e resolução de problemas entre 2 a 4 anos de idade. Mais um estudo para alertar os pais sobre os possíveis malefícios da exposição dos bebês às telas.

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